Transferência de Legado Não é Automática

Data de publicação: 23/05/2012
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Edição 71 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 71

Por: Mário Rios

Palavras como transição ou transicionar são cada vez mais ouvidas no contexto da Igreja brasileira. Parece que os líderes desta geração estão se dando conta de que é necessário passar seus princípios, valores e bagagem espiritual aos jovens que cresceram num ambiente bem menos hostil à fé cristã; pelo menos em se tratando de Brasil. Consequentemente, há um risco de que a nova geração cresça com menos fervor e compromisso com o Reino de Deus e acabe levando uma vida espiritual mais superficial em virtude de ter sido formada em uma realidade mais confortável.

No entanto, é muito importante que os jovens possam ir além do que a atual geração de líderes no Brasil já alcançou em Deus para que o seu propósito eterno continue avançando.

No livro de Provérbios, capítulo 27, a partir do verso 23, o Senhor adverte seu povo a respeito da transição de uma geração a outra. O texto deixa claro que esse processo não ocorre de maneira automática e é uma situação que envolve riscos. A Palavra de Deus diz ser necessário um esforço para conhecer bem o estado dos rebanhos e adverte que uma herança pode não durar para sempre, nem a coroa passar de uma geração a outra.
Podemos aprender aqui alguns princípios: o legado em Deus pode não ser transferido para a próxima geração, e até mesmo a autoridade espiritual – a coroa – pode perder-se com o tempo.

Convívio Familiar

Jorge Nishimura, 58 anos, líder cristão fundador da Universidade da Família (que oferece cursos para as igrejas sobre educação de filhos, finanças, cura emocional e relacionamento de casais), tem trabalhado a questão da sucessão há pelo menos nove anos na Jacto, empresa sediada na cidade de Pompeia, interior paulista, fundada por seu pai, Shunji Nishimura, em 1948. Falecido em 2010 aos 99 anos, ‘seu’ Shunji sempre dedicou bastante atenção ao convívio familiar, trabalhando o relacionamento entre os filhos, para que não se perdesse na transição para a futura geração o que foi construído ao longo dos anos.

São cinco os filhos herdeiros da Jacto, empresa que fabrica máquinas e implementos agrícolas e emprega cerca de 3 mil trabalhadores no Brasil, com subsidiárias na Argentina, Estados Unidos e Tailândia. Eles são a segunda geração e agora trabalham na preparação da terceira, formada por seus filhos – 19 – e futuras noras e genros. “Essa é uma operação muito delicada, uma vez que apenas 9% das empresas no mundo conseguem chegar até a terceira geração. Das 91% que fracassam, dois terços delas naufragam em conflitos familiares”, explica Nishimura.

Transição Estável

Ele reconhece que sua especialidade na área de convivência familiar foi gerada pelos princípios da Palavra de Deus e pôde usá-la na Igreja Holiness de Pompeia, onde é presbítero e membro do conselho de governo. A igreja passou por uma fase de transição mais ou menos recente, quando Massao Suguihara mudou-se para São Paulo depois de muitos anos atuando como pastor principal.

Com a mudança de Massao, foi criado um comitê de transição que trouxe um pastor de outra localidade. Ele ficou cerca de seis meses conhecendo a comunidade e familiarizando-se com a cidade; porém, sem tomar decisões. Ao final desse período de adaptação, o novo pastor assumiu totalmente suas atribuições, já com bastante liberdade e segurança para liderar o rebanho. “O comitê de transição, formado por presbíteros experientes, deu estabilidade à igreja, que continua bastante motivada. A intenção é que o pastor permaneça por bastante tempo, pois, para que uma igreja cresça, é necessário isso”, relata Jorge Nishimura.

A Igreja Holiness de Pompeia congrega 600 pessoas numa cidade com cerca de 19 mil habitantes. O desafio para eles agora é formar líderes a partir das crianças. “Temos estabelecido mentores desde cedo e também enfatizado nossa identidade em Cristo como igreja local e individualmente. Toda igreja precisa ter uma visão clara”, afirma Nishimura.

Na Universidade da Família, estão sendo contratadas pessoas mais jovens, para que possam aprender o trabalho com os mais antigos de casa. Atualmente, 50 pessoas fazem parte da equipe de colaboradores da organização.

Filhos Aprendem o Que Veem

No processo de transferir um legado espiritual de uma geração a outra, os filhos – tanto naturais quanto espirituais – aprendem mais pelo que veem do que pelo que ouvem. Porém, “é fundamental semear valores eternos no coração dos filhos continuamente. Os pais precisam manter um fluxo contínuo de comunicação com os filhos”, assegura Thomas Wilkins, 66 anos, pastor da Igreja das Nações em Joinvile, Santa Catarina, e um dos líderes da Comunhão Internacional de Ministros (MFI-Brasil), que reúne pastores de igrejas locais autônomas de todo o país.

Thomas Wilkins está há 46 anos no Brasil, juntamente com sua esposa Lisa, vindos dos Estados Unidos, e têm gerado filhos espirituais por todo o país. Geraram uma igreja em Apucarana, norte do Paraná, e, por 28 anos, ajudaram no pastoreamento da Comunidade Cristã de Curitiba. Desde o início de 2009, mudaram-se para Joinvile para auxiliar na edificação de uma igreja ali, juntamente com sua filha e genro. São cinco os filhos do casal – dois homens e três mulheres –, todos eles envolvidos na obra do Senhor.

Para ele, um pai deve dar liberdade aos filhos para seguirem o chamado de Deus em sua vida. “O filho não é uma cópia do pai. Ele deve seguir seu destino em Deus. Numa transição de uma geração a outra, seja na igreja, seja num negócio secular, o pai deve abrir mão de suas prerrogativas e dar total liberdade aos filhos para fazerem as mudanças necessárias, respeitando os valores e princípios da Palavra de Deus”, acredita.

Tanto Wilkins quanto Nishimura concordam que o processo de transição depende de muita oração, mesmo que demore. “Os pais devem ser pessoas de oração, pois a escolha vem da presença de Deus”, enfatiza Wilkins. Para Nishimura, “não se pode escolher os sucessores porque não sabemos quem Deus vai escolher”. E se isso é certo, também é certo que não existe sucesso sem sucessores em todas as instâncias da vida.

Mário Rios é pastor da Comunidade Cristã de Adamantina, no oeste paulista. Faz parte da Comunhão Internacional de Ministros (MFI-Brasil), é jornalista e professor universitário. É casado com Nicinha e tem dois filhos, Pedro e Ana Maria.    

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Os Números Falam

Veja alguns números sobre o assunto “gerações” na Bíblia. Por meio deles, é possível avaliar a importância que Deus dá para o tema:

• A palavra gerações é mencionada mais de 700 vezes nas Escrituras.

• Há 1.314 passagens que falam sobre pais e filhos.

• Apenas sobre o relacionamento entre pais e filhos, existem 2.208 versículos.

• Sobre instruções específicas para os pais, são 1426 passagens.

• Quanto ao tema de transferir o legado de uma geração a outra, são 180 partes da Bíblia.

Fonte: “Chega de Uvas Verdes”, de Don Nori, Dynamus Editorial

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