Testemunho de Impacto: Uma Experiência Revolucionária

Data de publicação: 15/11/2011
Categorias da Biblioteca:
Edição 23 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 23

Por: Marlene Elias

Minha jornada começou quando soube que meu irmão prometera à Madre Teresa que dirigiria um retiro para as Missionárias da Caridade em Calcutá. Senti um desejo enorme de acompanhá-lo, mas só depois compreenderia que isto faria parte do plano de Deus de enviar-me a uma jornada bem maior dentro da minha alma. Ao encontrar Madre Teresa e segui-la todos os dias enquanto cuidava dos pobres de Deus, encontrei com Jesus face a face.

Quando chegamos a Calcutá, todas as dificuldades da longa e árdua viagem se dissiparam. Nossa primeira cena foi da Madre Teresa junto com duas das suas irmãs chegando ao terminal num caminhão de ambulância arrebentado. Instantaneamente fomos inundados por um mar de humanidade, por causa da multidão que a reconhecia. Contemplei em silêncio enquanto dava atenção a cada um. E diante dos meus olhos, esta figura conhecida pelo mundo inteiro pegou minhas malas. Chamou suas companheiras para ajudar, e juntas colocaram toda a nossa bagagem no caminhão. Este ato de humildade tocou-me profundamente.

Ela sentou do meu lado no banco traseiro do caminhão. Enquanto olhava para dentro dos seus olhos, eu me dava conta de que estava de fato ao lado desta pessoa tão singular, e fiquei totalmente emudecida. Pude ver que meu irmão se divertia com a cena da sua irmã loquaz com a língua simplesmente paralisada.

Enquanto o caminhão passava pelas ruas congestionadas e imundas da cidade, tivemos de nos desviar de rickshaws (carrinhos), puxados por homens frágeis. Correndo em todas as direções havia cabritos, vacas, galinhas, ônibus, caminhões, motos, táxis, e carros. Buzinas tocavam sem parar. Por pouco evitávamos colisões, e constantemente o motorista freava bruscamente, mas nada disso parecia afetar a Madre Teresa. Meu coração, porém, quase saía pela boca enquanto éramos jogados de um lado do caminhão para o outro.

Enquanto isto, ela apontava para mim a pobreza que existe em Calcutá. As cenas horríveis ultrapassavam qualquer idéia que tivera até então.

Felicidade Sem Conveniências Modernas

Quando chegamos ao seu quartel general, fizemos uma breve oração de ações de graças. Nesta época 360 pessoas, entre irmãs e estagiárias moravam lá. Suas camas, macas de ferro com colchonetes finos, estavam tão apertadas que quase não dava para passar no meio. Viviam uma vida austera, sem conveniências modernas, entretanto sua alegria era evidente. Dependiam totalmente de Deus para seu sustento diário. Todas andavam descalças e vestidas com o familiar sári indiano, branco com bordas azuis. Toda água para consumo ou limpeza era trazida em baldes de um cano exterior.

A comida era assada para os pobres e para elas mesmas em fogões de argila. Todos os dias os pobres faziam uma fila para receber o único sustento que teriam. Madre Teresa me disse: “Para poder compreender aqueles que não têm nada, e poder ajudá-los, precisamos viver como eles”.

Elas trabalhavam incansavelmente em hospitais e orfanatos. Saíam pelas ruas e traziam os quase mortos de fome, e os doentes de hanseníase (conhecida por muitos como lepra) para o hospital. E acima de tudo, traziam os bebês abandonados. Mas sempre no meio das suas intensas atividades, elas tiravam tempo para estar diante do Senhor em oração e comunhão. Isto as renovava e lhes dava forças para lidar com a miséria e o sofrimento que encontravam diariamente. Entretanto, no meio de toda a tristeza, havia um espírito de alegria. Pedi a Jesus para me dar este espírito de alegria, pois não conseguia senti-lo por minha conta.

Até Respirar Pode Ser Perigoso em Calcutá

Mesmo agora, passados estes anos, é difícil expressar o horror e a incredulidade que sentia ao me deparar com as cenas naquele lugar. As ruas estavam abarrotadas de pessoas definhadas e maltrapilhas. Tínhamos às vezes de passar por cima de cadáveres. Andávamos nas ruas junto com vacas doentes, cachorros, cabritos, galinhas, e pior de tudo, gente morrendo de fome. Excremento animal e humano enchia as ruas. Até respirar em Calcutá pode ser prejudicial à saúde. Assim, tínhamos de cobrir a boca quando andávamos ali. Havia uma fetidez pútrida que literalmente assaltava nossos sentidos. Fumaça subia do rio por causa de piras funerárias com cadáveres queimados pela metade. Lixo em fase de decomposição estava amontoado em vários lugares, onde crianças abandonadas e famintas brigavam sobre migalhas de comida estragada.

Panelas de excremento bovino seco estavam queimando por toda parte. Eram os fogões do povo da rua. Água imunda corria pelas ruas levando lixo e impurezas. Carnes e outros alimentos cobertos de moscas estavam expostos para venda.

Estava em contato pela primeira vez com verdadeira pobreza e fome — e fiquei arrasada. Quando mendigos tentavam me tocar com seus dedos esqueléticos, percebi a dor nos seus olhos. Aqueles semblantes rasgavam meu coração cada vez, e ainda me assombram até hoje.

Sorrisos, Abraços e Beijos que Dão Vida

Durante dias após aquela primeira experiência, eu entrava no meu quarto e chorava incontrolavelmente, sentindo culpa por ter me alimentado. Esta memória da face da fome estará para sempre esculpida na minha alma. Eu queria correr dela. Senti-me tão inútil e incapaz.

Madre Teresa falou comigo para parar de chorar. “Estas pessoas já têm lágrimas suficientes. Estão precisando é do seu sorriso.” Tentei obedecer. Quando saía com ela, procurei seguir o seu exemplo.

Fomos ao orfanato, onde pequenos berços de ferro tomavam todo o espaço das paredes. Estavam cheios de bebês que Madre Teresa e suas irmãs haviam resgatado. Vi quando um bebê desnutrido acabara de chegar, encontrado no meio dos montões de lixo. Observei enquanto uma jovem deu banho nele, e administrava medicamentos para tentar salvá-lo da morte.

Então Madre Teresa me contou sobre um outro bebê que chegara no dia anterior. Disse que a criança parecia ter duas cabeças, tamanho era um tumor; e gritava em dor com cada movimento. Ela arranjou um jeito de enviar a criança de avião até um hospital para remover o tumor. “Tantos bebês, tantas histórias”, ela disse com tristeza nos seus olhos.

Logo que chegamos ao orfanato, Madre Teresa começou a cuidar dos seus pequeninos. Suas testas enrugadas logo se transformavam e sorrisos radiantes enchiam os rostinhos quando ela entrava no quarto. As crianças que podiam, corriam em sua direção, puxando sua saia e beijando-a, com alegres risadas.

Vi uma mulher indiana, que vinha como voluntária para o orfanato, passar de berço em berço, pegar cada bebê, e dar nele um abraço amoroso. Madre Teresa me disse que os bebês podiam receber remédios e alimentos, mas se não fossem abraçados, morriam. Disse que tinha designado alguém todos os dias para vir dar abraços e beijos com amor em cada criança.

Um Senso de Dignidade e Valor

Durante o restante da minha permanência lá, tive o privilégio de passar muitas horas com Madre Teresa. Visitei seus hospitais, vi o jeito gentil com que cuidava dos moribundos — aquelas miseráveis e esqueléticas sombras de existência humana, que passavam a se sentir especiais e amadas. Recebiam um senso de dignidade e valor.

Fiquei totalmente humilhada ao testemunhar e participar da sua incansável obra de amor. Ouvi também enquanto o grupo adorava a Deus, as vozes subindo como incenso. E a memória de ouvir a voz de Madre Teresa, enquanto cantava para seu amado Jesus, viverá no meu coração para sempre.

Quando chegou a hora de partir de Calcutá, chorei sem acanhamento — como era difícil dizer adeus a ela. Seu olhar parecia penetrar no fundo do meu ser, quando me disse: “Vá com alegria, Marlene. Seja sempre alegre com o amor de Jesus. Sirva a ele no seu cantinho do mundo. Seja Jesus a todos que encontrar. E em todos que encontrar, veja Jesus.”

Quando estava me virando para sair, alguém bateu na porta, e Madre Teresa a abriu. Estava ali um mendigo, um hindu emaciado, com um aspecto humilde e suplicante nos seus olhos. O testemunho silencioso daquela cena é uma das inúmeras dádivas que trouxe de volta desta viagem e que guardo até hoje. Minha vida não foi virada de ponta cabeça; foi endireitada!

Anos depois, quando soube do falecimento de Madre Teresa, estas e muitas outras memórias inundaram minha alma. Fiquei pensando: Se uma pequenina mulher como ela pôde causar um impacto tão poderoso em pessoas pelo mundo inteiro, por que nós, cada um no seu cantinho do mundo, não podemos trazer um efeito igualmente positivo? Ela sempre dizia às pessoas que não era necessário ir a Calcutá, ou a Beirute, ou a nenhuma outra terra estranha. Deveriam começar na sua própria família. “Mantenha o amor sempre aquecido, de forma que o tempo que passam juntos em família seja sempre especial. Muitos carecem de ouvir uma palavra bondosa, de sentir o toque de uma mão compassiva, ou de ouvir uma voz de amigo. Nas famílias, na vizinhança, talvez na casa ao lado, há pessoas solitárias. Visite-as, faça um ato de bondade. Até um simples ‘Oi’ pode alegrar o dia de alguém. Isto alimenta mais do que a comida. Dê graças a Deus pelo seu país, por suas bênçãos, por tudo que ele faz por você. Use seus talentos para ajudar os outros.” E depois acrescentou: “Comida dura apenas por um dia; o amor é para sempre”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *