Jejum – Uma Expressão de Humildade

Publicado em: 28/02/2012 Categorias: Arauto / O Clamor de Cristo Para a Igreja Hoje

Arauto - Ano 17 - nº 02 - Abr/Jun 1999

Por: John A. Harvey

Existe hoje uma ênfase renovada no jejum entre cristãos sérios. Entretanto, muitos praticam este exercício sem compreender seu verdadeiro valor ou essência espiritual.

Se deixarmos de compreender o tipo de jejum que Deus deseja, corremos o risco de ser ineficazes como os fariseus do Novo Testamento, ou de fazer sacrifícios como os pagãos.

O jejum era praticado no Velho Testamento como um instrumento para ajudar alguém a se humilhar diante de Deus. Esdras disse: “Apregoei ali um jejum … para nos humilharmos diante da face de nosso Deus” (Esdras 8.21). O salmista também falou do propósito do jejum: “E humilhava a minha alma com o jejum” (Salmo 35.13). Quando Acabe respondeu às palavras de juízo do profeta através de jejum com pano de saco, Deus comentou com Elias: “Não viste que Acabe se humilha perante mim?” (1 Rs 21.29).

Uma das palavras hebraicas traduzidas por “jejum” pode também ser traduzida por “humilhação”, como em Esdras 9.5 (Almeida, edição Atualizada).

Jejum também está subentendido no versículo bem conhecido, citado sempre como a chave para o avivamento: “Se o meu povo…se humilhar…” (2 Cr 7.14).

Tiago, o escritor do Novo Testamento que falava com sabor do Velho Testamento, também se referia ao jejum quando usava a palavra “humilhai-vos”. “Senti as vossas misérias, e lamentai e chorai. Converta-se o vosso riso em pranto, e a vossa alegria em tristeza. Humilhai- vos perante o Senhor, e ele vos exaltará” (Tiago 4.9,10).

Com o passar do tempo, as pessoas se orgulhavam da sua humildade. Durante seu ministério na terra, Jesus ensinava que o jejum deveria ser praticado em particular, e não em público, para manter a essência de humilhação diante de Deus (Mateus 6.16-18). Não se deve orgulhar sobre o jejum; pelo contrário, deve ser uma demonstração de humildade.

A heresia da época da igreja primitiva chamada Gnosticismo encorajava o jejum com um significado totalmente diferente. Como os gnósticos consideravam o corpo como essencialmente mau, viam no jejum um instrumento para cortar os apetites da carne. Achavam que isso ajudava a pessoa a se tornar mais santa, e conseqüentemente melhorava sua posição com Deus. Em Colossenses 2.16-23, Paulo desafiou esta idéia, concluindo que “não tem valor algum contra a satisfação da carne”. Entretanto, a interpretação ascética do jejum continua na igreja até hoje.

A maioria dos cristãos considera o jejum como tendo alguma forma misteriosa de mérito conhecida somente a Deus, e jejuam esperando mover Deus para agir. Deveríamos saber que isto não é verdade, pois nada que fazemos pode ganhar mérito com Deus para que Ele nos ouça. A teologia do jejum, assim como com qualquer outra prática cristã, precisa estar em harmonia com a teologia paulina da graça.

Jesus mostrou claramente na história do fariseu e do publicano (Lucas 18.9- 14) que ninguém consegue nada com Deus tentando ganhar favor através do jejum – nem mesmo o orgulhoso fariseu que jejuava duas vezes por semana. Pelo contrário, era o humilde publicano que foi ouvido, pois sua atitude (humildade) estava mais dentro da essência do jejum do que a atitude do fariseu.

Uma pergunta deve ser feita neste ponto. Como o jejum nos auxilia em humilhar-nos diante de Deus? A resposta se encontra no conceito hebraico de lamentação. Estar em tristeza e pranto era o mesmo que ser humilhado. O regozijo se relacionava com glória e honra; a lamentação com humilhação.

Desta forma, toda a prática de humilhar-se diante de Deus era encaixada num contexto de tristeza. Cinzas e pano de saco eram aspectos que a acompanhavam. Às vezes além disso rasgavam-se as vestes, arrancavam-se cabelos, e batiam-se no peito. Chorar alto e uivar também era comum – qualquer coisa que demonstrasse agonia de coração. Daniel, descrevendo seu jejum de vinte e um dias, disse que esteve “triste por três semanas completas” (Dn 10.2). Foi assim com o jejum de Davi em favor de seu filho doente (2 Sm 12.15-20), e através de todo o Velho Testamento.

O jejum se relaciona com tristeza no sentido em que a tristeza afeta o apetite. No princípio não era tanto uma questão de declarar: “Não vou comer”, mas de: “Não consigo comer”. A pessoa verdadeiramente desesperada e preocupada fica tão envolvida com a necessidade urgente que se esquece do alimento. Assim, como a lamentação faz parte da humilhação, também o jejum torna-se um meio de expressar humilhação diante de Deus.

No Novo Testamento, o jejum recebe menos ênfase, sem dúvida porque a lamentação está em contraste com o estilo de vida encorajado na Nova Aliança. Os discípulos de Jesus não jejuavam, segundo Ele, porque não era apropriado estar triste na presença do Noivo (Mateus 9.14,15). Amor, alegria e paz também são mais apropriados para os cristãos do que lágrimas e pranto, já que o Consolador já veio.

Porém, ainda há lugar para o jejum no Novo Testamento. Jesus jejuou antes de iniciar seu ministério, e em Atos 13 e 14 vemos que os apóstolos também jejuavam. Nestes casos, não estavam expressando o símbolo (lamentação) mas o propósito do jejum (humilhar-se diante de Deus), a fim de assegurar-se da direção de Deus.

Embora a ordem no Novo Testamento seja de regozijar-se ao invés de jejuar, ainda devemos “chorar com os que choram” (Rm 12.15). Paulo também disse que jejuava, mas às vezes era mais obrigado do que voluntário (2 Co 6.5; 11.27).

Certamente, quanto mais nos aproximamos do dia do Senhor, também encontraremos cada vez mais razão para chorarmos. Mas, mesmo que chorar não seja a ênfase do Novo Testamento, a humilhação sempre é apropriada. Na proporção em que o jejum nos ajuda a dobrar nosso joelho diante de Deus, na mesma medida será apropriado.

Para Guerra Espiritual

Alguns escritores sugerem que o jejum ainda tem outro valor, como arma da nossa luta espiritual. É provado, tanto nas Escrituras como na experiência, que Deus é alcançado pelo jejum quando nenhum outro meio parece ser eficaz. Por que é que o jejum tem este poder com Deus, ainda mais que não tem mérito algum em si mesmo?

A razão por que Deus responde ao jejum é que Ele responde aos humildes. “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tiago 4.6). Muitos santos dizem que é nossa fraqueza que nos recomenda a Deus, e o jejum, quando praticado da maneira certa, é uma expressão da nossa fraqueza.

Nossas orações muitas vezes são feitas com base nos nossos próprios atos virtuosos, e precisamos sempre ser lembrados que nada somos além de pó e cinzas contaminadas.

Deus se atrai irresistivelmente àqueles que reconhecem seu estado e necessidade, e Ele responde às orações destes. “Não se esquece do clamor dos aflitos (humildes)” (Salmo 9.12). “Ó Senhor, tu ouves os desejos dos aflitos; confortas os seus corações, e ouves o seu clamor” (Salmo 10.17).

O poder do jejum é descoberto quando nos humilhamos. Não possui nenhuma virtude em si mesmo, assim como as águas do batismo também não possuem. É a atitude do coração que é essencial.

Muitas pessoas, quando vêem que o jejum funciona na vida de outrem, tentam aplicar na própria vida, sem sucesso. São como Geazi, que tentou usar o bordão de Eliseu no filho morto da sunamita para ressuscitá-lo. O poder não estava no bordão, mas na condição da pessoa que o usava.

O mesmo se aplica ao jejum; não é uma artimanha divina. É uma evidência exterior de uma condição interior, e um auxílio para expressá-la.
Esta é a essência do jejum: um coração preocupado – sim, até mesmo uma alma entristecida – que se humilha diante de Deus, sabendo que “os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” (Salmo 51.17).

Extraído de “Alliance Life” de 26/12/79. revista oficial da Aliança Cristã e Missionária. Usada com permissão. John A. Harvey é o diretor regional para a Europa e o Oriente Médio da Aliança Cristã e Missionária.

Uma resposta para “Jejum – Uma Expressão de Humildade”

  1. Shirley disse:

    Que texto tremendo! Estou com 41 anos, sempre servi ao Senhor, mas ainda não tinha encontrado um texto tão esclarecedor sobre jejum…

    Muito obrigada!

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