Quebrantamento – onde começa o avivamento

Publicado em: 31/03/2017 Categorias: Arauto / O plano para o avivamento

Arauto - Ano 35 - nº 01 - Jan/Mar 2017

Por Roy Hession

Queremos ser muito simples neste assunto de avivamento. O avivamento nada mais é do que a vida do Senhor Jesus derramado em corações humanos. Jesus é sempre vitorioso. No céu, os seres estão louvando-o o tempo todo pela sua vitória. Seja qual for a nossa experiência de fracasso ou esterilidade, Deus nunca é derrotado. Seu poder é ilimitado. Quanto a nós, se tão-somente estivermos conectados corretamente com ele, veremos seu poder sendo demonstrado em nosso coração, vida e serviço. Sua vida vitoriosa nos encherá e transbordará através de nós para os outros. E essa é a essência do avivamento.

Quebrantado à sua vontade

Se, no entanto, quisermos entrar nesse relacionamento correto com ele, a primeira coisa que teremos de aprender é que nossas vontades precisam ser quebrantadas à sua vontade. Ser quebrantado é o começo do avivamento. É doloroso, é humilhante, mas é o único caminho. É ser “Não Eu, mas Cristo” (Gl 2.20), em que o “E” de “eu” foi encurvado e modificado para forma um “C” de Cristo.

O Senhor Jesus não pode viver em nós plenamente nem revelar-se através de nós até que o “eu” altivo dentro de nós seja quebrado. Isso significa simplesmente que o “eu” duro e inflexível, que se justifica, quer o seu próprio caminho, defende os seus direitos e procura a própria glória, finalmente inclina a sua cabeça para a vontade de Deus, admite o seu erro, desiste do próprio caminho em favor daquele que Jesus escolhe, abre mão de seus direitos e descarta a própria glória – a fim de que o Senhor Jesus possa ter tudo e ser tudo em todos. Em outras palavras, é morrer para si mesmo e para atitudes egoístas.

Se olharmos honestamente para nossa vida cristã, veremos o quanto desse “eu” existe em cada um de nós. Muitas vezes é o “eu” que tenta viver a vida cristã (o simples fato de usar a palavra “tentar” indica que é o “eu” que tem a responsabilidade). É o “eu”, também, que geralmente realiza a “obra de Deus”. É sempre o “eu” que fica irritado, invejoso, ressentido, crítico e preocupado. É o “eu” que é duro e inflexível em suas atitudes para com os outros. É o “eu” que é tímido, autoconsciente e reservado.

Não é de admirar que precisemos ser quebrantados. Enquanto o “eu” estiver no controle, Deus pode fazer pouco por nós, pois todos os frutos do Espírito (enumerados em Gálatas 5), com os quais Deus anseia encher-nos, são a antítese completa do espírito duro e indomado dentro de nós e só podem manifestar-se quando essa dureza carnal for crucificada.

Será que diremos “Sim, Senhor”?

Quebrantar-se é uma obra tanto de Deus quanto nossa. É ele que traz a pressão divina para quebrantar, mas somos nós que fazemos a escolha. Se estivermos realmente abertos à convicção do Espírito enquanto buscamos a comunhão com Deus (e a disposição para se expor à luz é a condição primordial para ter comunhão com Deus), o Espírito nos revelará as expressões desse orgulho e dureza que lhe causam dor.

Nessa hora, podemos endurecer nossos pescoços e recusar arrepender-nos ou podemos curvar a cabeça e dizer: “Sim, Senhor”.

Quebrantamento na experiência diária é simplesmente a resposta da humildade à convicção de Deus. Como essa convicção é um processo contínuo de exposição à luz de Deus, precisaremos ser quebrantados continuamente. Isso pode ser muito sofrido, diante da necessidade de ceder direitos e interesses egoístas e de fazer confissões e restituições.

