Última Palavra: De Onde Vem a Pobreza?

Data de publicação: 15/11/2011
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Edição 23 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 23

Viv Grigg, neozelandês nascido em 1950, sentiu o chamado de Deus sobre sua vida desde muito cedo. Aos nove anos de idade, teve um sonho onde recebia um chamado para ser missionário entre os pobres. Com dez, descobriu numa biblioteca um livro raro com a biografia de Toyohiko Kagawa, um missionário japonês que viveu no começo do século XX. Quando ainda era estudante, Toyohiko percebeu que para salvar o povo favelado no seu país, teria que viver entre eles e não só pregar. Os pobres nunca aceitariam algo que lhes fosse oferecido por pessoas ricas e respeitáveis, que viessem do outro lado do rio, entregassem o evangelho por caridade e depois voltassem para casa. A igreja teria de ser plantada nas favelas e cultivada dia e noite. Em 1909, Toyohiko fez exatamente isto, aos 21 anos de idade: colocou seus pertences num carrinho de mão, atravessou a ponte, e foi morar nas favelas de Shinkawa, por mais de quatorze anos.
Este exemplo seria um fator marcante na vida de Viv.
Depois de completados os estudos, e um treinamento com o grupo dos Navegadores, foi pela primeira vez para as Filipinas com 24 anos de idade. Ficou com alguns outros missionários para receber mais treinamento, ensinou num Colégio Bíblico, e liderou alguns seminaristas num empreendimento para implantar igrejas entre bairros de classe média. Porém não ficou satisfeito e logo começou uma jornada que o levaria a morar nas favelas de Manila.
A seguir alguns trechos extraídos do seu livro: “Servos Entre os Pobres”:

A Frustração Inicial

Durante meu primeiro ano em Manila, morei com um missionário e sua família, servindo e aprendendo com ele, dando-lhe assistência em seu ministério de ensinar sobre discipulado em uma escola bíblica. A fim de treinar alguns deles, recrutei nove estudantes para se unirem a mim em uma aventura, estabelecendo uma igreja predominantemente de classe média.

Mas a minha vida não estava completa. O filósofo interior não encontrou respostas para a procura de significado; o artista não se realizou na procura de perfeição e verdade última; o líder não encontrara o centro do destino e propósito para liderar outros. Os três componentes diziam-me que ainda estava longe do chamado de Deus.

Eu era relativamente competente para transmitir habilidades e programas, reproduzindo obreiros que podiam transmiti-las aos novos crentes. Mas eu não estava transferindo o discipulado de Jesus. Os estudantes vinham de famílias pobres. Para muitos, a faculdade bíblica tornou-se o degrau para a segurança econômica, como pastor “profissional” pago. Minha própria riqueza e nosso deliberado enfoque em um grupo-alvo de classe média impediram-me de transmitir as disciplinas das bem-aventuranças: pobreza de espirito, mansidão, promoção da paz (trazendo justiça com amor) — essas qualidades que são o cerne do discipulado.

Eu estava transmitindo apenas uma cruz pela metade: reconheci que minha vida deveria retratar uma figura de ministério dramaticamente diferente, para estar apto a liderar estes homens e mulheres no caminho da cruz. Ainda não aprendera o discipulado no contexto de um ministério aos pobres, segundo o estilo de Jesus — no contexto de rejeitar o orgulho e a procura de “status”, poder e segurança econômica.

Descobrindo Meu Chamado

A pergunta que clamava dentro de mim era: “Onde então pode Jesus ser encontrado, hoje?” Para encontrá-lo devemos ir onde ele está. Não foi ele quem disse: “Onde eu estou, ali estará também o meu servo”?

Tal procura dirige-nos invariavelmente para o cerne da pobreza. Pois Jesus sempre vai ao lugar de mais profunda necessidade. Onde há sofrimento, ele está ali atando as feridas. Sua compaixão o impele eternamente à necessidade humana. Onde há injustiça, ele ali está. Sua justiça exige isto. Não vive alheio aos problemas. Está envolvido, sempre travando batalhas com as mais ferozes forças do mal e poderes das trevas.

A pergunta que fiz foi: “Onde estaria Jesus envolvido se ele estivesse em Manila?”

Certo dia subi ao alto de uma pilha, de uns trinta metros de altura, de comida e lixo podres e em deterioração. Olhei para os barracos onde moravam dez mil das pessoas mais pobres de Manila e para as figuras magras vasculhando papéis, garrafas e latas para revender aos intermediários.

Notei como crianças pequenas, mulheres idosas e trabalhadores relativamente sadios andavam através da pilha. Depois carregavam as coisas em sacos, sobre os ombros, até suas casas. O cheiro era indescritível. Doença era algo freqüente. As casas eram construídas de metais, sacos e outras coisas velhas.

As crianças estenderam as mãos alegremente para me tocar, mas comecei a chorar. Com ira, clamei: “Senhor, até quando tu podes permitir a degradação e a destruição do teu povo? Por que tu não fazes alguma coisa?”

O Senhor não foi tardio em responder. Tão rápido quanto um raio recebi a resposta: “Eu já fiz alguma coisa. Há dois mil anos penetrei a pobreza na pessoa de meu Filho. E tenho habitado ali desde então, nas pessoas de meus filhos e filhas. Hoje estou chamando outros filhos e filhas para participarem da pobreza dos carentes, a fim de trazer o meu Reino até eles.”

Jesus iria morar hoje onde há miséria. Ali, o Príncipe iria se tornar um dos indigentes: “Pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que pela sua pobreza vos tornásseis ricos” (2 Co 8.9).

A partir daquela experiência, meu coração encontrou descanso. De agora em diante, não haveria mais retrocesso no chamado de Deus para eu tomar parte em seus propósitos na história. Era meu dever pregar o evangelho nas favelas.

