Uma Vida de Fragrância

Publicado em: 30/06/2012 Categorias: Arauto / Tragédia de Uma Igreja Ineficaz

Arauto - Ano 11 - nº 03 - Out/Dez 1993

Por: James A. Stewart

“E todos nós com o rosto desvendado, contemplando como por espelho, a glória do Senhor, somos tranformados de glória em glória na mesma imagem, como peio Senhor, o Espírito.
Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor; e a nós mesmos como vossos servosporamorde Jesus. Porque Deus que disse: De trevas resplandecerá luz ele mesmo resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo. Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós.” (2 Co 3:18; 4:5-7).

Na mesma época em que eu me converti durante um poderoso mover de Deus em minha cidade, Glasgow, Escócia, uma moça que tinha mais ou menos a mesma idade que eu, também foi salva. O nome dela era Helen Ewan.

Ela era uma mocinha magricela, mas logo no princípio de sua nova vida com Deus, ela O coroou como Senhor absoluto e foi então cheia do Espírito Santo. Ela havia aceitado o convite do Senhor para “beber abundantemente” (Ct 5:1).

“No último dia, o grande dia da festa, levantou-se Jesus e exclamou: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. (Isto ele disse com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem).” (Jo 7:37-39)

As correntes de água viva simplesmente começaram a fluir da vida de Helen.

Helen Ewan nasceu por volta de 1910 em uma família operária simples. Ela era a filha única Seus pais amavam muito a Jesus. O bendito Filho de Deus era o centro de tudo naquele lar.

Eles viviam por um único motivo que era agradar a Deus em cada detalhe de suas vidas. Três Bíblias muito anotadas estavam sempre num lugar de destaque em sua sala quando eu os visitava.

Depois de sua conversão com a idade de quatorze anos, toda a personalidade de Helen era radiante com a glória do Senhor. Deus em Sua graça soberana, havia resplandecido em sua alma escurecida com o propósito de que através deste simples “vaso de barro”, a majestade inigualável do poder do evangelho pudesse ser magnificada. Esta manifestação de Sua glória surpreendeu a todos nós!

A vida dela era bem comum, mas foi iluminada com a glória de Deus. Eu sempre me perguntava como ela pôde suportar tanta glória em seu frágil vaso de barro.

Estando cheia do Espírito Santo, ela estava cheia de Cristo. Enquanto ela estudava a Palavra de Deus sob a direção iluminada do Espírito Santo, Ele tomou os tesouros de nosso Senhor Jesus Cristo e revelou-os para ela (Jo 16:13-15). Isto fez com que o seu coração se enchesse de alegria.

Muitas vezes ela parava outros cristãos na rua e, com seu rosto radiante, contava de um precioso trecho das Escrituras onde ela havia encontrado um novo quadro de seu bendito Redentor. Estes amigos sempre saíam em lágrimas. Eles diziam: “Nós vimos Jesus. Contempiamos o Seu rosto glorioso.”

O temor de Deus permanecia sobre suas almas durante o restante de todo o dia. Como Spurgeon, ela alcançava o seu auge quando nos contava sobre seu Senhor. Nestes momentos, ela se destacava como uma figura solitária, tão distante de todos os demais. Ela conhecia o Senhor profunda e intimamente.

Muitos testificaram que apenas o seu sorriso ou o seu cumprimento: “Bom dia; Deus te abençoe”, já era um tônico revigorante para eles por todo o resto do dia.

Sua Vida de Oração

Em sua vida de oração, Helen era um exemplo e tanto para todos nós. Ela se levantava toda manhã por volta das 5 horas para conversar intimamente com o seu Senhor. Ela não ligava o aquecedor em seu pequeno quarto, nem procurava estar confortável de maneira alguma, sentindo que estaria mais alerta no frio. E além disso, aqueles por quem ela orava que estavam em terras estrangeiras, não estariam sentados confortavelmente.

Ela começava sua comunhão com louvor e adoração. Então ela lia a palavra de Deus para aquecer seu coração. Ela se lembrava das palavras de seu amigo Scott R. Murray McCheyne: “É com um olhar que somos salvos, mas é a contemplação que nos santifica.”

Helen contemplava a face do Senhor com êxtase. Eu não poderia mencionar as expressões de adoração que ela escreveu em seu diário, depois de tanto tempo com o Senhor. Elas são sagradas demais para serem publicadas.

