Você Não Precisa Entender Suas Aflições – Basta-lhe a Graça!

Data de publicação: 27/11/2011
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Edição 16 e Revista Impacto - 1998 a 2014.

Por: David Wilkerson

Recebi há algum tempo uma carta de uma senhora cristã muito querida, que era de partir qualquer coração:

“Em 1972, perdemos um filho portador da síndrome de Down, por causa de pneumonia. Ele tinha apenas dezessete meses de idade. Sete anos mais tarde, em 1979, perdemos nosso filho de quinze anos. Ele foi eletrocutado enquanto subia numa árvore no quintal. “Agora nosso filho de vinte e quatro anos tem  diabetes. E eu estou  com câncer, tendo que passar por quimioterapia. Quero perguntarlhe com sinceridade — é pecado perguntar a Deus: ‘Por que? Será que ele entende a nossa condição humana?

“Pastor David, alguma vez você já ficou zangado com Deus por um tempo? Eu já, e sei que isso é errado. Sinto-me envergonhada de ter tais pensamentos. Mas fico tão confusa tentando entender por que os cristãos sofrem tanto. Sei que não somos mais merecedores do que outros. Mas fico estupefata com todo o sofrimento que estamos passando.

“Tenho medo e ansiedade. E quero substituir todos meus medos por uma fé bem forte, que permaneça apesar dos sofrimentos. Contudo, continuo a perguntar — por que tanto sofrimento? Por quanto tempo isso vai continuar?”

Só posso tentar fazer uma idéia do horror que ela sentiu ao encontrar seu filho jogado no chão, morto, depois de ser eletrocutado. Entendo o clamor desta mãe: “Por que tive que enterrar outro filho, meu Deus?

Por que estão mortos dois dos nossos filhos, e o outro sofre de uma doença  fatal? Eu estou com câncer, e sofro  com a radioterapia e a quimioterapia. Todos nós fomos atingidos.

Por que todo este sofrimento? Quando terminará?  Não posso explicar por que esta família teve de passar por tão grandes aflições. Mas posso lhe dizer: Não é pecado perguntar “Por que”! Até o nosso bendito Senhor fez esta pergunta, quando estava pendurado em grande sofrimento na cruz.

O próprio Jesus foi chamado um “homem de dores, e que sabe o que é padecer” (Is 53.3). Creio que Cristo compreende todos os nossos questionamentos, porque se relaciona plenamente com nossas angústias humanas.

Ele nos ouve quando clamamos: “Senhor, por que me fazes passar por tudo isto? Eu sei que não vem da tua mão — entretanto permites que o diabo me atormente. Por que tenho de acordar todos os dias com esta nuvem escura pairando sobre mim? Por que tenho de suportar toda esta dor? Quando terminará este pesadelo?”

O mundo secular exige uma explicação para todas as dores e sofrimentos nesta vida. Muitos incrédulos me perguntam: “Sr. Wilkerson, se o seu Deus é real — se realmente é amoroso, como o senhor diz — por que permite que a fome se prolongue? Por que permite que enchentes e miséria devastam nações pobres, exterminando milhares de pessoas de uma só vez? Como ele consegue ficar de lado olhando, enquanto a AIDS mata milhões na África? Por que é que milhares são trucidados em países dilacerados por guerras internas, que nunca conheceram a paz?

“Eu simplesmente não posso acreditar no seu Deus, Reverendo. Devo até ter mais amor do que ele — porque se eu tivesse o poder que ele tem, acabaria com todo este sofrimento.”

Não vou tentar explicar por que as nações sofrem — por que há tanta miséria, pestes, inundações, fome, doença e destruições terríveis. Contudo a Escritura nos dá uma luz sobre os sofrimentos do mundo, através do quadro que pinta sobre o povo de Deus, Israel da antigüidade. Aquela nação sofreu calamidades semelhantes: holocaustos, cativeiro, colapso econômico, doenças estranhas (algumas das quais atingiram exclusivamente Israel). Às vezes os sofrimentos de Israel eram tão horríveis que até seus inimigos tinham compaixão deles.

Por que Israel sofreu coisas tão terríveis? A Escritura mostra claramente: em cada ocasião, foi porque abandonaram a Deus e se voltaram para idolatria e feitiçaria.

Vemos a mesma coisa acontecendo em muitas nações hoje. Por exemplo, por cerca de duzentos anos missionários se espalharam pela África.

