Testemunho de Impacto: Um Calendário Fala

Data de publicação: 19/09/2011
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Edição 34 e Revista Impacto - 1998 a 2014.

Por DeVern Fromke

Dick Hillis, um dos fundadores da Overseas Crusade (representado no Brasil pela SEPAL), foi missionário na China durante vários anos com sua esposa Margaret.

Uma Decisão Difícil

O dia era 15 de janeiro de 1941. O exército invasor japonês estava a poucos quilômetros da base da nossa missão, na região central da China. Minha esposa, Margaret, estava sozinha na base. No dia anterior, eu havia ficado muito doente e fui levado às pressas para um hospital que ficava a cerca de 190 km da base.

Inesperadamente, naquele mesmo dia, o oficial comandante das tropas nacionalistas de defesa entrou abruptamente na base missionária.

“O inimigo está avançando”, alertou o coronel, “e temos ordens para não defender esta cidade. Para sua própria segurança, vocês devem buscar refúgio em alguma das vilas fora da cidade.”

Enquanto o coronel saía dali, o vento frio de janeiro invadiu aquele pequeno cômodo. Subitamente, a gravidade do perigo em que se encontrava apoderou-se de Margaret. Ali estava ela em uma vila chinesa ameaçada pela guerra, assumindo sozinha a responsabilidade pela segurança de seus dois filhos – Johnny, de um ano, e Margaret Anne, com seis meses de idade. “Como conseguirei controlar as coisas sem meu marido?”, ela pensou. “A decisão que tomar pode determinar a vida ou a morte dos meus bebês”

Mais tarde, Margaret admitiu que até então nunca havia experimentado toda a maravilha da suficiência e do poder de Deus para guiar quando tudo mais falhava.

No meio da tarde, houve pânico com a partida dos soldados. Famílias fizeram as malas e fugiram. Os anciãos da igreja foram falar com Margaret antes de partirem. “Venha conosco”, suplicaram, “cuidaremos de vocês enquanto o Pastor Hillis estiver fora”.

Margaret observou nos olhos deles a preocupação. Ela amava esse povo, mas sabia que as cabanas das vilas fora da cidade abrigavam a morte para os bebês ocidentais. Muitos pequeninos túmulos em nossa base missionária eram a prova desse perigo.

Como poderia explicar, sem ofendê-los, que ela não deveria levar seus próprios filhos para aquelas cabanas de chão-batido e sem aquecimento, nas quais amontoavam-se três ou quatro gerações? Algumas semanas antes, um bebê de seis meses, filho da família norte-americana que morava mais próximo, falecera de uma terrível disenteria.

Não, seus filhinhos deveriam ficar próximos à sua própria cozinha onde ela poderia ferver leite e água e onde teriam um quarto sempre aquecido.

Margaret agradeceu aos cristãos da cidade pela preocupação, mas disse que aguardaria o retorno do seu marido e cuidaria da propriedade da missão. Naquela noite ela foi dormir tremendo de medo. “Será que os terríveis soldados do exército imperial atacariam à noite?”, preocupava-se ela.

O pequeno John-ny acordou choramingando com o frio. Após trazê-lo para sua cama, Margaret ficou acordada por um longo período de tempo. Ouvindo as janelas de papel-manteiga estalarem no forte vento, orou para que seus filhinhos pudessem viver para ver seu pai novamente.

No dia seguinte, bem cedo, ela apressou-se em ir à cozinha ferver a água para a mamadeira de Margaret Anne. Instintivamente, ela destacou do calendário de parede a página referente ao dia anterior. O versículo das Escrituras para o novo dia brilhou como a luz do sol.

“Em me vindo o temor, hei de confiar em ti” (Sl 56.3).

“Bem, com certeza estou com medo”, Margaret admitiu para si mesma. “Essa parte do versículo se cumpriu em mim. Agora é hora de confiar em Deus”.

A promessa de Deus a sustentou naquele dia tenso.

A cidade estava sendo evacuada rapidamente. Outros membros da igreja vieram convidar Margaret para ficar com eles em suas cabanas no interior. Mas aquele versículo das Escrituras sustentou a jovem mãe. Ela não deveria entrar em pânico, mas sim confiar.

Foi então que o porteiro da base veio até Margaret com os olhos cheios de pavor e disse: “Tenho de ir embora”, disse ele. “Por favor, esposa do pastor. Por favor, venha se refugiar comigo na minha vila que fica longe da cidade”.

Margaret hesitou. A cidade deserta seria um convite para bandidos e saqueadores. O que faria ela sem o porteiro? Mas o risco naquelas cabanas para os seus filhos era certo. Na cidade, ela se defrontava apenas com os temores desconhecidos. Ela declinou a oferta do porteiro, que foi embora ainda se desculpando.

Provisão Divina

Já era meio-dia quando Margaret lembrou-se de destacar uma folha do pequeno calendário de parede. O versículo das Escrituras para o dia era: “Em ti, pois, confiam os que conhecem o teu temor, porque tu, Senhor, não desamparas os que te buscam” (Sl 9.10).

Quando Margaret reclinou sua cabeça para agradecer a refeição, derramou sua gratidão a Deus por aquelas palavras tão específicas para aquele momento.

Sua principal preocupação agora era comida. Todas as lojas da cidade estavam fechadas, com tábuas pregadas sobre as portas e janelas. Muito embora as cabras que proviam o leite dos bebês ainda estivessem na base da missão, o homem que as ordenhava havia deixado a cidade. No dia seguinte, a própria Margaret teria que ordenhá-las. Ela se perguntava se seria capaz de fazer com que aqueles teimosos animais ficassem quietos.

Naquela noite, Margaret teve um sono agitado. Preocupada com o que faria para alimentar seus filhos, ela estava certa apenas de uma coisa: que deveria permanecer na cidade e, de alguma forma, confiar em Deus.

