Testemunho de Impacto: Quando Ousei Compartilhar-me

Data de publicação: 03/09/2011
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Edição 42 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 42

Por Paul Tournier

Pelo fato de ter escrito bastante sobre a necessidade de nos tornarmos “pessoas” uns para os outros, muita gente chegou à conclusão de que eu sou uma daquelas almas abertas e calorosas, para quem é fácil estabelecer relações pessoais. Nada poderia estar mais longe da realidade.

Uma olhada nos acontecimentos do início da minha vida, que influíram na formação do meu caráter, pode explicar algo sobre essa inabilidade de minha parte. Meu pai morreu quando eu tinha três meses de idade. Ele era pastor da Igreja de São Pedro, em Genebra, Suíça, aquele enorme monumento acinzentado onde Calvino pregou. Às vezes, eu tinha a impressão de que o homem que o sucedeu como pastor estava tentando substituí-lo também na minha educação. Ele me convidava para ir ao seu escritório e lá perguntava, com voz de janela rangendo: “Muito bem, Paul! Como vão as coisas com você, filho?” Eu ansiava realmente por lhe dizer, mas nenhum de nós tinha a menor idéia de como comunicar tais coisas um ao outro.

Minha mãe também morreu quando eu era muito novo, e eu cheguei à adolescência sem jamais ter estabelecido um relacionamento real com alguém.

Quando eu tinha doze anos, fui por acaso a uma igreja que não era a de São Pedro. Ali ouvi um sermão evangelístico apaixonado, bem diferente dos cultos solenes a que eu estava acostumado. Ao terminar, o ministro fez um apelo para irmos à frente. Tímido como eu era, não poderia, é claro, apresentar-me na frente de tanta gente, mas, secretamente, dentro do meu próprio coração, entreguei minha vida a Jesus.

Tive imediatamente a maravilhosa sensação de estar sendo chamado para fora deste mundo – onde, de qualquer forma, não me sentia muito à vontade –, a um lugar à parte. E o espantoso resultado foi que, da segurança desse meu lugar à parte, tornei-me um líder. No decorrer de minha adolescência e na escola médica, organizei e dirigi vários grupos de estudantes cristãos. As alocuções que eu proferia eram obras-primas de pesquisa, com citações de uma dúzia de filósofos e teólogos. Quanto mais abstrata era a coisa, mais eu sentia estar honrando a Deus. Contudo, durante todo esse tempo, meu ser íntimo permanecia tão afastado dos outros quanto antes.

Não foi senão depois que me graduei na escola médica e comecei a praticar a profissão que as primeiras dúvidas indefinidas sobre tudo isso começaram a surgir. Eu era clínico geral nessa época e via as coisas que todo médico de família vê: a criança brilhante fracassando na escola, a família destroçada pelo alcoolismo, as pessoas idosas solitárias e amarguradas.

Uma noite por semana, eu tinha um descanso desses problemas quando me reunia com um grupo de médicos cristãos para oração e estudos. Esses eram gloriosos serões, afastados dos aborrecimentos do dia tanto quanto eu acreditava que a religião devia ser. Por que, então, os rostos do meu consultório haveriam de vir distrair-me a atenção? Quanto mais eu tentava concentrar-me em assuntos teológicos, mais meu espírito vagueava a gente real, com seus problemas bem reais.

Tinha trinta e quatro anos quando ouvi falar de um novo grupo cristão que se reunia em Genebra; um grupo que estava atraindo médicos, psicólogos, matemáticos, profissionais mundialmente famosos. Lembro-me da empolgação com que fui à minha primeira reunião com eles em uma casa antiga e majestosa da “Rue Calvin”. Que festim de erudição e permuta intelectual não seria!

Imaginem minha perplexidade quando a primeira meia hora dessa assembléia de mentes brilhantes passou-se em total silêncio. Um silêncio “de escuta”, explicaram; mas tudo o que se podia ouvir era o tique-taque do relógio que me dizia que tempo precioso estava sendo desperdiçado.

Finalmente, um eminente cientista começou a falar. Contou uma história irrelevante sobre ter omitido algo em sua declaração de imposto de renda. Mais silêncio. Então um teólogo de fama mundial relatou que havia escrito uma carta à sua irmã pedindo perdão por alguma antiga ofensa. Um psiquiatra narrou como tinha vencido a antipatia por certo paciente. E assim foi a coisa, enquanto eu escutava cada vez mais incrédulo: pequenos e triviais assuntos pessoais, nenhum grande tópico mencionado, muito menos resolvido.

Ao mesmo tempo que incrédulo, estava me sentindo irritado com essa gente por desnudarem suas almas dessa forma. Lembro-me de ter dito secamente, no fim da noite: “Eu vim em busca de pão e vocês me deram pedra”.

Estava, contudo, bem mais impressionado do que admitia até para mim mesmo. Indubitavelmente a irritação vinha do fato de que essa gente estivera falando coisas reais, e eu o sabia.

