Desce, Senhor! Ofendemos a Ti!

20/02/2012 Publicado por: Impacto

Arauto - Ano 20 - nº 02 - Mar/Abr 2002

Por: Roger Ellsworth

Este é o quinto artigo numa série de mensagens sobre Isaías 63 e 64.

“Sais ao encontro daquele que com alegria pratica justiça, daqueles que se lembram de ti nos teus caminhos; eis que te iraste, porque pecamos; por muito tempo temos pecado e havemos de ser salvos?

Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades, como um vento, nos arrebatam.

Já ninguém há que invoque o teu nome, que se desperte e te detenha; porque escondes de nós o rosto e nos consomes por causa das nossas iniqüidades” (Isaías 64.5-7).

Agora estamos chegando ao ponto essencial. Isaías vem se armando com argumentos para convencer Deus a descer e visitar seu povo. Mas por qual razão Deus se retirou do seu povo e escondeu seu rosto? Nesta parte da oração, Isaías enfrenta esta questão. Nada se ganharia por rodear o assunto, e assim ele diz sem floreios: “Pecamos” (v. 5). Um pouco depois ele acrescentou: “Escondes de nós o rosto… por causa das nossas iniqüidades” (v. 7).

Temos falado sobre sentir falta de Deus, e precisar de Deus. Temos examinado a necessidade de esperar em Deus, e até de sair ao seu encontro. Agora teremos de reconhecer que todas estas coisas estão condicionadas ao reconhecimento de pecado em nossas vidas. Esta é uma questão crucial. Podemos parar de falar sobre avivamento, se não tivermos intenção de enfrentar nossos pecados e nos afastar deles.

Nos tempos antigos, quando um rei resolvia visitar seu povo, mandava um mensageiro na frente para anunciar sua vinda. O povo se preparava para sua chegada construindo um “caminho alto”. Enchiam os vales, nivelavam os lugares mais altos, removiam as pedras e raízes dos lugares ásperos. Quando o caminho estava pronto, o rei vinha.

O Senhor deseja vir nos visitar. Ele deseja encher nossas vidas e nossas igrejas com sua gloriosa presença. Mas devemos preparar o caminho. Cada membro do seu povo tem algo a fazer. Cada um de nós tem um vale de envolvimento pecaminoso que precisa ser levantado. Todos tem lugares altos de orgulho que precisam ser abaixados. Cada um tem lugares tortuosos onde sua vida se desviou da sua vontade. Todos têm um acúmulo de pedras e raízes de lascívia, ciúme, ressentimento e ganância que deve ser removido. Há trabalho para ser feito!

“Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus. A glória do Senhor se manifestará, e toda a carne a verá, pois a boca do Senhor o disse” (Is 40.3,5).

Mas tratar com pecado não é um assunto fácil. Ninguém acha fácil dizer estas três palavrinhas: “Eu estava errado”. Casamentos freqüentemente engasgam e morrem porque aquelas palavras ficaram atravessadas na garganta. Amizades muitas vezes criam focos de suspeita e tensão por causa da indisposição de falar estas palavras. Igrejas ficam polarizadas e paralisadas por falta destas palavras. Mas por difíceis que sejam, precisam ser ditas, e ditas de coração.

Vamos aprender com Isaías. Ele não faz rodeios. Faz uma verdadeira confissão, e ao fazê-la, mostra-nos os ingredientes do genuíno arrependimento. Em primeiro lugar, veja como sua confissão:

1. Expõe o Pecado

Em linguagem simples, sem enfeites ou floreados, Isaías expõe para que todos vejam a força do pecado. O pecado havia triunfado sobre eles, e este triunfo era evidente primeiro na imundícia geral do seu comportamento (v. 6).

Isaías examina este comportamento imundo de duas maneiras. Primeiro, considera a sua fonte – a imundícia da nossa natureza. “Todos nós somos como o imundo”, ele diz. Todos nossos atos imundos procedem deste fato de sermos pecadores por natureza. A corrente é contaminada porque a nascente é contaminada.

