Uma Conversa Com Os Pais

Data de publicação: 17/10/2011
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Edição 30 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 30

Por: Ezequiel Netto

Desde que me converti, em 1979, na Igreja Batista em Icaraí (Niterói/RJ), uma pergunta que vem me incomodando muito é: Como manter uma segunda geração temente a Deus, andando na sua presença?

Tenho observado que muitos filhos de pais fervorosos, tementes a Deus, dedicados à sua obra, parecem não se importar muito com a visão de seus pais. Estes jovens, provenientes de lar evangélico, mostram-se refratários ao mover do Espírito Santo de Deus. Já convivi também com outros jovens, provenientes das drogas, do homossexualismo, da bandidagem, de famílias desestruturadas e de outros problemas que relacionam as pessoas com a escória deste mundo, que se entregaram ao Senhor e tiveram uma mudança radical em suas vidas.

Para minha surpresa, ao ler uma matéria do David Wilkerson no Jornal Arauto da Sua Vinda (“Um Clamor Sem Voz”, edição Ano 20, n.º 6, Nov/Dez, 2002), pude perceber que ele também tem este mesmo questionamento em relação à sua própria família. Segundo ele, alguns de seus netos, que ouvem suas mensagens semanalmente, são mornos e não expressam nenhuma reação para Deus.

Por que será que acontece isto com nossos filhos, como também aconteceu com homens da Bíblia que viveram suas vidas em total dedicação ao Senhor (como Eli, Samuel e Davi)?

Durante um bom tempo, eu tinha convicção da importância de manter uma reunião familiar, no mínimo, a cada semana, e era exatamente isto que vinha fazendo com minha esposa e 3 filhas. Há cerca de um ano, percebi que apenas o fato de reunir a família não resolvia este problema. Você ensina muita coisa, ora junto com eles, e sente que estão aprendendo o que ensinou. Porém, quando os filhos chegam à juventude e começam a sair sozinhos, a entrar no mundo dos adultos e a fazer novas amizades, tudo cai por terra. Ficam moralmente perfeitos, não fumam, não bebem, são honestos e educados – no entanto, estão completamente frios espiritualmente. E vem a clássica pergunta em nossas mentes: “Onde foi que errei, Senhor?”.

 O milagre da vida

 O ovo é um grande mistério da natureza. Hoje conhecemos a quantidade exata que contém de cada vitamina, mineral e aminoácido, quanto tem de água e quanto tem de cálcio em sua casca. Alguns pesquisadores pesaram cada um destes componentes e juntaram tudo, mas não conseguiram fazer com que fosse gerado um pintinho.

Assim também acontece com nossos filhos. Juntamos todos os ingredientes necessários para uma pessoa ser espiritual: muita oração, leitura e ensino bíblicos, prática do louvor, freqüência às reuniões da igreja – e ainda os protegemos de elementos nocivos, como certos programas na TV e ambientes pecaminosos; deixamos tudo na chocadeira por 15 anos e, no entanto, não conseguimos gerar a vida necessária.

Este mesmo problema foi tratado por Jesus com Nicodemos, que era um mestre da lei (possuía todos os ingredientes necessários), mas que, mesmo assim, precisava nascer de novo. Tudo o que tinha em si era apenas religiosidade produzida pelo esforço humano e Jesus queria lhe dar a vida que vinha do Espírito Santo (Jo 3).

O que faremos, então?

Sem querer assumir a posição de quem tem o mapa da mina, até porque não tenho experiência nesta área (e não são poucos os livros que já existem sobre criação de filhos), gostaria de citar alguns pontos para meditação:

1. A proclamação do evangelho para nossos filhos

Uma observação simples, mas que pouca gente faz, é que os jovens que nasceram em lar evangélico recebem um tratamento diferente dos que vêm do mundo, e isto faz uma grande diferença. Os jovens que vêm do mundo ouvem primeiramente a proclamação do evangelho (o kerigma apostólico), que o confrontará com o senhorio de Jesus Cristo, ao qual devem entregar sua vida para não serem esmagados juntamente com os inimigos, sob os pés do Senhor (At 2.35). Precisam se converter de seus maus caminhos, sendo levados ao arrependimento de seus pecados e à crucificação com Cristo, o único caminho para se chegar a Deus. Igreja, para eles, é o local de morte para o velho homem, ficando a rebeldia, os pecados e a independência para trás. Esta pregação gera neles, através do Espírito Santo, fé, salvação e vida.

Por outro lado, nossos filhos não passam por este processo. Desde a tenra idade, costumam receber ensinamento de moral cristã, sobre o que devem e o que não devem fazer, sobre doutrinas e mandamentos. No fim, isto se revela como uma carga pesada que devem carregar, podendo até torná-los exemplos em muitas áreas de comportamento – contudo, sem vida em si mesmos.

O que vem a ser o Kerigma Apostólico?

