Desperte-se Para Deter Deus

Publicado em: 27/01/2012 Categorias: Arauto / O Juízo Deve Começar Pela Casa de Deus

Arauto - Ano 29 - nº 04 - Nov/Dez 2011

Por: E. M. Bounds

“A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos. Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós e, orando, pediu que não chovesse, e, por três anos e seis meses, não choveu sobre a terra. E orou outra vez, e o céu deu chuva, e a terra produziu o seu fruto” (Tg 5.16-18).

Esta incessante pressão de negócios e compromissos está me destruindo – na alma, pelo menos, quando não é no corpo também. Mais solitude e oração de madrugada! Minha suspeita é de que tenho reservado, normalmente, pouco tempo para disciplinas espirituais, como tempo devocional, meditação, leitura das Escrituras e outras. Consequentemente, estou ficando desnutrido, frio e insensível. Devo reservar duas horas ou uma hora e meia por dia. Tenho ido dormir muito tarde e, por isso, mal consigo meia hora de manhã para meu tempo devocional. A experiência de todos os homens de bem confirma a verdade de que, sem um tempo devocional adequado, a alma fica desnutrida. Porém, tudo pode ser feito por meio da oração – oração poderosa, posso dizer – e por que não? Ela é poderosa somente por causa da ordenação graciosa do Deus de amor e verdade. Portanto, diante disso, ore, ore, ore! (William Wilberforce)
Embora nossas devoções não possam ser avaliadas somente pelo relógio, o tempo é um elemento essencial. A habilidade para esperar, e permanecer, e insistir é imprescindível para a comunhão com Deus. A pressa, imprópria e prejudicial em qualquer contexto, é extremamente nociva quando se trata da importantíssima questão da comunicação com Deus. Devocionais curtos são fatais para a verdadeira espiritualidade. Quietude, compreensão, convicções fortes nunca são os companheiros da pressa. Tempo escasso para comunhão resulta em esvaziamento de vigor espiritual, bloqueio de progresso, enfraquecimento dos fundamentos espirituais e definhamento da raiz e da flor da vida de intimidade. É causa certa e frequente de frieza na fé, indício infalível de espiritualidade rasa, facilita o engano e abre o caminho para apodrecer a semente divina e empobrecer o solo espiritual.
É verdade que as orações feitas em tempos antigos e registradas na Bíblia eram curtas, mas os homens de oração permaneciam na presença de Deus durante tempos prolongados de batalhas doces e santas. Obtiveram vitória usando poucas palavras, mas muitas vezes depois de longas esperas. As orações de Moisés que são registradas talvez sejam curtas, mas ele orou a Deus com jejum e fortes clamores por quarenta dias e quarenta noites.
As palavras de Elias na oração poderiam ser escritas em poucas frases, mas, sem dúvida, ele passou muitas horas em batalha intensa e altas transações com Deus antes de poder, com ousadia confiante, afirmar a Acabe: “Nem orvalho nem chuva haverá nestes anos segundo a minha palavra” (1 Rs 17.1). O resumo verbal das orações de Paulo é curto, contudo ele orava “noite e dia, com máximo empenho” (1 Ts 3.10). A oração do Pai Nosso é uma síntese divina para lábios infantis, mas o homem Jesus Cristo orou muitas noites inteiras antes que sua obra fosse completada, e foram esses períodos de comunhão prolongados que deram à sua obra um acabamento de perfeição, e ao seu caráter a plena glória de sua divindade.