Jesus quebrantado por nós

Por essa razão, não teremos muita chance de chegar ao quebrantamento, a não ser pela Cruz de Jesus. A disposição de Jesus de ser quebrantado por nós é o que produz a mais irresistível motivação para nos quebrantarmos também. Vemos aquele que já estava em forma de Deus não considerando a igualdade com Deus um prêmio a ser agarrado, ao qual teria de se apegar, mas abrindo mão por nós e tomando sobre si a forma de servo – servo de Deus, servo do homem. Nós o vemos disposto a não ter direitos próprios, casa própria ou possessões próprias, disposto a deixar que os homens o injuriassem sem revidar de volta, disposto a deixar que os homens o pisassem e não se vingar nem se defender. Acima de tudo, vemos como ele era quebrantado quando subiu docilmente ao Calvário para se tornar o bode expiatório dos homens, carregando os pecados deles em seu próprio corpo no madeiro.

Numa passagem lastimosa de um salmo profético, ele diz: “Mas eu sou verme e não homem” (Sl 22.6). As pessoas que vivem em regiões tropicais explicam que há uma diferença enorme entre uma cobra e um verme, quando você tenta golpeá-los. A cobra se levanta, sibila e tenta dar o rebote – um quadro perfeito do ego humano. Por outro lado, o verme não oferece resistência, permite que você faça o que quiser com ele, podendo chutá-lo ou esmagá-lo debaixo do pé – um quadro de verdadeiro quebrantamento.

Jesus se dispôs a ser exatamente isso em nosso favor – verme e não homem. Ele o fez porque nos viu assim: vermes que haviam perdido todos os direitos por causa do pecado, com exceção do direito de merecer o inferno. E agora ele nos chama para assumir nosso lugar de direito como vermes com ele e por ele. Todo o Sermão do Monte com seu ensinamento de não retaliar, amar os inimigos e doar sem pensar em si mesmo presume essa atitude fundamental. Porém, somente a visão do Amor que se dispôs a ser quebrado por nós poderá constranger-nos a ter a mesma disposição.

Senhor, dobra e quebra esse “eu” altivo e endurecido,
Ajuda-me a curvar a cabeça e morrer;
Contemplando aquele que no Calvário
Curvou a cabeça em meu favor.

Rendição constante

No entanto, morrer para si mesmo não é uma decisão feita de uma vez por todas. Pode haver uma morte inicial, no momento em que Deus nos revela a necessidade pela primeira vez, mas dali em diante haverá necessidade de morrer continuamente. Só assim é que o Senhor Jesus poderá se revelar de maneira permanente através de nós.

Durante o dia todo, a escolha estará diante de nós de mil e uma maneiras. Significará abrir mão de planos, tempo, dinheiro e prazeres para nós mesmos. Significará ceder constantemente às pessoas ao nosso redor, pois nossa rendição a Deus se medirá pela nossa rendição aos outros. Cada humilhação, cada pessoa que nos provoca e irrita é o meio que Deus usa para nos quebrantar, a fim de que haja um canal mais profundo para transmitir a vida de Cristo.

Veja: a única vida que agrada a Deus e que pode ser vitoriosa é a vida dele mesmo – nunca a nossa, não importa o quanto tentemos. O problema é que a nossa vida egocêntrica é totalmente oposta à dele e, por conseguinte, nunca poderemos ser cheios da vida divina sem permitir que Deus constantemente crucifique nosso “eu”. E isso exige a nossa escolha moral.

O cálice que transborda

O quebrantamento, porém, é apenas o início do avivamento. O avivamento propriamente dito é estar cheio até transbordar com o Espírito Santo e viver em vitória. Se nos perguntassem neste exato momento se estamos cheios do Espírito, poderíamos responder que sim? Avivamento é quando podemos responder “sim” em qualquer instante do dia. Não seria presunção dizer isso pois estar cheio até transbordar é uma obra total e exclusivamente divina – somente pela graça! O que depende de nós é apenas apresentar nossa vida vazia e quebrantada e deixar que ele nos encha e nos mantenha cheios. Andrew Murray disse: “Assim como a água sempre procura fluir para o lugar mais baixo e mais vazio, assim Deus, quando o encontrar abatido e vazio, o encherá de glória e poder”.

