Uma breve defesa das pequenas boas ações

Data de publicação: 20/02/2018
Autores:
Eliasaf Assis.
Categorias da Biblioteca:
Edição 79 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 79

Subtítulo: Feitos microscópicos fazem o Reino de Deus avançar. Alguns, aparentemente irrelevantes, ganham proporções siderais ao serem impregnados de amor

Eliasaf Assis

Em uma sociedade voltada ao espetáculo como a nossa, temos dificuldade desvalorizar as pequenas boas ações, as que muitas vezes se apresentam anônimas.E, mesmo dentro dos movimentos religiosos, há essa exaltação do que é grande, espetacular ou numericamente expressivo. Mas,numa dessas reviravoltas que subvertem os valores deste mundo, na perspectiva cristã são os pequenos gestos, feitos com amor e fé, que produzem muito fruto para o reino de Deus.

Podem ser práticas muito simples: desligar a tevê por uma semana, dedicando mais tempo à oração e à família; participar de um abaixo-assinado de uma causa justa; escrever para um amigo que se julgava esquecido ou levar um idoso a uma consulta médica. Gestos assim, aparentemente triviais, podem detonar uma cadeia de eventos transformadores e ganham proporções siderais ao serem impregnados de amor. A história está cheia de relatos de gente comum agindo de forma discreta mas decisiva: jejuando açúcar, quando era produzido por trabalho escravo, correspondendo-se com pessoas desanimadas, visitando doentes ou ensinando uma criança. É exatamente essa sua modéstia que faz com que ganhem a atenção de Deus.

Essa preferência pelas pequenas boas ações pode ter uma razão simples: é com elas que nos identificamos mais rapidamente. Inspiradas por gestos cotidianos é que pessoas comuns, que não fundaram ONGs nem missões humanitárias, fazem a diferença. Sua causa pode estar mais próxima do que se imagina e exigir apenas um pequeno esforço. Pode ser algum jovem de sua comunidade precisando de conselho, algum casal solitário esperando ser convidado para almoçar; por vezes, algo ainda mais simples como uma carona para um irmão que mora longe.

Mas, apesar de discretas, pequenas ações possuem seu preço. Jesus sabe o quanto pequenos gestos podem parecer caros para nós. Ele entendeu como a oferta da viúva era proporcionalmente maior, uma vez que ela doou tudo o que tinha (Mc 12.44). Disse também que alguém pode até ficar mal-humorado pelo aborrecimento de ser acordado de madrugada, mas não despedirá o amigo necessitado sem ajudá-lo (Lc 11.08). Um pequeno gesto sempre inclui algum tipo de desconforto, o que, somado ao anonimato, é o tratamento correto para que possamos agir em favor do bem, sem nos acharmos os campeões da misericórdia…

É claro que podemos nos envolver em condições extremas, como auxiliar alguém mortalmente agredido, adotar um órfão ou visitar lugares em calamidade pública. Mas os exemplos de Cristo nem sempre são dramáticos. São também triviais como oferecer um copo d’água a um sedento, visitar um preso ou doar um agasalho.

Talvez,na ação microscópica mais singela de todas, a oração, é que o reino de Deus seja mais promovido. Hudson Taylor disse: “Avance de joelhos”. Uma atividade de aparência tão irrelevante como a oração pode mudar o destino de pessoas. E, por vezes, quanto menos rebuscada, melhor. Sempre me impressiono ao perceber como as orações curtas e singelas de meu filho caçula são atendidas mais rapidamente. Eu floreio tanto o que vou dizer… Ele diz direto, de forma clara. Vem do coração.

Apesar de defender aqui a boa ação corriqueira, amorosa mas que não quer aparecer, devo concordar que ela será testemunhada e encorajará outros. O que julgamos anônimo não passa despercebido. Alguém vê sem que notemos. E poucas influências morais são tão poderosas como aquelas que parecem mais reservadas. Pois como diz o provérbio: “palavras convencem, mas o exemplo arrasta”. Mesmo os mais microscópicos.

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