Na manhã seguinte, um tanto de má vontade, sozinho no meu quarto, tentei esse negócio de ouvir Deus. E no silêncio comecei a compreender que eu nada sabia sobre seus pensamentos a meu respeito. Bem, eu podia tecer, em minha cabeça, discursos eruditos sobre ele, porém, com relação a abrir-lhe meu “eu”, não sabia mais sobre como consegui-lo diante de Deus do que diante de outras pessoas.

Assim, voltei aos meus novos amigos para aprender. E, enquanto eu gradualmente começava a conseguir pela primeira vez na vida real compartilhar, começava a descobrir que a religião não é um compartimento separado, à margem de nossas preocupações cotidianas, mas que quando nós o permitimos, ela pode permear e transformar completamente essas atividades. Mais difícil do que tudo para um indivíduo como eu, foi começar a aprender que nos aproximamos mais de Deus, não quando caminhamos à parte, mas sim, quando nos aproximamos uns dos outros.

Uma das primeiras ordens que me vieram quando aprendi a cultivar esse silêncio de escuta, foi que eu devia visitar o ministro a cujo apelo havia respondido quando tinha doze anos. Lutei contra a idéia durante todo o caminho para a sua casa. O que poderia o homem pensar de um perfeito estranho intrometendo-se em sua vida particular com alguma reminiscência pessoal?

O que encontrei ali quando cheguei – e que somente Deus havia visto – foi um homem velho e alquebrado pela vida, nessa triste disposição de ânimo, parecia-lhe quase que desperdiçado. Ele ficou completamente atônito ao saber que seus sermões haviam transformado vidas e eram recordados através dos anos; foi como se eu lhe houvesse dado um presente de inestimável valor. Não muito depois disso, li nos jornais que ele falecera.

Através dessa e de dúzias de experiências semelhantes, compreendi aos poucos o poder que pode vir por meio do compartilhar, muito embora tal coisa fosse contra minhas tendências. E quando ousei compartilhar-me nas minhas relações cristãs, compreendi que isso também era necessário no meu consultório. Não devia olhar para meus pacientes como um caso, mas como uma pessoa; devia preocupar-me não apenas com seus sintomas, mas com sua família, seu trabalho, com todo o complexo de suas experiências passadas, suas esperanças e temores quanto ao futuro.

Mais terrificante do que isso, para o indivíduo afastado e fechado que eu continuava a ser por instinto, foi saber que deveria também me tornar uma pessoa para meus pacientes. Não mais “monsieur le docteur” de avental branco e estetoscópio, mas um ser humano amigo que encarava os problemas da vida como seus próprios.

Com o tempo, essa transformação do meu pensamento levou-me à psiquiatria, onde o ato de compartilhar pode ter surpreendentes resultados. Uma vez, Deus orientou-me para compartilhar com um paciente algo que me pareceu tão trivial – por demais embaraçoso, sem dúvida – que somente anos de aprendizado no confiar nele forçou-me a fazê-lo. Esse homem vinha me visitando havia várias semanas sem jamais descer ao que realmente o estava incomodando. Certa manhã, ele me perguntou: “Como você usa o período de silêncio do qual você fala em seus livros?”

Suspeitando que ele não estava realmente interessado, mas apenas procurando novamente evitar algum assunto que o assustava, disse-lhe: “Não vamos falar sobre isso. Vamos experimentá-lo”.

Fechamos nossos olhos e eu orei fervorosamente para que ele pudesse ter uma experiência real com Deus. Quão edificante seria se ele nos desse a ambos uma mensagem inspiradora!

Contudo, em vez de inspiração, parece que tudo quanto eu conseguia pensar era sobre as contas que venciam nesse mês. “Tenho de me sentar esta noite”, eu refletia, “e estudar as despesas de casa com minha esposa”. Isso jamais deveria ter acontecido! Eu deveria estar dando um exemplo de oração e não preocupar-me com dinheiro!

Então veio a ordem inconfundível: Confesse a esse homem o que você vinha pensando.

Bem, eu resisti como sempre faço, mas finalmente falei.

Ele ficou espantado. “É esse o meu problema”, gritou. “Eu preciso mentir à minha esposa a respeito de dinheiro todos os dias, porque tenho uma vida secreta. Como você soube?”

Com a verdade finalmente diante de nós, fomos capazes de encarar juntos seu problema. Mas isso poderia não ter acontecido se eu tivesse tentado esconder-me atrás da fachada de “mentor espiritual”; se, de fato, tivesse me negado a compartilhar meu muito falível “eu”.

Porque descobri que não é quando estamos espiritualmente ensoberbecidos, mas, sim, quando somos mais humanos, que mais nos aproximamos de Deus. Essa é uma verdade que ele tem de me ensinar de novo todos os dias.

O Dr. Paul Tournier é um psiquiatra cristão suíço, autor de inúmeras obras. Este artigo foi publicado originalmente na revista “GUIDEPOSTS” em janeiro de 1971, e traduzido por Zenon Lotufo Jr.

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