Permanecendo Puro em um Mundo Pecaminoso

Publicado em: 24/10/2019 Categorias: Arauto / Permanecendo puro em um mundo pecaminoso

Arauto - Ano 37 - nº 02 - Mai/Ago 2019

 Por T. A. Hegre (1908-1984)

Se somos verdadeiramente nascidos de novo, existe um anseio pela imagem e semelhança de Deus. Há um desejo por semelhança com Jesus. A questão é: como nos tornamos santos? Como Deus nos torna santos?

Quando o homem pecou, ele perdeu sua inocência – e se tornou culpado. Ele perdeu sua vida espiritual – e se tornou morto em delitos e pecados. Ele perdeu seu poder – e se tornou escravo do diabo e do mundo. A maior perda, no entanto, foi a perda da santidade de coração.

Mas a grandiosa salvação de Deus é suficiente para todas as necessidades do homem caído, e ele fez provisão para a nossa recuperação (para a restauração da santidade de coração) nesta vida presente, bem como para outras perfeições na vida porvir. Vamos considerar cuidadosamente os diferentes meios que estão à nossa disposição para nos tornar santos? No grande programa redentor de Deus, há tanto aspectos instantâneos quanto progressivos.

Santificado pelo sangue

Em primeiro lugar, somos santificados pelo sangue. Cristo derramou seu sangue na cruz do Calvário como a única e perfeita base para o perdão dos nossos pecados. De acordo com a própria Palavra de Deus, todos os que se arrependem e creem em Jesus Cristo serão perdoados. Os sacrifícios de animais tipificavam esse fato maravilhoso em todo o Antigo Testamento, começando imediatamente após a Queda. No Novo Testamento, João Batista apontou Jesus Cristo como aquele que tinha sido tipificado nos sacrifícios do Antigo Testamento. Ele disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29).

Em sua primeira epístola, o Apóstolo João diz: Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado. Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 Jo 1.7-9).

O pecado é removido e a santidade provisionada pelo sangue de Cristo. O sangue é o agente de Deus para nos tornar santos. Com efeito, quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e, sem derramamento de sangue, não há remissão” (Hb 9.22). Por causa de Jesus, Deus perdoa e purifica o crente arrependido. Tal pessoa nascerá do alto e deverá, a partir desse momento, ter a certeza da vida eterna.

Santificado pela cruz

Mas o sangue de Cristo não é o único agente usado por Deus para nos tornar santos. Nós também somos feitos santos pela cruz. O pecado infectou todas as partes do homem. A redenção não é um problema simples, mas complexo, exigindo a sabedoria e o poder de Deus. Aquele que recebeu perdão e garantia de vida eterna logo descobre uma necessidade mais profunda do que o perdão, pois o pecado é duplo. Além de atos de pecado, há também o princípio interior da pecaminosidade ou da natureza do pecado. Isso não é algo que possa ser perdoado. Precisa morrer.

Isaías explica melhor a corrupção da natureza humana. Ele diz: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho” (Is 53.6). Este “caminho próprio” (egoísmo) é o elemento básico da pecaminosidade do homem. Não pode ser perdoado; precisa acabar; tem de morrer. O “quero o meu próprio caminho” precisa ser posto na cruz. Precisa ser crucificado.

Deus pode perdoar e de fato perdoa atos egoístas. Mas Deus não pode perdoar o egoísmo enquanto alguém persiste em querer seu próprio caminho egoísta. Isso tem de ser arrancado. A provisão para essa necessidade profunda na natureza do homem não é o sangue; é a cruz. Jesus disse exatamente isso: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16.24).

O apóstolo Paulo descreveu esta provisão de forma muito clara em Romanos 6. No primeiro verso, ele faz a pergunta: “Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante?” Em seguida, responde: “De modo nenhum!”. O restante do capítulo revela em detalhes o método de Deus para lidar com a corrupção interior da vida individual.

No verso 6 ele diz: Sabendo isto, que o nosso homem velho está crucificado com ele, para que o corpo do pecado seja destruído, para que não mais sirvamos ao pecado” (Rm 6.6). Se este versículo está dizendo alguma coisa, é exatamente isto: que através da nossa crucificação com Cristo, o poder do pecado é quebrado. Nós não temos que pecar!

Isso significa mais do que o fato de Cristo, nosso substituto, ter morrido pelos nossos pecados. Cristo realmente levou nossos pecados para a cruz. Mas, mais do que isso, ele nos levou para lá também. Essa é a providência de Deus para a pecaminosidade da natureza humana.

Mais adiante, no verso 11, Paulo nos exorta: Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus”. Precisamos conhecer essa verdade; precisamos acreditar e agir com base nisso. Se não considerarmos o fato de nossa união com Cristo na morte como nossa morte para o pecado e em sua ressurreição como a nossa ressurreição, nunca conheceremos a realidade da vitória sobre o pecado.

É uma experiência pontual (chamada de crise) que pode ser seguida por obediência diária na dependência do Espírito Santo. O apóstolo Paulo conhecia isso em experiência prática e deu testemunho desse grande fato: Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2.19,20).

Nossa parte é conhecer este grande fato, crer, aceitá-lo, fazer os ajustes morais necessários – isto é, afastar-nos completamente do mundo, da carne e do diabo e voltar-nos para Deus em total rendição, uma rendição tão completa, tão irrevogável que a única palavra que possa descrevê-la corretamente é a morte – a morte para nós mesmos.

A cruz é o método de Deus, seu agente para nos tornar santos. É a união com Cristo em sua morte e sua ressurreição. Aquilo que é uma verdade posicional para todos precisa tornar-se experimental e pessoal.

Santificado pelo Espírito

Esses dois aspectos da obra de Deus em nos tornar santos – isto é, perdão e purificação através do sangue e da cruz de Cristo – são ambos negativos. Há também um lado positivo muito definido, outro aspecto, que é ser santificado pelo Espírito Santo.

No dia da ressurreição, Jesus soprou sobre seus discípulos e disse: Recebei o Espírito Santo” (Jo 20.22) e, em Pentecostes, cinquenta dias depois, eles foram de fato cheios do Espírito Santo.

O Espírito de Deus é santo e transmite a santidade. Deus não apenas nos considera justos, ele nos torna justos. Ele não só nos considera santos, ele nos torna santos. A menos que o Espírito Santo nos encha de vida ressurreta, a vida de santidade não será uma realidade em nossas vidas.

Deve haver um momento específico em que deliberadamente pregamos na cruz a inclinação de termos nosso próprio caminho, inclinação que está em inimizade com tudo o que Deus quer fazer em nós. E Deus condenou essa inclinação à morte, no corpo crucificado de Jesus Cristo na cruz. Nós também fomos ressuscitados com Cristo. Agora podemos andar em novidade de vida. Temos a inclinação de Cristo. Portanto, o crente disposto e confiante pode levar uma vida santa. O Espírito Santo vem sobre tal pessoa para lhe dar poder para o serviço.

Na noite anterior à crucificação, Jesus preparou seus discípulos para essa grande experiência (Jo 14-16). Pouco antes de sua ascensão, ele reuniu novamente seus discípulos e determinou que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, a qual, disse ele, de mim ouvistes. Porque João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias” (At 1.4-5). Essa experiência tornou-se uma experiência pessoal para eles no Pentecostes. Está disponível hoje para todo e qualquer um que esteja com sede suficiente para ir a Cristo e beber, para receber as bênçãos que ele prometeu – um Pentecostes pessoal.

Embora o Pentecostes histórico não se repita, assim como o Calvário histórico não se repetirá, devemos nos relacionar pessoalmente com o que foi dado tanto no Calvário quanto no Pentecostes. O desejo de Deus é derramar toda a bênção do Calvário e do Pentecostes, e ele o fará sobre todo coração que estiver arrependido, rendido e disponível em fé.

Assim, o Espírito Santo é um dos agentes de Deus para nos tornar santos. Pedro, relatando a experiência de Cornélio e sua família, disse: “Ora, Deus, que conhece os corações, lhes deu testemunho, concedendo o Espírito Santo a eles, como também a nós nos concedera. E não estabeleceu distinção alguma entre nós e eles, purificando-lhes pela fé o coração” (At 15.8,9).