A figura que mostra essa verdade de maneira simples e clara é do coração humano como um cálice que oferecemos a Jesus, ansiando para que ele o encha com água viva. Jesus pode ser visto como aquele que carrega um cântaro dourado cheio de água viva. Ao passar por cada um, ele olha para nosso cálice e, se estiver limpo e vazio, ele o enche até transbordar com água viva. Como Jesus está sempre passando por nós, o cálice pode estar sempre transbordando. Era a isso que Davi se referia quando disse “O meu cálice transborda” (Sl 23.5).

Isto é avivamento: eu e você cheios até transbordar com bênçãos para nós mesmos e para os outros, com paz constante no coração. Geralmente, imaginamos que morrer para si mesmo faz com que a pessoa se sinta extremamente infeliz. Porém, é exatamente o oposto. É quando nos recusamos a morrer para nós mesmos que nos tornamos infelizes. Quanto mais conhecermos na prática a morte com Cristo, mais conheceremos a sua vida em nós e, consequentemente, mais teremos verdadeira paz e alegria. Sua vida também fluirá por nós para aqueles que estão perdidos, com verdadeira preocupação pela sua salvação, e para outros cristãos com profundo desejo para que sejam abençoados e transformados.

Coberto pelo sangue

Somente uma coisa impede Jesus de encher nosso cálice quando passa por nós: o pecado, em uma de suas milhares de manifestações. O Senhor Jesus não enche cálices sujos. Qualquer coisa que brota da carne, do “eu”, por menor que seja, é pecado. Energia que vem da carne, complacência ou acomodação no serviço cristão – tudo é pecado. Autopiedade nas provações ou dificuldades, buscar somente interesses próprios em negócios ou na obra de Deus, autogratificação nas horas vagas, sensibilidade, irritabilidade, ressentimento ou autodefesa quando ferido ou prejudicado por outros, excessiva preocupação consigo mesmo, isolamento, preocupação, temor e muitas outras atitudes brotam da carne, são pecados e tornam nosso cálice imundo.

Todas essas coisas foram despejadas naquele outro cálice que o Senhor Jesus, por um momento, quis evitar no Getsêmani, mas que depois bebeu até o fim no Calvário – o cálice do nosso pecado. Se permitirmos que ele nos mostre o que está no nosso cálice e o entregarmos a ele, seremos totalmente purificados no sangue precioso que ainda flui e que cobre o pecado.

Não se trata apenas de purificação da culpa do pecado nem da mancha do pecado – embora, graças ao Senhor, inclui isso também – mas do pecado em si, seja qual for. E, à medida que ele purifica nosso cálice, ele também o enche até transbordar com o seu Espírito Santo.

Purificação contínua

O poder desse sangue precioso está à nossa disposição diariamente. Suponha que você tenha deixado Jesus purificar seu cálice e que tenha confiado nele para enchê-lo até transbordar. De repente, algo acontece, um momento de inveja ou de ira. O que acontece? Seu cálice se contaminou e para de transbordar. Se formos constantemente derrotados por coisas semelhantes, nosso cálice nunca transbordará.

Se quisermos experimentar avivamento contínuo, teremos de aprender a manter nosso cálice limpo. Nunca é vontade de Deus que um avivamento morra e passe a ser conhecido como o avivamento deste ou daquele ano. Quando isso acontece, é somente por causa de uma coisa: pecado, geralmente pecados pequenos e “insignificantes” que o inimigo jogou no nosso cálice. Contudo, se voltarmos ao Calvário e aprendermos de novo a aplicar o sangue de Jesus para nos purificar, momento por momento, daqueles pequenos princípios do pecado, conheceremos o segredo do cálice que está sempre limpo e constantemente transbordando.

No instante em que você perceber aquela semente de inveja, crítica, irritação ou outra qualquer, peça a Jesus que a cubra com seu precioso sangue e purifique o seu cálice. Você descobrirá que a reação desapareceu, a alegria e a paz voltaram e o cálice está transbordando. Quanto mais confiar no sangue de Jesus dessa maneira, menos terá problemas e até as reações aparecerão menos.

