O Fogo Purificador do Espírito

Publicado em: 06/10/2013 Categorias: Arauto / O Fogo Purificador do Espírito

Arauto - Ano 31 - nº 02 - Mar/Jul 2013

Por J. Oswald Sanders

A história do fogo sobrenatural de Deus em 1 Reis 18 é uma das mais dramáticas do Velho Testamento. Tudo nela é cheio de vida e de cores. As personagens são espetaculares, as questões são tremendas, o resultado é glorioso.

Elias, o profeta solitário de Jeová, foi uma das figuras mais notáveis da história de Israel. Ele surge de repente como o profeta da crise, o campeão dos direitos divinos. Ele desaparece também de repente, na companhia de uma carruagem de fogo e um redemoinho. O Novo Testamento fala mais dele do que de qualquer outro profeta. Quando surgiu do anonimato, seu primeiro ato público foi trancar os céus com as suas orações de tal modo que não houvesse chuva durante três anos e meio – como juízo, nesse caso, sobre uma nação idólatra.

O caráter se revela nas crises, e o segredo da vida de Elias é sintetizado nestas palavras: “Ó Senhor Deus de Abraão, de Isaque e de Israel, manifeste-se hoje que tu és Deus em Israel, e que eu sou teu servo, e que conforme a tua palavra fiz todas estas coisas” (1 Rs 18.36). O homem de verdade é conhecido no lugar de oração.

Três fatos surgem aqui:

a)       Ele tinha uma paixão consumidora pela glória de Deus. “… manifeste-se hoje que tu és Deus.” Esse era seu primeiro pensamento. Seu coração estava cheio de ciúme santo pela glória de Deus.

b)       Ele estava feliz por ser um escravo de Jeová. “… manifeste-se hoje… que eu sou teu servo.” Ele reconheceu que Deus era o proprietário absoluto de sua vida.

c)        Ele obedecia implicitamente às ordens divinas. “… conforme a tua palavra fiz todas estas coisas.

O desafio dramático de Elias surgiu de sua profunda preocupação com a apostasia da nação. O ocupante do trono era o mais fraco e perverso rei que Israel tinha conhecido. Mesmo antes de seu casamento está registrado que “… fez Acabe, filho de Onri, o que era mau aos olhos do Senhor, mais do que todos os que foram antes dele” (1 Rs 16.30).

A isso ele adicionou outra atitude básica. “E sucedeu que (como se fora pouco andar nos pecados de Jeroboão…) ainda tomou por mulher a Jezabel… e foi e serviu a Baal, e o adorou… Acabe fez muito mais para irritar ao Senhor Deus de Israel do que todos os reis de Israel que foram antes dele” (1 Rs 16.31-33).

Em vez de Jeová, Baal é que ocupava o lugar de honra no culto em Israel. Foi nessa conjuntura, quando a verdadeira religião e moralidade haviam quase desaparecido, que Elias subiu dramaticamente ao palco da história de Israel.

O desafio do fogo

“O deus que responder por fogo…” (1 Rs 18.24). Não poderia haver acordo algum entre o culto a Jeová e o culto a Baal. Os dois sistemas contrários de religião não poderiam conviver, um ao lado do outro, pacificamente. É o homem de Deus quem precipita a crise. Deus sempre tem o seu representante capacitado de acordo com a crise. Ele o prepara em segredo e depois o apresenta na hora certa. Deus nunca fica sem uma testemunha. Sempre há um Lutero ou um Calvino, um Wesley ou um Whitefield, um Moody, ou um Torrey ou um Billy Graham.

Em nenhuma outra ocasião, a grandeza do caráter de Elias é mais extraordinariamente aparente do que no drama do Monte Carmelo. Sim, ele era “sujeito às mesmas paixões que nós” (Tg 5.17), mas também era um homem de coragem e fé singulares. Ele lançou o desafio aos falsos deuses para um teste de forças com o seu Deus. O desafio era eminentemente justo. Já que Baal era o deus do fogo, que o teste seja feito com o seu próprio elemento. “O deus que responder por fogo esse é que é Deus” foi a proposta razoável de Elias.

Nenhuma objeção poderia ser levantada. A questão era cristalina: “Se o Senhor é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o” (v.21). A hora da decisão havia chegado, e eles teriam que decidir por um ou por outro.

O significado do fogo

“O Senhor descera sobre ele em fogo.” O significado do teste do fogo não foi difícil de captar para o povo de Israel. Todos podiam se lembrar de ocasiões registradas na história em que Deus havia respondido com fogo, e sabiam que esse fogo era a manifestação de sua presença.

Moisés conheceu o fogo pela primeira vez na sarça ardente. “Eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia. E bradou Deus a ele do meio da sarça” (Êx 3.2,4). A presença de Deus no Monte Sinai também foi evidenciada pelo fogo. “E todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor descera sobre ele em fogo” (Êx 19.18). A presença de Deus no meio do seu povo era simbolizada pela nuvem de fogo que pairava sobre o tabernáculo durante a noite. “… e a glória do Senhor enchia o tabernáculo… e o fogo estava de noite sobre ele, perante os olhos de toda a casa de Israel” (Êx 40.35, 38).

Houve uma manifestação semelhante da presença de Deus na dedicação do templo. “E acabando Salomão de orar, desceu fogo do céu… e a glória do Senhor encheu a casa” (2 Cr 7.1). A presença do fogo era prova da presença de Deus.

Tal era o significado do fogo nos tempos do Velho Testamento. Mas qual é o seu significado para nós hoje? No Novo Testamento, é simbólico da presença e da força do Espírito Santo. Ao anunciar o ministério do Messias, João Batista disse: “… ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo” (Mt 3.11). A sua profecia foi cumprida. No dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo veio com poder sobre os discípulos reunidos, o símbolo escolhido estava bem destacado. “E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles” (At 2.3). Podemos dizer, portanto, que o simbolismo do fogo representa hoje a presença e o poder do Espírito Santo.

Nos dias de Elias, o fogo sagrado havia desaparecido dos altares de Jeová, e o fogo falso estava queimando nos altares de Baal. A glória tinha ido embora, e ninguém podia reacender a chama sagrada. Quando Nadabe e Abiu “… trouxeram fogo estranho perante a face do Senhor” (Lv 10.1), eles morreram, porque não pode haver substituto para o verdadeiro fogo de Deus.

Nos dias atuais, o que mais falta na vida do cristão individual e na vida da igreja é o fogo de Deus, a presença manifesta e o mover poderoso do Espírito Santo. Não há quase nada na nossa atividade que não possa ser explicado ao nível das coisas naturais. Nossa vida não demonstra ação alguma do fogo sobrenatural. Não acontece nenhuma conflagração santa nas igrejas que possa atrair as pessoas irresistivelmente, assim como uma mariposa é atraída pela chama.

A ausência do fogo de Deus é responsável pelo impacto insignificante que a igreja está causando num mundo perdido. A igreja nunca antes teve organização tão eficiente, ministérios tão bem preparados, tantos recursos humanos e tecnológicos, estratégias tão habilidosas. No entanto, nunca antes contribuiu tão pouco para a solução dos problemas de um mundo atormentado. Nossa oração deveria ser: “Senhor, envia o fogo!”. Que outra coisa pode satisfazer a necessidade do momento atual?

A descida do fogo

“Então caiu fogo do Senhor” (1 Rs 18.38). A descida do fogo foi o ponto crucial e também o clímax do drama do Monte Carmelo. Tudo o mais tinha sido uma preparação para esse momento. Lições espirituais importantes podem ser aprendidas de tudo aquilo que a precedeu. Se pudermos descobrir os fatores fundamentais, também descobriremos a fonte do avivamento espiritual. “Então caiu fogo…” Quando?

O fogo caiu numa época de apostasia nacional. O culto a Jeová estava na sua maré mais baixa, e o culto a Baal tinha conquistado o espaço. Escuridão espiritual envolvia toda a terra. Deus não limita a dádiva de suas bênçãos a ocasiões quando as condições são mais propícias. É quando a escuridão é mais profunda que a luz é mais necessária, e ninguém estará disposto a subestimar a escuridão da hora atual que estamos vivendo. Não se necessita uma imaginação especial para ver o paralelo real com as condições dos nossos dias. As forças satânicas estão à solta. A igreja exerce uma influência muito pequena sobre a sociedade, embora ainda existam os “sete mil” que não dobraram seus joelhos a Baal.

O fogo caiu quando Elias obedeceu a Deus sem hesitação. Anteriormente, Deus lhe dissera: “esconde-te”. “Foi, pois, e fez conforme a palavra do Senhor” (1 Rs 17.3,5). Depois, veio a ordem inequívoca: “Vai, apresenta-te a Acabe, porque darei chuva sobre a terra” (18.1). Não é difícil perceber que Elias não tinha vontade alguma de encontrar Acabe, seu inimigo implacável. Durante três anos, o vingativo Acabe esteve procurando tirar-lhe a vida. Ele não podia esquecer que foi a oração de Elias que fechou os céus e assolou a terra com a seca. Porém, antes que a seca pudesse ser aliviada, Elias precisou obedecer à palavra do Senhor.

A sua obediência foi tão imediata nessa ocasião quanto o foi quando recebeu a ordem de esconder-se. “E foi Elias apresentar-se a Acabe” (18.2). A descida do fogo e a chegada da chuva foram resultados diretos da obediência de Elias em enfrentar Acabe, a personificação da maldade moral e espiritual. Será inútil buscarmos a manifestação do fogo de Deus se houver alguma área secreta na nossa vida em que estivermos nos recusando a obedecer a Deus. Se o Espírito Santo estiver nos tocando a respeito de algum ato de obediência, restituição, pedido de perdão ou oportunidade de testemunho, nossa recusa em obedecer será por nossa conta e risco. Ele não pode agir para abençoar enquanto não houver obediência.

O fogo caiu depois que o altar destruído foi reparado. “Elias restaurou o altar do Senhor, que estava em ruínas” (v.30). O altar destruído revela muita coisa sobre a situação espiritual daquela época. Um altar é um símbolo de adoração. O Monte Carmelo, ao que parece, havia sido um local de culto para o povo de Deus, mas o altar caíra em desuso e ruínas, o culto a Jeová em abandono. Antes que o fogo possa cair, o altar precisa ser reconstruído. Elias pegou as doze pedras – ele não reconhecia a divisão entre os Reinos do Norte e do Sul – e reconstruiu o altar. Seu objetivo era uma nação reunificada com a presença manifesta de Deus entre eles.

O fogo de Deus cai quando há unidade espiritual entre o povo de Deus. Se há algum altar na nossa vida que tenha sido destruído, o fogo não cairá enquanto não for reconstruído e reerguido. O que é que o altar mais simboliza? Cristo não se ofereceu no altar da cruz? É somente quando a cruz é restaurada ao seu lugar central que o fogo do Senhor cai.

O fogo caiu quando a oferta inteira foi colocada no altar. “Então… dividiu o bezerro em pedaços, e o pôs sobre a lenha” (v.33). O fogo de Deus jamais cairá num altar vazio. É muito fácil, num momento de entusiasmo e elevada resolução, colocar a vida toda no altar, mas a consagração é para toda a vida, como F. R. Havergal expressa de forma tão linda em seu famoso hino de consagração. A letra começa dizendo “Toma a minha vida”, mas continua: “Toma minhas mãos… meus pés… minha voz… meu amor”.

Não se trata apenas de uma grande dedicação inicial e, sim, de atos contínuos de entrega. Deus não ficará satisfeito com uma entrega parcial. Ananias e Safira apresentaram uma parte para Deus, fingindo que era tudo, e isso lhes custou caro. Abraão foi chamado por Deus para colocar Isaque no altar, o filho de sua sublime fé, e levantar a faca sacrificial. Então, veio a resposta divina: “E em tua descendência serão benditas todas as nações da terra; porquanto obedeceste à minha voz” (Gn 22.18). Não podemos enganar Deus. Ele sabe quando a oferta inteira está no altar, e sua resposta não tardará.

O fogo caiu depois de excluída a falsificação. “Enchei de água quatro cântaros e derramai-a sobre o holocausto e sobre a lenha… de maneira que a água corria ao redor do altar” (1 Rs 18.34, 35). Elias não admitiu a presença de fogo falso. Por três vezes no seu desafio aos profetas de Baal ele determinou: “Não acendam fogo no altar”. Não poderia haver qualquer tapeação, nada de colocar uma fagulha escondida. E foi igualmente exigente consigo mesmo. Era preciso toda a precaução para evitar qualquer ilusão. Ele queria deixar bem claro que o fogo que caísse no altar só poderia ter-se originado no céu.

“Chegai-vos a mim”, convidou ele ao povo. Ele não tinha nada a temer de sua observação minuciosa. Ele tinha tanta certeza no seu Deus que acumulou obstáculos no processo. A água apagaria imediatamente qualquer centelha escondida. A sua fé era do tipo que ri diante das impossibilidades. Não são muitos os que têm esse tipo de fé dinâmica e ousada. Nossa tendência seria dar uma mãozinha para Deus derramando gasolina no sacrifício para facilitar a ignição! Elias queria que ficasse bem evidente que ele não tinha outra alternativa além de Deus. A lição para nós, também, é que devemos vigiar contra qualquer falsificação ou substituto do sobrenatural e do poder do Espírito Santo.

O fogo caiu depois que Elias fez a oração da fé. Elias disse: “Ó Senhor… manifeste-se hoje que tu és Deus em Israel, e que eu sou teu servo, e que conforme a tua palavra fiz todas estas coisas. Responde-me, Senhor, responde-me, para que este povo conheça que tu és o Senhor Deus” (vv.36-37).

Que contraste com os gritos frenéticos dos sacerdotes de Baal enquanto pulavam sobre o altar, clamando pelo seu deus impassível e cortando os corpos com lanças até jorrar o sangue. Mesmo assim, fogo nenhum veio do céu em resposta aos gritos histéricos. O silêncio do céu provou a futilidade de suas reivindicações em favor de Baal. Elias estava tão certo da resposta de Jeová que zombou deles e do seu deus com palavras sarcásticas e desencorajadoras. “Clamai em altas vozes, porque ele é um deus; pode ser que esteja falando, ou que tenha alguma coisa que fazer, ou que intente alguma viagem; talvez esteja dormindo, e despertará” (v.27).

Com essa declaração, Elias comprometeu a si mesmo e a seu Deus de tal maneira que Deus não podia deixar seu servo na mão. Tal demonstração de confiança agradou a Deus. “O teste imortal de Elias, feito na presença de um rei apóstata, diante de uma nação desviada e um grupo de sacerdotes idólatras no Monte Carmelo, é uma sublime exibição de fé e oração”, escreveu E. M. Bounds.

Tão logo essa simples oração pela vindicação de Deus e de seu servo foi oferecida, surgiu um lampejo vindo do céu. “Então caiu fogo do Senhor.” O fogo não caiu em etapas. A oração da fé foi seguida imediatamente por fogo do céu. Sacrifício, lenha, pedras, água – nenhum deles ofereceu qualquer resistência à chama celestial. O desejo do coração de Elias foi realizado. A supremacia de Jeová foi estabelecida. A presença e o poder do verdadeiro Deus foram mais uma vez manifestados no meio do seu povo. A honra de ambos – Deus e o seu servo – foi vindicada. As pretensões dos adoradores de Baal foram demolidas. Quando nossas orações são motivadas pelo desejo “para que o Pai seja glorificado no Filho” (Jo 14.13), nós também veremos o fogo cair.

A obtenção do fogo

A descida do fogo fez com que todo o Israel se prostrasse. “O que vendo todo o povo, caíram sobre os seus rostos, e disseram: Só o Senhor é Deus! Só o Senhor é Deus!” (1 Rs 18.39). O testemunho do homem de Deus foi confirmado pelo fogo que vem do Deus que é, ele mesmo, um fogo consumidor. Eles não podiam negar a evidência diante dos próprios olhos. Um mundo sem Deus começa a prestar atenção ao nosso testemunho quando percebem o fogo de Deus no nosso meio, a manifestação da presença e do poder do Espírito Santo operando entre nós.

A descida do fogo realizou ações reconhecidamente impossíveis. Quem jamais ouviu falar de pedras sendo consumidas? Contudo, isso aconteceu. No Pentecostes, o fogo de Deus realizou o impossível na vida dos apóstolos. A covardia foi queimada, dando lugar à coragem, a dúvida foi transformada em fé, o egoísmo em altruísmo e uma paixão pela glória de Cristo. Qualidades de caráter notavelmente ausentes anteriormente agora floresceram.

O fogo de Deus caindo sobre um crente conseguirá em dez minutos aquilo que ele não alcançaria por si mesmo em dez anos. A vida que recebe o fogo de Deus se torna especialmente sensível aos estímulos do Espírito Santo e sempre caminhará em direção à vontade de Deus.

Ó tu que vieste do Alto
Repartir o puro fogo celestial,
Acende uma chama de amor sagrado
No altar indigno do meu coração.

Faze-o queimar ali para a tua glória
Com brilho inextinguível;
E retornar trêmula para sua origem
Em humilde oração e fervoroso louvor.

Charles Wesley

Extraído e adaptado de Spiritual Maturity (Maturidade Espiritual) por J.Oswald Sanders. Copyright © 1962, 1994 por The Moody Bible Institute of Chicago. Publicado com permissão de Moody Publishers.

Uma resposta para “O Fogo Purificador do Espírito”

  1. Gilclécio disse:

    Perfeito, eu preciso disso em minha vida

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