Depois da comunhão e adoração, seguiu-se seu ministério de intercessão por seus amigos e família, por sua igreja, pelas centenas de missionários em campos estrangeiros. Então veio o seu ministério de oração pelos não convertidos. Ela tinha uma lista de pessoas não salvas a quem ela havia testemunhado e por quem ela orava diariamente até que eles nascessem de novo.

Seu anseio pela salvação dos perdidos era espantoso de se contemplar. A razão pela qual Deus lhe deu tantas almas entre pobres e ricos, jovens e velhos, analfabetos e cultos, é que ela agonizava por eles em ardente intercessão, dentro do véu.

Depois de sua “promoção” (para o céu), sua mãe permitiu-me ler seus diários e então percebi que as petições neles escritas eram fortes e definidas. Ela anotava a data quando ela começava a orar por uma pessoa, e depois a data quando suas orações foram atendidas.

Estes diários revelam uma vida de oração que movia Deus e homens. Não há dúvida de que quando Deus a chamou à glória com a idade de 22 anos, muitos choraram na Escócia e missionários de terras distantes sentiram que haviam perdido sua maior guerreira de oração.

Não era apenas nas primeiras horas do dia quando ela entregava ao Senhor todo aquele dia e tudo que viria no seu decorrer que ela buscava ao Senhor, mas também, em outros momentos, continuamente, ela buscava Sua direção para problemas grandes ou pequenos. Para ela, comprar uma peça de roupa não era uma coisa à toa, e ela podia ser vista parada em frente a uma loja, pedindo a Deus a Sua direção antes de entrar para comprar um pedaço de fita.

Ela precisava agradar ao Senhor em tudo e não se deixava guiar pelas tradições dos homens. Isto talvez explique a observação de seus amigos: “Helen sempre se vestia corretamente.”

Como Helen Buscava as Almas Perdidas

Aqui também ela parecia subir acima de todos nós, mesmo entre dezenas de milhares de crentes em nossa cidade naquela época. Eu estive nas ruas de Glasgow, perto da meia- noite em muitas ocasiões com meus folhetos e cartazes evangelísticos, quando eu via Helen ocupada com o seu próprio método de ganhar almas.

Eu a vi numa noite fria do inverno escocês com seus braços em volta de uma prostituta pobre e bêbada, contando a ela sobre Jesus e o Seu amor. Em outras ocasiões, ela lidava com homens bêbados, tentando levá- los a seu Salvador.

Em reuniões evangélicas ela sempre estava com sua atenção voltada para as almas perdidas. Sentada nos fundos do prédio, ela via uma mulher sentada sozinha, o sofrimento escrito em seu rosto e a angústia em seus olhos. Sob a direção do Espírito, Helen ia sentar-se ao lado dela, orando silenciosamente por ela durante todo o culto. Quando a mulher se levantava para sair, Helen saía com ela, conversando sobre a mensagem, e encorajando-a a tirar o fardo do seu coração.

Deste modo, mais de uma alma carregada com os cuidados deste mundo e oprimida com o peso do pecado, foi levada a conhecer o Salvador – enquanto Helen a encaminava ao Cordeiro de Deus, embaixo de um poste de ilumunação pública ou esperando para pegar um bonde.

Quando ela finalmente resolveu entrar para a Universidade de Glasgow, ela costumava andar muitos quilômetros desde sua casa até a faculdade todos os dias, para poder distribuir folhetos pelo caminho. Ao mesmo tempo ela podia economizar a tarifa do bonde e dá-la à causa missionária. Nem é necessário dizer que ela teve a alegria de levar muitos alunos do Campus a Jesus.

Robert Murray McCheyne costumava fechar suas cartas com um selo que tinha o desenho do sol se pondo atrás de montanhas, com o lema: “Eis que a noite vem”. Era o mesmo sentimento de urgência que ardia dentro de Helen.

Como Murray McCheyne e Samuel Rutherford, Helen levava consigo o perfume de Cristo, e como William C. Burns, ela manifestava o poder do Espirito numa medida que muito poucos já possuíram. Seu corpo era um templo ambulante do Espírito Santo (1 Co 6:19,20). Assim, aonde quer que ela fosse, o poder de Deus era manifestado.

Quando ela entrava para algum culto, imediatemente a atmosfera era tomada pelo poder de Deus. Eu soube de ocasiões em que ela entrava silenciosamente em uma reunião de oração que já havia começado e sentava-se no último banco; ainda assim, todos sabiam que ela havia chegado por causa da sensação poderosa da presença de Deus manifestada naquele lugar.

