Lizzie Johnson, a fiel sofredora

Publicado em: 23/01/2021 Categorias: Arauto / Lidando com as Tempestades da Vida

Arauto - Ano 38 - nº 02 - Mai/Dez 2020

Bispo Frank W. Warne (1854-1932)

O bispo Warne foi um missionário metodista no sudeste da Ásia e, em particular, na Índia, no início do século 20. A seguir, temos o relato de sua visita a uma jovem extraordinária durante um de seus retornos aos Estados Unidos.

Enquanto eu participava da Conferência Geral em Chicago em 1904, um grupo de cerca de vinte pessoas me disse: “Não volte para a Índia antes de ver Lizzie Johnson”. Eu não conhecia a história de Lizzie Johnson, mas tive uma forte impressão de que deveria vê-la. Eu soube que ela morava em Casey, no sul do estado de Illinois. Então, peguei um trem noturno e cheguei na manhã do outro dia. Ao seguir as instruções do chefe da estação, encontrei uma casinha bonita no meio de um jardim numa rua secundária. Uma mãe de semblante simpático veio até a porta. Depois de dizer quem eu era e por que estava lá, perguntei: “Posso ver a Lizzie Johnson?”.

Ela respondeu: “Por favor, sente-se na sala”. Depois de algum tempo, voltou, dizendo: “Lizzie gostaria de vê-lo. Me acompanhe”.

Ela me levou a um pequeno quarto bem arrumado com cortinas grossas, de modo que apenas a mais fraca luz pudesse passar. Vi o rosto de uma mulher deitada na cama, marcada por uma dor como nunca vira igual, antes nem depois. Logo em seguida, Lizzie compartilhou a sua história comigo.

Lizzie começou a se interessar por missões quando tinha cerca de treze anos. Ela tinha ouvido o missionário, William Taylor, dizer que por US$ 50 era possível resgatar uma escrava africana. Por isso, ela decidiu achar um jeito de ganhar US$ 50 a fim de resgatar uma delas. Pouco depois, ela foi acometida por uma doença que amoleceu os ossos ao redor de sua medula espinhal. A doença acabou tornando-a inválida aos 20 anos de idade. Lizzie precisou ficar deitada na cama de tal maneira que suas costas não se dobrassem em hipótese alguma para que não tivesse uma morte súbita. Assim, ela ficou deitada lá sem poder sequer levantar sua cabeça do travesseiro por mais de sete centímetros pelo resto de sua vida, por anos de sofrimento constante e intenso.

Contudo, destemida em seu desejo de levantar fundos para missões, Lizzie decidiu fazer uma colcha para vender. Ela apresentou um plano para seu pai fazer uma mesa de trabalho que tivesse uma parte de cada lado de sua cama, de forma que ela pudesse apoiar os braços sobre ela e trabalhar. Com muita dor e esforço, ela trabalhou no projeto até finalizar uma colcha muito bonita.

Naquela manhã, quando ouvi a história, já fazia quase treze anos que Lizzie terminara a colcha. Durante todos aqueles anos, não houve uma pessoa sequer que tivesse assumido o profundo desejo de seu coração a ponto de comprar ou vender sua colcha. Quando olhei para aquele rosto sofrido e pensei naquela colcha sem uso há treze anos, isso partiu meu coração e receio que tenha chorado como uma criança.

Perguntei se poderia pegar a colcha emprestada. Eu estava com a passagem no bolso e partiria para a Índia em três semanas, mas em todos os lugares aonde eu fui, no trem ou no hotel, numa casa particular ou numa audiência pública, contei a história, abri a colcha e disse: “Agora, de acordo com sua simpatia por Lizzie Johnson e identificação com o coração dela, deposite algo nesta colcha”. Antes de embarcar para a Índia, enviei a Lizzie a sua colcha e, em vez de US$ 50, ela tinha US$ 600 para doar às missões.

Durante aqueles treze anos, quando pareceu a Lizzie que o projeto da colcha havia falhado, ela não desistiu nem se rendeu, mas inventou outro método de arrecadar dinheiro e que a tornou amplamente conhecida. Ela imprimiu lindos marcadores de páginas com citações selecionadas de versículos bíblicos que seus amigos venderam aos milhares em todo o mundo. Deitada de costas e escrevendo em uma pequena escrivaninha apoiada em sua cama, ela cuidava de toda a correspondência daquilo que se transformou num grande negócio.

Certa vez, ela disse: “Enviei marcadores para todos os estados nos Estados Unidos, bem como para o México, Inglaterra, Escócia, Itália, Suécia, Áustria, Índia, Malásia, Ilha da Madeira, Turquia, África, América do Sul, Austrália, Nova Zelândia, China e Japão. Tenho trabalhado muito enquanto estou deitada em meu leito de dor, mas sou grata a Deus pela oportunidade de fazê-lo. Os lucros resultantes da venda dos meus marcadores vão para a manutenção de obreiros nativos em terras estrangeiras. O trabalho sobrecarrega minhas forças, mas estou ansiosa por trabalhar e fazer tudo o que posso para permitir que os pastores nativos e obreiras dedicadas continuem seu trabalho de salvar almas”. Antes de morrer, Lizzie havia levantado US$ 24.000 para o trabalho missionário.

Continuei a usar a história de Lizzie como uma inspiração para as outras pessoas, incentivando aqueles que têm saúde, força e oportunidade a compararem o que estão fazendo com sua vida com o que foi realizado por Lizzie Johnson, a fiel sofredora, que manteve firme até o fim o grande propósito de sua vida. Faço isso com a esperança de que muitos, principalmente os jovens, ao ouvirem ou lerem essa história, estabeleçam um propósito determinado de fazer algo realmente valioso com sua vida.

“Senhor, que queres que eu faça?” (At 9.6).

– Adaptado dos artigos do Bispo Frank Warne em The Evangelical Herald (O Arauto Evangélico), 24 de abril de 1919, e The Christian Advocate (O Apologista Cristão) de 14 de janeiro de 1915.


(a parte abaixo não foi escrita pelo Bispo Frank Warne)

Disposta a Sofrer

Em seu livro, From Pillow to Throne (Do travesseiro ao trono), Charles W. Jacobs transcreve um momento decisivo a partir de um dos registros do diário de Lizzie Johnson durante um tempo em que ela continuava a lutar para aceitar sua condição: “Vívida em minha mente está a memória de uma noite quando o cansaço, o nervosismo e a dor de cabeça impediam meu sono. […] Enquanto orava, surgiu a seguinte pergunta: ‘Você está disposta a aceitar uma vida de sofrimento?’ Era uma pergunta muito difícil. Naquele momento, meu desejo de ser liberta do sofrimento, de ser forte e de ser independente me consumia quase por completo. Preciso aceitar isso? […] A luta foi realmente difícil, mas meu coração cedeu e eu fui capaz de dizer: ‘Sim, Senhor, se for da tua vontade’. A rebelião fugiu do meu coração, a alegria encheu a minha alma e, enfim, um doce sono me sobreveio. Quando acordei de manhã, tudo e todos pareciam diferentes para mim. Minha alma estava leve no Senhor, meu coração tinha uma nova esperança e minha vida, um novo propósito”.

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