Contudo alguns países africanos rejeitaram a Cristo — perseguindo e sacrificando milhares de missionários e milhões de convertidos.

Tragicamente, quando uma nação rejeita o evangelho — voltando-se ao invés disso para idolatria e ocultismo – o resultado é pobreza, loucura, doenças e sofrimento indescritível.

Com toda certeza isto ocorreu em Haiti. Atualmente aquele país está se tornando literalmente enlouquecido. Recebemos uma carta de um casal de missionários de lá, sustentado pelo nosso ministério. Contaram que seus vizinhos de ambos os lados foram roubados e agredidos — e que com toda probabilidade eles estavam marcados para ser as próximas vítimas. Pediram que orássemos pela sua proteção.

Por que tamanha calamidade no Haiti? O satanismo reina lá, e a feitiçaria é virtualmente a religião oficial. Já pude testemunhar isto pessoalmente, numa viagem de pregação ao Haiti. Falei com curandeiros e vi o resultado das suas práticas de vodu: pobreza, desespero, medo, doenças, fome, corrupção.

O mundo não pode pôr a culpa disto em Deus. É evidente que isto foi obra do diabo, que deseja remover toda influência cristã da ilha. Sim, o Haiti foi evangelizado — mas os haitianos estão rejeitando o evangelho, e amando mais as trevas do que a luz. O resultado trágico é profundo sofrimento.

Por todo nosso planeta, os pecadores poluem a terra, o ar e o mar. Apesar disso o mundo culpa a Deus por todas as mudanças atmosféricas que estão causando inundações, miséria e doenças, afligindo tanto humanos quanto animais. As pessoas insistem no seu direito à promiscuidade e à escolha de múltiplos parceiros sexuais — e no entanto Deus é considerado culpado pela expansão da AIDS. Funcionários das Nações Unidas são ridicularizados quando tentam ensinar a abstinência sexual em países pobres.

Nos Estados Unidos um verdadeiro oceano de sangue inocente está sendo derramado. Na última estatística, 40 milhões de bebês já foram mortos pelo aborto. Há uma lei pendente no Congresso americano que estabelece que se um bebê sobrevive a um procedimento clínico de aborto, a mãe pode optar por simplesmente permitir que a criança morra. O bebê é colocado de lado — sem alimento nem cuidado, e condenado a morrer de inanição. Neste momento, enfermeiras de todo o país estão se manifestando, confessando que não conseguem mais dormir à noite por ouvirem o choro dessas crianças mortas.

Esta geração perversa tem um desprezo descarado pela vida. Entretanto, parece que não conseguimos entender como é que nossos filhos acabam matando seus colegas de escola. Afirmamos não compreender por que cinco adolescentes “normais” mataram o proprietário chinês de uma lanchonete, por causa de uma refeição de menos de quinze dólares. A razão de tais tragédias está muito clara: estamos colhendo aquilo que semeamos, pois nós próprios derramamos sangue inocente.

Quando o mundo grita: “Onde está Deus diante de tudo isto?”, eu respondo: “Ele está chorando angustiado por tudo que a humanidade está fazendo”.

Enfocando a Aflição e o Sofrimento do Povo de Deus

Neste momento, muitos leitores deste artigo estão passando por profundo sofrimento: dor física, tumulto emocional, tentações poderosíssimas — e estão perguntando: “Por que?” Talvez você esteja neste grupo. Está cansado de se sentir perdido e condenado e de achar que Deus de alguma maneira está zangado consigo. Está esgotado por causa de tantos auto-exames. Está cansado de todos os maus conselhos que recebeu, que somente o fizeram sentir-se ainda pior.

Talvez já tenha passado do ponto de perguntar “Por que”. Agora está dizendo: “Senhor, tu sabes que eu te amo. Minha fé em ti é forte. Mas esta provação não passa. Não sei quanto tempo vou conseguir agüentar. Até onde o Senhor acha que posso suportar?”

O apóstolo Paulo nos conta que sua vida foi um exemplo de como se deve lidar com aflições. Ele escreve: “Mas, por esta mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade e servisse eu de modelo a quantos hão de crer nele para a vida eterna” (1 Tm 1.16).

