Reaviva o Dom de Deus

Publicado em: 12/02/2012 Categorias: Arauto / Reaviva o Dom de Deus

Arauto - Ano 21 - nº 05 - Set/Out 2003

Por: Vance Havner

“Por esta razão, pois, te admoesto que reavives o dom de Deus que há em ti pela imposição das minhas mãos. Porque Deus não nos tem dado espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação” (2 Timóteo 1.6,7).

Creio que Timóteo tinha um problema de timidez. “Ninguém despreze a tua mocidade”, Paulo lhe escreveu. Aos coríntios, Paulo recomendou: “Se Timóteo for, vede que esteja sem receio entre vós” (1 Co 16.10). Timóteo era um esplêndido jovem pregador, tinha seriedade e boa formação – mas precisava acender um fogo no seu interior.

Conheço um jovem pregador que me lembra de Timóteo. É um cristão genuíno e promissor, mas falta fogo no seu espírito. Se sua fé e seus conhecimentos tivessem fogo, ele moveria montanhas.

Assim, Paulo aconselha Timóteo a acender a chama sagrada dentro de si. Hoje, muitos não entendem bem a figura a que Paulo se refere, pois não são obrigados a se levantar em madrugadas gélidas e aguardar congelados na frente de uma lareira, enquanto alguém tira as cinzas de cima do carvão que sobrou da noite anterior, acende o fogo e começa a soprar até que as chamas apareçam novamente. Esta é a figura usada neste texto. Há momentos em nossa experiência quando as chamas de Deus estão quase se apagando e precisam ser reavivadas em nossos corações.

Timóteo não foi exortado a reavivar a si mesmo. A chama que devemos reavivar não pertence a nós, mas a Deus. Há muitos Nadabes e Abiús oferecendo fogo estranho hoje em dia (Lv 10.1,2), enquanto outros se cercam de suas próprias labaredas e andam à luz do seu próprio fogo, para tormenta de si mesmos (Is 50.11).

O que Paulo tinha em mente quando falou do “dom de Deus”? Não era um talento natural, uma capacidade ou um entusiasmo humano. Temos uma definição disso em outra passagem: “Não te faças negligente para com o dom que há em ti, o qual te foi concedido mediante profecia, com a imposição das mãos do presbitério” (1 Tm 4.14). Era o dom do Espírito Santo para o ministério específico de Timóteo, a suprema qualificação para pregação, testemunho e serviço. E, por extensão, representa o fogo do Espírito Santo em cada um dos seguidores de Jesus Cristo.

Paulo exortou Timóteo a não deixar que ninguém desprezasse sua mocidade. Via de regra, não esperamos muito de jovens pregadores. Dizemos: “Ele ficará bom depois que se formar no seminário”, ou: “Quando adquirir experiência, será uma potência”. Esquecemos que a principal qualificação, tanto para jovens como para velhos, é o Espírito Santo e, para isto, não há limite de idade. Sem o Espírito, nenhum pregador poderá ter eficácia, indiferente de idade ou treinamento.

Se não tiver o fogo santo, adquirir experiência pode simplesmente confirmar o pregador em sua carnalidade. Muitos pregadores nunca chegam a pregar melhor do que quando começaram, pois naquela época, apesar da falta de experiência, tinham o fogo do primeiro amor. Depois, o mundo e até a igreja foram agindo sobre sua vida, temperando seu zelo e abafando sua chama, deixando-o finalmente como alguém igual a todos os outros.

Paulo reconhecia o valor do treinamento, porque exortou Timóteo a se esforçar para “apresentar-se a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2 Tm 2.15). Sabia também o valor da experiência, pois não permitia que o bispo fosse neófito (1 Tm 3.6). Entretanto, acima de tudo isso, seu conselho era: “Timóteo, reaviva a chama, não caia em rotinas e não permita que o transformem em mais um pregador comum”.

Acima de qualquer outra coisa, os cristãos em geral, os pregadores e as igrejas hoje precisam soprar as brasas do Fogo Santo, até que o zelo celestial os consuma. Nosso Senhor não disse que nos vomitaria da sua boca por sermos quentes demais, mas por sermos mornos (Ap 3.16). Todo verdadeiro cristão tem pelo menos algumas brasas no seu coração, mas geralmente é mais parecido a um leito de carvão apagado do que a brasas vivas. Quando o evangelho é pregado e o sopro do Espírito vem sobre os corações, não é difícil ver onde o fogo foi aceso, pois os rostos se iluminam e o brilho é notável.

O Fogo Quase se Extinguiu

O pecado se multiplica e o amor de muitos se esfriou; as pessoas apagaram o Espírito e deixaram seu primeiro amor. Cobertores molhados de várias espécies sufocaram as chamas. Muitas pessoas estão com dificuldade de aquecer a si próprias, quando deveriam estar inflamando aos outros! Se, por qualquer motivo, seu fogo se transformou em brasas quase apagadas, reaviva o dom de Deus! Mantenha sua chama acesa, custe o que custar! Nenhum preço é alto demais para se pagar a fim de ser “uma lâmpada que arde e alumia” por ele (Jo 5.35)! Vale a pena ir até a extremos que pareçam absurdos aos outros para se manter as brasas sempre ardentes!

Há tantas coisas que podem abafar as chamas. Com certeza, o pecado voluntário terá este efeito. Nosso Senhor nos disse que a candeia do testemunho pode ser sufocada embaixo do alqueire ou da cama (Mc 4.21). O alqueire representa a preocupação material, os cuidados da vida, as necessidades físicas do corpo. A cama representa luxo, facilidade, prazer material, a indolência que tanto infecta a alma. E a maioria das candeias cristãs estão debaixo do alqueire ou da cama. Alguns não têm tempo para brilhar, outros são indispostos. O teste de qualquer interesse ou atração na minha vida é este: que efeito terá sobre minha chama? Isto amenizará o meu zelo? Entristecerá o Espírito Santo?

A negligência abafará o fogo. Deixe o fogo sem cuidados e logo as chamas abaixarão e as cinzas se acumularão. Se negligenciarmos os meios da graça (oração, Palavra e exercício santo), logo precisaremos ser despertados. E nunca foi mais fácil tornar-se complacente e indolente do que hoje. O espírito do nosso tempo é contra aquele que quer permanecer inflamado por Deus, mais do que qualquer época anterior. A própria atmosfera é abafada, o inimigo faz nossas pálpebras se tornarem pesadas e enche nossas mentes de teias de aranha. O espírito pode estar disposto, mas a carne é fraca. Não é fácil se despertar a fim de encontrar Deus. Entre em qualquer igreja típica hoje e logo verá como são verdadeiros estes versos:

Em vão nos afinamos para entoar nossos hinos formais;
É inútil o esforço para nos levantar;
Nossos hosanas esmorecem nos nossos lábios
E nossa devoção desvanece como o orvalho diante do sol.

Dormimos no jardim enquanto nosso Senhor diz em gentil ironia: “Ainda dormis e repousais!”; mas ele também acrescenta: “Levantai-vos, vamos!” (Mt 26.45-46). Precisamos nos sacudir do nosso estupor e letargia, anestesiados e embriagados pelo clima espiritual desta era secular e impiedosa:

Desperte, minh’alma, exercite cada nervo
E, com vigor, siga adiante;
Uma corrida celestial requer todo seu zelo – 
E uma coroa imortal.

Outras pessoas também podem apagar o Espírito e sufocar nossa chama. Todo cristão deve ser uma declaração contrária a este mundo e o seu sistema. Ele o contradiz em todos os pontos. Anda na contramão do início ao fim. Do dia em que nasceu de novo até o dia em que partir para estar com o Senhor, ele é obrigado a enfrentar a corrente contrária de um mundo que sempre caminha na direção oposta. Deus espera que o cristão seja “fora de si” (Mc 3.21), “enlouquecido” (2 Co 5.13), “loucos por causa de Cristo” (1 Co 4.10), “embriagados” ou “cheios de vinho novo” (At 2.13).

Se o cristão permitir, as pessoas o acalmarão, lhe roubarão a alegria da salvação e o reduzirão ao insípido nível da média geral. Se o diabo não puder impedir nossa conversão, seu alvo passa a ser nos transformar em cristãos insípidos, e seu sucesso nesta área tem sido notável. Ele ataca a santa imprudência dos ousados heróis de Deus, puxando-os para baixo até que se ajustem ao padrão incolor da grande maioria: “impecavelmente conformados, friamente regulares, esplendidamente nulos”.

