Última Palavra: Quebrantamento e Idolatria Oculta

Data de publicação: 14/09/2011
Categorias da Biblioteca:
Edição 36 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 36

Uma entrevista da publicação Leadership Journal, com o autor Larry Crabb

Uma comunidade espiritual consiste de pessoas que têm a integridade de abrir o coração. É composta por aqueles que admitem suas falhas e faltas, pois as detestam mais do que detestam as falhas e faltas dos outros; assim descobrem que, por baixo da mais fétida corrupção que existe dentro deles, flui uma fonte de água pura. (O Lugar Mais Seguro da Terra, Larry Crabb, Ed. Mundo Cristão, p. 55.)

Leadership Journal: Você conhece um lugar que corresponde a esta descrição?

Larry Crabb: Quando Philip Yancey leu esse livro, ele fez o seguinte comentário: “Parece que você está escrevendo sobre um lugar que nunca viu, mas espera ver um dia”.

Porém, agora, já o vi em uma igreja que ajudamos a iniciar no estado de Indiana (EUA). É uma comunidade incrível de pessoas que vivem em constante quebrantamento com alegria. E minha esposa e eu fazemos parte de um grupo de formação espiritual que iniciamos há mais de dois anos juntamente com outros três casais. Estamos muito próximos. Na verdade, creio que daqui a vinte anos eu ainda direi que estamos próximos. Comunidade espiritual é como um bom casamento. Ele pode ser bom, mas nunca será o ideal. Sempre estaremos chegando mais próximos.

Comunidade espiritual, da forma como você a descreve, parece ser um lugar onde podemos ser honestos quanto aos nossos pecados e abertos quanto à nossa fraqueza.  Como os pastores fariam parte disso?

Acredito que o elemento que falta na vida da maioria dos pastores é comunidade. Os pastores geralmente se dedicam ao estudo da Palavra e separam tempo para oração, mas poucos têm a mesma disposição para abrir o coração a um outro irmão ou irmã e dizer: “Será que você pode me ajudar a discernir?”

Discernir o quê?

Impotência, incapacidade, o fato de que não há nada que eu possa fazer de valor eterno sem o Espírito Santo.

Em um sentido, quebrantamento é simplesmente a liberação de poder espiritual. É o Espírito fazendo sua parte, o que resulta em manifestação de poder. Isso só pode acontecer através de quebrantamento, que acredito ser a virtude mais subestimada dentro da comunidade cristã nos dias de hoje. Mas, além da liberação de poder, existe essa compreensão mais profunda da nossa fraqueza.

A força, então, não é uma virtude a ser cultivada. É uma realidade a ser liberada. É algo que já existe e que pode ser progressivamente mais e mais liberado durante o curso de sua vida, à medida que o quebrantamento for mais e mais completo.

Essa tem sido sua experiência?

Esse é o meu testemunho. O quebrantamento não fazia parte significativa da minha vida até os últimos anos, mas agora tem sido algo crescente. Não o vejo, porém, como uma experiência mórbida, de forma alguma. Existe algo vivo dentro de mim que o quebrantamento conseguiu trazer à tona.

A primeira das 95 Teses de Lutero tem a ver com quebrantamento, pois afirma que o desejo de Jesus é que a vida inteira dos seus seguidores seja uma vida de arrependimento. Em outras palavras, o quebrantamento deve ser a experiência contínua de toda nossa vida. Não é algo que você experimenta uma vez e depois passa para algo superior. Consiste de uma revelação cada vez mais profunda da sua própria impotência sem o Espírito. É por isso que vemos pessoas com seus 80 anos ou mais, homens e mulheres de Deus, que estão dizendo: “Acho que só agora estou começando a entender o Evangelho”.

O que descobrimos quando somos quebrantados?

A nossa idolatria oculta.

No mês passado, eu estava lendo o livro de Efésios. Eu tinha decidido aproveitar um dia de folga para realizar um breve retiro espiritual. Depois de completar a quarta ou quinta leitura de Efésios, comecei a enxergar com mais clareza alguns pensamentos que nunca tinha visto antes. E pensei: “Isto vai ser muito útil para o meu próximo livro. Posso usar aquilo na conferência onde vou falar daqui a algumas semanas”.

Estava começando a fazer algumas anotações quando, num desses momentos místicos, pude sentir o Senhor me dizendo: “Isso é entre mim e você. Não estou pedindo para você usar essa palavra para os seus fins, apenas que saboreie o alimento que estou lhe dando”. Tive que deixar minhas anotações de lado. Senti como um alcoólatra provavelmente se sente quando resolve deixar seu copo de bebida em cima da mesa. Eu estava de frente com a minha idolatria. Os preciosos pensamentos vindos de Deus haviam se tornado uma mera ferramenta para realizar minha própria agenda. Eram o meu ídolo.

Como podemos aprender a enxergar nossa própria idolatria oculta?

Em primeiro lugar, entendendo que existe tal coisa. Se você não crê que existe, jamais conseguirá enxergá-la.

