Última Palavra – Paliativos em Vez de Unidade

Data de publicação: 02/08/2011
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Edição 51 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 51

Por: Pedro Arruda

Quando verificamos a questão da unidade na história da igreja, temos a sensação de ver alguém tentando inutilmente segurar a água com as mãos enquanto ela lhe vaza por entre os dedos. A unidade era um ponto alto no início da vida da igreja: sua prática foi efetivamente experimentada; sua importância e valor, conhecidos em primeira mão. Inevitavelmente, porém, essa unidade declinou quando a igreja perdeu o seu bem mais valioso, a comunhão no Espírito, não obstante tentar preservá-la com meios humanos.

À medida que essa comunhão foi-se desvanecendo, a igreja procurou substituí-la por elementos objetivos – pessoas e normas –, o que trouxe resultados desastrosos como podemos constatar até hoje. Colocar como centro da vida da igreja as melhores pessoas, ainda que escolhidas de comum acordo, ou o melhor livro, no caso a Bíblia, não produziu a unidade esperada. Mesmo adotando as medidas mais drásticas e rígidas que se possa imaginar, ou as doutrinas mais bíblicas possíveis, sempre haverá discórdias. Nada pode substituir a comunhão.

As Tentativas Humanas

A primeira tentativa foi determinar pessoas que detivessem a palavra final para encerrar as controvérsias, os bispos. O consenso local, então, deveria ser formado em torno do bispo e, num nível superior, escolheu-se um entre todos os bispos como autoridade para solucionar as discórdias entre eles. Finalmente, para que não restassem dúvidas, a esse líder principal foi atribuída a chamada infalibilidade papal. Com isso, criaram-se várias instâncias, estabelecendo-se um sistema objetivo de hierarquia, respaldado em uma legislação eclesiástica e doutrinal, visando produzir uma uniformidade nas decisões, cujo detalhamento se aprofundava à medida da necessidade, produzindo dogmas paralelos e normas de conduta.

Outra tentativa de solucionar o problema da divisão foi através da “canonização”, palavra originada no latim canon, que quer dizer padrão de medida. Podemos dizer que isso teve um sucesso quanto aos livros escolhidos para fazerem parte da Bíblia, pois possibilitou obter um núcleo comum dos textos universalmente aceitos como inspirados entre todas as correntes cristãs. No entanto, não podemos dizer o mesmo em relação às interpretações que deram origem a várias doutrinas e dogmas.

O sistema objetivo de resolver as controvérsias é adotado por todas as denominações do cristianismo organizado, da maior à menor, da lei canônica a um simples estatuto, seja através da decisão de uma pessoa ou de uma assembléia democrática. Ele é a camisa-de-força com a qual se pretende manter a unidade, mas, como sabemos, isso não aconteceu, nem no passado, nem no presente. Com essas medidas, nota-se também que a proteção da unidade ficou confiada ao dom de governo, que assim prevaleceu historicamente sobre outros dons e ministérios dados por Jesus à igreja.

Embora a Reforma Protestante tenha tentado deslocar o centro da igreja, tirando-o das decisões pessoais e localizando-o na interpretação da Bíblia pretendida “como única regra de fé”, não logrou êxito em produzir ou preservar a unidade, nem mesmo entre os próprios protestantes. Como o exame da história atesta, o movimento que nasceu dividido desencadeou ainda mais divisões. Senão, vejamos: antes da Reforma, houve apenas uma cisão na igreja, que separou os Ortodoxos dos Romanos, pela qual se esperou mais de mil anos. A segunda foi a própria Reforma Protestante que veio quinhentos anos depois. Nos séculos seguintes, de quando em quando, surgiam novos movimentos e dissidências, cuja freqüência foi-se acelerando, especialmente a partir do século XX. Atualmente as cisões são imensuráveis, havendo uma verdadeira explosão delas. Neste momento, enquanto é lido este artigo, inúmeras novas denominações dissidentes estão sendo criadas.

Pelas mais variadas formas, a tentativa de conseguir a unidade ainda tem girado em torno de pessoas e da Bíblia, com as interpretações que se têm dela. A conseqüência tem sido a obtenção de uma unidade apenas relativa entre alguns, que necessariamente implica a exclusão de outros, resultando um fracionamento cada vez maior do Corpo de Cristo.

Os cristãos, há séculos envoltos nessa realidade e sem esperança de solução, passaram a aceitar diversas explicações, a partir da racionalização de que as divisões são inevitáveis ou que até mesmo representam uma estratégia de Deus para favorecer a multiplicação do crescimento. Outras mais elaboradas colocam um manto teológico-filosófico sobre a desunião, como a tese da “igreja invisível”, desenvolvido a partir de Santo Agostinho. Todas essas explicações buscam acomodar o assunto em nossa consciência e acalmá-la do ponto de vista intelectual. Contudo, nosso espírito se mantém inquieto e inconformado, não conseguindo admitir que as divisões se originam em Deus; pelo contrário, sua vontade é bem oposta ao apontar para a unidade na diversidade. Divisão é algo do adversário tanto quanto a unidade é de Deus.

Uma Esperança Verdadeira

No livro “União através da Comunhão”, o irmão Kokichi Kurosaki, favorecido pela sua cultura oriental ainda não paradigmatizada pelo cristianismo ocidental, nos mostra o quão nefasto foi para os japoneses verem as missões reproduzindo no oriente os conflitos existentes entre as denominações de seus países de origem. Elas rivalizavam umas com as outras sobre as doutrinas, cada qual assegurando estar com a razão, e assim dificultando o surgimento de novos convertidos, aos quais isso é incompreensível, devido à contradição estabelecida com os ensinamentos dos evangelhos. Além disso, parecia-lhes haver mais de um Jesus, o que causava confusão e desconfiança entre os evangelizados.

Essa situação levou Kurosaki a refletir e considerar que só Jesus e a nossa comunhão com ele podem ser o centro da igreja. Jesus era quem mantinha os discípulos unidos em torno de si. Mesmo sua ausência física após a ressurreição não diminuiu a convicção deles, pois, através da comunhão do Espírito Santo, tinham a certeza da presença de Jesus entre eles. Esse, então, era o ponto que mantinha a igreja primitiva sem divisões.

No entanto, resta ainda saber como identificar um cristão autêntico para aceitá-lo em nossa comunhão. Kurosaki admite essa preocupação que sempre intrigou a igreja e argumenta que não há uma maneira objetiva de medir e qualificar a fé de uma pessoa, a ponto de poder afirmar com segurança se ela é ou não um cristão autêntico. Contudo, ele acha desnecessário deter tal conhecimento, pois, em última análise, é um julgamento que compete a Deus e que os homens não deveriam presumir.

Tanto no aspecto pessoal como também no coletivo, jamais poderemos ter como base para a unidade um credo, ainda que ele estabeleça “a comunhão com Cristo e Deus” como regra, pois a comunhão não é um assunto para ser incluído num credo e produzir sinais exteriores. Ainda que sejamos ansiosos por elementos objetivos que nos dêem sensação de segurança, não é assim com a comunhão, pois ela é, antes de tudo, algo a ser experimentado. Se recusarmos qualquer credo, instituição ou outra realidade exterior como elemento essencial e central, haverá condições para que nossa união consista em amor. Esse amor, manifestado na vida de cada um como produto da sua confissão de Cristo, proporcionará a mesma manifestação através do coletivo, expressando a unidade do Corpo de Cristo.

Portanto, à medida que cada um eleger como ponto central da sua vida pessoal e da igreja a comunhão verdadeira com Jesus e assim buscá-la, teremos também comunhão uns com os outros, pois isso significa que cada um verá o que é essencial sob um único ponto de vista – o de Deus, o que reduzirá a importância das opiniões e valores particulares. Assim, restaurar a comunhão é restaurar a unidade. E, por melhores que sejam os argumentos, nada substitui a unidade. Não é por acaso que Paulo, depois de muito corrigir os coríntios, escreveu-lhes como última frase: “E a comunhão do Espírito Santo seja com todos vós” (2 Co 13.13)!

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