Registro de erros apagado

Publicado em: 22/12/2017 Categorias: Arauto / Com Cristo na Batalha de Oração

Arauto - Ano 35 - nº 04 - Out/Dez 2017

Por Michael Catt

Uma das grandes barreiras que impedem o avivamento é a falta de perdão. Embora sejamos perdoados por Deus e agradecidos por isso, ao mesmo tempo prevalece em nossas igrejas uma atitude de falta de perdão. Queremos que Deus tome os esqueletos nos nossos armários e os atire para longe, mas gostamos de procurar esqueletos nos armários daqueles que nos ofenderam ou nos feriram,para podermos expô-los e contar a todos o que foi feito contra nós. Fazemos isso porque, desse modo, nos sentimos melhor a respeito de nós mesmos. Uma das razões de não termos o avivamento é o fato de não compreendermos a relevância do perdão.

O Senhor declara por meio de Isaías: “Desfaço as tuas transgressões como a névoa e os teus pecados, como a nuvem; torna-te para mim, porque eu te remi” (Is 44.22). Isaías pregou numa época em que o povo que estava em relacionamento de aliança com Deus adorava a falsos deuses e, como resultado da infidelidade e desobediência, acabou sendo levado para o cativeiro. Mesmo assim, Deus intervém e afirma: “Eu apaguei as tuas transgressões… torna-te para mim”.

O perdão é essencial

Eu acredito que o perdão seja a nossa maior necessidade. Precisamos saber, em primeiro lugar, que Deus já nos perdoou. Muitos cristãos não conseguem sequer assimilar o fato de que Deus já os perdoou. Esses dão mais ouvidos ao acusador dos irmãos do que ao seu Advogado que está no céu. Algumas pessoas pensam que Deus não pode perdoar, porque suas leis são inegociáveis.  Outras acreditam que Deus tem de perdoar, porque ele é amor. Essa é uma compreensão medíocre do amor e do perdão de Deus. A verdade é que ele escolheu perdoar as nossas violações de suas leis quando nos voltamos a ele em arrependimento.

Há também a questão crucial de perdoar aos outros. É possível que alguém o tenha ferido profundamente ou que você tenha ferido a alguém. Talvez, você deva ir até essa pessoa ou entrar em contato com ela e pedir perdão. Pode ser que essa pessoa tenha morrido e seja necessário colocar-se diante do túmulo e pedir ou oferecer perdão. Eu já tive de fazer isso. Precisei ir até o túmulo e pedir perdão pela maneira como me sentia em relação à pessoa e pela dor que nutria em relação a ela. Eu não estou falando de algo fácil, mas de algo essencial se quisermos andar em comunhão com Deus.

Se quisermos andar em vitória, teremos de aprender a perdoar. Devemos perdoar como Deus nos perdoou. Antes, sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou” (Ef 4.32; veja também Cl 3.13).

A única alternativa ao perdão é tornar-se amargurado. A amargura nos destrói. Coloca em nós um veneno que somos totalmente incapazes de controlar. Pensamos que podemos controlar nossas atitudes quando as pessoas nos ferem ou quando as ferimos, mas a verdade é que não conseguimos, pois o inimigo já colocou os pés para dentro da porta.

O perdão de Deus

Até onde sei, há 125 referências diretas nas Escrituras ao perdão de Deus. As referências são muito claras, e o pecado é apontado como algo que precisa ser erradicado e removido, uma parede que tem de ser quebrada, uma atitude que precisa ser abandonada, uma barreira que tem de ser destruída, um relacionamento quebrado que precisa ser restaurado.

A maioria dos cenários de perdão na Bíblia mostram o perdão de Deus para conosco, mas há também cenários em que vemos um homem perdoando outros, como José que perdoou seus irmãos (Gn 50.15-21) e Esaú que perdoou a Jacó (Gn 33). Jesus nos ordenou a perdoar setenta vezes sete (Mt 18.22). Ao fazer isso, ele não estava nos pedindo para manter uma lista do número de vezes que perdoamos, mas a não manter contabilidade alguma.

