Última Palavra: Armado e Perigoso

Data de publicação: 28/07/2011
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Edição 53 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 53

Por: Eliasaf de Assis

Minha paixão por aviões despertou quando ganhei meu primeiro aeromodelo, montado e usado, aos 7 anos de idade. Era um spitfire em péssimas condições: trem de pouso inexistente, pintura descascada e cabine do piloto à mostra. Mas isso não impedia a brincadeira, como podem confirmar os meninos que me lêem agora, mesmo aqueles com mais de 40. No intervalo das aulas, juntava-me aos colegas que também traziam seus aeromodelos e voávamos pelo pátio. Éramos alemães, japoneses, aliados, argentinos, africanos… e/ou qualquer nacionalidade permitida por nosso escasso conhecimento histórico. Lembro-me bem: havia um piloto que era do Pólo Norte!

Poderosamente armado e perigoso, era assim que me sentia, fantasiosamente a bordo de um caça. Aproveitando a deixa, será que nos sentimos assim quando somos bons no exercício de um serviço para Deus? Será que reproduzimos a mesma ousadia e exacerbada autoconfiança, características dos pilotos de caça dos filmes? Insisto nessa metáfora porque, até onde sei, gente que vive no lugar em que a ação acontece – sejam pilotos, cirurgiões, correspondentes de guerra, missionários ou pastores dinâmicos – pode sofrer dessa sensação causada pela mistura de adrenalina e espetáculo: uma forte independência e a ilusão de completude.

Sempre achei que armas causam a ilusão de onipotência, seja no soldado, no marginal ou no cristão. Se você está armado por Deus para pregar, ensinar ou combater potestades, pode enganar-se achando que seu dom se basta. Já sentiu, ao ouvir outro pregador, que aquele tema seria melhor abordado por você? Pode haver verdade nisso, mas a contrapartida é que nossos dons sofrem de incompletude. Não podemos cumprir a missão sozinhos, precisamos de outros, diferentes de nós.

Os ases da aviação sabiam disso: não podiam voar sem que alguém cobrisse os pontos cegos, aquelas áreas em que eram vulneráveis ao ataque inimigo. Ainda mais imprescindível que as metralhadoras da própria aeronave era a companhia de um outro caça, o ala. O inimigo treme diante de servos de Deus que estão armados pela humildade e dependência mútua.

Duas experiências confirmam essa linha de pensamento:

1. A humildade do dependente

Em uma lotada sala de aula, a meu convite, cinco membros do AA, que deixaram a bebida há vários anos, relatavam suas experiências a meus alunos, que oscilavam entre o interesse e o cinismo. Um dos membros do AA começou a abrir-se de forma espantosa.

– Eu deixei a bebida por alguns anos. Julgava-me livre dela para sempre. – O homem, em trajes executivos, preenchia com sua voz grave o espaço acústico da sala sem dificuldade. – Mas um dia reincidi, e minha sobriedade evaporou-se. Foi horrível voltar a beber descontroladamente. Eu estava indo tão bem! Sabemos no AA que a queda termina no copo; isto é, você cometeu outros deslizes antes de beber. Humilhado, perguntei-me várias vezes sobre o que havia acontecido. E então entendi: eu não estava respeitando minha esposa. Embora estivesse sóbrio, continuava com os velhos hábitos imorais, freqüentando os mesmos lugares, ainda que não bebesse e me sentisse superior. Dirigido por um poder superior a mim, precisava abandonar todo e qualquer vício, não apenas a bebida. Uma coisa leva a outra. Uma vida promíscua e sexualmente liberal anda de mãos dadas com a embriaguez.

Universidades são lugares alérgicos a afirmações como essa última. Um dos meus alunos protestou veementemente.

– As pessoas devem ter liberdade – disse secamente – para buscarem sua satisfação sexual onde desejarem. Você não pode impor essa visão moralista a ninguém.

