Quando a tragédia bate

Publicado em: 25/07/2015 Categorias: Arauto / Quando a tragédia bate

Arauto - Ano 33 - nº 02 - Abr/Jun 2015

 

Fred D. Jarvis

 

Foi um dos dias mais negros e trágicos da minha vida. Eu estava na Guatemala, num dos nossos campos missionários, quando recebi uma mensagem urgente para ligar para minha esposa na nossa base missionária na fronteira entre Texas e México. Não pude deixar de ficar intrigado sobre que tipo de problema poderia ter gerado essa chamada de emergência.

 

Nunca me esquecerei das palavras chocantes que minha esposa soluçou para mim pelo telefone: “Querido, Paulo morreu num acidente de moto”. Naquele momento, Deus me deu graça para não chorar. Eu não queria acrescentar mais dor e angústia ao coração da minha querida esposa diante da morte repentina do nosso filho.

 

Paulo, com 26 anos, já estava noivo. Eu pretendia fazer o casamento dele, mas agora teria de sepultá-lo. Na mesma época, meu irmão Henry Jarvis, que havia servido conosco como missionário por muitos anos, foi levado às pressas para o hospital devido ao aparecimento de um câncer. Poucos dias depois, nossos problemas foram agravados ainda mais quando a carteira da minha esposa foi roubada com um valor considerável de dinheiro em espécie e fotos insubstituíveis do nosso filho falecido.

 

Eu tinha sido um pregador e missionário por mais de 50 anos e, muitas vezes, havia procurado consolar outros em seus momentos de dor. Nessas ocasiões, eu compartilhava as preciosas verdades da Palavra de Deus e explicava que todos precisam enfrentar tristeza, dor e perda. Tragédia, feridas e angústia fazem parte da nossa experiência humana. Até então, entretanto, eu só conhecera perda por meio da experiência de outros. Naquele momento, tornei-me companheiro dos que andam pelo vale escuro e aprendi, em primeira mão, o que é sentir a excruciante dor da morte e a profunda angústia de sonhos despedaçados.

 

Como é confortante saber que problemas fazem parte do plano e do propósito de Deus.

 

Na dor ouvimos a voz do Mestre,
Que acalma o coração desolado;
E, quando nos voltamos para Jesus,
Ele ajunta os pedaços e nos torna inteiros outra vez.

 

Quando a tragédia bate na vida de alguém,
Existe um refúgio para onde se pode recorrer:
Nos braços de Jesus,
Aquele que tanto nos amou.

 

Podemos não saber quando a tragédia baterá na nossa vida,
Ou quando as tempestades cessarão;
Porém, no meio de toda a turbulência,
O Salvador nos concede plena paz.

 

Graças a Deus que mesmo quando o vale está cheio de inimigos, podemos elevar nossos olhos para os montes, de onde vem o nosso socorro. Verdadeiramente, nossos desapontamentos são oportunidades divinas. As tribulações não vêm para nos aleijar, mas para nos completar. Fazem-nos ficar de joelhos, e joelhos dobrados nos mantêm na posição correta diante de Deus. É na fornalha de aflição que aprendemos as lições mais importantes da fé.

 

Sem dúvida alguma, se Cristo não nos socorrer, jamais conseguiremos lidar com as situações mais difíceis da vida. As tribulações podem nos tornar amargos – ou podem nos aperfeiçoar. Teremos de nos livrar de toda amargura, a todo custo, antes de podermos desfrutar da plena bênção de Deus.

 

Aprendemos melhor por meio de tribulações e lágrimas

 

Às vezes, quanto mais provações, mais bênçãos teremos. Podemos ser eternamente enriquecidos por meio de testes, provações, lágrimas e tentações. As provas nos tornam mais frutíferos e úteis para Deus. As aflições não são ações que Deus toma contra nós, mas a nosso favor. Ele não nos salva dos problemas, mas nos livra no meio deles. A adversidade é a prosperidade daqueles que adquirem grandeza interior. Aprendemos melhor por meio de tribulações e lágrimas. As aflições limpam e purificam a alma. A maior adversidade é não ter adversidade alguma.

 

As melhores lições da vida são aprendidas com ferro quente, na cova dos leões ou na fornalha de fogo. A grandeza vem de enfrentar gigantes e conquistá-los. Ficamos mais fortes por meio de estresse e luta. A maturidade cristã pode ser medida não pela quantidade dos problemas, mas pela maneira como lidamos com eles. Os problemas são menos importantes do que nossas reações a eles. Aprendamos a concentrar-nos menos nos problemas e mais no Salvador que pode solucioná-los.

 

Deus é um Perito Artesão, e seu toque pode moldar nossa vida para formar uma obra de perfeição e beleza. Ele sabe como trazer para fora o que há de melhor em nós. Nunca é agradável estar na fornalha da aflição, mas pode ser a melhor maneira que Deus tem para queimar e eliminar o refugo em nós e apurar o ouro precioso.

 

A vida é constituída de luz do sol e de chuva; de prazer e de dor; de escuridão e de luz. A alegria vem depois da tristeza. A paz vem depois da tempestade. As estrelas brilham mais forte quando a noite é mais escura. O arco-íris vem depois da chuva.

 

Atrito, desdém e crítica fazem parte da vida, mas são os apuros e obstáculos que formam o caráter da pessoa. Sem moinho, não há farinha; sem suor, não se produz o açúcar; sem dor, sem triunfo; sem cruz, sem coroa; sem nuvens não haveria arco-íris; sem ferida, não conheceríamos o socorro; sem o cálice, não haveria glória. As aflições são as sombras das asas de Deus. Elas nos aprofundam e desenvolvem como nada mais poderia fazer.

 

A escola da aflição sempre produz os melhores formandos. Conhecer a comunhão do seu sofrimento é uma das maiores bênçãos na vida. Cristo prova o seu poder no meio das nossas tribulações com mais eficácia do que em qualquer outra situação. O poder de Deus é maior nos apuros e pressões.

 

Deus pode transformar nossa tristeza em lucro

 

Nada pode acalmar, consolar e confortar mais do que as mãos feridas de Jesus. As mãos furadas pelos cravos podem abençoar, guiar, proteger e providenciar. Deus sempre pode fazer algo bom sair da angústia e transformar nossas tristezas em lucro. Precisamos da manifestação visível do nosso Cristo invisível. É nas dores e nos conflitos que Cristo mais se revela a nós.

 

Há momentos de sombras e trevas, mas a alegria vem pela manhã (Sl 30.5). Não precisamos ficar inquietos e ansiosos. Podemos aprender a colher e a descansar ao mesmo tempo. Jesus é perito em lidar com problemas. Ele sabe como controlar pessoas e alterar situações. Vamos aprender a deixar nossas ansiedades nas mãos do Senhor, que é vivo e sabe como curar nossas feridas. O Espírito Santo sabe como tocar na nossa condição e nas nossas necessidades. Sua capacidade para confortar-nos é realmente admirável.

 

Aquele que suportou a cruz, desprezou a vergonha e morreu com coração partido sabe muito bem como curar os quebrantados de coração e libertar os cativos. Até o nosso Salvador aprendeu a obediência “pelas coisas que sofreu” (Hb 5.8). Não é de admirar que ele possa renovar coragem, estimular a fé, aprofundar o entendimento e dominar todas as situações da vida.

 

A Bíblia nos dá diretrizes gloriosas para uma vida radiante. Suas promessas oferecem segurança nas situações mais precárias. Nossa civilização está seriamente enferma, mas a Bíblia é uma fonte de terapia espiritual que serve para todas as necessidades presentes e futuras. O coração do homem é a verdadeira causa de todos os males, mas a Bíblia nos ensina como mudar a face da sociedade pela mudança do coração. O Cristo da Bíblia é a única esperança para este mundo confuso, extraviado, em conflito. O evangelho é o único remédio para os males do homem, desde o início até o futuro mais remoto.

 

Cristo nos guiará e nos fará atravessar o vale mais profundo. O Criador do nosso ser não comete erro algum quando permite que problemas e angústias entrem na nossa vida. O discípulo “peneirado” (Lc 22.31) e provado é o discípulo mais forte. As lágrimas são telescópios que nos permitem ver as estrelas. Não há Getsêmani que não tenha também um anjo para encorajar e fortalecer. Deus nos concede graça extraordinária para situações extraordinárias. Ele transforma aflições em avanços, problemas em promoções e provações em triunfos.

 

As nuvens podem entrar na nossa vida, mas para cada nuvem que Deus permite escurecer o nosso céu, ele envia um arco-íris especial. Graças a Deus pelos belos arco-íris que iluminam as nuvens mais escuras. Até para a nuvem da morte, há o arco-íris da imortalidade. Para cada nuvem, há uma borda prateada e, também, um arco-íris da graça e do amor de Deus.

 

Cristo dá um cântico no coração que torna a dificuldade mais branda. Ele alivia a nossa carga e ajuda-nos a sorrir mesmo na noite mais tenebrosa. Deus pode tornar as coisas do mundo muito quentes para nós a fim de que as soltemos, deixando que ele intervenha.

 

Há um provérbio chinês que resume essa verdade muito bem: “Uma pedra preciosa não pode ser polida sem atrito, nem o homem aperfeiçoado sem tribulação”. O solo umedecido com lágrimas é mais propício para a planta da verdade e da bênção.

 

Quando os problemas apertam, o Senhor está presente

 

Provações, dificuldades e tentações nos ensinam, treinam e fortalecem. Pressões e problemas nos preparam para coisas melhores. Gemidos nos fazem crescer. Problemas nos levam a orar. Ao mesmo tempo, Cristo não permitirá que as preocupações nos pressionem além do que podemos suportar (1 Co 10.13).

 

Problemas podem ser páginas no manual da vida. Muitas vezes, produzem os melhores formandos da escola de sofrimento. Até mesmo o fracasso pode ser a antecâmara do sucesso. Os clássicos geralmente são mais fáceis de ler porque são os mais difíceis de serem escritos. Deus, às vezes, nos permite fracassar a fim de levar-nos ao sucesso. As humilhações de sucessivos fracassos é um preço pequeno diante do imenso valor do sucesso final. A claridade tranquila na alma geralmente é resultado de um arco-íris que veio na esteira de uma tempestade passageira. Quando a depressão nos faz pendurar o coração num salgueiro, é aí que nos lembramos daquele cujas misericórdias nunca falham; são novas cada manhã. Grande é a sua fidelidade (Lm 3.21-23).

 

Graças a Deus pelas maravilhosas compensações pelo sofrimento. Cristo recompensará rica e plenamente todos os tormentos sofridos nas tribulações e as lágrimas de tristeza que derramamos.

 

A tristeza pode ser um espelho que mostra realmente quem somos. Alguns dos maiores homens foram aqueles que suportaram o maior sofrimento. Deus precisou colocar Paulo na prisão para fazer com que escrevesse suas grandes cartas. José suportou grande sofrimento e humilhação antes de ser promovido da prisão para tornar-se primeiro-ministro. Foram acontecimentos que pareciam tragédias que fizeram de Jó um grande homem que marcou a história. Daniel teve de enfrentar a provação de ser lançado na cova de leões como parte de sua preparação para ser o segundo em autoridade no reino.

 

Não existe uma resposta simples ao mistério do sofrimento. Muitos problemas são realmente fruto das nossas próprias falhas e consequência do nosso pecado. A tristeza não é tanto um castigo pelos nossos pecados quanto uma consequência deles.

 

Nestes dias de pessimismo, cinismo e desilusão, vejamos a vida e o mundo assim como Deus os vê. O mundo de sofrimento e tristeza é, de fato, um mundo de mistério. Não podemos encontrar uma explicação fácil para uma criança que é levada no auge do seu vigor, para um ente querido que é acometido por uma doença temida ou para famílias que são separadas por morte ou divórcio. O problema da dor é universal.

 

Entretanto, Deus não abandona o homem ao seu próprio destino. Temos recursos muito além dos nossos. Como são reconfortantes as palavras ditas a Abraão: “Eu sou o teu escudo, e teu galardão será sobremodo grande” (Gn 15.1).      

 

O exemplo de Jó

 

A atitude de Jó está em falta hoje: “Ainda que ele me mate, contudo nele esperarei” (Jó 13.15). Não é de se admirar que ele pudesse dizer: “O homem nasce para o enfado, como as faíscas das brasas voam para cima” (Jó 5.7). Ele pôde testificar: “Bem-aventurado é o homem a quem Deus disciplina; não desprezes, pois, a disciplina do Todo-Poderoso” (Jó 5.17). Em luto e diante de perdas incalculáveis, ele disse: “O Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!” (Jó 1.21). A Bíblia afirma a respeito da atitude de Jó: “Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma” (Jó 1.22). Não é de se admirar que o livro de Jó tenha concluído com estas palavras: “Mudou o Senhor a sorte de Jó, quando este orava pelos seus amigos; e o Senhor deu-lhe o dobro de tudo o que antes possuíra” (Jó 42.10).

 

Um dos maiores exemplos na Bíblia sobre como lidar com perigos e dificuldades é o do rei Josafá. Quando foi atacado por um exército enorme de amonitas e outros povos, a Bíblia diz: “Então, Josafá teve medo e se pôs a buscar ao Senhor; e apregoou jejum em todo o Judá”. Depois, orou: “Ah! Nosso Deus, acaso, não executarás tu o teu julgamento contra eles? Porque em nós não há força para resistirmos a essa grande multidão que vem contra nós, e não sabemos nós o que fazer; porém os nossos olhos estão postos em ti” (2 Cr 20.3,12). Também, declarou: “Neste encontro, não tereis de pelejar; tomai posição, ficai parados e vede o salvamento que o Senhor vos dará” (2 Cr 20.17).

 

Habacuque 3.17-19 contém uma bela afirmação de fé vitoriosa no meio de extrema miséria: “Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação. O Senhor Deus é a minha fortaleza.”

 

O profeta Sofonias nos deixou esta bela pepita: “O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, poderoso para salvar-te; ele se deleitará em ti com alegria; renovar-te-á no seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo” (Sf 3.17). Que ânimo essas palavras devem trazer ao nosso coração!

 

Acordei às 4 horas da manhã para terminar de escrever este artigo. Enquanto estudava a Palavra de Deus, a consciência do poder e da importância de suas promessas me inundou. Um arrepio de alegria e empolgação literalmente passa por minha espinha dorsal. Enquanto compartilho algumas dessas promessas preciosas, espero que você permita que abençoem o seu coração também. Não existe uma experiência mais estimulante ou fortalecedora do que saturar a nossa alma com a Palavra de Deus.

 

O Senhor nos livra da tentação: “O Senhor sabe livrar da provação os piedosos” (2 Pe 2.9).

 

Ele está sempre ao nosso lado: “Eis que eu estou contigo, e te guardarei por onde quer que fores” (Gn 28.15). “Eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20).

 

Ele nunca nos abandonará: “De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei” (Hb 13.5).

 

Ele vai à nossa frente e, também, na nossa retaguarda: “Eu irei adiante de ti, endireitarei os caminhos tortuosos, quebrarei as portas de bronze e despedaçarei as trancas de ferro” (Is 45.2).

 

Não temos espaço para relacionar muitas outras promessas que nos asseguram que o Senhor nos abriga debaixo de suas asas, nos sustenta com seu poder, nos guia com sua destra, nos fortalece com poder no nosso homem interior, nos ajuda nos tempos de tribulação, nos conforta nas nossas aflições, cura nosso coração partido e nos oferece coragem e esperança. Ele nos supre com graça, misericórdia, compaixão; provê recursos para todas as nossas necessidades; responde a nossas orações; ele é nosso refúgio; ele nos dá cânticos no meio da noite; ele dá sono aos seus amados; nos liberta do medo e dos inimigos; ele é nosso Pastor; bondade e misericórdia nos seguirão todos os dias da nossa vida; e muitas, muitas outras!

 

Um dos propósitos divinos em permitir a aflição é para que sejamos mais equipados para consolar a outros. “Bendito seja… o Deus de toda consolação! É ele que nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus” (2 Co 1.3,4).

 

O Senhor às vezes nos guia pelo vale da sombra para nos conduzir a um lugar de rendição total e de abandono de nós mesmos. Todos nós enfrentamos provações e desapontamentos em alguns momentos da nossa vida. Graças a Deus que em todos eles podemos permitir que os raios luminosos do amor de Cristo penetrem as nossas trevas de melancolia. Louvado seja Deus por sua promessa: “A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Co 13.9). Declaremos, com as palavras de Paulo: “Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo” (2 Co 2.14).

 

 

 

Uma resposta para “Quando a tragédia bate”

  1. Marcelo Souza Xavier disse:

    Muito reconfortante.

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