Última Palavra: Entre Galiléia e Samaria Onde Somos Todos Iguais

Data de publicação: 27/10/2011
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Edição 26 e Revista Impacto - 1998 a 2014.

Por: Mateus Ferraz de Campos

A questão do preconceito é tão antiga quanto a humanidade. Desde que as gerações se dividiram e as nações se formaram com a confusão das línguas na torre de Babel, convivemos com essa questão. No cerne de toda discriminação e preconceito, está o egoísmo. Por achar-se o centro do universo, o ser humano não consegue conviver bem com suas diferenças. A lógica é simples: se sou o mais importante, logo, importante é somente aquele que é igual a mim.

Essa linha de pensamento é acentuada quando um determinado grupo goza de alguns privilégios. Dinheiro, poder, domínio, maioria, ou até mesmo uma forte convicção religiosa. Foi assim com Israel. Ao mal interpretar o plano de Deus para a nação, como um merecido favoritismo divino, o povo de Israel deixou de representar Deus entre as nações para rotular-se como o único povo amado por Deus. Creio que é por esse motivo que Jesus enfatizou tanto suas relações com os estrangeiros.

Suas duas maiores expressões de entusiasmo em relação à fé foi proveniente do seu encontro com duas pessoas “diferentes” dos “escolhidos”. A mulher siro-fenícia e o centurião romano. Não tenho dúvidas de que todo aquele diálogo aparentemente mal educado de Jesus com aquela mulher era uma lição espiritual: Deus nunca negará o pedido de um aflito, não importa o seu “rótulo”. Esses dois incidentes não foram os únicos que confrontavam o orgulho judaico. Jesus deixou bem clara a universalidade do amor de Deus ao se assentar com pecadores, cobradores de impostos, prostitutas, adúlteros e todo tipo de gente.

No entanto, nada incomodava mais ao povo judeu do que a relação de Jesus com os samaritanos. Esse era um povo odiado pelo povo judeu. Suas relações eram tão hostis que o evangelista João se vê obrigado a explicar: “…os judeus não se davam com os samaritanos” (Jo 4.9). O intrigante é que essa hostilidade não se enraizava nas diferenças sociais como acontecia nas suas relações com o povo romano. Não eram diferenças morais como no caso dos publicanos e prostitutas, nem tampouco diferenças geográficas, como as que nutriam em relação ao resto do mundo (os gentios).

O que tornava essa relação tão amarga eram suas diferenças religiosas. Nada divide tanto as pessoas quanto suas convicções religiosas.
A intenção por trás do termo “religião” (do latim religare), que é estabelecer ligações, sejam elas com Deus ou com o próximo, é profundamente oposta ao efeito que ela provoca. Tão absurdo é esse conflito que temos que conviver com termos incoerentes como “Guerra Santa”. No entanto o maior absurdo é que estas oposições se infiltram em todas as ramificações religiosas. Sejam entre católicos e protestantes, judeus e muçulmanos, pentecostais e históricos, tradicionais e renovados, as “guerras santas” acontecem em qualquer lugar onde exista um povo que se considere “o povo favorito de Deus”.

O preconceito se ergue sobre um desnível. Enquanto somos iguais, seja na cor, na raça, ou nas condições sociais, somos unidos em um mesmo patamar. Mas quando nos colocamos em níveis diferentes, somos obrigatoriamente rotulados e consequentemente separados.

Em Lucas 17.11-19, vemos Jesus passando exatamente na fronteira religiosa de Israel. De um lado a Galiléia, de outro Samaria. A história narra a aproximação de dez leprosos que imploravam por cura. Jesus oferece a purificação a todos e os envia a mostrarem-se ao sacerdote. No meio do caminho, ao perceber sua cura, um dos dez volta dando glória a Deus e, com o rosto em terra, lança-se aos pés de Jesus agradecendo-lhe. A frase que se segue na narrativa bíblica é intrigante: “…e este era samaritano” (v. 16).

Essa narrativa revela muito sobre a abordagem de Jesus à questão do preconceito. A primeira coisa interessante a notar é que Jesus se encontra em um lugar extremamente neutro. Não está do lado dos “escolhidos” (Galiléia), nem dos “exilados” (Samaria). E nessa região surgem dez leprosos. É de conhecimento geral que os leprosos tinham que viver fora das aldeias, por serem considerados imundos. Isso quer dizer que, enquanto leprosos, não havia distinção nenhuma entre eles. E a todos eles foi oferecida a mesma possibilidade de cura.

Somente duas verdades podem nivelar todos os seres humanos em um mesmo patamar. O pecado e a graça.

Qual a diferença entre um leproso da Galiléia e um leproso de Samaria? Qual a diferença entre um pecador branco e um pecador negro? Qual a diferença entre um pecador pobre e um pecador rico? E entre um pecador em uma igreja protestante e um pecador em uma igreja católica? Absolutamente nenhuma. Todos nascemos leprosos. Todos compartilhamos das mesmas origens. Todos somos herdeiros das mesmas conseqüências da tragédia do Éden.  E todos somos desesperadamente carentes do mesmo perdão.

O grande problema normalmente vem junto com a cura. Assim que somos limpos da lepra, um senso de “favoritismo divino” nos invade. A lógica novamente se aplica: pode não existir diferença entre leprosos galileus e samaritanos, mas entre curados, sim. Quando os leprosos deixam de enxergar suas feridas, começam a enxergar seus privilégios. E o desnível se instala novamente. Creio ser por esta razão que as Escrituras relatam a volta do samaritano. Por que os outros não voltaram? Podemos imaginar várias coisas.

Em primeiro lugar, porque estavam ansiosos por terem suas vidas de volta. Ao mostrarem-se ao sacerdotes teriam novamente suas honras restabelecidas. Além disso talvez não voltaram porque acreditavam que Deus não fizera mais do que a obrigação de abençoá-los, visto que eram “os escolhidos”. Mas acima de tudo, creio que não voltaram porque não enxergaram que a verdadeira lepra que os consumia era o orgulho.
Infelizmente essa lepra não é exclusividade daqueles judeus. Ela está impregnada em cada um de nós que se esquece de suas origens. Em cada ato de hostilidade àquele que é diferente de nós. Em cada olhar de orgulho e prepotência dos “favoritos de Deus”.

O que faríamos se víssemos Jesus entrando na casa de pecadores? O que faríamos se o víssemos conversando com prostitutas? O que faríamos se o víssemos salvando um ladrão? O que faríamos se o víssemos entrar em outra igreja que não fosse a nossa? O que faríamos se descobríssemos que não somos os “favoritos”?

O desnível que gera o preconceito é uma ofensa a Deus. Cada vez que zombamos de alguém por não ser como nós, estamos zombando da graça de Deus que salvou a nós todos. Aliás, creio ser este o grande xis da questão. Quem não entendeu o tamanho do seu pecado, não compreendeu o tamanho da graça que o alcançou.

Resta saber, é possível ser salvo sem esta compreensão?

Creio que só existe uma posição onde todos somos iguais. Não é através de doações caridosas. Não é através de alguma espécie de regime socialista ou comunista. Não é através de reuniões ecumênicas. Não é através de protestos coletivos pela paz ou qualquer outro interesse em comum. Não é através de eventos interdenominacionais superficiais.

Creio que o único lugar onde não existirá desníveis e abismos entre os seres humanos, é entre Galiléia e Samaria. Exatamente o lugar onde estava o samaritano curado. Aos pés do Salvador. De joelhos dobrados, com a cara no pó, tendo como única honra a graça imerecida que nos alcançou.