Separados Para…

Publicado em: 28/04/2019 Categorias: O fruto do Espírito é o amor

Arauto - Ano 36 - nº 03 - Jul/Dez 2018

Por Frances Ridley Havergal

“Por acaso é pouco que o Deus de Israel vos tenha separado da comunidade de Israel, para vos aproximar dele?” (Nm 16.9).

A ideia de separação, tão intrinsecamente ligada a uma vida cristã genuína e saudável (Jo 17.16), muitas vezes é considerada desnecessariamente severa, porque é vista apenas por um lado. Cristãos jovens são tentados a achar que “separação de” é muito duro porque não conseguem ver como a perspectiva de ser “separado para” (Rm 1.1) traz compensações mais do que suficientes para o sacrifício envolvido. Vamos meditar um pouco sobre esse lado mais positivo e belo da separação cristã.

Não pode haver uma verdadeira separação das coisas que Jesus nos pede para deixar (Mt 4.19,20) sem que haja uma separação correspondente para as coisas que são incomparavelmente superiores (Mc 10.29,30). Nem cabe falar exatamente de compensação, porque ser separado “para” é infinitamente melhor do que ser separado “das” coisas reprováveis. É como falar de uma amizade com a família real ser uma compensação por ter abandonado a companhia de um mendigo, ou de possuir todo o Banco da Inglaterra em troca de desistir de algumas moedinhas, ou ainda de ter uma vida de palácio no lugar de uma vida de operário! (Confira Fp 3.8 e 1 Co 3.21-23).

Em primeiro lugar, e principalmente, fomos separados para o próprio Senhor (Nm 6.2). Ele não nos quer apenas como servos, mas como amigos (Jo 15.15). E ele faz dessa amizade uma realidade esplêndida que satisfaz de verdade. Ele quer que estejamos próximos a fim de que sejamos um “povo que lhe é chegado” (Sl 148.14). Ele não aceita ter apenas “meia posse” de nós, por isso afirmou que “separou-nos dos povos” para “sermos dele” (Lv 20.26). Fomos “escolhidos para si mesmo, como possessão especial” (Sl 135.4), “separados dentre todos os povos da terra para sua herança” (1 Rs 8.53).

É “pouca coisa” ser assim um nazireu ao Senhor, todos os dias de sua separação, ser “santo ao Senhor” (Nm 6.8)? Alguma coroa humana pode se comparar à “consagração” ou da separação a Deus que “está sobre a sua cabeça” (Nm 6.7)?

Também fomos separados para amizades humanas muito mais prazerosas do que as que o mundo conhece. Deus não nos destinou para isolamento. “Muito mais do que isso pode dar-te o Senhor” (2 Cr 25.9). Aqueles que se separaram do povo da terra para a lei de Deus “aderiram firmemente a seus irmãos” (Ne 10.28,29). É exatamente isso. Podemos perder vínculos com o “povo”, mas ganhamos “irmãos” (Mc 10.30) com todo o amor e a liberdade de comunhão – e ainda diversão –que esses relacionamentos trazem. Não é isso “muito mais” do que simplesmente estar encaixado na sociedade em geral?

No entanto, não conseguimos tal amizade, talvez nem sonhamos com sua existência, enquanto tentamos manter os dois tipos de relacionamento ao mesmo tempo (Mt 6.24; Tg 4.4). Ter ambos significa não ter nenhum neste caso. Percebemos o vazio de um, mas não fomos separados para o outro e, portanto, se torna impossível desfrutar o prazer dele.

Finalmente, fomos separados para uma obra, “a obra a que os tenho chamado” (At 13.2). Há muitas espécies de obras, mas cada um recebe uma obrigação ou tarefa específica (Mc 13.34). Isso elimina toda aquela agoniante falta de propósito e direção, o senso deprimente de inutilidade, de estar simplesmente vagando no tempo e desperdiçando a vida.

Apatia e tédio não fazem parte de uma vida separada. Não há mais lugar para tal desventura miserável. A vida é totalmente preenchida por esta afirmação: “de quem eu sou e a quem sirvo” (At 27.23). Alguns estão separados especialmente “para levar a arca da Aliança do Senhor” (Dt 10.8). Outros só têm o encargo de assistir na casa do Senhor, mesmo que seja “nas horas da noite” (Sl 134.1), a fim de que “canções de louvor durante a noite” (Jó 35.10) possam ser elevadas para sua glória. Alguns são encarregados de “servir” ou ministrar ao Senhor em milhares de maneiras (Dt 10.8), aos seus pobres, aos “seus prisioneiros” (Sl 69.33), sejam estes presos espirituais ou em cadeias físicas; sempre servindo, de todas as formas, ao Senhor (Mt 25.40), através dos seus representantes. E sempre “dando a bênção em seu nome” (1 Cr 23.13), pois louvor e palavras de bênção fazem parte, invariavelmente, do serviço de separação.

“Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação” (1 Co 1.26). Não é uma alta vocação? “Por acaso é pouco” na sua opinião? Parece duro demais? Não é, pelo contrário, muito melhor do que qualquer coisa que o homem caído poderia almejar (1 Co 2.9,10), uma vida muito mais brilhante do que já passou pela imaginação do homem natural? Isto é para você: Ouça: “separai-vos, diz o Senhor”; e o que vem depois? “E eu vos receberei” (2 Co 6.17)!

Esse é o seu mandamento para você e essa é a sua promessa. Você vai obedecer? Se obedecer, você conhecerá a cada dia um pouco mais da bênção incalculável de ser recebido pelo Pai, até chegar o dia em que Jesus voltar e o receber para si mesmo (Jo 14.3), a fim de que seja separado por toda a eternidade – para ele!

– Extraído de My King And His Service (Meu Rei e o Seu Serviço) por Frances Ridley Havergal.

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