A palavra grega kerigma é traduzida como pregação ou proclamação. Não significa expor uma doutrina ou trazer uma exortação, mas é a proclamação com autoridade e unção de uma notícia ou uma boa nova. A mensagem proclamada pelos apóstolos era a pessoa e obra de Jesus Cristo, que era a boa notícia ou evangelho que anunciavam. É assim também que o evangelho deve ser anunciado hoje. O proclamador (kerus), também chamado de arauto, não repete mecanicamente uma mensagem, mas experimenta um mover sobrenatural do Espírito Santo em seu interior (1 Co 2.4; Jo 15.26).

O kerigma gera fé na pessoa, pois é a proclamação da verdade. Quem ouve a verdade e nela crê recebe a verdade em seu interior, recebe o próprio Jesus, para sua salvação e transformação (Gl 3.2,5). A palavra tem poder para cumprir no interior de quem a recebe o que está sendo proclamado, pois a Palavra de Deus não é vazia, mas tem conteúdo, que é o próprio Jesus (Cl 1.19; 2.3,9; Jo 1.1). A mesma Palavra de Deus usada para a criação de todas as coisas (Gn 1) e para gerar vida no ventre de Maria (I Pe 1.23-25), quando proclamada, pode também gerar vida e transformação naqueles que crêem (aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura do kerigma – 1 Co 1.18,21).

O kerigma consiste em anunciar, não só todos os grandes eventos e etapas da vida de Jesus como acontecimentos históricos, mas também os aspectos espirituais relacionados a eles e seus efeitos em nossas vidas. Além disso, inclui o anúncio de um outro acontecimento que ainda virá, ou seja, a segunda vinda de Cristo e as implicações disto para toda a humanidade (Veja texto na página XX).

Quando eu e minha esposa começamos a realmente pregar este evangelho para nossas filhas, observei que as reuniões em família tomaram outro rumo. A reação delas passou a ser diferente. A Palavra de Deus começou a produzir fé e transformação. Algo vivo e verdadeiro estava desabrochando.

Os mandamentos são importantes em nossa vida, mas sem a energia, a força e o poder trazidos pelo kerigma, não passam de moralismo cristão. Como escreveu Jorge Himitian, a lei deu ao homem 10 vagões para puxar, mas não nos deu as condições para fazer isto. Jesus engatou mais 90 e, aleluia!, nos deu também uma poderosa locomotiva, que é o kerigma. Por isso podemos dizer como João: “Os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo 5.3).

Por exemplo, seu filho começa a ser influenciado negativamente por amigos ruins, passa a agir de forma estranha, com rebeldia, isolando-se dos pais. Você o aconselha, ensina, mas nada acontece. Ele tenta puxar os vagões, porém estes nem se movem. Então, você começa a proclamar o kerigma, o evangelho, o que Jesus fez, sua vitória na cruz sobre toda a maldade, a libertação que nos trouxe o perdão para nossos pecados. Ele ouve a palavra com fé e esta palavra gera vida e transformação na sua vida. Uma força sobrenatural começa a operar em seu coração, a locomotiva é engatada aos vagões e o trem começa a andar. Aleluia!

2. A pregação do antievangelho

Além de não pregar o evangelho (boas notícias) para os filhos, um grande contingente de pais cristãos prega o antievangelho (as más notícias). É comum observarmos adultos criticando a igreja e seus membros na presença de crianças. Todo domingo após o culto, quando chegam em casa, as crianças ouvem comentários negativos sobre a mensagem ou o pregador. A maneira de vestir dos irmãos também é criticada. Se alguém não cumprimentou a pessoa, também recebe crítica. Maridos e mulheres se reprovam mutuamente na presença dos filhos.

Conheço um casal que foi separado para a obra de Deus, cujo ministério vinha sendo confirmado poderosamente com sinais, maravilhas e muitas conversões, durante vários anos. Só que eram muito críticos e tinham o hábito de fazer comentários negativos sobre membros da igreja na presença dos filhos. Pessoas que haviam confidenciado suas fraquezas tinham sua vida exposta sem piedade. Não preciso nem explicar o que aconteceu com esta família.

Será que uma pessoa que ouviu o antievangelho durante toda a sua infância e adolescência vai amar ao Senhor e à sua igreja? Assim como a proclamação das boas novas tem poder de produzir fé naquele que ouve, a pregação das más novas também tem muito poder, no sentido de sugar toda a fé, matando-a até a raiz.

Este problema não ocorre somente com filhos, mas se um cônjuge não é convertido e o outro lhe prega o antievangelho, pode ser até que passe a freqüentar a igreja, mas jamais terá uma conversão verdadeira.

Alguém pode argumentar que existem outros fatores também importantes, como disciplina e correção no lar, e intimidade com Deus. Concordo com isto, mas creio que a proclamação do kerigma é o princípio de tudo. Não estou me colocando como expert em educação de filhos. A minha filha, Gabriela, fez 15 anos há pouco tempo. A Isabela e a Débora são novas ainda, e continuo aprendendo até mesmo com muitos erros que cometi. O que produziu vida em mim foi crer na proclamação do evangelho. Na sua vida, foi a mesma coisa. Com nossos jovens não vai ser diferente.

3. Atitudes de Marta: Lc 10.38-42

Existem pessoas que não conseguem compreender a frieza de seus filhos adolescentes para com as coisas espirituais, pois sempre deram exemplo de entregar suas vidas totalmente aos serviços do Senhor. Acordavam cedo, faziam bolos e salgados até tarde, ainda trabalhavam como voluntárias na cantina da igreja, organizavam mutirões, faziam coisas que ninguém gostava de fazer, até mesmo limpavam banheiros. Antes das reuniões, deixavam tudo limpinho para os irmãos. No horário da reunião de oração, ficavam em casa preparando as coisas para o culto da noite. Durante o culto, fritavam os salgados, e assim por diante. E Jesus disse: “Marta! Marta! Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas, mas uma só é necessária” (Lc 10.41) .

Muitas pessoas têm comportamento parecido com este nas igrejas, por vários motivos. Pode ser causado por fuga, impaciência, ou mágoa e ressentimento contra a liderança. Em outros casos, existem até pessoas não convertidas, simpatizantes do evangelho, que ficam anos seguidos no meio do povo, agindo desta forma; os outros se acostumam com elas, numa relação onde ninguém incomoda ninguém. Elas gostariam de ver seus filhos firmes em Deus, mas silenciosamente, com seus muitos afazeres, estão deixando a idéia de que a vida espiritual é desnecessária e pode ser substituída por serviços religiosos. Os filhos tornam-se frios, pois vêem que seu pai (ou sua mãe) sempre ora muito pouco, não lê a Bíblia e permanece a maior parte do tempo fora das reuniões – assim eles também não enxergam a necessidade de fazer estas coisas.

Precisamos compreender que o alimento de que Jesus realmente sente fome é a comunhão com os santos e a disposição total de fazer a vontade do Pai (Jo 4.34), e que conhecimento bíblico ou serviços religiosos de diaconia não podem jamais ser confundidos com intimidade e conhecimento de Deus.

“Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?” (Mt 16.26). Que nos adiantaria passar toda uma vida ganhando milhares de almas para Jesus e ver nossos filhos se perderem? Hoje em dia muitas pessoas avaliam os ministérios através de livros escritos, se a pessoa viaja muito, se consegue aumentar numericamente a sua igreja, mas este não era o critério bíblico para avaliação de obreiros (alguém lembra quais eram esses critérios?).

Em Marcos 16.20, Jesus prometeu cooperar conosco e confirmar a palavra com sinais e milagres. Tenho certeza que teremos todos os recursos possíveis, impossíveis e até milagrosos para cumprirmos a nossa co-missão de fazer discípulos em nossa própria casa.

Nota: Quem preferir estudos mais profundos sobre os diversos temas abordados neste artigo, recomendamos:

a) Sobre o tema kerigma e didache: apostila “Ministério Didático da Igreja”, de Jorge Himitian, disponível em www.revistaimpacto.com.

b) Sobre as diferenças entre as formas de vida – zoe (vida eterna, gerada), bios (vida natural) e psukicos (vida da alma, psiquê): “O Poder Latente da Alma” e série “O Homem Espiritual”, de W. Nee; e “Cristianismo Puro e Simples”, de C. S. Lewis.

c) Sobre criação de filhos: “Curso criando filhos à maneira de Deus” ( Curso: Educação de Filhos à maneira de Deus) e livros do MMI

Ezequiel Netto é médico veterinário, reside em Valinhos – SP e é um dos responsáveis pelo site www.revistaimpacto.com.

Pontos principais do Kerigma Apostólico:

• A pré-existência e natureza divina de Jesus (Gn 1:26/18:2; Jo 1:1-3; Fp 2:6; Hb 1; Ap 1:17,18)

• Sua encarnação (Mt 16:16/26:63-64; Mc 14:61-62; Jo 1:14; Rm 8:3; Fp 2:7; I Tm 3:16; Hb 2:14-16)

• Seu ministério (At 2:22; Jo 1:29 – cap.17; Fp 2:7)

• Sua vida e ensinamentos (os 4 evangelhos)

• Sua morte (Is 53; Jo 18 e 19; At 2:23; Rm 5:8-11; Ef 2:13-14; Fp 2:8; I Pd 2:24)

• Sua ressurreição (Mt 28:5-6; Lc 24:5-6; At 2:24-32/4:33; Rm 1:4; I Co 15:3-4)

• Sua exaltação e senhorio (Lc 24:51; At 1:9-11/2:33-26/10:36; Rm 14:9; Fp 2:9-11; Cl 1:17-18; Hb 1:13; Ap 19:16)

Junto com estes tópicos, podemos adicionar as verdades relacionadas a nossa união com Cristo em sua morte e ressurreição, a presença de Cristo em nós pelo Espírito Santo( , ) o propósito eterno de Deus, a igreja, a segunda vinda de Cristo, etc (II Co 5:17,21; Gl 3:13; Rm 6:6; Hb 10:19; Ef 2:6; Rm 5:5/8:16,17; Cl 1:27; Fp 4:13; Ap 1:5-6; …).

 

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