Quando Deus desce ao encontro do seu povo

Publicado em: 11/01/2017 Categorias: Arauto / O coração que ora

Arauto - Ano 34 - nº 03 - Jul/Set 2016

John R. W. Stott

Uma das passagens mais importantes sobre a renovação espiritual do povo de Deus está em 2 Crônicas 7. Em tempos de aridez espiritual, essa passagem tem sido um desafio e um estímulo para os cristãos orarem em favor de avivamento. Era um dos textos favoritos de Evan Roberts, frequentemente citado durante o avivamento no País de Gales, 1904-1905, do qual ele foi o líder escolhido por Deus. Certamente, esses versículos servirão para clarificar nossa visão e purificar nossos ideais enquanto olhamos para o futuro.

Tendo Salomão acabado de orar, desceu fogo do céu e consumiu o holocausto e os sacrifícios; e a glória do Senhor encheu a casa. Os sacerdotes não podiam entrar na Casa do Senhor, porque a glória do Senhor tinha enchido a Casa do Senhor. Todos os filhos de Israel, vendo descer o fogo e a glória do Senhor sobre a casa, se encurvaram com o rosto em terra sobre o pavimento, e adoraram, e louvaram o Senhor, porque é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre. (2 Cr 7.1-3)

Essa passagem descreve o que aconteceu na dedicação do templo em Jerusalém que o rei Davi havia planejado e que o rei Salomão edificou. Os anciãos de Israel estavam reunidos. A arca da aliança carregada pelos sacerdotes e levitas foi colocada no seu lugar. Cantores e trombeteiros se uniram num coral de adoração a Deus. O rei Salomão fez uma tremenda oração de dedicação e, ao terminá-la, “desceu fogo do céu… e a glória do Senhor encheu a casa do Senhor”.

A natureza do avivamento

A essência do que aconteceu nessa ocasião foi descrita duas vezes. a glória do Senhor encheu a casa” (v.1); a glória do Senhor tinha enchido a Casa do Senhor (v.2). Isto é avivamento: a glória do Senhor enchendo a sua casa e o povo de Deus tendo consciência inequívoca de sua presença no meio deles.

A glória de Deus é a presença manifesta dele. Quando a glória de Deus encheu a casa, o povo ficou inundado com a consciência da sua presença. A glória do Senhor pairou sobre o Monte Sinai quando Moisés subiu para receber a lei. Os filhos de Israel foram conduzidos para fora do Egito e durante toda a travessia do deserto árido por essa mesma glória, vista como coluna de nuvem de dia e coluna de fogo à noite. Mas, quando o povo entrou na terra prometida, caíram em idolatria e imoralidade, e a glória se afastou deles. Muito tempo depois, na dedicação do templo, a glória de Deus voltou visivelmente. Foi tão manifesta e tão tremenda que os sacerdotes não podiam entrar na Casa do Senhor, porque a glória do Senhor tinha enchido a Casa do Senhor” (v.2).

Essa é a natureza de avivamento e sempre foi, todas as vezes que Deus a enviou para a Igreja. Traz uma consciência inescapável e esmagadora de sua presença envolvente.

Não é disso que precisamos hoje? Nos dias da juventude pujante da Igreja, a presença e a atividade do Espírito de Deus eram evidentes. Os sinais da sua vinda e do seu poder eram vistos e ouvidos, não apenas por meio de fenômenos sobrenaturais, mas em obras morais e espirituais; não apenas no vento impetuoso e nas línguas de fogo, mas em santidade, amor e ousadia.

As pessoas andavam no temor do Senhor. Tinham um senso tão real da presença de Deus que viviam em reverência constante diante dele. Sua adoração era reverente, humilde e espiritual. Tinham fome e sede de justiça. Perseguiam santidade com propósito e intensidade.

Andavam em amor. Esse era um sinal evidente do poder do Espírito Santo, porque o amor é o primeiro fruto do Espírito e “aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor” (1 Jo 4.8).

Não há dúvida de que os primeiros cristãos se amavam, pois eram ensinados por Deus a fazê-lo. E se o Espírito Santo enchesse a Igreja hoje com o poder de avivamento, nós também aprenderíamos a nos amar muito mais. Teríamos muito mais anseio por comunhão, por ir atrás de outros membros do Corpo a fim de desenvolver com eles conversas sobre assuntos espirituais e fazer reuniões espontâneas em pequenos grupos. Acolheríamos os solitários e os que não têm amigos, hospedaríamos os forasteiros e sem-teto, cuidaríamos dos necessitados e pastorearíamos os recém-nascidos em Cristo.