Em segundo lugar, cultive amizades espirituais com pessoas que lhe dirão: “Você está me deixando louco com suas idéias. Será que podemos conversar sobre isso?” Um dos meus melhores amigos sempre me diz isso. Um dos meus pontos fortes é me preparar bem toda vez que prego, mas uma de minhas fraquezas, segundo um outro amigo, é me preparar demais. “Vá ao cinema”, ele me disse numa ocasião em que eu pretendia passar a tarde toda revisando minhas anotações para uma apresentação. “É a coisa mais espiritual que você tem a fazer nesse momento.”

Michael Card, o compositor, certa vez me disse que a coisa mais importante que aprendera através de aconselhamento foi que o seu dom não era sua identidade. A sua capacidade de cantar, dedilhar o violão e compor músicas não forma sua identidade. “Se formar, então eu sou um idólatra”, disse ele.

Em seu último sermão, um dos meus mentores que fazia parte do corpo docente do Masters Seminary, disse aos seus alunos: “O maior impedimento à sua intimidade com Deus é o seu talento. Por ter talento, a pessoa se sente capaz de fazer as coisas funcionarem bem dentro da igreja, sem precisar de intimidade ou conhecimento de Deus.”

Como podemos abraçar essa impotência ao invés de nos desesperarmos por causa dela?

É o orgulho que nos impede de ir em frente até chegarmos ao verdadeiro quebrantamento, prendendo-nos ao nível de desespero, ao invés de alcançar o fundo onde acharemos não o desespero, mas a esperança. Existe uma frase no livro de C. S. Lewis, A Grief Observed (“Um Sofrimento Observado”), sobre a morte de sua esposa, que falou muito forte comigo: “Você nunca saberá o quanto confia na força de uma corda até o dia em que estiver pendurado por ela em cima de um penhasco”. Creio que o quebrantamento seja uma das realidades mais felizes da vida cristã. Através dele descobrimos que a corda agüenta. E essa corda é Deus.

A fraqueza é tão contrária à nossa cultura atual. Até mesmo o ministério requer progresso e sucesso.

Certa vez um pastor me disse: “Eu estava tão ocupado administrando tudo na igreja que não conseguia sentir o profundo vazio que existia em minha própria alma. Minha sequidão espiritual me fazia trabalhar 80 horas por semana para não ter de enfrentar o vazio que sinto agora. É inacreditável”.

Ele voltou à sua igreja e confessou seu quebrantamento, um vazio que toda aquela atividade na igreja jamais podia preencher. Naquela noite, ele pregou o melhor sermão de toda a sua vida, segundo um amigo.

Quando eu sou capaz de admitir: Na minha fraqueza não há nada que eu possa fazer para preencher meu vazio, estou dando ao Espírito Santo a oportunidade de me levar a um relacionamento mais íntimo consigo mesmo.

No interesse atual por disciplinas espirituais, existe algum esforço em fazer da saúde espiritual algo sistemático e manejável?

É aí que mora o perigo – de transformar essas coisas em apenas mais uma técnica. A demanda por um sistema que seja manejável é, provavelmente, a essência de não estar quebrantado. Quando uma pessoa diz: “O que devo fazer para que isso aconteça?”, está expressando um clamor do seu coração, porém ainda não é o clamor mais profundo. Existem muitas coisas que podem ser manejáveis, mas, no nível mais profundo de crescimento espiritual, não acredito que tenhamos este controle.

Certa ocasião, fui desafiado por Brennan Manning a esse respeito. Estávamos pregando juntos numa conferência para pastores, e perguntei-lhe o que pretendia fazer depois que terminasse.

“Vou para um retiro de sete dias de silêncio”, ele me disse.

“Por quê?”, eu perguntei. Eu nunca fizera um retiro de silêncio. Escolhendo com cuidado as minhas palavras, perguntei em essência: “O que você vai ganhar com isso? Que diferença isso vai fazer em sua vida?”

Ele ficou perplexo. “Eu nunca pensei no que eu ganharia com isso.”

“Então, por que…”.

“Simplesmente concluí que Deus fica contente quando apareço”, ele explicou.

Aquela resposta causou uma mudança de paradigma no meu interior. Ali estava um homem cujo foco era simplesmente ter maior união com Deus. Quando você fica mais idoso e seus filhos gostam de voltar para casa só para passar tempo com você, isso lhe traz um certo prazer, não é? Talvez seja isso que Deus sinta também.

Todos os dias vejo pastores que estão tentando desesperadamente implantar o novo sistema que fará tudo encaixar perfeitamente – para si próprios e para a igreja. É como disse C. S. Lewis: “Dê prioridade às coisas prioritárias, que as secundárias também virão. Dê prioridade às coisas secundárias e você perderá tanto as prioritárias quanto as secundárias”.

Temos tantas coisas para cuidar no ministério. Como filtrar tudo e ficar apenas com as “prioritárias”?

Nossa prioridade é união com Deus, o prazer nele como meu supremo tesouro (aprendi isso com John Piper.) Não importa o que venha a acontecer em minha vida – quer a igreja feche ou me pague milhões com direito a um ano sabático, quer minha filha adolescente engravide ou meus filhos se tornem missionários – tudo pode ser usado por Deus para me levar a um relacionamento mais profundo com ele. Se isso não for minha prioridade, então o que estiver no seu lugar, seja o que for, será um ídolo.

