Última Palavra: Quando o Bem se Torna em Mal

Data de publicação: 06/08/2011
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Edição 49 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 49

Por Jamê Nobre

As parábolas contadas por Jesus sempre escondem verdades  tremendas, assustadoras. Ele mesmo afirma que falava dessa forma para que os que não eram seus discípulos não pudessem entender e ser salvos e perdoados.

Assusta-me a possibilidade de estar ouvindo Jesus falar, mas não compreender o que ele está dizendo.

Então, o que importa, o que salva não é simplesmente escutar com os ouvidos naturais o que Jesus diz, mas compreender com o coração. Não é algo intelectual, mas espiritual e experimental.

A parábola dos convidados para a grande ceia é maravilhosa e aterradora:

Certo homem deu uma grande ceia e convidou muitos. À hora da ceia, enviou o seu servo para avisar aos convidados: Vinde, porque tudo já está preparado. Não obstante, todos, à uma, começaram a escusar-se. Disse o primeiro: Comprei um campo e preciso ir vê-lo; rogo-te que me tenhas por escusado. Outro disse: Comprei cinco juntas de bois e vou experimentá-las; rogo-te que me tenhas por escusado. E outro disse: Casei-me e, por isso, não posso ir. Lc 14.16-19.

As Coisas Boas Que Nos Impedem

Jesus aponta três coisas que atrapalharam os convidados, impedindo-os de aceitar o convite para a grande ceia. Não foram coisas pecaminosas em si mesmas, foram coisas lícitas: um terreno, cinco juntas de bois e um casamento. São coisas que qualquer um poderia ter sem que fosse pecado. Claro que comprar um terreno ou uma junta de bois ou se casar não é pecado.

Tenho observado que as coisas que com mais freqüência nos atrapalham na vida cristã não são pecados grosseiros. Isto é, em geral não estamos envolvidos com feitiçaria, ou adultério, ou fornicação, ou roubo, ou qualquer dessas coisas que são más sem sombra de dúvida.

Tenho visto na igreja que o que mais nos impede de caminhar são as coisas lícitas. O escritor aos Hebreus fala que temos de nos desvencilhar de todo peso e do pecado que tão de perto nos assedia (Hb 12.1). A compreensão que tenho é que nem todo peso que levamos na vida é um pecado – ainda que todo pecado constitua um peso.

Um peso seria exatamente o valor que damos às coisas naturais em detrimento das espirituais. Quando bens, pessoas ou qualquer outra coisa nos impedem de caminhar (correr a carreira), devemos nos desvencilhar, nos desembaraçar deles.

O sistema do mundo hoje não nos permite uma vida tranqüila e sossegada como o Senhor deseja que tenhamos (1 Tm 2.2). Somos cheios de atividades que nos sufocam. Vivemos hoje na tirania do urgente em detrimento do importante.

Hoje, a maioria dos cristãos não sabe o que é meditar e contemplar, pois a nossa geração vive numa roda viva, em busca de mais informações, de correr atrás das coisas e não tem tempo para uma vida de simplicidade cristã nem para um relacionamento profundo com Deus. Para isso, precisamos de tempo.

Tenho percebido que a maior parte dos problemas de relacionamento dos casais da igreja gira ao redor de poucas coisas: a criação dos filhos, as finanças, a vida íntima e os relacionamentos com os parentes.

Os nossos relacionamentos ocupam um espaço em nosso coração de tal forma que tomam, muitas vezes, o lugar de Deus. Há na Palavra de Deus todo um ensino a respeito de nosso relacionamento com nossos parentes. Jesus disse que aquele que não deixa pai, mãe, filhos e filhas, irmãos e irmãs, por amor dele, não pode ser seu discípulo.

Quando sua mãe e seus irmãos foram procurá-lo, pensando que ele estava fora de si, Jesus deixou claro quem era sua família. O ponto de união ali foi a vontade de Deus e não laços de sangue.

Os parentes que são do Reino de Deus são a nossa família de verdade. Os que não nasceram de novo são nosso campo missionário. Então, os relacionamentos com eles vão ser regidos pelo querer de Deus e não por força do laço de sangue.

Para Que ou Para Quem?

Voltando a Lucas 14, os empecilhos citados por Jesus podem ser compreendidos como sendo as propriedades, as atividades e os relacionamentos que temos em nossas vidas. Coisas que podem ser abençoadas pelo Senhor, se girarem ao redor dele, ou ser-nos uma maldição, se girarem ao redor de nós próprios.

O homem hoje é valorizado pelos bens que possui. Jesus disse que a vida do homem não está na abundância de bens (Lc 12.15). O grande objetivo hoje é ter mais para ter um futuro tranqüilo. Jesus chamou de louco aquele que pensou dessa forma, planejando acumular para os dias vindouros (Lc 12.16-21).

Há um sentido mais nobre em possuir coisas que é o de servir aos necessitados e não o de acumular. Veja em Lucas 12.20 – Jesus não pergunta para QUE seriam os bens, mas para QUEM. Em Eclesiastes 4.8, é a mesma pergunta: PARA QUEM? Paulo diz que o nosso trabalho é para ter com que repartir com outros (1Tm 6.18; Ef 4.28).

De fato, o bem se tornou em mal, pois perdeu o sentido de eternidade. A vida com suas nuanças e vicissitudes só pode fazer sentido se não terminar aqui. Só tem valor se for uma preparação para a eternidade.

As coisas que temos precisam ter raízes e alcances eternos. Jesus disse que deveríamos fazer amigos com as riquezas desta vida para que eles nos recebam nos tabernáculos eternos (Lc 16.9).

O grande objetivo de se ter alguma coisa nesta vida é fazer crescer o Reino de Deus, abençoando pessoas. Não existe outro sentido na vida. Não foi isso que Jesus fez? Sendo rico se fez pobre. E ele era rico em todos os sentidos e se fez pobre em todos os sentidos.

Preparando Nossos Filhos

Os nossos filhos crescem com o “grande” objetivo de serem ricos, ou pelo menos de terem uma vida confortável; é com essa motivação que escolhem suas profissões. Não temos ajudado nossos filhos a buscarem algo que possa ser usado pelo Senhor para fazer crescer seu Reino na Terra.

Pensando em termos bem naturais, as profissões deveriam ser escolhidas após fazermos uma projeção de mercado para, no mínimo, 10 anos adiante. O que tem ocorrido é que as pessoas escolhem a profissão pensando naquela que dá mais rendimentos hoje. O problema é que um grande número de pessoas tem a mesma idéia e, quando elas se formam, há uma saturação em virtude da qual aquela profissão perde a força que tinha antes. A competição é grande.

A maior parte de nós está preparando seus filhos para serem bem-sucedidos e não para serem servos de Deus. Não pensamos na brevidade da vida e nem na eternidade como razão de viver.

Podemos contar nos dedos das mãos o número de pais que estão treinando seus filhos para servirem ao Senhor na sua obra e, em cima disso, escolher as suas profissões. As profissões deveriam girar ao redor do querer do Senhor e não na expectativa de trazer um retorno material.

No tempo em que vivemos, essa idéia soa como algo bem estranho. Mas, pergunto, existe outra razão de viver se não for para servir ao Senhor? Há satisfação em outro tipo de vida?

Somos nós que sustentamos nossas vidas?

Não devemos buscar em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua Justiça para que ele nos sustente como faz com os pardais e os lírios do campo? Há lucro em levantar de madrugada e comer o pão que penosamente granjeamos se o Senhor não sustentar nossa casa? Não vem dele a força para o nosso trabalhar?

Não prego o ócio. Prego a necessidade de estabelecermos como alvo o servir ao Senhor, deixar que ele escolha a profissão de nossos filhos. Permitir que o Senhor mude o sentido de nossas vidas, nos livrando do pensamento mundano de ter, que nos faz esquecer de ser. Prego uma visão de buscar o Reino em todas as áreas de nossas vidas e uma confiança de que o trabalhador é digno de seu salário. É preciso crer que o Senhor é fiel para sustentar seus filhos.

Quem Aceitará o Convite?

O grande problema daqueles convidados não foi aquilo que alegaram. O problema real foi a falta de fome. E essa falta de fome era motivada pela distração com as coisas que, apesar de boas, tiravam o foco daquilo que é o principal.

Se não tivermos fome de Deus, qualquer coisa nos distrairá. Mas se tivermos sede como a corça, se necessitarmos de água como uma terra seca, se a grande busca nossa não for pelas coisas desta vida, então nada irá nos satisfazer, senão a presença do Deus vivo.

Ele será mais valioso que os nossos bens. Será mais importante que as nossas atividades. Será mais desejável que o melhor dos relacionamentos.

Ele, o Senhor Jesus, somente ele, tem condições de nos satisfazer completamente e, dessa forma, vamos correndo para ele, para sua ceia, ao seu menor sinal.

Jamê Nobre mora em Jundiaí, SP, é casado com Irani e tem três filhas, um filho e quatro netos. Ele dá assistência espiritual a algumas congregações em várias partes do Brasil.

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