Na minha opinião, ninguém além de Jesus sofreu tanto de várias maneiras, nas mãos de tantas pessoas — como Paulo. No momento exato da sua conversão Paulo foi previamente advertido dos sofrimentos que teria de suportar: “Mas o Senhor lhe disse… eu lhe mostrarei (a Paulo) quanto lhe importa sofrer pelo meu nome” (Atos 9.15,16). O próprio Jesus está declarando aqui: “Vou mostrar a Paulo o quanto ele terá de sofrer por amor de mim”. De modo semelhante, nossas vidas devem seguir o padrão do exemplo de Paulo.

1. O Padrão de Paulo Começa Com uma Abundância de Revelação

Os sofrimentos e as provações mais profundos são destinados aos servos dedicados que recebem revelações do próprio coração de Deus. Paulo testifica: “E para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne” (2 Co 12.7).

Se você colocou o seu coração totalmente em Cristo — determinando-se a conhecê- lo intimamente e a buscá-lo avidamente para abrir-lhe sua palavra — sua vida será colocada num caminho de sofrimento. Experimentará tempos difíceis, agonias profundas e grandes aflições a respeito das quais cristãos frios e carnais desconhecem totalmente.

Isto foi verdade na vida de Paulo. Quando Paulo se converteu, ele não ficou satisfeito em aprender de Cristo de segunda mão, mesmo através dos discípulos de Jesus em Jerusalém. Este homem queria conhecer o Senhor intimamente e por sua própria experiência. Por isso Paulo disse: “Não consultei carne e sangue” (Gl 1.16). Pelo contrário, ele se isolou na Arábia por três anos (veja Gl 1.16-17).

Na verdade, a revelação de Cristo que Paulo recebeu não veio de uma pessoa. O apóstolo testifica: “Porque eu não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo” (Gl 1.12).

Dou graças a Deus pelos professores da Bíblia. Eles abrem as Escrituras para nós, revelando muitas maravilhas e mistérios da fé. Mas o fato é que a revelação de Jesus Cristo não pode ser ensinada. Tem de ser dada pelo Espírito Santo. E é dada àqueles que, como Paulo, se fecham na sua própria Arábia, determinados a conhecer a Cristo.

Esta qualidade separa os dois tipos básicos de cristãos. Um tipo diz: “Eu dei o meu coração para Jesus” — mas isso é tudo que podem afirmar a respeito da sua fé. Alegram- se que vão para o céu e não para o inferno. Mas não vão além disso na sua caminhada com Cristo.

O outro tipo diz: “Dei o meu coração para Jesus – mas não descansarei enquanto não conhecer o coração dele”. Este servo não vai descansar enquanto não carregar o fardo de Cristo, andar como Cristo andou, agradar a Deus como Cristo o agradou. Esta determinação simplesmente não pode ser ensinada.

Apesar disto, preste atenção — se você realmente quer que Jesus lhe dê o seu coração, deve estar preparado para suportar aflições. De fato, a revelação de Cristo que você receber virá acompanhada de sofrimentos e aflições que nunca antes experimentou.

Paulo disse que recebeu revelações de Deus que estiveram escondidas dos olhos dos homens por séculos. “O qual em outras gerações não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, como agora foi revelado aos seus santos apóstolos e profetas pelo Espírito” (Ef 3.5).

Quando Paulo fala de receber revelações (veja 2 Co 12.7), a palavra que ele usa significa “tirar a cobertura, revelar coisas escondidas”. Deus tirou a tampa de grandes mistérios da fé — e mostrou a Paulo as maravilhas da sua obra salvadora.

Finalmente, Paulo se refere a uma visão suprema que recebeu uns catorze anos antes, logo depois da sua conversão. Ele conta que foi “arrebatado ao paraíso (céu) e ouviu palavras inefáveis (indizíveis), as quais não é lícito ao homem referir” (2 Co 12.2-4). Em síntese, Paulo recebeu uma inarrável revelação do céu.

Que abundância de revelação recebeu Paulo! Ele experimentou uma incrível caminhada pelo céu, vendo e ouvindo coisas jamais testemunhadas neste mundo. Contudo, tão logo recebeu estas revelações, Paulo entrou em grandes provações.

2. O Padrão Paulino Incluiu um Espinho na Carne

“E para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne” (2 Co 12.7).

Há duas espécies de sofrimento entre os crentes. Em primeiro lugar, há as aflições e tentações comuns a todos os seres humanos. Jesus disse que a chuva cai sobre justos e injustos (veja Mt 5.45). Ele se refere aos problemas conhecidos da vida — conflitos conjugais, preocupações com filhos, lutas contra depressão e medo, pressões financeiras, doença e morte — coisas comuns tanto aos santos quanto aos pecadores.

Entretanto, há também sofrimentos que afligem somente os justos. Davi escreve: “Muitas são as aflições do justo, mas o Senhor de todas o livra” (SI 34.19). Observe que Davi não diz que nossa libertação será rápida ou imediata. Muitas vezes nossa cura vem com o decorrer do tempo, através da oração, da confiança e da fé.

Este é o tipo de sofrimento que Paulo suportou. As grandes revelações que recebeu logo o colocaram numa vereda de aflições profundas que durariam por toda sua vida. Pense a respeito disto: na época em que escreveu esta carta aos Coríntios, já fazia catorze anos que era convertido — e ainda não fora libertado do espinho que mencionou. Ele sabia que provavelmente viveria com esta aflição até o dia da sua morte.

Nós não sabemos exatamente o que era aquele espinho de Paulo. Estudiosos da Bíblia conjecturam que poderia ser um problema de visão, ou um defeito da fala, talvez uma gagueira. Um comentário vai mais longe e tenta provar que o espinho de Paulo era uma falha de caráter — mais especificamente, um temperamento explosivo. Outras especulações vão desde desejos carnais até tormentos de pensamentos demoníacos, e até mesmo a possibilidade de uma esposa abusiva. Entretanto todas estas suposições não passam de mera especulação.

De qualquer modo, Paulo admitiu que havia uma grande batalha na sua vida. Ele estava dizendo: “Quando voltei daquelas grandes revelações do paraíso, apareceu um espinho na minha carne. Um mensageiro de Satanás para me esbofetear.” A expressão “me esbofetear” aqui tem o significado de “bater na minha face”. Paulo está dizendo: “Deus permitiu que o diabo batesse na minha face”.

Portanto, o que era este mensageiro de Satanás que esbofeteou Paulo, batendo-lhe na face? Não creio que fosse um mero sofrimento físico, tais como fraqueza das vistas ou gaguejar na fala. Nem tampouco creio, como já cri no passado, que a bofetada em Paulo fosse uma enxurrada de mentiras e de censuras que tinham por objetivo fazê-lo desistir.

Não, acho que temos uma pista na própria frase de Paulo: “E para que não me ensoberbecesse” (2 Co 12.7). Creio que Paulo está falando aqui de auto-exaltação — uma vaidade particular. Veja, Paulo tinha sido um fariseu — e todos os fariseus eram orgulhosos. Havia uma atitude de superioridade en- tranhada neles. “Graças te dou porque não sou como os demais homens pecadores.” Além disso, Paulo tinha razões na carne para ser orgulhoso. Era altamente inteligente e fora presenteado pelo Espírito Santo com abundância de dons.

Acho que o diabo sabia que este orgulho era a fraqueza primária de Paulo — e ele atacou neste ponto. Ele elogiou Paulo, despertou o seu ego, martelou-o com um pensamento de orgulho após outro: “Você é o único que recebeu esta revelação”. Que maior espinho pode haver do que ter Satanás alimentando diariamente o nosso ponto mais vulnerável? Paulo tinha que ir para a cruz constantemente, depositando lá todos seus dons maravilhosos, a fim de mortificar o seu orgulho.

Satanás também sabia da inclinação de Davi para a luxúria. Ele alimentou a fraqueza daquele homem piedoso fazendo com que uma linda mulher se banhasse diante dos seus olhos. Semelhantemente, volta e meia, o diabo bate nas nossas faces com oportunidades e tentações que alimentam nossa vaidade, nossa luxúria, nossa ambição, nosso medo — qualquer que seja a nossa fraqueza primária.

Entretanto o diabo não podia esbofetear Paulo sem antes obter a permissão de Deus.

Sabemos, por exemplo, que Deus permitiu que Satanás testasse a Jó. E agora Deus tinha um propósito em permitir o espinho na carne de Paulo. Ele sabia que a maior ameaça ao testemunho de Paulo não era sensualidade, ganância ou desejo de poder; não, Paulo era desatento às coisas da carne. Pelo contrário, a sua fraqueza era o orgulho, por ter recebido grandes revelações.