Nada faz o homem moderno levantar sua defesa mais rápido do que falar nestes termos. É muito melhor falar sobre a bondade essencial do homem. Se ele falha, não é por causa da sua natureza pecaminosa; é simplesmente alguma deficiência na sua educação ou no seu ambiente. E a maior necessidade do homem não é ser salvo do pecado, mas de ter escolas melhores e uma sociedade mais evoluída.

Na verdade, ensinar sobre a natureza pecaminosa do homem é considerado em muitos lugares como definitivamente prejudicial ao homem. Faz com que tenha uma baixa auto-estima. Alguns já foram até o ponto de sugerir que o homem só precisa ser salvo desta baixa auto-estima, e não do pecado.

Enquanto isso, o homem continua pecando despreocupado, e continua colhendo a destruição e ruína que o pecado gera. Ao mesmo tempo que fala com entusiasmo sobre sua dignidade e seu potencial, a sociedade que construiu está desmoronando por toda parte.

Os cristãos receberam perdão dos pecados, mas a natureza pecaminosa que receberam ao nascer não foi automaticamente anulada. Ainda exerce uma poderosa influência, e temos de clamar constantemente com o apóstolo Paulo: “Miserável homem que sou!” (Rm 7.24).

Depois de fazer esta observação, Isaías passa a falar da extensão da nossa imundícia. Contamina até mesmo nosso melhor comportamento. Isaías diz: “Todas as nossas justiças, como trapo da imundícia”. Esta afirmação fez Charles Spurgeon comentar: “Irmãos, se nossas justiças são tão ruins assim, imaginem nossas injustiças!”

Nossa pecaminosidade é tão profundamente arraigada que abrange e contamina tudo que fazemos. Os teólogos falavam muito sobre a “depravação total do homem”. Com isto não estavam dizendo que o homem já alcançara o máximo de degeneração possível, mas que a natureza pecaminosa se manifesta em tudo que ele faz. Citando Spurgeon outra vez: “… há pecado até na nossa santidade, há incredulidade na nossa fé; há ódio no nosso próprio amor; há lama da serpente na mais bela flor do nosso jardim.”

Por espantosa que seja esta descrição, é apenas a metade da história. A outra metade é exposta por Isaías nestas palavras chocantes: “Já ninguém há que invoque o teu nome, que se desperte e te detenha”.

Assim, além da imundícia do seu comportamento, Isaías também confessa a frigidez dos seus corações. Não havia nenhuma necessidade maior do que deter Deus em oração, buscar seu perdão, e suplicar por suas promessas. Mas isto exige esforço. É preciso se despertar para fazer este tipo de coisa. É preciso fazer um auto-exame, ficar enojado pelo pecado que se permitiu alojar na sua vida, e determinar que não vai mais continuar desta forma. Mas era justamente isto que a geração de Isaías não estava preparada para fazer. Estavam em tal estado de sono que não podiam despertar a si mesmos.

O comentarista Albert Barnes o expressa desta forma: “Ninguém sobe ao encontro de Deus sem ser despertado; pois do contrário cai no estupor do pecado da mesma maneira que um homem sonolento volta ao sono profundo”.

Este povo, então, estava preso nas pinças mortíferas de Satanás. Por um lado, estavam envolvidos em toda espécie de imundícia. E por outro, estavam frios para com o Senhor. Pecados de ação por um lado, e pecados de omissão por outro. Que combinação fatal! E é uma combinação que se repete inúmeras vezes no meio do povo de Deus hoje. Verdadeiro arrependimento não deixará de confrontar os dois lados desta combinação. Exporá os dois com igual franqueza, e não apresentará desculpa alguma.

Mas há um outro aspecto importante do verdadeiro arrependimento demonstrado pela confissão de Isaías. Veja como ele também:

2. Exonera a Deus

Por causa do predomínio do pecado na sua nação, Isaías também podia ver e confessar a presença do juízo divino. “Te iraste”, diz Isaías (v. 5). Sim, ele realmente diz que Deus ficou bravo. Alguns ficam atônitos e pasmos ao ouvir isto. Deus fica irado? Sim! Vez após vez a Bíblia nos diz que Deus se opõe fundamentalmente ao pecado, e no entanto nos recusamos a acreditar nisto. Ficamos tão alucinados com o amor de Deus que nos esquecemos sobre sua santidade que exige que o pecado seja julgado. Somos tão tolos quanto a avestruz que esconde a cabeça na areia, pensando que está a salvo dos caçadores.

