Toda alegria em todas as provações

Publicado em: 20/06/2019 Categorias: Arauto / Toda alegria em todas as provações

Arauto - Ano 37 - nº 01 - Jan/Abr 2019

 Charles H. Spurgeon (1834 – 1892) 

“Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes” (Tg 1.2-4).

Primeiro, vamos pensar um pouco sobre o ponto essencial que é ser atacado por tentação ou provação. É a sua fé que é provada. É pela nossa fé que somos salvos, justificados e trazidos para perto de Deus e, portanto, não é de se admirar que ela seja atacada. Todos os poderes das trevas que se opõem à retidão e à verdade certamente lutarão contra nossa fé, e várias tentações se arregimentarão em suas legiões contra nossa confiança em Deus.

É por meio de nossa fé que vivemos. Começamos a viver por meio dela e continuamos a viver por ela, pois “o justo viverá da fé”. A fé é sua joia, sua alegria, sua glória. E os ladrões que assombram o caminho do peregrino estão todos em conluio para arrancá-la de você. Segure firmemente, portanto, o seu tesouro precioso.

Não se maravilhe se toda a força da correnteza vier contra sua fé, pois ela é o fundamento de sua casa espiritual. Oxalá que a sua fé permaneça firme e inabalável em todas as provações presentes, para que se prove verdadeira na hora da morte e no dia do juízo.

De acordo com o texto, passamos por “várias provações” – isto é, podemos esperar problemas numerosos e bem variados. Em outras palavras, essas provações serão muito reais. A fornalha, acredite em mim, não é simplesmente um lugar um pouco mais quente ao qual você conseguirá se acostumar logo. São muitas vezes aquecidas sete vezes mais, como a fornalha de Nabucodonosor, e os filhos de Deus aprendem pela experiência que o fogo arde e devora.

Testado e provado

A bênção inestimável obtida das provações é que nossa fé é testada e provada. A maneira de verificar se alguém é um bom soldado é mandá-lo para a batalha. A maneira de testar se um navio é bem construído é não apenas ordenar que o fiscal o examine, mas mandá-lo para o mar. Uma tempestade será o melhor teste de sua resistência. Tribulações santificadas operam a prova de nossa fé, e isso é mais precioso que o ouro que perece, embora seja provado pelo fogo.

Agora, quando somos capazes de suportá-lo sem nos desviar, o teste prova nossa sinceridade. Ao sair de um problema, o cristão diz para si mesmo: “Sim, mantive firme a minha integridade e não a abandonei. Bendito seja Deus, não fui atemorizado pelas ameaças; não fui esmagado pelas perdas; permaneci fiel a Deus sob pressão. Agora, tenho certeza de que minha religião não é uma mera confissão superficial, mas uma verdadeira consagração a Deus. Minha fé suportou o fogo, foi guardada pelo poder de Deus”.

Eu acho especialmente agradável aprender a grande força do Senhor em minha própria fraqueza. Descobrimos na provação onde somos mais fracos e, naquele momento, em resposta à oração, a força é dada na proporção necessária à situação. O Senhor ajusta o socorro ao obstáculo e coloca a atadura na ferida. Na mesma hora em que precisamos dela, a graça necessária é provisionada.

Portanto, quando você for testado, “tende por motivo de toda alegria” que você foi provado, porque com isto receberá uma prova de seu amor, uma prova de sua fé, uma prova de que você é um verdadeiro filho de Deus.

A provação produz paciência

Vamos pensar na virtude inestimável que é produzida pela provação, isto é, a paciência; porque a provação da vossa fé “produz a perseverança”. A pessoa que realmente possui paciência é aquela que foi provada. Que tipo de paciência ela obtém pela graça de Deus?

Primeiro, ela obtém uma paciência que aceita que as provações vêm de Deus sem reclamar. A resignação calma não vem de uma só vez. Frequentemente, são necessários longos anos de dor física, depressão mental, desapontamento nos negócios, ou múltiplas perdas para levar a alma à submissão completa à vontade do Senhor. Aos poucos, aprendemos a terminar nossa contenda com Deus e a desejar que não haja duas vontades entre Deus e nós mesmos, mas que a vontade de Deus seja nossa vontade.

O próximo tipo de paciência é aquele que permite que um homem sofra injúrias, calúnias e prejuízos sem ressentimento. Ele sente essas coisas intensamente, mas as aceita com resignação. Como seu Mestre, ele não abre a boca para responder e se recusa a retribuir injúria por injúria. Pelo contrário, ele oferece bênção em troca de maldição. Bendito é o amor santo que espera todas as coisas, suporta tudo e não é facilmente provocado. Ah, amigo, se a graça de Deus operar em você por meio da provação, produzindo a paciência quieta que nunca fica zangada e nunca deixa de amar, você pode ter perdido um pouco de conforto, mas terá ganhado um sólido peso de caráter.

Outro maravilhoso tipo de paciência é quando podemos esperar sem incredulidade. Duas pequenas palavras são boas para todo cristão aprender e praticar – orar e permanecer firme. Esperar no Senhor implica tanto orar quanto permanecer firme. E se o Senhor Jesus não vier amanhã? E se nossas tribulações ainda forem prolongadas! E se o conflito continuar? Aquele que foi provado e pela graça obteve o verdadeiro proveito de suas provações, tanto aguarda silenciosamente quanto espera com alegria pela salvação de Deus.

Essa paciência também assume a forma de acreditar sem vacilar, mesmo quando está sofrendo diretamente no meio de estranhas circunstâncias, exigências excepcionais e talvez de desconfianças internas. O cristão perseverante diz: “Eu acredito no meu Deus e, portanto, se a visão tardar, eu esperarei por ela. Meu tempo ainda não chegou. Eu passarei pelas piores coisas primeiro e pelas melhores depois e, por isso, me assentarei aos pés de Jesus e esperarei a sua hora”.

Irmãos e irmãs, se, em uma palavra, aprendemos a persistência, atingimos um alto grau de aperfeiçoamento. Você olha para o marinheiro maltratado pelo tempo, o homem que se sente totalmente à vontade no mar. Ele tem um rosto bronzeado e a pele escurecida pelo sol. Ele parece tão duro quanto o tronco do carvalho e tão resistente como se fosse de ferro. Quão diferente de nós pobres habitantes da terra! Como ele conseguiu ficar tão acostumado às dificuldades, tão capaz de resistir à tempestade que não se importa se o vento sopra para o sudoeste ou para o noroeste? Ele pode ir para o mar em qualquer tipo de tempo. Ele tem pernas de marinheiro. Como ele conseguiu essa força? Fazendo o seu trabalho em alto mar. Ele não poderia ter-se tornado um marinheiro resistente ficando na terra seca.

Do mesmo modo, a provação produz nos santos a resistência espiritual que não pode ser aprendida na tranquilidade. Você pode ir para a escola eternamente, mas não conseguirá aprender persistência lá. Você pode colorir suas bochechas com tinta, mas não poderá dar-lhes aquela cor escura e entranhada que é produzida por mares tempestuosos e ventos uivantes. Fé robusta e paciência corajosa são geradas por problemas, e a presença na igreja, mesmo de poucas pessoas que tiveram esse tipo de preparação, tem um valor incalculável em tempos de tempestade. Alcançar essa condição de resistência firme e coragem sagrada vale todo o sofrimento de todas as provações acumuladas que já nos sobrevieram, vindas de cima ou de baixo. Quando a provação gera paciência, somos incalculavelmente enriquecidos.

Perfeitos e completos

“Para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes.” Se nossas aflições tendem, por meio da provação da nossa fé, a criar paciência, e essa paciência tende a nos tornar pessoas perfeitas em Cristo Jesus, então podemos nos alegrar pelas provações. As aflições pela graça de Deus nos tornam pessoas versáteis, com todas as faculdades espirituais desenvolvidas, e, portanto, são nossas amigas, nossas ajudantes e devem ser acolhidas com “toda a alegria”.

As aflições expõem nossos pontos fracos, e isso nos faz prestar atenção neles. Sendo provados, descobrimos nossas falhas e depois de apresentá-las diante de Deus, somos ajudados a ser perfeitos e completos, sem deficiência de coisa alguma.

Provações santificadas produzem um espírito purificado. Alguns de nós, por natureza, somos rudes e indelicados. Mas, depois de um tempo, os amigos percebem que a aspereza está saindo, e se alegram em ser tratados com mais gentileza. Ah, foi aquele tempo de enfermidade que operou o polimento. Sob a graça de Deus, aquela depressão de espírito, a perda, a cruz, a tragédia – essas coisas amoleceram a aspereza natural e nos tornaram mansos e humildes como o nosso Senhor.

Provações santificadas têm uma grande tendência para gerar simpatia. Aqueles golpes repetidos da vara nos fazem sentir por outros que estão sofrendo e, de pouco em pouco, passamos a ser reconhecidos como sendo os consoladores ungidos do Senhor, preparados pela provação para ajudar aqueles que são tentados.

Você nunca notou como as pessoas que passaram por provações, quando superam e são aprovadas completamente, tornam-se cautelosas e humildes? Elas não falam tão rápido como antes. Não se acham absolutamente perfeitas; dizem pouco sobre suas ações e muito sobre a terna misericórdia do Senhor. Falam com ternura àqueles que estão errando.

Essas pessoas, também, são aquelas que mais demonstram gratidão. Eu sei o que é louvar a Deus pela capacidade de mover uma perna na cama. Pode não parecer muito para você, mas foi uma grande bênção para mim. Aqueles que foram duramente afligidos bendizem a Deus por tudo. Tenho certeza de que aquela mulher que pegou um simples pedaço de pão e um copo de água para o café da manhã e disse: “O que? Ganho tudo isso e Cristo também!” deve ter sido uma mulher que passou por muita provação, ou ela não teria demonstrado tanta gratidão.

E aquele velho ministro puritano certamente foi um homem muito provado, pois quando sua família só tinha um arenque (peixe comum na Europa e hemisfério norte) e algumas batatas para o jantar, ele disse: “Senhor, nós te bendizemos por ter revirado terra e mar para encontrar comida para nós hoje”. Se ele não tivesse sido um homem provado, ele poderia ter torcido o nariz para a refeição, como muitos fazem com comida muito mais suntuosa. Homens que passam por provações se tornam homens agradecidos, e isso não é pouca coisa.

Como regra geral, onde a graça de Deus opera, as pessoas se tornam esperançosas. Onde outros acham que a tempestade vai destruir o navio, elas se lembram de tempestades igualmente ferozes que não as destruíram, e por isso estão tão calmas que sua coragem impede os outros de se desesperarem.

Essas pessoas também se tornam desapegadas das coisas materiais. Elas passaram por aflição demais para manter a ilusão de construir seu ninho nesta floresta negra (mundo material). Há espinhos demais em seus ninhos para pensarem em fazer seu lar ali.

E essas pessoas que passaram por muitas provas são frequentemente as pessoas mais espirituais, e dessa espiritualidade vem a sua utilidade. Se você quer ser um líder e um ajudante de valor na igreja de Deus, são esses os meios que o prepararão para isso.

Você não deseja desenvolver todas as virtudes? Você não deseja se tornar perfeito em Cristo Jesus? Se a resposta for sim, receba com “toda a alegria” as provações e tentações. Fuja para Deus com elas. Bendize-o por tê-las enviado. Peça a ele para ajudá-lo a suportá-las com paciência e, então, permita que a paciência faça um trabalho perfeito. E assim, pelo Espírito de Deus, você se tornará “perfeito e íntegro [completo], em nada deficiente.

– Condensado de um sermão.

Uma resposta para “Toda alegria em todas as provações”

  1. Josué da Silva Soares disse:

    Texto abençoador que nos faz refletir e entender o quão importantes são os testes os quais devemos ser submetidos para irmos sendo aperfeiçoados para o bem do Reino de Deus.

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