Foi a defesa despudorada de um estilo promíscuo de vida, mas também foi um protesto muito indelicado, já que o homem fazia um depoimento tão vulnerável de sua própria vida. O ambiente parecia prestes a explodir em um debate moral bem polarizado, com uns defendendo a temperança e outros, a “liberdade”. Antes que eu pudesse intervir, o membro do AA teve uma reação maravilhosa. Sem entrar em discussão sobre o mérito da interpelação, sem um elemento sequer de superioridade ou condenação da atitude do aluno, que ele ouviu até o fim, continuou:

– Talvez algumas pessoas não vejam assim. Estou falando de mim e de meus problemas com a bebida. Sou um alcoólatra. Quando bebo, meus filhos, minha mulher ou meus amigos passam a significar nada pra mim. Sou doente, e mesmo coisas triviais, como comerciais de tevê, me atingem por vezes como tentações poderosíssimas. Mesmo após todos esses anos de sobriedade desde que reincidi, às vezes, quando vou ao mercado com minha esposa, me surpreendo passeando pelas prateleiras de bebidas e inconscientemente escolhendo qual vou levar. Você me entende? Preciso lhes agradecer por este momento. Porque estar aqui e poder falar sobre como sou doente e fraco me fortalece. Eu preciso destes momentos para permanecer em meu caminho de cura.

A sala viu-se invadida por uma atmosfera humilde e reverente que calou a oposição, provocou empatia e persuadiu os ouvintes.

Há um tipo de resposta, confundida com vigor na batalha espiritual, que é arrogante e preocupada com o ego. Mas armado com a humildade, confio inteiramente no poder de Deus para me defender da injúria e oposição. Tanta gente quer ter a última palavra em uma discussão! Mas não é assim que se vence. O arcanjo Miguel sabia disso e por isso não insultou o diabo (Jd 1.9), mas confiou no poder de Deus. O membro do AA citado acima serve como modelo, pois não se deixou levar pela discussão, mas recebeu com gentileza e humildade as objeções.

Ser humilde é ter a opinião correta quanto a si mesmo, uma percepção da própria fraqueza equilibrada pela garantia da Graça divina. Essa revelação vem acompanhada de poder e liberdade: capacita-nos a falar de nossos limites e espinhos na carne nos ambientes mais hostis e permite que o Espírito Santo convença os ouvintes.

O mal é vencido e surpreendido pela humildade, pois a docilidade e gentileza que a acompanham são incompreensíveis para Satanás. Insensibilizado pelo orgulho, por diversas vezes na história, suas fortalezas foram pulverizadas (como na extinção da cortina de ferro, por exemplo) em batalhas dramáticas em que os poderes malignos cederam diante da oração dos humildes.

2. Meu amigo Jades

Quando adolescente, minha mãe passava as noites buscando o batismo no Espírito Santo, na igreja do alto do morro em que cresceu. Certa ocasião, um policial alcoolizado invadiu a igreja em que ela e outros jovens oravam e, escondido na galeria, gritava impropérios e ameaçava atirar. Embora com medo, eles não se moveram um centímetro, e o pavor só serviu para aumentar a intensidade de suas orações. Em outra ocasião, durante um culto numa noite calorenta, minha mãe via uma pombinha voando pela igreja. Ficou olhando para ela interessada e, então, a pombinha pousou no púlpito. Por um instante, a pombinha a encarou e, logo depois, alçou vôo e cruzou o templo como uma flecha, direto para ela, que explodiu em línguas estranhas e plenitude divina.

Por erros da juventude e intolerância por parte da igreja, minha mãe permaneceu 30 anos afastada do evangelho. Sempre que conversávamos sobre isso, ela respondia como havia tentado: visitara diversas reuniões e contabilizava seis vezes em que, levantando a mão nos apelos, havia tentado reconciliar-se com Deus, sem sucesso.

Numa fase de dolorosos problemas financeiros, ela pediu oração, e eu achei que era melhor levar meu amigo Jades até lá. Jades é uma figura, merecia um artigo só com seus testemunhos. Formidável pai e marido, é um pastor carismático e empenhado. E sabe muita coisa sobre libertação e ministrações de cura, áreas para as quais Jesus não me chamou. Digamos que se o que pesasse em nossa relação fossem nossas diferentes abordagens sobre batalha espiritual, dificilmente seríamos amigos.

Famoso por longas ministrações de libertação, assim que chegamos ao apartamento de minha mãe, ele iniciou a oração. Por um período que me pareceu uma eternidade, Jades orou sem importar-se com a aparência impassível e desinteressada dos ouvintes, dentre os quais, com toda vergonha, me incluo. Eu me cansei, sentei, levantei; sem sentir nada na oração, mal conseguia suportá-la.

Em um dado momento, recordo-me bem, algo ocorreu. O rosto de minha mãe brilhou com juventude e emoção. E ela começou a orar em voz alta, em um choro irreprimível, convidando Jesus a tomá-la de novo, a encher sua vida. Essa oração, tão diferente da que eu faria, mudou a vida dela desde então. Ela reencontrou-se com Deus, depois de tantos anos longe, e hoje está muito entusiasmada. Voltou a participar de vigílias, onde busca o poder de Deus para recuperar o tempo perdido.

A lição aqui é que precisamos do dom que está em nosso irmão, é um presente para nós. Mas só o amor tolerante desfaz o laço da embalagem. Não precisamos concordar com ele em tudo, e talvez até discordemos bastante. Talvez devêssemos parar de tentar pensar a mesma coisa, em termos doutrinários, e buscar sentir a mesma coisa, o sentimento humilde que dominava o Senhor Jesus.

Conclusão

Nossa maior arma espiritual não é a palavra de autoridade, nem mesmo a unção para quebrar cadeias, porque esses dons dependem de um estado de alma humilde que reconhece sua dependência ao dom que Deus concedeu ao outro – aquele que Deus colocou como nosso “ala”. Deus põe fim à nossa independência e onipotência quando nos abrimos para ver e reconhecer o dom que nos falta e que foi soberanamente colocado no outro. Ele nos guiará por caminhos onde não nos bastaremos e nos tornará os mais inapropriados para lidar com nossos próprios problemas – pois nos ama demais e quer que sejamos um só corpo, armado e perigoso, atemorizando os poderes das trevas.

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Por Pouco

Um pregador estava passando uns dias em outra cidade para ministrar numa igreja. Certa feita, pegou um ônibus urbano para ir ao centro comercial. Depois de pagar sua passagem ao motorista, foi sentar-se – e descobriu que recebera uma moeda de cinqüenta centavos a mais, de troco.

Enquanto ponderava sobre o que deveria fazer, arrazoava consigo mesmo: “É melhor devolver a moeda. Seria errado ficar com ela”. Mas depois: “Esqueça! É só uma moedinha. Quem vai se importar com essa quantia? A empresa de transporte cobra passagens muito caras e nunca vai sentir falta disso. Aceite-a como presente de Deus e fique quieto!”

Quando o ônibus chegou ao ponto em que deveria descer, o pregador fez uma pausa momentânea na porta – e entregou a moeda de volta ao motorista. “Aqui, o senhor me deu troco a mais.”

O motorista, com um sorriso, respondeu: “O senhor não é o pregador de fora que está na cidade? Tenho pensado bastante sobre onde devo ir para adorar a Deus. Quando o vi, quis ver o que o senhor faria se lhe desse troco a mais. Até domingo que vem.”

Quando o pregador desceu do ônibus, ele literalmente se apoiou no poste de luz mais próximo, segurou firme nele para não cair e disse: “Oh Deus, eu quase vendi o teu Filho por cinqüenta centavos!”

Que exemplo assustador de como as pessoas nos observam como cristãos e nos colocam à prova! Esteja sempre vigilante – e lembre-se: Você carrega o nome de Cristo nos seus ombros quando se chama “cristão”.

Fonte: desconhecida

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