Pregação Gerada Pela Dor

Publicado em: 29/01/2012 Categorias: Arauto / Orando Como o Apóstolo Paulo

Arauto - Ano 28 - nº 04 - Out/Dez 2010

Por: Bill Elliff

O melhor sermão que já preguei foi forjado dentro da fornalha do meu pior pesadelo. Daquela experiência saíram verdades que, posso afirmar, eu realmente conheço. Feridas adquiridas naqueles dias iniciaram um processo educativo sobre perdão e graça que transformou minha vida. Compartilhar verdades aprendidas na dor tem sido minha maior aprendizagem sobre genuína pregação.

Nossa tendência é correr da dor. Ninguém quer se machucar. Nossa visão limitada não consegue imaginar que exista qualquer significado ou valor nos momentos escuros da vida. Entretanto, tal presunção ilustra a visão limitada que temos de Deus. Ele é maior do que a nossa dor, e sua providência faz com que o sofrimento produza autoridade incontestável nos seus ministros. A dor quebranta e modela, educa e aprofunda, autentica e prepara. Quando reagimos apropriadamente a ela, ganhamos o direito de falar.

O maior pregador que já viveu foi aquele que conheceu a maior dor. As palavras de Jesus atravessavam o coração das pessoas porque vinham diretamente do Céu por intermédio de uma vida voluntária. Mas para a mensagem de Deus poder vir por meio dele, foi preciso ele pagar um preço muito alto. Exigiu dele intensa humilhação. Foi necessário ser “tentado em todas as coisas, à nossa semelhança” (Hb 4.15). Significou suportar em silêncio acusação e calúnia. Ele teve de ir até a cruz.

Um dos mais eficazes ministros de Deus escreveu sobre o significado do sofrimento. Paulo, que teve bastante intimidade com tribulações, descreveu um ciclo que é essencial que todo ministro compreenda e abrace, se quiser realmente ter poder em sua pregação.

Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação! É ele que nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus. Porque, assim como os sofrimentos de Cristo se manifestam em grande medida a nosso favor, assim também a nossa consolação transborda por meio de Cristo.

Mas, se somos atribulados, é para o vosso conforto e salvação; se somos confortados, é também para o vosso conforto, o qual se torna eficaz, suportando vós com paciência os mesmos sofrimentos que nós também padecemos. A nossa esperança a respeito de vós está firme, sabendo que, como sois participantes dos sofrimentos, assim o sereis da consolação.

Porque não queremos, irmãos, que ignoreis a natureza da tribulação que nos sobreveio na Ásia, porquanto foi acima das nossas forças, a ponto de desesperarmos até da própria vida. Contudo, já em nós mesmos, tivemos a sentença de morte, para que não confiemos em nós, e sim no Deus que ressuscita os mortos; o qual nos livrou e livrará de tão grande morte; em quem temos esperado que ainda continuará a livrar-nos. (2 Co 1.3-10).

A característica mais importante da dor é que ela faz parte da experiência de todos. Todo mundo, uma hora ou outra, se machuca. Qual pregador nunca passou pela pressão esmagadora que chamamos aflição? Às vezes, a dor vem de origens bem familiares; outras vezes, dos lugares menos esperados. As incisões mais profundas vêm de instrumentos manejados por irmãos na fé (embora Deus não planejasse que fosse assim). Nossas expectativas deixam-nos armados para o sofrimento nos pegar de surpresa.

De onde vem a sua dor? Pode ser grande ou pequena, relativamente obscura ou altamente visível. Pode ser cataclísmico ou simplesmente proveniente das frustrações rotineiras da vida. Só existe uma certeza: aquilo que você imagina que seja sua RUÍNA pode tornar-se uma porta para ajudar outros e a fonte da maior mensagem de sua vida – se você o permitir. Para realmente tirar proveito da dor, as experiências diárias da vida precisam ser aceitas como uma ferramenta nas mãos daquele que está nos mentoreando para sermos eficazes no seu serviço.

A palavra grega para conforto ou consolação usada diversas vezes no texto de 2 Coríntios 1 citado acima é parakaleo e refere-se àquele que “se aproxima” ou que vem estar “ao nosso lado”. É uma coisa ter conhecimento a respeito de Deus; é outra experimentar a presença dele ao seu lado na hora da angústia.

Pedro fazia parte do círculo mais íntimo de Jesus; no entanto, nunca esteve mais perto dele do que naquele momento em que começou a afundar-se na água depois de receber ordem de sair andando por cima dela. Sim, ele tirou os olhos de Cristo e teve medo de falhar. Mesmo assim, foi justo naquele momento que Jesus o abraçou. Ele se colocou ao lado, tão próximo que Pedro podia sentir sua respiração no rosto. A provação permitiu uma experiência de proximidade com Cristo que ele jamais esqueceria.

Nem sempre experimentamos o conforto divino no sofrimento. Se, por orgulho, lhe resistirmos, ele também nos resistirá. Ele se aproxima daqueles que, em humildade, admitem sua necessidade. Sobre esses, ele derrama graça – uma graça que nunca esquecerão.

O maior engano no ministério é achar que podemos conduzir as pessoas a uma posição que nós mesmos não alcançamos. Quantos sermões já pregamos, quantas vezes gritamos para as pessoas, falando sobre o que Deus quer e como ele é – quando nós mesmos estamos resistindo aos toques do Espírito naquela área!

A maioria dos ouvintes consegue discernir isso facilmente. Se o pregador é arrogante, e Deus está distante de sua vida, é fácil perceber. Pode ser que as pessoas não saibam definir o problema claramente, mas sentem a diferença. A autoridade da experiência própria está faltando.

A tarefa dos ministros do evangelho é ser um veículo para Deus falar às pessoas pela sua Palavra e atraí-las a si mesmo.

Nosso negócio é chegar perto, estar ao lado. A experiência de dor terrena e consolo celestial pela qual estamos passando hoje será o caminho para servirmos a outros amanhã. Somente quando descobrirmos o caminho apertado da aproximação é que conseguiremos guiar outros aos braços de Jesus.

Quando Deus se aproxima de nós nos momentos de dificuldade, passamos a ter conhecimento de coisas que nunca são observadas por pessoas que não tiveram tais experiências. Existem pelo menos cinco verdades primárias que todo ministro da Palavra precisa conhecer se quiser pregar com eficácia. Elas só serão descobertas e compreendidas por meio da experiência da dor – e da aproximação de Deus.

  1. A dor é inevitável e comum

Antes de sofrer a intervenção da dor, mantemos uma esperança ingênua de que é possível, de algum modo, passar pela vida sem cicatrizes. O sofrimento dissipa esse mito. Se não formos treinados nessa verdade, podemos ficar descontentes e cheios de autopiedade quando a dor bate à nossa porta. É essencial que conheçamos e comuniquemos essa verdade nas pregações.

  1. A dor tem um propósito

A grande mentira de Satanás é que Deus é ardiloso, distante e desinteressado. É na dor que o diabo, como oportunista que é, aproveita sua maior chance de gritar no nosso ouvido sobre a falta de sentido da tribulação e a calejada inatenção de Deus.

Contudo, se nós, como pregadores, já descobrimos o VALOR da dor, podemos gritar também. Podemos defender a natureza e a bondade de Deus. Podemos falar de um Pai que opera de tal modo que todas as coisas cooperem “para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28).

Podemos ajudar as pessoas a expandirem sua visão de um Soberano que é mais forte do que o sofrimento – e grande o suficiente para pegar o pior que o mundo, a carne e o diabo podem produzir e transformar cinzas em obras de arte. Por outro lado, se não estivermos equipados com esse conhecimento, não nos restará outra coisa senão questionar Deus juntamente com aqueles que estamos tentando guiar.

  1. Somos impotentes

A dor nos empurra até o limite. Paulo e seus companheiros estavam atribulados acima de suas forças (2 Co 1.8); mesmo assim, não expressaram qualquer ressentimento ou frustração. Aceitaram as circunstâncias como valioso lembrete de sua pobreza e necessidade de Deus. Viram as limitações como uma dádiva que os impelia a buscar aquele que podia socorrê-los.

O pregador arrogante tenta, inutilmente, avançar sozinho na dor, muitas vezes com raiva dos obstáculos – e seus seguidores agirão de modo idêntico. Tal liderança oferece tão-somente uma versão cristianizada do humanismo, que se orgulha da própria capacidade e perseverança. A pregação que consegue conduzir as pessoas a Deus só pode ser feita por homens que estão extremamente conscientes da própria impotência.

  1. Deus é a Fonte

Quando compreendemos nossa necessidade, começamos a buscar uma fonte de provisão. Paulo descobriu tal fonte no “Pai de misericórdias e Deus de toda consolação”. Sua dor o levou a uma experiência com a Fonte singular de poder, socorro, amor e graça – Jesus Cristo! Chafurdar-se na autopiedade por causa da impotência não é a solução final. Precisamos aproximar-nos de Deus. Nossa tarefa em ajudar alguém não acabou enquanto não o tivermos retirado da pobreza e o guiado até as riquezas divinas.

  1. Deus é suficiente

Deus não é apenas a Fonte, ele é a Fonte inesgotável (o Deus “de toda consolação”). Foi Betsy ten Boom que lembrou à sua irmã Corrie no campo de concentração nazista que não existe “um abismo tão profundo que o amor de Deus não seja muito mais profundo ainda”. Essas palavras saíram de experiências amargas e, portanto, tinham muito poder. O pregador que já recebeu provisão sobrenatural no meio de uma grande angústia pessoal pode falar com muita autoridade sobre os ilimitados recursos divinos. Ele conseguirá proclamar, confiantemente, a qualquer pessoa, em qualquer lugar, que Deus é mais do que suficiente para qualquer dor!

Todas as experiências de dor, consolo e compreensão foram designadas para conduzir-nos a uma única posição: CONFIANÇA. Paulo disse: “Contudo, já em nós mesmos, tivemos a sentença de morte, para que não confiemos em nós, e sim no Deus que ressuscita os mortos” (2 Co 1.9). Nascemos com natureza de independência. Todas as experiências da vida são designadas por Deus para levar-nos a depender dele. Quando ficamos conectados a ele, dessa forma, somos restaurados à posição máxima de alegria e propósito.

Se o pregador não caminhou a um nível maior de confiança em Deus do que aquele que tinha no ano anterior, ele também não conseguirá levar outras pessoas a lugar algum. Deus deseja falar por meio da vida de seus mensageiros e conduzir seu povo a uma maior dependência dele.

Muitas pessoas que experimentaram as dificuldades da vida são gratas simplesmente por terem conseguido sobreviver. Satisfeitas por terem passado pela provação e por terem, quem sabe, experimentado o conforto de Deus e alcançado novos patamares de conhecimento, estão totalmente inconscientes do potencial que agora trazem em seu vaso de barro. Foram equipadas por meio do sofrimento. Disposição para compartilhar as profundidades da dor e as alturas da consolação de Deus é uma das maiores ferramentas do ministério.

Nossa tarefa como pregadores é equipar as pessoas para fazer a obra do ministério (Ef 4.12). Quando pregamos as verdades de Deus com transparência e abertura, e isso fortalece e anima alguém, aquela pessoa também percebe que a mensagem de sua vida poderá ser usada da mesma forma. A nossa dor não precisa ser um lugar de vergonha e embaraço, mas de treinamento e aparelhamento para serviço e multiplicação. Nossa pregação precisa ajudar as pessoas a passarem plenamente pela experiência da dor a fim de que possam também dividir sua nova mensagem de vida aos outros.

Depois de pregar uma mensagem gerada pela dor do meu passado, uma mulher veio falar comigo. “Você teria disposição de reunir-se com meu ex-marido e nossos filhos e contar sua história outra vez? Estamos terrivelmente distantes e amargurados.”

Com toda disposição, fui ao encontro com eles num escritório comercial, sábado de manhã. Fiquei admirado ao ver como Deus usou a mensagem que forjou no meu interior a duras penas e levou um homem endurecido a arrependimento e fé. Lágrimas corriam enquanto via uma família ser restaurada pela graça de Deus. Foi glorioso!

Eu já havia dado graças a Deus, pela fé, por minha experiência dolorosa do passado. Naquele dia, porém, ao voltar para o meu carro, explodi em ações de graças pelo privilégio do sofrimento. A minha experiência particular, junto com a intervenção divina, me capacitou a pregar sobre a suficiência e graça de Deus de tal forma que uma vida foi transformada.

E isso, para um pregador, é a razão da existência.

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