Talvez você diga: “Prefiro pensar de Deus como um Deus de amor”. É claro que prefere. Mas esta é a “síndrome da avestruz”, com toda certeza. Preferir ter um Deus de amor de maneira alguma anula o fato que ele também é um Deus que jurou exercer juízo sobre o pecado.

Depois de afirmar a ira de Deus, Isaías prossegue usando duas metáforas para descrever o juízo de Deus sobre seu povo. Uma é o vento (v. 6), e a outra é o fogo (v. 7).

Quando o povo de Deus se envolve com pecado, e se esfria para com o Senhor, começa a “murchar como a folha”. Sua força espiritual começa a se secar, e depois o vento de juízo o leva embora. O vento do juízo de Deus levou o povo de Isaías embora para Babilônia! Tal foi o fruto da sua vida impiedosa. Tornaram-se uma evidência manifesta da verdade das palavras do salmista. O homem que se deleita na lei do Senhor é uma planta “cuja folha não cai” (Sl 1.3). Mas os ímpios são “semelhantes à moinha que o vento espalha” (v. 4).

Depois Isaías usa a figura do fogo. Diz que Deus “nos consome por causa da nossa iniquidade”. O fogo é um símbolo comum na Bíblia para juízo. Reflete a dor e a angústia que o juízo causa. Mas o fogo do juízo também traz um elemento de esperança. É o fogo que purifica o ouro, derretendo as impurezas. Se somos povo de Deus, o fogo consumidor será em última análise o meio da nossa renovação.

O que quero mostrar aqui é que Isaías declara a ira de Deus, e usa estas metáforas para descrevê-la, mas de forma alguma discute com Deus. Simplesmente reconhece que Deus está irado, mas não acusa Deus de ser injusto. Ele não discute o direito que Deus tem de ficar irado por causa dos seus pecados. Aqui chegamos à essência do verdadeiro arrependimento. Arrependimento genuíno sempre honra a Deus; reconhece-o como Deus e reconhece seu direito como Deus. Em outras palavras, arrependimento é onde paramos de encher nossa boca de argumentos contra Deus, e tomamos nossa posição humilde de criatura diante do Criador.

Você nunca conhecerá arrependimento, nem a paz ou o gozo que este traz, enquanto estiver interessado em se defender diante de Deus. “Isto não é justo!” “Não entendo como Deus pode fazer isto.” Estes são os sentimentos comuns da pessoa que não conhece arrependimento. A pessoa que os expressa apenas reflete sua ignorância desta afirmação: “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor. Porque, assim como o céu é mais alto do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos” (Is 55.8,9).

Aqui, então, na oração de Isaías há território que precisamos conquistar se realmente quisermos que o Senhor “desça”. Devemos arrepender-nos dos nossos pecados. Não devemos passar por cima deles, mas reconhecê-los com sinceridade. E devemos reconhecer que o juízo de Deus é justo e certo. Que nossa oração hoje seja: “Desça, Senhor! Ofendemos a ti”.

Esta série continua no próximo número.

Uma resposta para “Desce, Senhor! Ofendemos a Ti!”

  1. Wilson Belmino Marques da Silva disse:

    Ah! Como precisamos de ensinos tão claros e objetivos como este e a Igreja reconhecer como Isaías, por um lado que está pecando por ação e por outro por omissão… Aí então, quando a Igreja ” se humilhar, e orar, e buscar a face de DEUS e se arrepender dos seus maus caminhos”, então e só então o SENHOR JESUS descerá a encontrar a sua Noiva nos aires. Só aí ela vai estar noiva e será arrebatada. Aleluia!!! Isso é uma questão espiritual e não de tempo!!!
    Graça e Paz a todos!!!

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