Deixaríamos de falar mal dos outros em sua ausência e de fazer críticas destrutivas. Ciúmes, invejas, rivalidades e ressentimentos murchariam e desapareceriam diante do fogo da presença de Deus. Teríamos menos autopiedade, menos desejo de autoafirmação, seríamos menos ansiosos por receber reconhecimento, menos espinhosos e mais difíceis de ser ofendidos. Teríamos mais empatia, tolerância e graça. Cuidaríamos mais do bem-estar dos outros do que do nosso.

As condições para o avivamento 

“Tendo Salomão acabado de orar, desceu fogo do céu e consumiu o holocausto e os sacrifícios.” As duas condições para essa manifestação da presença de Deus foram a oração e o sacrifício. Foi depois que os sacrifícios haviam sido dispostos sobre o altar e que o rei terminou sua oração que o fogo caiu do céu. O que isso significa para nós?

Os sacrifícios representam dedicação. Eram, em sua maioria, ofertas de holocausto. O holocausto era totalmente consumido, não sobrava nada. Simbolizava a dedicação incondicional do adorador a Deus.

A oração dedicatória foi uma oração de dependência. Nela, Salomão detalhou vários desastres em potencial – derrota nacional e cativeiro, seca, fome e peste. Em cada caso, o padrão era o mesmo. O povo de Deus, assolado por qualquer uma dessas desavenças, deveria se humilhar e reconhecer seu pecado, arrepender-se e clamar a Deus. Então, de acordo com a súplica de Salomão, Deus ouviria dos céus, perdoaria e daria a cada um segundo os seus caminhos (2 Cr 6.30). Em qualquer situação de necessidade, o povo deveria buscar misericórdia e libertação de Deus, demonstrando que sua expectativa era nele e que dependiam somente de sua graça e poder.

As mesmas duas condições precisam ser cumpridas hoje antes que o avivamento possa vir à Igreja. Não é que elas, sozinhas, produzam o avivamento. Existe um elemento incapaz de ser definido ou mensurado nos avivamentos. Como afirmou Alexander Whyte: “Há um mistério divino nos avivamentos. A soberania de Deus está presente neles”. Ao mesmo tempo, sem satisfazer essas condições, o avivamento não vem.

Portanto, cabe fazer uma autoavaliação: como estão nossas orações, nossos sacrifícios, nossa dependência de Deus e nossa dedicação a ele? Estamos totalmente comprometidos com ele? Já renunciamos nossa autoconfiança, autossuficiência, a ideia pecaminosa de que somos capazes de organizar renovação espiritual com nosso próprio esforço e engenhosidade? Temos afirmado: “Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa; dele vem a minha salvação. Só ele é a minha rocha, e a minha salvação” (Sl 62.1,2)? São essas as condições para que o fogo caia do céu, e a glória de Deus seja revelada na igreja.

A consequência do avivamento

“Todos os filhos de Israel, vendo descer o fogo e a glória do Senhor sobre a casa, se encurvaram com o rosto em terra sobre o pavimento, e adoraram…” (2 Cr 7.3).

Para mim, essa cena é extremamente impressionante. Quando o fogo caiu e a glória apareceu, o povo não elogiou Salomão pela bela oração que fizera e que produziu resultados tão estupendos. Não honraram os sacerdotes que prepararam os sacrifícios, nem prestaram uma reverência supersticiosa ao altar ou ao templo por terem atraído o fogo e a glória de Deus. Não se gabaram de sua própria piedade, achando que era ela a responsável por tamanha manifestação da presença divina.

Não! Ao invés disso, se prostraram com rosto em terra e adoraram a Deus. Deram glória a Deus. Irromperam espontaneamente em cântico, juntando-se com os cantores oficiais do templo: “Porque é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre”.

Foram momentos sagrados de refrigério e avivamento, momentos do céu sobre a terra, nos quais o povo desfrutou um prenúncio da glória que será revelada, enquanto caíram sobre o rosto e deram honra e louvor a Deus.

Essa é a essência e o propósito final de todo avivamento: que a igreja (que tantas vezes em sua história manchada pelo pecado foi orgulhosa, satisfeita, acomodada e autoconfiante) se prostre e adore de fato a Deus, e que o Senhor seja honrado e glorificado.

Eis uma visão para ocupar nossos pensamentos e orações até que a glória de Deus encha novamente a sua casa.

John Stott (1921-2011), pastor, teólogo e autor britânico, foi um dos líderes cristãos mais destacados no século 20.

2 respostas para “Quando Deus desce ao encontro do seu povo”

  1. Eliton disse:

    Gostei muito do comentário do pastor, leva-nos a refletir nossas vidas espirituais, se realmente almejamos todos os dias pela presença manifesta de Cristo e o Espírito Santo – sua glória todos os dias em nossas vidas .

  2. Muito forte esse estudo, quem lê não terá dúvida de quer forma, Deus quer que a igreja do Senhor venha viver.

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