Paulo escreve: “Três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim” (2 Co 12.8). Na essência ele está dizendo: “Busquei ao Senhor diligentemente, com todo meu coração— e ele se revelou a mim e em mim. Ele até me mostrou sua glória no céu. Entretanto, exatamente naquele momento, comecei a experimentar um lembrete palpitante da minha fragilidade humana.

“Implorei ao Senhor: ‘Livra-me disto. É demais esta minha fraqueza, esta importunação demoníaca. Até quando devo ser humilhado por estes ataques? Por quanto tempo deverei suportar este sofrimento? Senhor, por favor, livra-me.'”

3. O Padrão de Paulo Conclui com a Resposta de Deus para ele.

Deus não se preocupou em explicar qualquer coisa para Paulo. E ele nada garantiu quanto ao pedido de Paulo para pôr fim ao seu sofrimento. Tampouco removeu o espinho nem mandou embora o mensageiro de Satanás. Contudo, Deus deu para Paulo algo muito melhor. Revelou-lhe como poderia atravessar seus dias com vitória: “Então ele me disse: a minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Co 12.9).

Em essência Deus estava dizendo: “Paulo, estou lhe dando graça para as provações de cada dia. E isso lhe será suficiente, em tudo que enfrentar. Não precisa entender todas as coisas que terá de passar. Por isso não precisa parar para perguntar ‘Por que’. Você tem a minha graça — e isso é tudo o de que necessita.”

Recebemos muitas cartas de pessoas que vivem em meio a terrível sofrimento. Jovens nos escrevem contando que são criados em lares impregnados de feitiçaria — onde são agredidos, violentados, negligenciados. Um adolescente de dezesseis anos nos contou que seus pais o iniciaram no consumo de drogas. Estas pessoas clamam: “Eu amo a Deus — tenho orado e buscado sua presença. Tenho posto toda a minha confiança nele. Mas diariamente enfrento inimigos poderosos — e não vejo sinais de libertação.”

Não pretendo desanimar ninguém. Mas, a exemplo de Paulo, seu sofrimento pode ser daqueles que acontecem com os mais corretos servos de Deus. Se for assim, você terá de atravessar cada dia confiando somente na sua graça. Sua libertação não será instantânea, de uma vez por todas — e sim uma caminhada do dia-a-dia.

Repito: Não é pecado perguntar a Deus “por que” — por que todo seu sofrimento, por que esta dor interminável? Entretanto, também lhe afirmo, não vai adiantar muito continuar perguntando — porque Deus não responde esse tipo de pergunta. Ele não nos deve nenhuma explicação pelos nossos sofrimentos.

Davi perguntou com sinceridade: “Por que estás abatida, ó minha alma? … Por que te esqueceste de mim? Por que hei de andar eu lamentando sob a opressão dos meus inimigos?… por que te perturbas (minha alma) dentro em mim?” (SI 42.5,9,11). Sabemos que Deus amava Davi.

Entretanto a Escritura não registra a resposta de Deus às suas perguntas.

Jesus orou: “Passa de mim este cálice. Pai, por que me abandonaste?” (Veja Mt 26.39; 27.46). Contudo, em nenhuma parte da Bíblia lemos a respeito de uma resposta de Deus às perguntas do seu amado Filho.

Pessoalmente, tenho feito estas mesmas perguntas por toda minha vida. Com a idade de vinte e oito anos, eu trouxe a minha família para Nova Iorque a fim de trabalhar com as gangues de jovens e os viciados. Um dia, alguns anos depois da nossa mudança, minha esposa Gwen sentiu dores tão fortes que se contorcia. Levamo-la depressa ao hospital, onde foi submetida a uma operação de emergência. Então ouvimos aquela palavra terrível: câncer. Ela tinha um tumor no seu intestino do tamanho de uma laranja.

Lembro-me da minha pergunta para Deus naquela ocasião: “Por que, Senhor? Abandonamos tudo para seguir-te e vir para cá. Demos as nossas vidas para o ministério nas ruas desta cidade. Por que então estamos sofrendo isto agora? Tu estás triste comigo por alguma coisa? O que é que eu fiz?”

Fiz as mesmas perguntas outras cinco vezes — cada vez que Gwen foi atacada por outro câncer. Eu também fiz as mesmas perguntas em cada uma das vinte e oito cirurgias a que ela foi submetida.

Perguntei novamente a Deus “por que” em Houston, Texas, quando a nossa filha Debbie estava deitada na posição fetal, por causa da agonia que o câncer lhe causava. Ela tinha um tumor na mesma região que a sua mãe. Clamei: “Senhor, já era difícil com a Gwen — agora, isto é demais. Por que?”