O preço de “orar pra valer”

Empenho espiritual é muito desgastante, e as pessoas relutam muito em assumi-lo. Orar, orar pra valer custa um dispêndio considerável de atenção e tempo, algo que a carne não tem prazer em fazer. Poucas pessoas possuem fibra de caráter de tal natureza que queiram pagar um alto preço de empenho e sacrifício quando algo bem mais superficial seria igualmente aprovado pelo público em geral. Podemos acomodar-nos à nossa oração de mendigo até que nos pareça uma oração bem satisfatória, pois, pelo menos, nos dá uma aparência de estar dentro de uma normalidade decente e ajuda a acalmar a consciência — exatamente como os piores narcóticos!
Podemos negligenciar nosso tempo de oração e não perceber o perigo até que os fundamentos da nossa vida espiritual comecem a desmoronar. Ter um tempo devocional apressado enfraquece a fé, mina as convicções, produz uma espiritualidade questionável. Estar pouco tempo com Deus é ser pequeno para Deus. Encurtar a oração torna o caráter espiritual da pessoa inadequado, sem substância, mesquinho e desmazelado.
É necessário dar tempo suficiente para que haja um pleno fluir de Deus para o nosso espírito. Devocionais curtos cortam o condutor do pleno derramamento do Senhor. Necessita-se de bastante tempo nos lugares secretos para conseguir a plena revelação de Deus. Ter pouco tempo disponível e estar sempre apressado estragam a beleza do quadro que Deus quer pintar.
Henry Martyn, missionário inglês, lamentou que “a falta de leitura devocional em particular e o pouco tempo para orar, por conta do trabalho incessante de preparar sermões, causaram uma sensação de estranheza entre meu coração e Deus”. Avaliou que havia dedicado tempo demais às ministrações públicas e pouco tempo à comunhão particular com Deus. Sentiu fortemente que deveria separar tempo para o jejum e para oração intensa. Como resultado disso, ele anotou: “Fui auxiliado esta manhã a orar por duas horas”.
William Wilberforce, o companheiro dos reis, disse: “Devo reservar mais tempo para minhas devoções particulares. Tenho passado tempo demais em público e, para mim, o encurtamento do meu tempo devocional deixa o espírito desnutrido; vai ficando, a cada dia, mais pobre e debilitado. Tenho trabalhado até altas horas da noite”. A respeito de um fracasso no Parlamento, ele escreveu: “Quero registrar aqui minha tristeza e minha vergonha, que resultam, provavelmente, de ter diminuído meu tempo com Deus; provavelmente, foi em virtude disso que ele permitiu que eu tropeçasse”. Mais solitude e orar de madrugada foram as soluções adotadas.
Mais tempo e o hábito de levantar cedo para orar avivariam e revigorariam a vida espiritual decadente de muitas pessoas hoje. Mais tempo e oração de madrugada resultariam em vidas santas. Uma pessoa com vida santa não seria tão rara e tão difícil de encontrar se nosso tempo devocional não fosse tão curto e tão apressado. Um temperamento semelhante a Cristo em sua doce e desapaixonada fragrância não seria um legado tão estranho e impossível se soubéssemos permanecer por mais tempo e com mais intensidade no recinto secreto de oração. Vivemos com tanta pobreza espiritual porque oramos de forma tão medíocre. A abundância de tempo para desfrutarmos dos manjares divinos no recinto secreto fartaria de banha e de gordura a nossa alma (Sl 63.5).
Nossa capacidade para estar diante de Deus no recinto secreto mede a nossa capacidade para estar com ele lá fora. As visitas apressadas ao recinto secreto são enganosas e deficientes. Não somente somos iludidos por elas, mas também perdemos muitos tesouros, de várias maneiras. A permanência no recinto secreto instrui e faz triunfar. As maiores vitórias são resultado, muitas vezes, de grandes esperas – esperando até que as palavras e os planos próprios se esgotem. A espera silenciosa e paciente é que conquista a coroa. Jesus Cristo pergunta com tom de dor: “Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite?” (Lc 18.7).
Orar é a maior obra que podemos fazer – mas, para fazê-la bem, é preciso haver quietude, tempo e determinação; de outro modo, é rebaixada para uma das tarefas mais insignificantes e corriqueiras. A verdadeira oração tem os maiores resultados positivos, enquanto a oração medíocre, os menores. Nunca é demais quando oramos pra valer; já as orações rotineiras e sem coração são cansativas e totalmente ineficazes.
Precisamos aprender de novo o valor da oração, entrar novamente na escola da oração. Não há nada que tome mais tempo para ser aprendido. E se desejamos aprender a maravilhosa arte de orar, não adianta dar um fragmento de tempo aqui e outro acolá, mas teremos de exigir e segurar com garra de ferro as melhores horas do dia para dedicá-las a Deus e à oração. Do contrário, não haverá nada que mereça o nome de oração.

Entregando-nos à oração

Esta, no entanto, não é uma era de oração; poucos se dedicam a isso. A oração é menosprezada por pregador e sacerdote. Nesses dias de correria e pressão, as pessoas não querem tirar tempo para orar. Há pregadores que “fazem orações” como uma parte do seu programa, em ocasiões regulares ou oficiais, mas “ninguém há que invoque o teu nome, que se desperte, e te detenha” (Is 64.7). Quem ora como Jacó – até ser coroado como príncipe e intercessor perseverante? Quem ora como Elias – até que todas as forças bloqueadas da natureza sejam abertas e a terra castigada e faminta floresça como o jardim de Deus? Quem ora como Jesus que saiu para o monte e permaneceu toda a “noite orando a Deus” (Lc 6.12)?
Os apóstolos se consagraram à oração (At 6.4). Não há nada mais difícil do que levar as pessoas e, até mesmo, os pregadores a fazerem isso. Alguns até doam seu dinheiro – alguns em abundância –, mas não querem “entregar-se” à oração. Há muitos pregadores que são capazes de dar grandes discursos, com muita eloquência, sobre a necessidade de avivamento e da expansão do Reino de Deus –, mas pouquíssimos estão dispostos a fazer aquilo sem o qual toda pregação e todo planejamento serão menos do que inúteis: ORAR. Está fora de moda, uma arte quase perdida, e o maior benfeitor que a nossa geração poderia ter seria um homem [ou um ministério] que trouxesse os pregadores e a Igreja de volta à oração.
Isto afirmamos como o nosso mais sóbrio juízo: a grande necessidade da Igreja nesta era – e em todas as épocas – é de homens de tal convicção, de tal santidade sem mancha, de tal vigor espiritual e zelo apaixonado que suas orações, sua fé, sua vida e seu ministério sejam tão radicais e agressivos que produzam revoluções espirituais, que marquem época em vidas individuais e na Igreja.
Não estamos falando de homens que produzem agitações sensacionalistas por meio de estratégias originais, nem que atraem multidões por meio de entretenimento agradável; estamos nos referindo a homens que possam trazer despertamento e produzir revoluções pela pregação da Palavra de Deus e pelo poder do Espírito Santo, revoluções que transformem toda a corrente e a direção dos acontecimentos.
Capacidade natural e vantagens de estudo ou cultura não figuram como fatores nessa questão, mas capacidade de fé, capacidade de orar, o poder da consagração total, a habilidade de diminuir ou ignorar a si mesmo, uma absoluta perda do “eu” na glória de Deus e uma constante e insaciável busca e aspiração por toda a plenitude de Deus. Homens assim podem inflamar a Igreja para Deus, não de uma maneira barulhenta e ostentosa, mas com um intenso e silencioso calor que derrete e move todas as coisas para Deus.
Deus pode operar maravilhas – se puder encontrar os homens certos. Os homens podem operar maravilhas – se puderem conhecer a Deus e ser guiados por ele. O pleno revestimento do Espírito, que transtornou o mundo no tempo da igreja primitiva, é essencial também nestes últimos dias. Homens que sejam usados por Deus para alvoroçar poderosamente o estado das coisas para Deus, que tragam revoluções espirituais para mudar todo o aspecto das coisas são a maior necessidade da Igreja em todo o mundo.

Edward McKendree Bounds (1835-1913) foi ministro metodista e autor de vários livros sobre oração nos Estados Unidos.

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