O aspecto progressivo da santidade gerada pelo Espírito

Quando as condições estiverem certas, a obra de Deus de tornar-nos santos através do sangue, através da cruz e através do Espírito Santo pode ser recebida instantaneamente. Depois disso, entretanto, há também um aspecto progressivo no programa divino de restauração. O Espírito Santo não somente aplica o sangue e a cruz para a purificação do pecado, mas também passa a conformar o cristão rendido e quebrantado à imagem de Cristo. Ele ajudará na mudança de hábitos, traços e características que podem não ser pecaminosos em si mesmos, mas não são adequados para o novo homem.

Esse trabalho se dá continuamente e é corretamente denominado “crescimento na graça”. O Espírito Santo é nosso guia, nosso professor e nosso modelador de caráter. Se permanecermos confiantes e entregues, o Espírito Santo poderá realizar sua maravilhosa obra.

O aspecto progressivo da santidade por meio da Palavra

Existe outro aspecto de nossa santidade progressiva: somos santificados pela Palavra. Jesus disse: “Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15.3). Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). O apóstolo Pedro refere-se a este aspecto assim: “Tendo purificado a vossa alma, pela vossa obediência à verdade…” (1 Pe 1.22).

O salmista tem isto para dizer: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz para os meus caminhos” (Sl 119.105). De que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho? Observando-o segundo a tua palavra” (Sl 119.9).

Precisamos continuamente da Palavra de Deus, pois é a única regra segura para a fé e a caminhada cristã. A Palavra de Deus é um meio de graça no crescimento cristão.

O aspecto progressivo da santidade por meio da disciplina

Outro aspecto de nossa progressiva santidade é “disciplina”. Deve ser entendido que isso não se refere à disciplina do “velho homem”. A Bíblia revela apenas uma provisão para a antiga vida de Adão: a morte na cruz com Cristo.

Hebreus 12 fala de disciplina de modo definitivo e relaciona-a com a santidade (Hb 12.1-13). Diz que nossos pais “nos corrigiam por pouco tempo, segundo melhor lhes parecia; Deus, porém, nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade” (Hb 12.10). Precisamos de disciplina (castigo). Precisamos de exercício, pois somos aperfeiçoados pelo exercício. Se queremos crescer, devemos nos exercitar.

Mesmo na terra de Canaã, Israel tinha adversários. Para nós, cristãos, esses cananeus representam o mundo, a carne e o diabo; ou podemos identificá-los como maus espíritos e velhos hábitos. Tudo isso precisa ser conquistado. Deus não quer santidade flácida. Ele quer que sejamos fortes e, por isso, deixou alguns oponentes na terra. Ele mesmo nos vigia cuidadosamente e, se falhamos, como aconteceu com Israel, nos disciplina.

Suponho que grande parte do mistério nas circunstâncias da vida seria explicada se soubéssemos como Deus estava organizando todas as coisas para o nosso bem (veja a experiência de Jó, por exemplo). Frequentemente, ele nos ensina usando pessoas indignas. Jó teve que aprender com as acusações de seus três amigos, Pedro com um galo, Balaão com um jumento, Paulo com um espinho. Abraão teve que aprender que ele amava Isaque mais que Deus, e Elias que ele tinha uma fraqueza escondida, um medo – pois fugiu de uma mulher.

Até mesmo Jesus “aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu” (Hb 5.8). Jesus foi santo em todos os sentidos; mas também precisou passar pelo fogo. O que todos nós precisamos aprender é obediência absoluta e instantânea.

Neste aspecto da grande obra de Deus de recuperar e restaurar os homens caídos – santificados pela disciplina – há duas coisas que devemos evitar: rebelar e desanimar. Existe um grande perigo de se rebelar contra circunstâncias que podem ser o método de Deus de nos disciplinar, ou então de desistir em desespero ou desânimo.

Ambos estão errados e qualquer um nos faria perder não apenas o benefício desse aspecto progressivo da santificação de Deus, mas também o que recebemos instantaneamente por meio de seu método perfeito de nos tornar santos.

Deus nos torna santos por meio do sangue, da cruz, do Espírito Santo, da Palavra e da disciplina. Não devemos nem rebelar nem desanimar, mas render-nos em fé e confiar nele para fazer o seu próprio trabalho maravilhoso, para que seja cumprido em nós aquilo que está escrito em Efésios:

“Como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (Ef 5.24-27).

– Extraído de Message of the Cross (Mensagem da Cruz).

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