História da Igreja – Parte 8 – Por Que o Batismo e a Ceia Perderam seu Impacto?

Data de publicação: 01/12/2011
Categorias da Biblioteca:
Edição 08 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 08

Por: Christopher Walker

Nossas Raízes – Lições da História da Igreja para os nossos dias

Uma das maneiras de comparar a igreja moderna com a igreja primitiva é através de ver como cada uma cumpriu as duas ordens práticas que Jesus instituiu e que costumamos chamar de sacramentos: batismo e ceia do Senhor.

Sabemos que Jesus não falou muito sobre a igreja, nem deu muitas instruções de como os discípulos deveriam proceder para iniciar ou conduzir a igreja depois que ele fosse embora. Mas deu ordens claras para que batizassem quem cresse na pregação das boas novas do evangelho (Mt 28.19; Mc 16.15,16), e para que celebrassem a ceia do Senhor em memória dele (Lc 22.19; 1 Co 11.23-25).

Estes dois atos tornaram-se assim o centro do culto cristão primitivo, representando os mistérios fundamentais da fé: o batismo como figura da união mística do crente com a morte e ressurreição de Jesus, da sua separação do mundo e da sua inclusão no Corpo de Cristo; e a ceia mostrando a dependência contínua deste crente da verdadeira vida que vem de Jesus através da comunhão viva com ele no Espírito neste Corpo de muitos membros.

Sem poder tocar muito na profundidade teológica destas verdades, nem nas incontáveis dissensões e discussões que surgiram em torno delas desde o princípio, gostaríamos de focalizar simplesmente a forma como a igreja praticava estes atos como meio de analisar até que ponto nos distanciamos das ordens originais do Senhor.

No caso do batismo, duas características logo se destacam como ocorrências normais no livro de Atos: primeiro, que as pessoas arrependidas eram batizadas imediatamente após sua conversão; e segundo, que recebiam o dom do Espírito Santo logo após o batismo, ou em um caso, até antes dele (Atos 10.44-48; ver também Atos 2.38,41; 8.12-17; 8.36,38; 9.18; 16.14,15; 16.30-33; 18.8; 19.1-6).

Quando comparamos estas características com nossas práticas atuais, é fácil perceber que hoje tudo é diferente. As pessoas evangelizadas passam muito tempo se ajustando na igreja, decidindo se realmente querem fazer parte daquela congregação ou denominação específica; geralmente fazem um curso preparatório para o batismo que envolve mais conhecimento das doutrinas e práticas daquela igreja do que do verdadeiro significado da conversão e da união espiritual com Jesus e com seu Corpo na terra. E quando são batizadas, nada de muito especial ocorre na maioria dos casos. Alguns porque já tiveram uma experiência de conversão, em que possivelmente algo fundamental mudou na sua vida; outros, por não saberem em que a conversão realmente implica, simplesmente se tornam membros fiéis (ou infiéis) de um grupo religioso. Em outras palavras, o batismo em si não traz nada de especial para a pessoa no sentido espiritual. Afinal, como bons protestantes, não cremos no poder literal do elemento físico (ou seja, o batismo não salva), e não esperamos nada de sobrenatural através dele.

Não era o que acontecia na igreja primitiva. Quando Paulo encontrou discípulos em Éfeso que não haviam recebido o Espírito Santo, isto para ele era tão anormal que questionou-os até descobrir que seu batismo fora incompleto – foram batizados no batismo de João, não no batismo de arrependimento e fé em Cristo Jesus. Quando foram rebatizados com este novo entendimento, logo receberam o Espírito Santo, que transformou-os no tipo de discípulo que Paulo esperava (Atos 19.1-6).

Vejamos que o importante não era a fórmula do batismo, nem a sua forma, embora todas estas questões tenham sua fundamentação na Palavra. Apesar de ser um ato exterior de imersão na água, o importante era a palavra apostólica que recebiam, a fé nesta revelação, e os resultados que se manifestavam.

Como e por que tudo isto mudou? A chave está na resposta de quando mudou. A igreja não levou dois mil anos, nem mil, e nem quinhentos para perder a essência do seu poder original. Nem temos documentos que mostrem, passo por passo, como tudo evoluiu (ou melhor, como tudo decaiu). Como um historiador disse: “Durante cinqüenta anos após a morte do apóstolo Paulo, caiu uma cortina sobre a igreja, através da qual em vão tentamos enxergar; e quando a cortina finalmente é retirada … encontramos uma igreja em muitos aspectos diferente daquela que existia anteriormente” (J. L. Hurlburt, Story of a Christian Church, pg 41).

Em resumo, a igreja mudou tão logo desapareceram de cena os apóstolos que estiveram com Jesus e que transmitiam uma revelação viva dele na sua pregação. Quando passamos para os documentos da igreja no segundo e terceiro séculos, mesmo vendo uma igreja mais pura (e sofredora) do que hoje, encontramos nela práticas totalmente diferentes das que vimos na igreja de Atos. Assim, não foram propriamente os longos séculos da história que contaminaram a igreja, nem somente a ausência de perseguição a partir de 312, com Constantino, mas o desaparecimento da palavra de poder na boca e vida de pessoas que estiveram com Jesus.

Um documento do ano 215, escrito pelo bispo e teólogo de Roma, Hipólito, descreve como era feito o batismo no tempo dele. Para começar, o candidato passava por um período de preparação de no mínimo três anos (em alguns lugares ou épocas esta preparação podia chegar até a seis anos). Durante este período, o candidato não participava dos momentos mais sagrados da comunidade, principalmente da celebração da ceia do Senhor, nem mesmo como espectador. Nenhuma pessoa de fora podia estar presente nestas ocasiões. Tudo isto criava um enorme senso de expectativa, mistério e antecipação.

Antes do grande momento da cerimônia do batismo, havia um jejum, uma vigília durante uma noite inteira, e um longo período de oração. Num ambiente pouco iluminado, um ritual de exorcismo era feito para iniciar a cerimônia do batismo. Depois o candidato virava para o ocidente para renunciar Satanás, e para o oriente para confessar Cristo. Dependendo do lugar, havia várias unções com óleo antes e depois da imersão na água, enquanto a congregação cantava hinos. Depois da última unção, o novo cristão entrava em um ambiente bem iluminado para receber sua primeira eucaristia.

A idéia central do batismo mudou tanto depois dos primeiros séculos, que algumas pessoas chegaram ao ponto de adiar por anos seu batismo, por considerarem que era uma espécie de purificação mágica dos pecados, e que depois disso não haveria mais chance de perdão. Por esta razão, para garantir sua purificação total no final da sua vida, o imperador romano Constantino deixou seu batismo para pouco antes da sua morte!

Mesmo antes de Hipólito, temos documentos que descrevem os rituais dos cultos e das cerimônias, onde vemos que rapidamente a espontaneidade, e o mover genuíno do Espírito Santo, foram substituídos por orações e confissões preparadas e padronizadas.

O que aconteceu? O mesmo que aconteceria hoje se tentássemos imitar o padrão externo das práticas apostólicas. Por que não batizamos as pessoas imediatamente após confessarem Jesus? Porque sabemos que não podemos confiar muito na autenticidade da sua conversão. Nos tempos da perseguição, a igreja começou a fazer uma verificação mais profunda dos candidatos à conversão, para evitar possíveis traidores. Mas antes disso, a causa fundamental era que sem os apóstolos não havia mais o poder primitivo na pregação da palavra que levava as pessoas a uma conversão genuína e imediata.

Com a ceia, ocorreu basicamente a mesma coisa. No livro de Atos, vemos a igreja comendo pão de casa em casa (Atos 2.46) todos os dias, e depois passando a celebrar no primeiro dia da semana (Atos 20.7). Não era uma mera cerimônia formal, feita em memória de Cristo, com elementos apenas simbólicos, mas era ao mesmo tempo uma participação viva, pela fé, da vida de Jesus, e uma celebração da comunhão espontânea e real que havia entre todos (Atos 2.44,45; 4.32-35). Além de ser celebrada como verdadeiro centro do culto cristão com freqüência muito maior do que praticamos hoje, era uma refeição completa. Nesta refeição ágape, como era chamada por autores de épocas posteriores, havia demonstração da verdadeira união que Cristo traz entre pessoas de diferentes níveis sociais e econômicos, e era costume também trazer junto com o alimento, ofertas materiais para auxiliar os pobres e menos favorecidos (veja 1 Co 16.2). Assim o crente não só recebia com ações de graças o grande sacrifício de Jesus por ele, e a vida nova que ele nos dá, mas também oferecia a si mesmo e a seus bens de volta ao Senhor para abençoar a outros necessitados.

Ainda no Novo Testamento, vemos como este nível de vida e revelação na ceia começou a cair, e como Paulo tratou severamente com isto em 1 Coríntios 11.17-34. Dentro de pouco tempo, a refeição ágape começou a ser desvinculada da ceia do Senhor, e realizada em outras ocasiões, até ser eliminada completamente.

As mudanças na forma de celebrar a ceia, porém, não foram tão visíveis quanto o foram no batismo. Durante muito tempo, a celebração da ceia continuou com freqüência semanal ou até diária, ocupando o centro do culto – e na verdade até hoje continua desta forma nas igrejas católicas. Entretanto, o que antes fora uma expressão viva de comunhão com Cristo e com os irmãos no Espírito, acabou se transformando em um ritual formal, exterior apenas, sem vida. E logo começaram a surgir as controvérsias teológicas sobre transubstanciação ou simbolismo (embora sem ainda usar precisamente estes termos), pois aquilo que não é vivo, ou não é revelado pelo Espírito Santo, precisa ser explicado e categorizado por nossas mentes racionais.

Como já vimos em outros assuntos tratados nesta série, voltar às raízes não significa voltar à forma exterior. Muitos valorosos servos de Deus já o tentaram em todas as épocas da história da igreja sem êxito, entre os quais poderíamos também registrar nossas experiências mais recentes(algumas valiosas, outras frustradas, mas sem dúvida, todas instrutivas). Mas batizar pessoas logo que aceitam Jesus, celebrar a ceia de casa em casa, ou instituir algum sistema mecânico de comunhão, não vai produzir os resultados da igreja primitiva. Hoje, com o nível de poder que temos experimentado, é melhor passar um tempo maior lançando alicerces no candidato antes do seu batismo, do que simplesmente colocar em prática uma característica exterior. É melhor não tentar celebrar a ceia todo dia ou todo domingo, nem fazer uma refeição ágape, enquanto não tivermos o nível de revelação que tornará a celebração mais do que um ritual por um lado, ou um excesso de glutonaria por outro!

O objetivo da nossa comparação, porém, é mostrar o quanto nos distanciamos da essência original do evangelho que transforma poderosamente a vida de um pecador, separando-o do mundo, e enxertando-o no glorioso Corpo de Cristo, onde ele passa a viver dia por dia, momento por momento, na comunhão do Espírito Santo. Quando acharmos esta essência perdida, aí sim poderemos voltar também às práticas exteriores originais.

Fonte de Pesquisa: Christian History Magazine, nº 37, e “The History of the Christian Church”, Philip Schaff.

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