O Diabo e a Igreja

Publicado em: 04/08/2021 Categorias: Arauto / O Diabo e a Igreja

Arauto - Ano 39 - nº 01 - Jan/Jun 2021

Por E. M. Bounds (1835-1913)

As “portas do inferno não prevalecerão” contra a Igreja (Mt 16.18). Essa promessa do nosso Senhor se opõe a toda armadilha e ataque satânicos. Mas ainda que imutável quanto ao desfecho glorioso, ela não protege a Igreja de ciladas diabólicas que podem, e muitas vezes conseguem, perverter os objetivos da Igreja e adiar sua vitória definitiva.

O diabo é como um monstro mitológico de várias cabeças, tão prolífico em planos e sabedoria quanto em monstruosidades. Seu esforço magistral e supremo visa obter o controle de uma igreja, não para destruir sua organização, mas sim minguar e perverter seus propósitos divinos. E faz isso de forma muito sorrateira, com ares de inocência, sem mudanças bruscas, nada que seja chocante ou alarmante. Às vezes, a mudança revolucionária e destrutiva é introduzida sob o disfarce de um maior zelo pela glória de Cristo por alguém de muita honra na igreja. É comum que o defensor de tais medidas seja totalmente ignorante do fato de que suas tendências são subversivas.

Avaliações erradas a respeito da força da igreja

Um dos esquemas de Satanás para depreciar e perverter consiste em estabelecer um conceito equivocado a respeito da força da igreja. Se conseguir promover falsas avaliações do poder da igreja; se conseguir colocar elementos visíveis e materiais em primeiro plano; se organizar essas forças de modo que se tornem imponentes e impositivas no que diz respeito a mandamentos, influência ou demanda, ele garantirá seus objetivos.

Quando se engana quanto aos elementos de força da igreja, engana-se quanto ao caráter da igreja. A força da igreja está em sua devoção e vida espiritual. Porém, na linguagem comum e corrente dos dias de hoje, uma igreja é considerada forte quando tem muitos membros, status social e recursos financeiros; quando habilidades, conhecimento e eloquência tomam conta do púlpito e quando os frequentadores da congregação esbanjam moda, inteligência, dinheiro e influência. Uma avaliação dessa natureza procede inteiramente de uma mente natural e mundana.

A igreja que assim define sua força está a caminho da apostasia. A força da igreja não consiste em alguma dessas coisas nem na somatória de todas elas. Fé, santidade e zelo são os elementos de seu poder. A força da igreja não consiste na quantidade de pessoas e de dinheiro, mas na santidade de seus membros. A força da igreja não se encontra em atributos e aquisições materiais nem em talentos naturais, mas no revestimento dos membros pelo Espírito Santo. Nenhum sintoma é mais fatal ou mortífero para uma igreja do que a evidência de que sua força passou a derivar-se de fontes materiais ao invés de espirituais; do mundo, e não do Espírito Santo. O poder de Deus numa igreja é a medida da sua força e a dimensão segundo a qual Deus a avalia, em oposição completa à avaliação feita pelo mundo. É neste ponto que a igreja deve avaliar sua capacidade de atingir o objetivo para o qual foi criada.

Em contraste com os conceitos de sucesso deste mundo, mostre-nos uma igreja pobre, analfabeta, obscura e desconhecida, porém composta de pessoas que oram. Podem ser pessoas sem poder, riqueza ou influência. Podem ser famílias que não sabem de onde obterão o pão para passar a próxima semana. Mas com elas está “o poder secreto de Deus”, e sua influência será sentida por toda a eternidade. Serão observadas aonde quer que forem, pois encontra-se nelas uma fonte de luz que brilha com força e firmeza. Cristo nelas é glorificado, e seu reino avança. São vasos escolhidos de salvação e luminares que refletem sua luz.

Uma ilusão prejudicial

Por toda parte, há sinais inconfundíveis e significativos de que o cristianismo tem sido cegado e fisgado pelo brilho deslumbrante de Satanás. Estamos sendo seriamente afetados pelo progresso material dos nossos dias. Ouvimos tanto a seu respeito e passamos tanto tempo admirando-o que as dimensões espirituais nos parecem insossas. Perspectivas espirituais não têm mais forma nem graça para nós. Todas as coisas devem incorporar as cores vivas, o crescimento exuberante e a magnífica aparência do mundo material a fim de não serem desprezadas ou ignoradas. Essa é a condição mais perigosa em que uma igreja pode se encontrar, quando os frutos mansos e singelos da devoção são preteridos pelos vistosos e mundanos encantos do sucesso material que dominam cada vez mais o ambiente da igreja.

Não podemos ceder a essa inundação avassaladora. Não podemos, jamais, ceder um milímetro sequer a esse poder materialista. A devoção verdadeira deve ser enfatizada em todos os sentidos e em cada aspecto da nossa vida. A igreja precisa ser levada a discernir e a sentir essa armadilha ilusória, essa substituição da força que vem de Deus pela que vem do mundo, essa rejeição do Espírito Santo em troca de “força e poder” naturais, e essa concessão de terreno a Satanás. As igrejas estão cada vez mais inclinadas a desconsiderar e, além disso, a desprezar os elementos da força espiritual e a deixá-los de lado em favor das coisas mais impressionantes da vida natural.

Esses delírios reluzentes são, infelizmente, o que muitos equivocadamente têm considerado suas verdadeiras riquezas. E, enquanto em vão dizemos: “Somos ricos e nossos bens aumentaram”, Deus nos descreve como “infelizes, miseráveis, pobres, cegos e nus” (Ap 3.17). Se não estivermos em constante vigilância, tais ilusões não passarão de caras especiarias e esplêndidas decorações embalsamando e sepultando nossa espiritualidade. A verdadeira força reside na devoção vital do povo. A coletividade formada pela santidade individual de cada membro da igreja é a única medida verdadeira de força. Qualquer avaliação que fuja disso ofende a Deus, desonra a Cristo, entristece o Espírito Santo e rebaixa o valor e a qualidade do cristianismo.

É comum que uma igreja faça a melhor e mais justa exibição de seu poderio material exatamente no estágio em que o processo da morte, em sua fase mais perigosa, está no processo de sufocar seus sinais vitais. Dificilmente cairemos numa ilusão mais prejudicial do que quando passamos a julgar a condição de uma igreja por suas demonstrações de capacidade material ou por suas atividades religiosas. A esterilidade espiritual e a podridão na igreja costumam esconder-se por trás de uma bela fachada, com muitas folhagens superficiais e um crescimento exuberante. Uma igreja espiritualmente saudável não se contentará com nada menos do que conversões profundas e genuínas e incentivará todos os convertidos a buscar santidade total, incessantemente, por toda a sua vida.

Essa espiritualidade não é uma escolha opcional nem deve ser mantida em um canto da igreja para um grupo especial; não é um traje de desfile ou feriado, e sim seu principal e único objetivo. Se uma igreja de Deus não estiver cooperando com ele neste trabalho de converter pecadores em santos e de aperfeiçoá-los em santidade, se esse trabalho não for ardente e notável, se for relegado a um lugar secundário ou se outros interesses forem seus concorrentes, então ela não é mais igreja e sim uma instituição meramente humana. Quando coleta de ofertas, construção de templos e relatórios estatísticos se tornam evidências da verdadeira vitalidade de uma igreja, então o mundo alojou-se comodamente dentro dela, e Satanás atingiu seu objetivo.

Nada de renúncia

Outro esquema de Satanás consiste em eliminar da igreja todos os ensinamentos e ordens divinas a respeito de renúncia e abnegação que são ofensivos às preferências da carne e aos corações não regenerados. Dessa forma, a igreja fica reduzida a uma mera instituição humana, popular, natural, carnal e aprazível.

Nenhum outro esquema satânico é mais perigosamente destrutivo e capaz de frustrar com tamanha abrangência os mais santos propósitos de Deus do que converter uma igreja de Deus numa instituição humana conformada aos moldes humanos.

Os homens que ocupam as cadeiras apostólicas (no topo hierárquico de uma instituição) frequentemente são acometidos de uma cegueira surpreendente, em virtude de um falso apego ao que consideram ser a verdade e a honra de Cristo. Procuram eliminar de seus sistemas eclesiásticos os aspectos de renúncia considerados penosos, ofensivos ou impopulares, sacrificando assim toda a eficácia redentora, toda a beleza e o poder que trazem a marca inconfundível e divina de Cristo.

