Uma Vida de Impacto: A Santa Ineficiência de Henri Nouwen

Data de publicação: 29/11/2011
Categorias da Biblioteca:
Edição 14 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 14

Por: Philip Yancey

Certa vez quando estava jantando com um grupo de escritores, a conversa começou a girar em torno da correspondência que recebemos de leitores. Richard Foster e Eugene Peterson mencionaram um jovem intenso que havia procurado direção espiritual tanto de um como do outro. Contaram que responderam da melhor maneira que sabiam, escrevendo cartas e recomendando livros sobre espiritualidade. Foster acabara de saber que o mesmo jovem na sua busca de respostas fizera contato com Henri Nouwen.

“Vocês não vão acreditar no que Nouwen fez,” ele disse. “Convidou este estranho a viver com ele por um mês a fim de poder aconselhá-lo pessoalmente.”

A maioria dos escritores protege com o máximo de zelo suas agendas e sua privacidade. Nouwen, que morreu de um ataque cardíaco em setembro de 1996, rompeu com tais barreiras de profissionalismo. Sua vida inteira, de fato, demonstrou uma “santa ineficiência”.

Treinado em Holanda como psicólogo e teólogo, Nouwen passou os primeiros anos da carreira correndo atrás de seus alvos, realizando e alcançando sucesso. Lecionou em Notre Dame, Yale, e Harvard, publicou em média mais de um livro por ano, e viajou extensamente como palestrante de conferências. Seu currículo era algo que parecia impossível de atingir — e era exatamente este o seu problema. Sua agenda apertada e a concorrência implacável estavam sufocando sua própria vida espiritual.

Nouwen foi para a América do Sul por seis meses, para investigar um novo papel como missionário ao terceiro mundo. Uma intensa agenda de palestras que o esperava quando voltou para os Estados Unidos só piorou as coisas. Finalmente, Nouwen caiu nos braços da comunidade L’Arche (da Arca) na França, que era um lar para pessoas com sérias incapacidades físicas. Lá se sentiu tão nutrido e apoiado que concordou em mudar para o lar da mesma comunidade em Toronto, no Canadá, chamado Daybreak (ou Amanhecer). Foi ali que Nouwen passou os últimos dez anos da sua vida, ainda escrevendo e viajando, mas sempre voltando ao seu abrigo.

Visitei Nouwen uma vez, e almocei com ele no seu pequeno quartinho. Só tinha uma cama, uma estante de livros, e algumas peças de mobília estilo Shaker (que originou na Inglaterra com um grupo cristão do século 18, e que se caracteriza pela simplicidade, praticidade, e ausência de ornamentação). As paredes não eram decoradas, com exceção de uma cópia de uma pintura de Van Gogh, e alguns símbolos religiosos. Um atendente da comunidade nos serviu com uma travessa de salada e pão. Não havia nenhum aparelho de fax, nenhum computador, nenhuma agenda na parede — neste quarto, pelo menos, Nouwen havia encontrado serenidade. A “indústria” da igreja parecia estar muito distante.

Depois do almoço, celebramos uma eucaristia especial para Adão, o jovem deficiente de quem Nouwen cuidava. Com solenidade, mas também com um brilho no seu olho, Nouwen dirigiu a liturgia em honra do vigésimo sexto aniversário de Adão. Incapaz de conversar, andar, ou vestir-se, profundamente retardado, Adão não dava nenhum sinal de compreensão. Parecia reconhecer, pelo menos, que sua família estava presente. Babou durante toda a cerimônia e grunhiu bem alto algumas vezes.

Mais tarde, Nouwen contou que levava quase duas horas para preparar Adão todos os dias. Dando banho nele, fazendo sua barba, escovando seus dentes, penteando seu cabelo, guiando sua mão para tomar o café da manhã— estes simples atos repetitivos se transformaram praticamente na sua hora de meditação.

Devo admitir que tive uma dúvida passageira se esta era a melhor maneira deste ministro atarefado usar seu tempo. Uma outra pessoa não poderia assumir estas tarefas manuais? Quando abri o assunto cautelosamente com o próprio Nouwen, ele me informou que eu estava entendendo tudo errado.

“Não estou sacrificando coisa alguma,” ele insistiu. “Sou eu, e não Adão, que está tirando o maior benefício da nossa amizade.”

Durante todo o restante do dia, Nouwen continuou a voltar para minha pergunta, mostrando várias maneiras em que havia se beneficiado do seu relacionamento com Adão. No princípio fora difícil, ele admitiu. O toque físico, o afeto, e a sujeira de cuidar de uma pessoa sem coordenação, não vieram facilmente. Mas aprendera a amar Adão, a realmente amá-lo. No processo, aprendeu como deve ser para Deus amar a nós — pessoas sem coordenação espiritual, retardadas, capazes de responder apenas com o que deve parecer a Deus como grunhidos e gemidos indistintos. De fato, trabalhar com Adão lhe ensinaram a humildade e o esvaziar-se que geralmente são alcançados somente por monges solitários depois de muita disciplina.

Nouwen disse que durante toda sua vida duas vozes competiam dentro de si. Uma o  encorajava a alcançar sucesso e realizações, enquanto a outra o chamava a simplesmente descansar no conforto de ser o “amado” de Deus. Somente na última década da sua vida foi que realmente ouviu àquela segunda voz.

No fim, Nouwen concluiu que “o alvo de educação e formação para o ministério é continuamente reconhecer a voz do Senhor, sua face, e seu toque em cada pessoa que encontramos”. Ao ler esta descrição no seu livro Gracias!, entendi por que ele não considerou perda de tempo convidar um estranho para morar consigo por um mês, ou dedicar duas horas por dia para cuidar manualmente de Adão.

Vou sentir falta de Henri Nouwen. Para alguns, seu legado consiste nos seus numerosos livros, para outros era seu papel como ponte entre católicos e protestantes, e para outros sua carreira distinta como professor nas universidades famosas do Ivy League (como Harvard, Princeton e Yale). Para mim, porém, uma única imagem capta melhor a sua pessoa: a do sacerdote enérgico, cabelos desarrumados, usando suas mãos inquietas para criar e modelar uma homília como se estivesse tirando do nada, celebrando uma eucaristia eloqüente para o aniversário de um homem infantil, incapaz de reagir, e tão deficiente que a maioria dos pais o teria abortado, se tivesse chance. Um símbolo melhor da Encarnação, seria difícil imaginar.

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A Não-Onipotência de Deus

Jesus e Deus conosco, Emanuel. O grande mistério de Deus ao se tornar humano e seu desejo de ser amado por nós. Ao se tornar uma criança vulnerável, completamente dependente do cuidado humano, Ele quer eliminar toda a distância entre o humano e o divino.

Quem pode ter medo de uma pequena criança que precisa ser alimentada, cuidada, ensinada e guiada? Normalmente falamos de Deus como o Deus onipotente, Todo-Poderoso, de quem dependemos totalmente. Mas Ele quis se tornar o Deus não-onipotente, todo-vulnerável, que depende completamente de nós. Como podemos ter medo de um Deus que deseja ser “Deus conosco” e que nos tornemos “Nós-com-Deus”?

Henri Nouwen

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