Um pastor estava de coração partido por causa do comportamento de seus dois filhos mais velhos. “Diga para mim como devo reagir biblicamente de forma a ganhá-los de volta”, ele me pediu. Essa é uma pergunta secundária – totalmente legítima, sim, e que merece uma resposta, mas uma pergunta secundária.

A pergunta que deve vir em primeiro lugar é: “Como posso verdadeiramente, no meio de toda essa dor e sofrimento, achegar-me a Deus para o seu prazer?”

Os pastores não são os únicos que colocam as coisas secundárias em primeiro plano. Como podemos fazer disso uma prioridade em nossas comunidades espirituais?

No contexto da igreja, os pastores ocupam uma posição muito difícil por causa das cobranças dos membros e da direção da igreja, das suas expectativas e padrões de sucesso para o trabalho pastoral. Geralmente, estes se traduzem por metas com resultados visíveis – tirar pessoas das drogas, restaurar casamentos, construir um prédio novo para que a igreja dobre de tamanho.

Um grande amigo meu, Jim Kallam, pastor de uma igreja em Charlotte (Carolina do Norte, EUA), conta que, anos atrás, quando a igreja estava crescendo, os membros mais velhos lhe propuseram: “Vamos iniciar a construção de um novo prédio”.

Jim sentia que aquele era realmente o próximo passo que queria dar. Ele pensou: “Estamos crescendo, podemos começar uma campanha para arrecadar fundos e, quem sabe, nos tornaremos uma das maiores igrejas da cidade”. Mas algo dentro dele se quebrantou diante da idolatria daquela idéia. Então ele se acalmou e disse: “Não vamos nos apressar. Precisamos ter certeza de que é isso que Deus quer de nós agora”. Ao entregar os planos para Deus, e pensar na possibilidade da construção nunca vir a acontecer, ele sentiu tranqüilidade, que isso não seria nenhum problema para ele.

Depois de algum tempo e oração, eles construíram. Mas foi algo que veio em segundo plano, não era mais o principal.

Como podemos ser quebrantados diante do nosso povo de tal forma que eles não venham a perder confiança em nós?

Não comece no púlpito. Esse não é o lugar certo para se começar. Não é uma questão de “vulnerabilidade”, um termo que surgiu da cultura terapêutica. De acordo com esse conceito, abrir-se sobre sua dor é essencial para ser curado. Eu não concordo. A palavra “autenticidade” se encaixa muito melhor. A autenticidade diz: “É aqui que eu me encontro na minha jornada para conhecer Deus melhor”, em contraste com a vulnerabilidade que diz: “É aqui que está doendo mais”. A vulnerabilidade pode chegar a ser narcisista.

Onde podemos ser honestos sobre nossas fraquezas?

Ninguém deve morrer guardando segredos, mas é isso que acontece com 99 % das pessoas. Preciso ter alguém em minha vida de quem eu não escondo nada. Em muitos casos, pode não ser meu cônjuge. Pode ser um amigo, um conselheiro espiritual, um pastor, alguém que conhece o que há de pior em mim. Esse é o primeiro nível.

O segundo nível é um grupo pequeno. No meu caso, é o nosso grupo de formação espiritual composto de quatro casais. Lá eu não preciso ser uma estrela ou um líder. Sou apenas mais um peregrino no meio de outros peregrinos vivendo a mesma luta.

Com estes princípios em funcionamento, o pastor não se sentirá pressionado a esconder ou revelar coisa alguma, porque já estará tudo bem definido quando ele subir ao púlpito. E então ele estará livre para viver a realidade do seu quebrantamento em favor da sua congregação e não visando sua própria cura.

Seu modelo de comunidade valoriza a interação cuidadosa e aberta, onde as pessoas “têm a integridade de abrir o coração”. Isso pode ser ensinado?

Tudo começa com o reconhecimento da teologia empobrecida que temos hoje. Eugene Peterson foi convidado para pregar numa conferência sobre a formação espiritual. Eu liguei para ele e perguntei qual seria o tema das suas palestras. Ele respondeu: “A superficialidade da teologia trinitária da igreja evangélica”.

Até que esta teologia se aprofunde, não conseguiremos progredir muito no que diz respeito à formação espiritual. Deus vive em comunidade eterna, num relacionamento radicalmente voltado para o outro, no qual o Pai sempre diz: “Meu Filho não é demais?!”; o Filho sempre diz: “Olhem para o Pai”; e o Espírito sempre diz: “Olhem para Jesus”.

Se não nos dispusermos a meditar no mistério da Trindade, não teremos nenhuma pista de que estamos a milhões de quilômetros dela em termos de comunidade. As pessoas precisam ser profundamente impactadas pela comunidade Trinitária.

Larry Crabb é psicoterapeuta há mais de 25 anos, conferencista, professor e autor de vários livros. Ele vive com sua esposa, Raquel, em Denver, estado do Colorado, EUA.

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