Evangelistas sempre procuravam por seus serviços. Não é que ela pudesse cantar ou falar em público. Eu acho que ela nunca cantou um solo nem deu seu testemunho público em suas campanhas. Tudo que ela fazia era sentar em silêncio e orar nas reuniões. Ainda assim, estes evangelistas sabiam que se eles pudessem ter Helen em seus cultos, haveria uma unção poderosa naquele lugar.

Alguns líderes evangelísticos me contaram que nunca conheceram outra pessoa semelhante a ela nesta função. Um ilustre evangelista Inglês, quando já era um soldado idoso, testificou que possivelmente a maior campanha que ele conduziu na sua vida foi uma em que Helen teve a oportunidade de freqüentar todos os cultos durante duas semanas enquanto ela estava de férias.

Um dia, eu conversava com dois professores da Universidade de Londres. Eles eram crentes. Estávamos falando sobre um cristianismo dinâmico quando um deles disse repentinemente: “Irmão Stewart, quero lhe contar uma história.” Então ele contou sobre uma jovem notável que conheceu no campus da Universidade de Glasgow durante uma palestra que ele deu ali. Onde quer que ela fosse no Campus, ele disse, o perfume de Cristo a acompanhava.

Por exemplo, um grupo de estudantes não convertidos estavam zombando e contando histórias sujas quando, de repente alguém dizia:”Psiu! Aí vem ela! Fiquem quietos!” e esta jovem passava, inconscientemente deixando o poder e o temor de Deus pelo lugar.

Ele disse que nas reuniões de oração da faculdade, sempre era fácil saber se a jovem estava presente, quer ela orasse em voz alta ou não, e podiam saber quando ela entrava na sala sem ouvi-la ou vê-la; isto porque sentiam a presença de Deus no meio deles.

Então eu lhe disse: “Senhor, esta só pode ser uma única pessoa; é Helen Ewan!”

“Sim”, ele respondeu, “este era seu nome. Ela era notável em ganhar almas.”

Seu Entusiasmo Pela Palavra de Deus

Um outro aspecto da vida de Helen era sua imensa fome pela Palavra de Deus e uma profunda revelação espiritual da verdade divina. Ela não simplesmente folheava sua Bíblia para encontrar passagens que satisfizessem sua preferência no momento; ela estudava o livro todo, do Gênesis ao Apocalipse. Deste modo ela se tornou uma filha de Deus profundamente inteligente, mesmo com a idade de 16 ou 17 anos.

Seus pés estavam firmemente apoiados na rocha sólida das Escrituras Sagradas. Mesmo quando ela era uma aluna aplicada em seus estudos seculares na Universidade, procurando conseguir boas notas para a Sua glória, ela ainda separava algum tempo para o estudo da Bíbla e a meditação.

Isto fez dela uma cristã bem equilibrada. Apesar de não haver tempo nem lugar em sua vida para fofocas perdidas ou conversas fiadas, ela transbordava um humor puro e um gosto pela vida; e ainda porque Cristo preenchia todos os seus horizontes, ela procurava magnificá-lo com vida santa e serviço sacrificial.

Sua Partida Para Seu Lar

Na Universidade, Helen estava se preparando para o serviço missionário entre os russos da Europa Oriental onde eu mesmo trabalhei mais tarde. Ela já estava aprendendo o idioma russo como preparação para o ministério da sua vida. Mas Deus, em Sua sabedoria e amor, chamou-a para o Seu lar com a idade de 22 anos.

Ela estava passando as férias com uma tia no Reino de Fife e enquanto lá dava continuidade na obra de Seu Mestre. Ela ficou doente de repente e também repentinamente foi chamada para o Céu. Foi tudo tão inesperado que chocou a todos nós.

Nesta época eu estava trabalhando numa campanha evangelístíca no norte da Inglaterra. Quando as notícias sobre a morte de Helen chegaram a mim, eu fiquei estonteado. Eu não podia mais comer nem dormir.

Tão grande foi a minha dor que as pessoas ficavam espantadas ao saber que esta jovem da minha cidade não era para mim mais que uma amiga espiritual e companheira, não minha noiva. “Como é possível?” eles perguntavam, “que um jovem fique tão abatido com a perda de alguém, principalmente apenas uma amiga?”

Eu não estava sozinho na minha dor. Milhares estavam de luto por toda a Escócia e Grã-Bretanha.

Muitos procuravam expressar algo sobre a bênção que esta vida lhes tinha trazido. Por exemplo, num dos cultos feitos em memória dela, um líder espiritual levantou-se e contou à audiência como a espiritualidade de Helen o havia afetado tão profundamente.