Os mais elevados e santos princípios de renúncia, de desapego das coisas deste mundo e de rendição a Cristo são todos contrários à visão humana sobre a religião, que os vê como princípios de fracasso que caracterizam perdedores na vida. A perspectiva do homem natural eliminaria todos esses princípios impopulares que envolvem a cruz, o negar-se a si mesmo, a renúncia à própria vida e ao mundo. Mas, quando isso acontece, o diabo assume o controle da igreja e muda sua natureza para que se torne popular, otimista, agradável à carne, moderna e evoluída. Passa a ser a igreja do diabo, fundada sobre princípios plenamente agradáveis à mente natural. Nela não se encontram a crucificação do eu nem do mundo, nem a Segunda Vinda de Cristo, nem o juízo eterno, nem a eternidade com Jesus. Não há nada que tenha o sabor de Deus, apenas o dos homens. O homem edifica a igreja do diabo quando entrega a igreja de Cristo à liderança humana. Na igreja do diabo, os valores do mundo e as coisas materiais são procurados e obtidos, enquanto as próprias pessoas e os tesouros eternos são perdidos.

A essência dessa apostasia vergonhosa que destrona Cristo e entroniza o diabo é a remoção do Espírito Santo do seu devido lugar na liderança na igreja, substituindo-o por homens carnais, deixando ao seu encargo os planos e a direção da igreja. Muitas vezes, as mãos fortes de homens com grande habilidade e dons de liderança desbancam a liderança de Deus. A ambição por liderança e a entronização de uma liderança humana são a marca e a ruína da apostasia. A Igreja de Deus não tem liderança fora da dependência e direção do Espírito Santo. O homem que tiver mais do Espírito do Senhor é que sempre será o líder escolhido por Deus, aquele que tiver ambição e zelo pela soberania do Espírito Santo, anseio por ser o menor e o escravo de todos.

À maneira de Deus ou à maneira dos homens?

A maneira de Deus é o extremo oposto da maneira como o homem dirige a igreja. As soluções fáceis, as estratégias entusiasmadas e os sábios planos humanos são mecanismos de Satanás. No sistema dele, a cruz é aposentada, o mundo ganha acesso, qualquer tipo de renúncia é eliminado e tudo ganha um ar de brilho, ânimo e prosperidade. Nesse caso, a mão de Satanás está sobre a arca, os esquemas humanos prevalecem e a igreja fracassa, do ponto de vista de Deus, ainda que se empregue os estratagemas naturais mais bem-sucedidos.

Todos os planos de Deus têm a marca da cruz e todos os seus planos envolvem a morte para a vida natural de orgulho e exaltação. Todos os planos de Deus incluem a crucificação para o mundo. Já os planos humanos ignoram ou desprezam a cruz, pois ela os ofende. Os planos humanos não incluem nenhuma renúncia mais profunda e severa, que implique em verdadeiro sacrifício pessoal. O lucro que conseguem obter é um lucro material e traz aquilo que é reconhecido pelo mundo. Quantos desses elementos destrutivos e, ao mesmo tempo, estimados pelos homens o diabo terá de introduzir na igreja para que todos os alvos elevados, espirituais e sagrados e toda sua genuína devoção a Deus sejam abandonados e esquecidos?

Do espiritual ao natural

A Igreja é distinta, uma instituição absoluta e preeminentemente espiritual, isto é, uma instituição criada, vitalizada, possuída e dirigida pelo Espírito de Deus. Seu funcionamento, seus ritos, formas de culto, serviços e oficiais não têm formosura, pertinência e poder, a menos que sejam canais e testemunhos do Espírito Santo.

É a presença e inspiração do Espírito que constitui sua essência divina e assegura que alcançará o seu alvo divino. Se, de alguma forma, o diabo conseguir excluir o Espírito Santo da Igreja, ele efetivamente a impede de ser a Igreja de Deus na Terra. Sua eficácia reside em afastar dela os meios ou os agentes que o Espírito Santo usa, e substituí-los por meios e agentes carnais, que raramente ou nunca são instrumentos da vida do Espírito.