Perguntei “por que” mais uma vez quando a nossa outra filha, Bonnie, estava num hospital em El Paso, Texas, recebendo tratamento por radiação por causa de um câncer. Ela estava cercada por médicos que usavam roupas de chumbo, o corpo dela bombardeado durante três dias com radiação mortal. Os médicos lhe deram 30 por cento de chance de sobreviver. Clamei: “Deus, tu tens que estar zangado comigo. Não há outra explicação. Até que ponto tu esperas que eu suporte?”

Finalmente dirigi-me a uma estrada isolada e quieta e ali, por duas horas, gritei para Deus: “Haverá um fim a tudo isto? Dei tudo de mim para ti, todos os dias. E quanto mais eu te busco, mais sofrimento vejo.”

Também sei o que é ser esbofeteado por um mensageiro de Satanás. Já fui tentado e seduzido ao extremo. Tive inimigos se levantando contra mim de todos os lados. Fui difamado por boatos, falsamente acusado, rejeitado por amigos. Naqueles tempos escuros, eu caí de joelhos, gritando:

“Por que, Senhor? Tudo o que eu quero é estar contigo. Por que é que permites que Satanás me incomode? Por quanto tempo ainda terei que lutar contra esta fraqueza?” Entretanto, da mesma maneira que Deus não explicou nada para Paulo, ele nunca respondeu às minhas perguntas.
Acredito que quando estivermos no céu, o Senhor nos explicará tudo. Teremos uma eternidade inteira para as respostas aos nossos questionamentos. E à medida que for nos mostrando, veremos que tudo fazia parte de um plano perfeito — orquestrado por um pai amoroso que sabia o que era necessário para nos manter de rosto em terra, andando em direção a ele.

Até Chegar Aquele Dia, Deus Nos Diz: “Tenho Toda a Graça de que Precisa para Superar as Lutas.

Freqüentemente ouvimos uma definição de graça como sendo simplesmente a bênção e o favor imerecido de Deus. Entretanto penso que graça é muito mais do que isto. Na minha opinião, graça é tudo o que Cristo é para nós durante nosso tempo de sofrimento — força, poder, bondade, misericórdia, e amor — com o propósito de nos ajudar a atravessar nossas aflições.

Quando olho para trás, para todos esses anos — anos de grandes provações, sofrimentos, tentações e aflições — posso testemunhar que a graça de Deus tem sido suficiente. A graça de Deus sustentou a Gwen durante todo o sofrimento. Sustentou também a Debbie e a Bonnie. Hoje, minha esposa e filhas estão todas fortes e com saúde e dou graças ao Senhor por isto.

A graça de Deus também me sustentou nas provações. E isto é suficiente para hoje. Então, algum dia, na glória, meu Pai me revelará o maravilhoso plano que tinha durante todo esse tempo. Ele me mostrará como a paciência foi formada em mim através de todas aquelas provações; como aprendi a ter compaixão pelos outros; como sua força se aperfeiçoou na minha fraqueza; como vim a compreender sua extrema fidelidade para comigo; e como me tornei (assim espero) mais parecido com Jesus.

Nós ainda podemos perguntar “por que” mas tudo continuará como mistério. Estou preparado para aceitar isto até que Jesus me chame. Não vejo o fim das minhas provações e aflições. Já as suporto há mais de cinqüenta anos e não acabaram ainda.

Contudo, através de tudo isso, ainda estou recebendo uma medida da força de Cristo que aumenta cada vez mais. Na verdade, minhas maiores revelações da sua glória aconteceram durante os tempos mais difíceis. Semelhantemente, nos seus momentos mais difíceis, Jesus liberará em você a medida mais completa da força dele.

Talvez nunca entendamos nossa dor, nosso desconforto e nossa depressão. Talvez nunca saibamos por que nossas orações por cura não foram respondidas. Mas não precisamos saber o porquê. Nosso Deus já nos respondeu: “Você tem a minha graça — e isto é tudo de que você precisa, meu filho amado.”

Artigo traduzido de uma mensagem ministrada em 06/11/2000.
David Wilkerson é partor da Times Square Church, em NY, e autor de vários livros como “A Cruz e o Punhal”.
Para adquirir este livro, ligue (19) 3462-9893