Há também o exemplo do pai perdoando o filho pródigo (Lc 15.11-24). Você consegue imaginar uma situação em que um garoto totalmente voltado para si mesmo sai de casa, desperdiça toda a herança e joga fora sua vida – e seu pai, ainda assim, ao receber o filho em casa, coloca nele uma capa, mata o bezerro cevado e coloca um anel no seu dedo? Que imagem poderosa do perdão extravagante de Deus!

Nós, por outro lado, temos a tendência de nos prender ao desejo de não perdoar. Preferimos organizar uma reunião para relatar todas as coisas que as pessoas já fizeram conosco ou disseram sobre nós. Ficamos todo agitados e discutimos a respeito de quem foi o que mais machucou o outro. Entretanto, Deus nos ordena a perdoar.

Agora, o que precisa ser perdoado? Há duas palavras em Isaías 44.22 que não podemos ignorar. A primeira é “transgressões”, que significa rebelião, a exaltação de minha vontade rebelde contra a lei de Deus. Transgredir é levantar os punhos contra Deus e dizer: “Eu não me importo com o que dizes, com o que pensas ou com o que qualquer outra pessoa pensa. Essa é a escolha que vou fazer e a maneira como vou agir”.

A outra palavra é “pecado”. Essa palavra significa “errar o alvo”, como uma flecha que não atinge o objetivo. As Escrituras dizem que todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus (ou não “alcançaram o padrão de Deus”, versão NVT). Pecado e transgressão são rebelião contra Deus.

O pecado bloqueia nossa habilidade de ver a face de Deus. Impede-nos de andar em comunhão com ele. Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça”(Is 59.2). O pecado escurece nosso coração, escurece nosso pensamento e entendimento. Quando pecamos, vamos de “eu nunca faria isso”, para “eu não acredito que acabei de fazer exatamente isso”.

Mas olhe para o que Deus diz:“Desfaço as tuas transgressões… e os teus pecados…”. O pecado deixa um registro permanente que não podemos, por nós mesmos, apagar. Mas Deus diz: “Apaguei as tuas transgressões” (AL21). O que ele está dizendo é: “Eu escrevi tudo isso, de fato, em um livro, mas eu também posso apagar. Eu posso começar do zero.  Posso fazer tudo novo. Posso fazer com que você seja o que jamais poderia ser por si mesmo, e redimi-lo daquilo que você jamais seria capaz de redimir a si mesmo”.

As páginas do meu arquivo celestial receberam muitos registros de ira, amargura, lascívia, orgulho e outras transgressões. Mas, pelo sangue de Cristo, todos eles foram cancelados. Deus é capaz de apagar o nosso registro e desfazer a separação. Pode ser que estejamos numa nuvem escura onde parece que não há saída para chegar até a luz, onde não há esperança, paz ou alegria. Mas Deus diz: “Eu posso retirar tudo isso, mas você precisa voltar para mim”.

A bagagem da falta de perdão

“Torna-te para mim, porque eu te remi.É triste o fato de que muitos de nós, que fomos redimidos por Deus,ainda guardamos ressentimentos. Em uma congregação que pastoreei no final dos anos 80, durante o meu primeiro ano, as pessoas continuavam falando negativamente a respeito de um irmão que tinha sido o pastor deles de 1948 a 1952. Como o novo pastor, eu tinha que escolher o tema para o ano, e resolvi anunciar que seria “Deixe isso para trás”.  Eu disse a eles que, embora o pastor tivesse saído em 1952, alguns ainda não estavam conseguindo superar o que ele lhes fizera, e que era necessário que deixassem tudo isso para trás e virassem a página.

Preciso contar como foi que essa vitória realmente foi liberada naquela congregação. Uma noite, fui com apenas mais um amigo à igreja e permanecemos lá por duas ou três horas. Prostrei-me de rosto em terra atrás do púlpito e chorei até encharcar toda aquela área com minhas lágrimas. Orei e confessei os pecados do púlpito de cada pastor que já tinha pregado naquela congregação –durante os quase 100 anos de sua história. Deus começou a me mostrar coisas a respeito das quais eu sequer tinha conhecimento. O Espírito de Deus me revelou coisas que haviam acontecido ali por causa do abuso dos pregadores contra o povo de Deus.