Cristo anunciou uma lei universal e invariável ao dizer: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” (Jo 3.6). Uma igreja pode ter um pregador santo, homem devoto à oração, abundante em graça, cheio do Espírito. Mas, se de alguma forma, Satanás conseguir afastá-lo e substituí-lo por um homem sem devoção, convincente, eloquente e popular, ainda que pareça ter sido um ganho para a igreja, esse ganho será fruto da substituição de forças espirituais por carnais, um aparente lucro que, inconscientemente, lhe trará uma revolução malfadada.

Imagine uma igreja dirigida por pessoas santas, não sumamente cultas, mas bem versadas nas coisas profundas de Deus e firmes na devoção a Cristo e sua causa, que não tenham sido escolhidas em virtude de posses materiais ou elevada posição social. Agora, substitua essa liderança por pessoas que sejam moralmente decentes em todos as áreas, mas não devotas nem reconhecidas por oração e santidade, escolhidas do meio da elite social e financeira. Inicialmente, tal mudança dificilmente trará resultados notáveis, com exceção de uma expressiva melhoria financeira. Contudo, uma mudança invisível e poderosa será posta em movimento que é muito radical. A igreja deixará de ser espiritual e se tornará uma igreja humana e natural. É uma mudança tão extrema quanto mudar do dia para a noite.

É nesse ponto que Satanás está executando sua obra mais mortal e danosa, uma vez que é despercebida e invisível e não causa espanto nem dispara alarmes.

Não é por meio de um mal óbvio e visível que Satanás perverte a igreja, mas por movimentos silenciosos e permutas despercebidas. O que vem do alto aos poucos é retirado, o espiritual cede lugar ao social e o divino é eliminado e relegado a uma importância secundária. Perde-se de vista a importância essencial da edificação proveniente da vida do Espírito, e o entretenimento, aquilo que é agradável e prazeroso, toma o seu lugar. As forças sociais não apenas removem as forças espirituais, mas efetivamente as destroem.

Podemos disfarçar e racionalizar esse processo o quanto quisermos. Podemos nos desculpar ou filosofar inutilmente sobre crescimento, mudança e cultura. Mas a verdade é que perdemos aquele tipo de experiência pessoal intensa e aquela profunda convicção das coisas eternas que são marcas características de todos os grandes moveres espirituais. Muitos pregadores e cristãos em geral decaíram tanto em suas próprias experiências que já não anseiam por tais vivências distintas e intensamente espirituais. Em lugar disso, ficam planejando esquemas e edificando instituições para gratificar seu apetite carnal com estratégias que sejam um meio-termo entre Cristo e o mundo. Embora não sejam essencialmente erradas, não possuem um grão de poder espiritual nem jamais poderão ser canais de comunicação divina.

Acenda a chama!

Quem ousará afirmar isso? As pessoas, ainda que sejam cristãs, continuam tendo preferências carnais e inclinações por objetivos inferiores. Devemos então mudar os métodos e as pessoas na liderança para satisfazer os apetites carnais? Não! Dediquemo-nos a vivificar o apetite pelas coisas espirituais, a corrigir e elevar as preferências do povo.

Que essa revolução comece pelo pregador. Que ele lute com Deus até que seu voto de ordenação seja revigorado, de modo que todos possam sentir a força de seus objetivos, o ardor de seu zelo, a singularidade de seu propósito e a santidade e espiritualidade de sua vida. Que a intensa chama e o propósito do seu coração se alastrem entre o povo e todos sejam atraídos para avançar em direção ao amor perfeito, ansiando por toda a plenitude de Deus.

Não cabe à igreja satisfazer os apetites da natureza carnal de seus membros. Tampouco lhe compete rebaixar-se à indigna tarefa de entreter o povo. O seu erro mais trágico se manifesta quando suas assembleias solenes se rendem a concertos e palestras, seu louvor se converte em música voltada ao homem e a simples socialização se torna um alvo no lugar de ser uma casa de oração. Seu maior e mais nobre dever, aquele que mantém a imaculada fidelidade da igreja ao seu Senhor, é o de enfatizar a devoção e oferecer todos os meios para seu avanço e aperfeiçoamento. Feito isso, o caráter espiritual, com os desejos que lhe são naturais e espontâneos, norteará todo o resto.

– Condensado do livro Satan: His Personality, Power and Overthrow [Satanás: sua personalidade, poder e derrocada] de E. M. Bounds.

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