Entendendo Quem São os Pobres

Para entender o que Jesus queria que fizéssemos pelos pobres, assentei-me com um amigo um dia, e copiei em cartõezinhos brancos todos os versos da Bíblia que falam sobre os pobres. Carreguei-os comigo por quatro anos. Eram a minha meditação dia e noite: eles determinavam cada decisão importante.

As perguntas dominavam continuamente o meu pensamento: “Por que os pobres são pobres?” “Por que eles são abençoados?” “Quais pobres são bem-aventurados?” Por que Tiago os chama de ricos na fé?” “Quem são os pobres de quem Jesus fala?”

Depois de estudar os textos bíblicos, e de viver durante anos junto com os pobres nas favelas, cheguei à conclusão que há três causas principais de pobreza.

1. Em primeiro lugar a pobreza é causada por pecado pessoal e familiar. O livro de Provérbios fala sobre vários pecados que trazem pobreza: oprimir o pobre (22.16), planejamento apressado (21.5), imoralidade e ligação com mulheres licenciosas (5.3-11), amor aos prazeres (21.17), cobiça e ganância (28.22), bebedice e glutonaria (23.21).

Ao mesmo tempo, a pobreza também causa pecado. A estrutura social falida das áreas faveladas cria um ambiente que favorece o pecado. Impulsiona o povo a roubar, como também o livro de Provérbios adverte (Pv 30.8,9). Outro círculo vicioso com a pobreza é a embriaguez, que traz pobreza, mas é também um resultado dela (veja Pv 31.6,7). A primeira coisa que se nota nas áreas de muita pobreza é o grande número de homens bêbados. Beber com os amigos é um modo de preencher o dia e lançar fora a tristeza, o desespero e a falta de respeito próprio herdado do desemprego.

A pobreza também gera um ambiente próprio para a imoralidade. Nas favelas onde morei, poucos casais eram legalmente casados. As mulheres, na maioria, já tinham vivido com dois ou três maridos diferentes. Os homens geralmente tinham uma segunda mulher, uma segunda família. E muitos filhos crescendo no meio de todo este caos familiar e social. A imoralidade cria a pobreza por gerar amargura, ciúme, insegurança, desorganização familiar, ódio e morte.

2. Pobreza causada por calamidades. São pessoas com deficiências, como os surdos-mudos, os paralíticos, aqueles que têm doenças ou fraquezas, e não conseguem trabalhar. Também fazem parte desta classe de pobres as viúvas, e as crianças abandonadas. Há muitos outros fatores externos que podem trazer pobreza: enchentes, guerras, terremotos, e toda espécie de calamidade natural e humana.

3. Finalmente, existe a pobreza causada por opressão. Evidentemente, é o tipo de pobreza que Deus mais condena, no sentido de trazer juízo aos opressores e exploradores humanos. Já houve muito mais opressão no passado da história humana, mas ainda existe escravidão, exploração econômica, opressão dos ricos, dos líderes ou governantes de um país, ou também de uma nação dominadora sobre outras. Existe tráfico de crianças e tráfico de meninas para organizações de drogas e prostituição.

A Pobreza é Bem-Aventurada?

Não. Deus se revolta contra a pobreza, pois ela destrói toda sua criação. Em nenhum lugar na Bíblia a pobreza é tida como um ideal, como o é para os místicos. Em nenhum lugar a pobreza é glorificada ou encarada romanticamente. O fato de que os pobres são algumas vezes chamados retos nas Escrituras não é tanto pela pobreza em si. É o pobre contrastado, não com o rico, mas com o opressor. Aquele que oprime tem um coração perverso. Aquele que possui uma atitude de humilde dependência de Deus diante de tal opressão é reto.

Nem são os pobres bem-aventurados por causa de sua falta de bens materiais ou sua classe econômica. Isto iria ignorar a salvação pela graça e iria sugerir, com os marxistas e a Teologia da Libertação, que a salvação está ligada ao “status” econômico e sociológico. A pobreza não é bem-aventurada, mas os pobres — aqueles pobres que se tornam discípulos, o são. As bem-aventuranças foram proferidas aos discípulos de Cristo. Por causa de sua pobreza, eles confiavam em Deus, em um espírito de dependência.

O Reino de Deus muda a pobreza causada por pecado pessoal. A participação neste reino traz amor, liberta da culpa, cura a amargura e quebra o poder da embriaguez, da imoralidade e dos jogos de azar. Resulta em uma nova motivação para o trabalho. Nossa resposta a tal pobreza tem de ser a de viver no meio destes pobres e de pregar o evangelho por nossas obras e pela palavra.

O Reino muda a pobreza dos frágeis e fracos, pois verdadeiros discípulos irão ajudar as viúvas e os órfãos, receber com alegria o estrangeiro e o refugiado e ajudar os indigentes. O poder de Deus pode curar o cego e o surdo. Nossa resposta a tal pobreza é ministrar socorro, projetos econômicos, e proteção aos fracos.

O Reino também muda a pobreza causada pela opressão, injustiça e exploração. Os discípulos defendem estes oprimidos, trazendo justiça.

No contexto da pobreza, o evangelho é tanto de julgamento como de misericórdia. Para o rico e opressor, é a mensagem de julgamento que exige arrependimento ( veja Lucas 6.24,25). Mas para os pobres, o evangelho é uma mensagem de ascensão, se eles se arrependerem e crerem (Mt 11.28).

Virá um dia quando toda opressão cessará e todos os injustos receberão o que lhes é devido. Naquele dia, os pobres irão rir e saltar de alegria, pois cada um terá sua mansão. Não haverá mais suor, nem tristeza, nem lágrimas. Vocês, pobres, são bem-aventurados, pois o Reino de Deus é — e será — de vocês.

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