Na manhã seguinte ela acordou com o som distante de tiros. Os japoneses certamente estavam avançando em direção à cidade. Ela sabia que deveria ordenhar as cabras antes que o bombardeio da cidade começasse, quando as cabras ficariam amedrontadas e indomáveis.

Decidiu que antes de enfrentar aquelas cabras, seria melhor fortalecer-se com uma tigela de mingau de arroz e com a promessa das Escrituras para o novo dia. Destacou do calendário a página do dia anterior e a Palavra de Deus para ela era:

“Não temais, pois; eu vos sustentarei a vós outros e a vossos filhos” (Gn 50:21).

A precisão daqueles versículos estava tornando-se quase um mistério! Com alguma curiosidade, Margaret examinou o verso do calendário – havia sido publicado na Inglaterra no ano anterior. Mas Deus, em seu amor onisciente, provera um ano antes, do outro lado do mundo, exatamente as palavras de que ela necessitava agora.

Margaret ainda tomava seu mingau quando subitamente uma mulher entrou na cozinha carregando um balde de leite de cabra bem quente.

“Poderia ficar e ajudá-la?”, perguntou ela segurando o balde. “Veja, eu ordenhei suas cabras.” A pequena Sra. Lee era nossa vizinha há muitos anos, mas naquela manhã Margaret sentiu que fora enviada do céu. A Sra. Lee contou que não tinha familiares vivos e que gostaria de demonstrar sua gratidão pela missão ficando na cidade com Margaret.

Abruptamente, naquela tarde, uma forte pancada no portão deixou o coração daquelas mulheres agitado. Com o rosto radiante, a Sra. Lee abriu a porta e convidou para entrar quem batera à porta. Uma frágil mulher do campo, vestida com trajes pretos, entrou trazendo uma galinha viva e uma cesta com ovos.

“Paz, paz!”, disse ela, saudando-as na maneira peculiar dos cristãos.

O aterrorizante barulho dos canhões não a impediu de se aproximar quando se lembrou que os missionários poderiam estar com fome. Deus havia cumprido a promessa do calendário. Ele providenciou que os pequeninos fossem alimentados.

Naquela noite, o coração de Margaret estava cheio de esperança. Enquanto bombas explodiam em toda a cidade, ela orava para que Deus, de alguma forma, poupasse a vida daquelas pessoas tão gentis que amava.

Na manhã seguinte, Margaret correu para o pequeno papel quadrado pendurado naquele prego, e destacou outra folha:

“No dia em que eu te invocar, baterão em retirada os meus inimigos; bem sei isto: que Deus é por mim” (Sl 56.9).

“Seria muito crer nisso agora?”, ponderou Margaret. “Certamente não seria correto tomar literalmente um versículo escolhido ‘por acaso’ de um calendário inglês!”

À medida que o barulho do tiroteio se aproximava, Margaret e a Sra. Lee começaram a preparar a casa para a invasão. Qualquer papel que pudesse de alguma forma ser considerado de significância militar deveria ser escondido ou destruído. Assim, elas vasculharam sua escrivaninha e os prédios da igreja, queimando papéis que poderiam causar mal-entendido.

A Surpresa de Deus

Ao cair da noite, o tiroteio podia ser ouvido vindo de ambos os lados da cidade. Aquelas mulheres foram deitar-se com a roupa que estavam, preparadas para a qualquer momento confrontarem os invasores japoneses.

Margaret acordou subitamente no romper do dia e preparou seus ouvidos para o barulho das botas militares triturando o cascalho. Mas apenas uma profunda quietude a circundava. Apreensão misturava-se à empolgação à medida que Margaret e a Sra. Lee foram até à guarita, cada uma trazendo nos braços uma criança. A Sra. Lee foi a primeira a prudentemente colocar a cabeça para fora.

“Não há ninguém na rua”, disse ela. “Será que devemos sair?”

As duas mulheres atravessaram o portão e observavam as ruas encherem-se, não de soldados japoneses, mas de moradores da cidade que retornavam de seus esconderijos no interior. “Os chineses haviam vencido?” Como que em resposta a uma pergunta não verbalizada, o coronel aproximou-se delas: “Mulher do pastor”, disse ele demonstrando alívio, “estava preocupado com você!”.

Então, ele contou a Margaret que os japoneses haviam se retirado. Não, não haviam sido derrotados. Tampouco ninguém apresentou sequer uma conjectura razoável que explicasse aquela retirada. O inimigo simplesmente retrocedera.

Margaret, entrando em sua cozinha com o olhar fixo em um pequeno bloco de papel dependurado na parede, silenciosamente rendeu graças ao Deus que é suficiente.

“Você poderia dizer que era apenas um calendário”, disse ela mais tarde. “Você poderia dizer que pessoas desconhecidas escolheram aqueles versículos sem pensar na China ou na guerra que seria travada quando chegassem aquelas datas. Mas para mim era mais do que um calendário. Nenhum desconhecido escolhera aquelas linhas. Para mim foram escritas pela própria mão de Deus.”

Quantas vezes lemos sobre a fidelidade de Deus em sua Palavra ou ouvimos outros testemunharem sobre isso? Mas é somente quando pessoalmente experimentamos a provisão miraculosa na nossa vida – quando não há qualquer saída humana – é que passamos a entender o que é confiar verdadeiramente no Senhor.

Há alguma outra forma de aprender sobre fidelidade, a não ser por meio das aflições? Alguém já disse que podemos aprender de forma conceitual, mas isto é incompleto enquanto não aprendermos também de forma circunstancial.

Extraído do livro: Histórias que Abrem A Janela Mais Ampla de Deus, de DeVern Fromke (Tesouro Aberto).
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