Depois, meu amigo começou a andar no meio dos bancos e orar a respeito dos pecados cometidos pela congregação contra os pregadores – falta de respeito para com a autoridade que há na Palavra de Deus e falta de respeito para com os homens de Deus. Nós oramos alternadamente, confessando os pecados cometidos pelos pregadores e os pecados cometidos pelos membros da congregação. Durante as seis semanas seguintes, nunca tivemos menos que seis conversões de adultos a cada domingo, simplesmente porque nos livramos do peso opressor da falta de perdão.

Nossas igrejas não podem experimentar o avivamento porque estão carregando o peso dessa bagagem escravizadora. As pessoas estão entrando nas igrejas com uma corrente forte em seus tornozelos, arrastando uma bola de ferro. Estão puxando uma bagagem pesada e estão derrotadas e encurvadas. Por quê? Porque não conseguem superar o que aconteceu em suas vidas – aquilo que alguém fez contra elas ou o que elas fizeram contra alguém.

Não é de se surpreender que Deus não possa agir no nosso meio. Se você não pode amar seu irmão, não pode amar a Deus. É bem simples. Deus quer que funcionemos assim como ele. Da mesma maneira que ele oferece seu perdão generosamente a nós, ele quer que o ofereçamos generosamente a outros. “Mas”, alguém pode dizer, “eles não o merecem”. Há alguma coisa na Palavra de Deus que afirme que precisem merecer? Nós não merecíamos o perdão que Deus nos deu. Se Deus nos perdoou, devemos perdoar os outros. De outra maneira, seria como nos colocar em um tribunal mais alto que o dele.

A cruz nos mostra o que Deus pensa do pecado. A cruz nos mostra o que Deus pensa sobre perdão e graça. Deus perdoa sem reservas e sem hesitação. “Torna-te para mim, porque eu te remi.”

Se nosso velho homem, nossa carne está morta, podemos fazer isso. Mas se quisermos a nossa vontade e os nossos direitos,se quisermos sempre ter a razão e que todos pensem que estamos certos a qualquer custo, então nos tornaremos rancorosos e carregaremos a bagagem pesada de amargura e ressentimento. Esses sentimentos vão crescer dentro de nós e criar uma barreira em nosso coração e vida, deixando nossa mente turva e escura. Acima de tudo, não teremos a liberdade que deveríamos ter no nosso caminhar com Deus.

Perdoando os outros

C.S. Lewis afirmou: “Todos dizem que o perdão é uma ideia maravilhosa até que tenham necessidade de perdoar”. Perdoar os outros é uma tarefa dura. Há algo em todos nós que quer provas de que a pessoa nunca mais vá nos causar a dor que já causou. Mas perdão verdadeiro não exige qualquer condição.

Por outro lado, perdoar não significa aprovar o que o outro tenha feito ou negar que tenha praticado o mal. Não é dar consentimento ao pecado ou desculpar o que o outro fez. Também não é tentar reprimir os sentimentos de mágoa e simplesmente decidir não pensar mais sobre o assunto, pois essa atitude pode gerar uma raiz de amargura e deixá-la crescer no nosso interior. Sabemos que Deus não esquece nosso pecado literalmente; o que ele faz é escolher não se lembrar mais dele. Ele o lança nas profundezas do mar do esquecimento, tão longe de nós quanto o oriente está do ocidente.

Portanto, o que é perdão? Perdoar é um ato da vontade. O primeiro ponto é que o amor “não guarda rancor”ou “não contabiliza os pecados dos outros”(1Co13.5, A Mensagem). O segundo é que perdão é mostrar misericórdia. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”(Mt 5.7). Em terceiro lugar, é uma questão de coração. O perdão não depende da resposta da outra pessoa, mas de fazer o que Deus disse que deve fazer.

Quando eu tinha 39 anos de idade, descobri que fui adotado e que todos na congregação em que cresci sabiam, exceto eu. Eu seria desonesto se não confessasse que falta de perdão, raiva e amargura imediatamente começaram a encher meu coração. Muitas eram as mentiras que meus pais, avós, tios e demais parentes contaram todos aqueles anos a fim de impedir que eu descobrisse a verdade. Mas isso não justificava minha atitude quanto a isso.

Um dia, tive de me colocar ao lado da cama de minha mãe adotiva, que estava em coma diabético, e confessar meus pecados, estivesse ela me ouvindo ou não. Eu tinha de confessar, porque Deus me ordenou a fazê-lo. Declarei que havia sido abençoado por ter crescido numa família que me levava à igreja e que me ensinou sobre o amor do Senhor. Confessei as coisas que mudaram minha vida, por causa do lugar onde Deus tinha me colocado.

Alguns meses atrás, eu descobri que minha mãe biológica tinha acabado de morrer e que ela morava apenas a uma hora e meia de onde moro hoje. Ela sabia tudo a meu respeito – quem tinha me adotado, tudo o que eu fazia, onde eu tinha servido no ministério. Ela sabia tudo a meu respeito, e eu não sabia nada sobre ela. Então, eu tive de dizer à congregação: “Aparentemente, ainda não estou no ponto em que o Senhor pode me deixar saber os motivos de tudo isso”. Mais uma vez, o inimigo levantou sua cabeça e disse: “Isso o deixou bravo, não foi? Aposto que você gostaria de dizer a ela e à família dela o que realmente pensa sobre isso”. E, de novo, eu tive de deixar essas coisas para trás.

Eu já fui demitido duas vezes por igrejas que pastoreava. Eu tive de tomar algumas decisões que, literalmente, fizeram com que pessoas me odiassem. Como outros pastores, já recebi cartas anônimas de pessoas me xingando de nomes que ninguém merece ser chamado. Já escreveram cartas ao jornal me denegrindo.

Em cada uma dessas situações, Deus me lembrou de que eu, na verdade, merecia o inferno, mas que ao invés disso, recebi o perdão. Ele também me trouxe à memória que, se quero refletir o estilo de vida de Jesus, devo perdoar como ele me perdoou. Isso não é o que eu quero fazer – quero provar que estou certo e eles errados. Quero provar que isso não é justo. Quero que alguém me recompense pelo sofrimento, pela dor e pela ofensa que sofri. Mas não é o que Deus me ordenou a fazer. Ele diz que devo perdoar e deixar todo ressentimento para trás.

Eu gostaria de olhar para você e dizer: “estou com minha vida bem resolvida”. Mas ainda nem sei o que “resolvido”significa. Eu sou peregrino nessa jornada.  E parte dessa jornada é aprender a perdoar da maneira que Deus perdoa, embora não seja do jeito que eu quero fazer. É assim que Deus mandou fazer. Não diz respeito aos meus sentimentos ou a quem está certo ou errado, mas à minha obediência a ele.

Há alguém que você precisa perdoar? Há alguém que você precisa amar da mesma maneira que Jesus o ama? Há algo que você precisa superara fim de poder seguir em frente?

Jesus diz:“Em verdade vos afirmo que, se alguém disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar no seu coração, mas crer que se fará o que diz, assim será com ele.Por isso, vos digo que tudo quanto em oração pedirdes, crede que recebestes, e será assim convosco” (Mc 11.23-24). Digamos que há um monte, um obstáculo, um objeto irremovível, que está nos impedindo de experimentar o avivamento. Jesus disse que se você disser a essa montanha “ergue-te e lança-te no mar”, ela será removida. Em seguida, ele declara, no verso seguinte:“E, quando estiverdes orando, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai, para que vosso Pai celestial vos perdoe as vossas ofensas” (v.25). Se você quer viver no fluir do perdão de Deus, então perdoe tudo o que tiver contra qualquer pessoa.

Adaptação da mensagem dada na Conferência Clamor do Coração por Avivamento em abril de 2013.

Publicado com permissão.

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