O diabo não se incomoda de nos filiarmos a uma igreja, conquanto que continuemos nos comportando como a maioria dos que já estão dentro dela. Mas quando um cristão autêntico, genuinamente despertado passa por ali, levando o evangelho a sério, ele fica alarmado e começa a planejar sua ruína. Não há falta de apoio para seu plano dentro da própria igreja, pois muitos membros não gostam quando sua complacência de Laodicéia é ameaçada por estes que transtornam o mundo. Assim, se aliam com Satanás para transformar a febre do jovem cristão em temperaturas mais amenas e menos incômodas. Sempre há uma abundância de cobertores humanos para sufocar as chamas dos zelotes, e estes são responsáveis por apagar mais brasas espirituais do que todos os céticos ou ímpios juntos.

Lembro-me bem quando, como simples garoto, comecei a pregar. Quem me desanimava mais não eram aqueles que costumamos chamar de pecadores, mas o círculo dos religiosos convencidos, já bem ajustados com o mundo, que tentavam me acautelar, aconselhando-me a ir com calma. Lembravam-me que não deveria ser demasiadamente santo!

Às vezes, a água fria que tenta apagar nosso fogo e os maiores inimigos do nosso zelo espiritual vêm da nossa própria família. Não é de se admirar que o Senhor tenha usado a palavra forte “aborrecer” para nos mostrar a enorme diferença que deve haver entre nossa devoção a ele e nosso amor até pelos entes mais queridos do mundo para nós (Lc 14.26).

Durante toda sua vida, seja dizendo como garoto no templo: “Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?” (Lc 2.39), seja no casamento de Caná, dirigindo-se à sua mãe: “Mulher, que tenho eu contigo?”(Jo 2.4), ou ainda quando seus parentes desejavam falar com ele: “Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mt 12.50), ele sempre deixou claro que sua primeira obrigação era para com Deus. Jamais permitia que algum parente mais próximo ou ente querido impedisse a sua devoção. Inquestionavelmente, seus parentes teriam abafado suas chamas se ele o tivesse permitido, assim como seus próprios amigos pensavam que estivesse fora de si (Mc 3.21).

Certamente, o temor também pode sufocar as chamas. Paulo diz a Timóteo na seqüência do texto que estamos considerando: “Porque Deus não nos tem dado espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação”. O homem que escondeu seu talento disse: “Tive medo” (Mt 25.25). Quantas chamas foram apagadas por temores: temor do passado, do presente ou do futuro, temor dos outros, do fracasso, da enfermidade, da morte!

Seja qual for o seu temor, não é de Deus, pois ele não nos deu tal espírito. Pelo contrário, ele nos deu poder, amor e uma mente equilibrada, e são estes dons que devemos reavivar! Não recebemos o espírito de escravidão ao temor, mas o espírito de adoção e é isso que devemos reavivar!

Devemos reavivar o espírito de poder, pois temos esta promessa: “mas recebereis poder…” (At 1.8). Devemos reavivar o amor, pois o perfeito amor lança fora todo medo (1 Jo 4.18). E devemos reavivar o espírito de disciplina ou de moderação, pois uma mentalidade sóbria e equilibrada afastariam muitos fantasmas e dúvidas infundadas antes mesmo de se instalarem em nosso interior.

Lembre-se que reavivar o dom de Deus é responsabilidade nossa. Deus não o fará no nosso lugar. Precisamos nos despertar da nossa apatia e ficar sérios sobre oração, alimentação da Palavra e exercício espiritual.

Ó por uma paixão intensa em favor dos perdidos,
Ó por uma compaixão que nos comova;
Ó por um amor que ame até à morte, 
Ó por um fogo que arde!

Relata-se que na Escócia, há muitos anos, antes que houvesse fósforos, todos os fogos haviam se apagado numa determinada comunidade. O povo saiu à procura de alguém que tivesse fogo. Finalmente, bem no alto da ladeira de um morro, encontraram um casebre humilde com uma lareira incandescente repleta de chamas convidativas. Logo todo mundo estava carregando brasas para cá e para lá para reabastecer suas lareiras escurecidas e sem vida. Hoje, há corações cansados, almas desfalecidas, igrejas necessitadas procurando por alguém que tenha fogo, alguém que tenha mantido sua brasa acesa, a despeito do mundo, da carne e do diabo.

O que vem sufocando sua chama? Renuncie a isto, seja o que for, renove sua entrega a Deus e reaviva o dom dele no seu interior!

2 respostas para “Reaviva o Dom de Deus”

  1. juliana disse:

    Seja edificada!

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