É importante entender que a purificação só é possível quando antes nos quebrantamos a respeito da área envolvida. Suponha que você se irrite com determinada característica de uma pessoa. Não é suficiente levar suas reações de irritação ao Calvário. Primeiro, é necessário ser quebrantado, isto é, precisamos nos render a Deus sobre aquela questão e aceitar a pessoa e seu modo de agir como parte da vontade de Deus para nós. Depois disso, podemos levar nossa reação errada a Jesus, sabendo que seu sangue nos purifica de todo pecado.

Também, depois de ser purificado, não fique se lamentando sobre o que aconteceu, não mantenha seu foco em si mesmo. Eleve os seus olhos para o seu Senhor vitorioso e louve a ele por ainda ser, a todo tempo e em toda circunstância, vitorioso.

Mantendo a paz de Deus

Existe uma regrinha simples mas muito abrangente na Palavra de Deus para regular nossa vida com Jesus e para nos avisar quando o pecado entrou. “Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração” (Cl 3.15). Tudo o que tira a paz de Deus no coração é pecado, seja pequeno como for e seja aparentemente inocente como puder nos parecer a princípio. Essa paz deve governar nosso coração, como o árbitro ou o juiz de uma partida esportiva.

Quando o árbitro apita num jogo de futebol, os jogadores param imediatamente porque alguém cometeu uma falta. Quando perdemos nossa paz, é porque o árbitro de Deus no coração apitou! Devemos parar imediatamente, pedir a Deus que nos mostre o que está errado e colocar qualquer pecado que nos for revelado debaixo do sangue pela fé. Logo, a paz será restaurada e continuaremos como antes com o cálice transbordando.

Se, porém, a paz não for restaurada, será porque não estamos de fato quebrantados. Talvez, ainda não pedimos perdão para alguém ou para o próprio Deus. Ou, talvez, ainda sentimos que outra pessoa é culpada. No entanto, se perdemos a nossa paz, é óbvio de quem é a culpa. Não perdemos paz por causa do pecado de outra pessoa, somente por causa de um pecado nosso. Deus quer mostrar nossas reações, e somente quando quisermos ser purificados é que voltaremos a ter paz.

Como é simples e, ao mesmo tempo, profundo ser governado pela paz de Deus, que é gerada pela própria Pessoa do Espírito Santo! Atitudes egoístas anteriores, que nunca antes nos perturbavam, começam a ser reveladas e, de repente, não conseguimos mais demonstrá-las sem que o árbitro apite. Reclamações, atitudes de mandar nos outros, falta de responsabilidade, detalhes mínimos são revelados agora como pecados, quando nos dispomos a deixar a paz de Deus governar tudo o que fazemos, o dia todo. Muitas vezes por dia e envolvendo até as atitudes mais insignificantes, teremos que recorrer ao sangue purificador de Jesus. O resultado é que começaremos a andar no caminho do quebrantamento como nunca antes. E Jesus será revelado em toda sua beleza e graça se continuarmos neste caminho.

Dê o primeiro passo

Muitos de nós temos negligenciado o apito do árbitro tantas vezes e por tanto tempo que nem o estamos ouvindo mais. Dia após dia passa, e deixamos de perceber o quanto necessitamos de purificação. Não aparecem mais situações que sirvam para nosso quebrantamento. Quando isso acontece, geralmente nossa condição é bem pior do que imaginamos. Precisaremos de muita fome para restaurar a comunhão com Deus no nosso coração antes de conseguirmos clamar a Deus para nos mostrar onde o sangue de Jesus precisa ser aplicado. Ele nos mostrará, a princípio, somente uma coisa, e será a obediência e o quebrantamento naquela pequena área que serão o primeiro passo para o avivamento na nossa vida.

Extraído de The Calvário Road (O Caminho do Calvario), de Roy Hession. Copyright © por Roy Hession Book Trust. Publicado com permissão. Informações sobre o livro e outras publicações no site www.clcpublications.com.

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