“Eu tinha idade para ser pai dela,” ele disse. “Eu conhecia ao Senhor por muitos anos a mais do que ela, mas ela ainda parecia estar muito à minha frente espiritualmente.”

Em campos bem distantes, missionários britânicos lamentaram a notícia. E agora, quem iria sustentá-los tão fielmente diante do Trono da Graça? Quem preencheria esta lacuna e tomaria seu lugar?

Mesmo muitos anos mais tarde quando eu estava de volta a Glasgow, uma das experiências mais emocionantes que tive aconteceu com um grupo de amigos cristãos que estavam compartilhando sobre o que esta vida brilhante, dedicada e radiante havia significado para nós.

Apenas a menção de seu nome tinha uma beleza, uma força irresistível que levava pessoas a se ajoelharem e a clamarem: “Oh, Deus, levanta outros como Helen Ewan! Oh, Deus, faze de mim um homem melhor para Tua glória!”

Pouco tempo depois de sua partida, quando tive alguns dias de folga das minhas reuniões evangelísticas, eu visitei o cemitério onde ela foi colocada para descansar, para mais uma vez, agradecer a Deus por sua vida. Lá, eu caí de joelhos perante Deus e me coloquei novamente em seu altar, suplicando que o fogo de Deus caísse até sobre mim.

Um dos coveiros com quem eu conversei não conseguiu, a princípio, se lembrar de ninguém que fora sepultado que correspondesse à minha descrição.

“Você deve se lembrar que nós sepultamos um grande número de pessoas aqui, pois este é um cemitério público.”

Entretanto, enquanto eu continuava a falar, este trabalhador forte e robusto ficou profundamente tocado. “Sim, eu me lembro agora”, ele disse. “Quando nós estávamos sepultando este corpo, eu senti a presença de Deus por todo este lugar!”

Uma vez, numa noite especial de confraternização, os jovens estavam regozijando-se no Senhor e se divertindo quando minha esposa disse: “Aquela e a foto de Helen Ewan sobre a lareira?”

Repentinamente houve um silêncio profundo e ela disse: “Jim, eu disse algo errado?” Todo riso cessou e um a um, sem ninguém dizer uma única palavra, dobramos nossos joelhos e começamos a orar!

Pense nisto, anos depois de ela ter ido para seu lar no céu, seu nome era tão poderoso. Oh, amigos, eu creio que esta vida espiritual é para todos os filhos de Deus!

O Segredo Desta Vida

Agora, querido leitor, qual a explicação para esta vida? Como poderia uma jovem ainda seguindo os seus estudos, que nunca pregou um sermão ou cantou um solo, nunca viajou mais de 320 km de sua casa – como poderia sua vida afetar pessoas em todas as partes do mundo ae tal forma que sentiram que um grande general havia caído?

A Palavra de Deus diz: “Um … dentre vós perseguirá a mil”. A vida de Helen valeu mais que mil cristãos comuns à igreja.

E, a história de sua vida, traduzida para muitos idiomas diferentes, continua a abençoar a muitos hoje. Qual, eu pergunto, é a explicação? Há uma única explicação: ELA ERA CHEIA DO ESPIRITO SANTO.

Helen, que era uma jovem comum, tornou-se extraordinária simplesmente porque ela entregava tudo a Cristo e tomou posse de tudo que era direito dela no Senhor.

Ela, com seu rosto desvendado, tirava tempo para receber, e depois refletia a glória do Senhor enquanto passava de um degraus de glória a outro.
Todos nós espelhamos a glória do Senhor em algum grau mas para espelharmos a sua glória perfeitamente, há três coisas que precisam acontecer em nós:

1- O espelho deve estar limpo. Um espelho sujo não reflete uma imagem autêntica.

2- O espelho deve ser mantido limpo. Nos tempos bíblicos, quando os espelhos eram feitos de metal polido, tinham de ser sempre polidos para poderem ser usados. E o espelho de sua vida precisa estar limpo e polido para poder refletir perfeita e coerentemente a glória do Senhor.

3- O espelho deve estar no lugar certo; ele deve enquadrar o objeto a ser refletido. Você precisa ter seus dois olhos em Cristo, a vida toda voltado para Ele, se você quiser refletir a Sua glória.

Que você também, querido leitor, se entregue totalmente ao seu Senhor para poder, como Helen Ewan, refletir plenamente a glória do Senhor.

Do livreto “Ela Só Tinha Vinte e Dois Anos”
por James Stewart. Copyright 1966,
Global Baptist Mission. Usado com permissão.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *