Gerado depois da meia-noite

01/05/2014 Publicado por: Impacto

Arauto - Ano 32 - nº 02 - Fev/Abr 2014

A. W. Tozer

Existe um ditado que tenho ouvido no meio de cristãos sedentos por Deus: “Avivamentos são gerados depois da meia-noite”. É um daqueles provérbios que, embora não possa ser aplicado literalmente, certamente aponta para uma verdade muito importante.

Se interpretarmos a frase para significar que Deus não ouve as orações por avivamento que forem feitas durante o dia, é claro que está errada. Ou se entendermos que as orações oferecidas quando estamos cansados e esgotados possuem mais poder do que aquelas que fazemos quando estamos descansados e dispostos, também será uma conclusão errada. Deus teria de ser muito severo para querer que nossa oração se tornasse uma penitência, ou muito cruel para ter prazer em nos ver castigar a nós mesmos pela intercessão.

Contudo, existe uma boa medida de verdade no conceito de que avivamentos são gerados depois da meia-noite, pois todos os dons e graças espirituais somente são concedidos a quem os deseja intensamente.

Podemos afirmar, sem ter de fazer qualificação alguma, que cada um de nós é tão santo e cheio do Espírito quanto realmente quer. Pode não estar tão cheio quanto gostaria, mas certamente está tão cheio quanto sua vontade o impulsionou a buscar.

Nosso Senhor deixou essa verdade acima de qualquer discussão quando afirmou: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos (Mt 5.6). Fome e sede são sensações físicas que, quando atingem estágios agudos, podem se tornar uma dor muito forte. Incontáveis seguidores de Deus já tiveram essa experiência: quando seus desejos se transformaram em dor, eram repentina e maravilhosamente cheios e saciados. O problema não é persuadir Deus a nos encher, mas querer Deus a ponto de permitir que ele nos encha!

Em geral, o cristão é tão frio e tão acomodado com sua condição miserável que não existe um vácuo de desejo suficiente para que o bendito Espírito consiga entrar com ímpeto e satisfazê-lo em verdadeira plenitude.

De tempos em tempos, aparece no cenário religioso uma pessoa cujos anseios espirituais se tornam tão volumosos e importantes que excluem todos os demais interesses de sua vida. Tal pessoa se recusa a acomodar-se com as orações seguras e convencionais que se ouvem semana após semana, ano após ano nas reuniões das igrejas.

Seus anseios a dominam e fazem dela, muitas vezes, um incômodo para quem está por perto. Seus colegas e companheiros cristãos ficam perplexos, olham um para o outro com expressão de superioridade, mas, tal qual o cego que suplicava para recuperar sua vista apesar da repreensão dos discípulos, ela grita “cada vez mais” (Mc 10.48). E, se ainda não tiver preenchido as condições de Deus ou se houver algo impedindo a resposta às suas orações, ela pode continuar batalhando em oração até altas madrugadas.

Não é a hora da noite, mas o estado do coração que decide o tempo de sua visitação. Para ela, pode bem ser que o avivamento chegue depois da meia-noite.

É muito importante, porém, que compreendamos que longas vigílias de oração ou, até mesmo, fortes lamentos e lágrimas não são, em si mesmos, atos meritórios. Todas as bênçãos fluem da bondade de Deus, assim como águas de uma fonte.

Mesmo os galardões por boas obras que alguns pregadores enfatizam tanto e que tentam contrastar aos benefícios recebidos somente pela graça são, em sua essência, tão provenientes da graça quanto o próprio perdão dos pecados. O apóstolo mais dedicado não pode afirmar ser nada além de um servo inútil. Os próprios anjos derivam sua existência da pura bondade de Deus. Nenhuma criatura pode “merecer” coisa alguma no sentido mais comum da palavra. Todas as coisas vêm unicamente da soberana bondade de Deus.

Todos os desejos reduzidos a um só

Contudo, apesar de toda a boa vontade de Deus para conosco, ele é incapaz de conceder o desejo do nosso coração até que todos os nossos desejos sejam reduzidos a um só! Quando tivermos tratado com nossas ambições carnais, quando tivermos pisado o leão e a víbora da carne, esmagado sob os pés o dragão do amor próprio e passado a verdadeiramente nos considerar mortos para o pecado, somente então Deus poderá nos ressuscitar para novidade de vida e encher-nos com seu bendito Espírito Santo.

É fácil aprender a “doutrina” de avivamento pessoal e vida vitoriosa. É outra coisa, bem diferente, tomar nossa cruz e caminhar firmemente ao monte escuro e amargo da renúncia a si mesmo. Aqui muitos são chamados e poucos escolhidos. Para cada pessoa que realmente atravessa o rio e entra na terra prometida, há muitas que permanecem do lado contrário, olhando com certo anelo para a herança maravilhosa, e depois se voltam com pesar para a segurança mais garantida das regiões arenosas da velha vida.

Não, de fato não há nenhum mérito intrínseco em orações ou vigílias noturnas, porém somente uma mente séria e um coração determinado orarão além do horário normal e entrarão no período incomum. A maioria dos cristãos nunca o faz. E é mais do que provável que o raro indivíduo que persiste em buscar a experiência incomum com Deus a alcançará depois da meia-noite.

Extraído de Born After Midnight (Nascido depois da meia-noite), de A. W. Tozer, © 1959, 1987, pelos “Children of A. W. Tozer”. Utilizado com permissão de WingSpread Publishers, uma divisão de Zur Ltd.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *