Última Palavra: Amor – O Remédio Para Combater O Medo

Data de publicação: 19/09/2011
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Edição 34 e Revista Impacto - 1998 a 2014.

Por Pedro Arruda

O medo parece ser algo inerente ao homem. Está no interior de cada um e se  manifesta em circunstâncias diferentes: medo de altura, de avião, de ficar doente, de morrer, de ficar sozinho, de ir para o inferno. Por diferentes motivos o homem tem medo. Próximas ao medo estão também expressões semelhantes, como cautela, receio, pavor, temor, respeito e covardia.

Em torno do medo alinham-se coisas boas e ruins. Nesse espectro de sentimentos, há algo que impede o homem de praticar crimes ou de pecar: as conseqüências que advêm de avançar os limites. Mas, por outro lado, também por temer as conseqüências, é comum omitir-se em situações de risco. Assim, é possível ao homem tanto pecar por ação como também por omissão.

Papai dizia-me que correr riscos por necessidade é coragem; sem necessidade é abuso, presunção. Os riscos também são um fator inerente à vida. Basta estar vivo para correr riscos. Há quem diga que viver é arriscado. A questão é: Como nos comportar diante dos riscos que a vida oferece? O medo, se dominado, pode poupar de muitos dissabores, funcionando como um dispositivo de cautela. Porém, se ele dominar, poderá transformar a pessoa num covarde.

Como então encontrar o equilíbrio necessário que possibilite a audácia que nos distancia da covardia e, ao mesmo tempo, a cautela que nos livra da arrogância? Por desprezar circunstâncias, pessoas e até mesmo Deus, o corajoso arrogante tem o mesmo destino do covarde.

Há várias teorias de como se conhece uma pessoa. Pelas suas companhias ou amizades, como se diz popularmente: “Dize-me com quem andas e te direi quem és”. O valor de suas posses também pode ser um fator de identificação. O papel social também é uma forma bastante usual de identificar as pessoas, principalmente no que se refere à profissão. Com base nessas fórmulas, a sociedade atribui graus de importância diferentes às pessoas. Não raro, encontramos todas essas informações juntas em referências breves de tentativa de síntese biográfica.

No entanto, outros parecem ter sido mais felizes em identificar as pessoas pela sua motivação maior que é o amor. Dessa forma, é o amor ou a falta dele que vai, antes de tudo, determinar aquilo que a pessoa será ou irá fazer, e quais serão suas posses ou suas companhias.

É no relacionamento que se reconhece a existência do homem – “amo, logo existo”, dizia Emmanuel Mounier. Thomas Merton diz, citando São Tomás, que “um homem é bom quando sua vontade se alegra com o que é bom; é mau quando sua vontade se alegra com o que é mau; é virtuoso quando encontra felicidade numa vida virtuosa; pecaminoso quando se compraz numa vida pecaminosa. Assim sendo, as coisas que amamos nos dizem o que somos” (Na Liberdade da Solidão, Ed. Vozes).

Depreende-se, então, que quem estabelece um vínculo de amor verdadeiro a Deus e aos homens, pauta a sua vida por uma eqüidistância da covardia e da arrogância. Portanto, é o amor que pode dar o correto equilíbrio para que a pessoa não se envolva em arrogância, numa pseudocoragem, e também não se acovarde diante das situações de riscos.

Pedro, alertado por Jesus sobre sua negação, respondeu com veemência que isso jamais aconteceria com ele, ainda que todos o deixassem. De fato, ele demonstrou essa disposição ao enfrentar com a espada os soldados que prendiam Jesus. Mas, depois de baixada a adrenalina, Pedro negou Jesus reiteradamente, até mesmo diante de uma criada, cujo testemunho sequer tinha valor legal, pois só homens podiam testemunhar diante do tribunal.

Quando Jesus, porém, depois da ressurreição, confrontou Pedro em particular, não fez referência à sua coragem, mas sim ao seu amor. Com esse amor, Pedro então pôde se habilitar a enfrentar uma multidão no dia de Pentecostes, dizendo a verdade de que eles haviam assassinado Jesus. Também João, companheiro próximo de Pedro no sofrimento e regozijo pelas ameaças e açoites recebidos com dignidade no início da igreja, escreveu que os covardes não herdarão o reino dos céus e, também, que quem teme não é aperfeiçoado no amor, pois o verdadeiro amor lança fora o temor.

David Wilkerson é considerado um profeta nesta geração. Ele relata no livro “A Cruz e o Punhal” que, ao indagar como poderia iniciar seu trabalho com os jovens delinqüentes, Deus lhe disse nitidamente que “eles têm que começar de novo e têm que ser cercados de amor”. Uma das passagens mais marcantes de seu ministério foi quando, ameaçado de morte por um líder de uma gangue, ele lhe respondeu que mesmo que o picasse em pedacinhos, cada pedacinho continuaria a dizer-lhe que o amava. David Wilkerson fez isso, não movido pela coragem, mas primeiramente pelo amor que vencia o medo de tal modo que o fazia forte.

A coragem é arma preciosa que possibilita a superação do medo, mas se ela não estiver motivada pelo amor, será apenas uma manifestação da arrogância humana. Os covardes não entrarão no reino de Deus, não por falta de coragem, mas por falta de amor. “Mas, Senhor, profetizei em teu nome …expulsei demônios… Não os conheço!” (Mt 7.21-23). O amor é a credencial autêntica, pois Deus é amor e quem ama é nascido de Deus, conhece a Deus, procede de Deus e vence o que procede do mundo! (I Jo 4.4,7,16).

Pedro Arruda reside em Barueri – SP e é um dos coordenadores de uma comunhão de grupos espalhados por várias cidades e estados no Brasil.