Testemunho de Impacto: Catherine Booth

Data de publicação: 27/11/2011
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Edição 16 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 16

Num certo domingo, alguns anos atrás, estava passando por uma rua estreita e densamente habitada, a caminho de ouvir a pregação de um honrado ministro de Cristo, na expectativa de desfrutar uma noite agradável para minha própria edificação, e esperando ao mesmo tempo ver algumas pessoas aflitas serem introduzidas no reino, quando aconteceu de eu olhar para cima, onde havia um grande número de pequenas janelas uma ao lado da outra, e onde várias mulheres estavam sentadas, observando os passantes, ou apaticamente fofocando umas com as outras.

Recebi então uma forte sugestão na minha mente: “Você não estaria fazendo melhor a obra do Senhor, e agindo mais de acordo com a vida do seu Redentor, se entrasse nessas casas, falasse com aquelas pessoas pecadoras e indiferentes, e as convidasse para irem ao culto, do que ir sozinha para seu proveito próprio?”

Fiquei surpresa; era um pensamento novo; e enquanto raciocinava a respeito disso, o mesmo inaudível interrogador perguntou: “Que esforço os cristãos estão hoje despendendo para obedecer à ordem: ‘Obriga a todos a entrar, para que fique cheia a minha casa’?” Isto veio acompanhado de uma luz e uma unção que eu sabia serem divinas. Senti-me profundamente agita- da. Na verdade, me senti culpada. Sabia que nunca tinha trabalhado desta forma para levar os pecadores perdidos a Cristo, e tremendo, j consciente da minha extrema fraqueza, fiquei parada por um momento, olhei para o céu, e disse: “Senhor, se tu me ajudares, eu tentarei;” e sem parar mais a fim de consultar carne e sangue, voltei e comecei o meu trabalho.

Falei em primeiro lugar com um grupo de mulheres sentadas no degrau de uma porta; e oh! como me custou fazer aquele esforço, palavras não podem descrever; mas o Espírito me ajudou na minha debilidade, e me garantiu uma audiência paciente e respeitosa; algumas delas ainda me prometeram que iriam à casa de Deus. Isto me encorajou bastante; comecei a sentir o gosto da alegria que se encontra escondida debaixo da cruz; e compreendi, num grau muito fraco, que é mais abençoado dar do que receber. Com este estímulo oportuno e amável do meu bendito Mestre, fui até o próximo grupo que estava de pé na entrada de um beco sujo e baixo. Aqui, novamente, fui recebida bondosamente, e me fizeram promessas — nenhuma repulsa rude, nenhuma zombaria amarga aconteceu para sacudir minha recente confiança, ou esfriar meu fraco zelo.

Comecei a entender então que os pés do meu Mestre estavam atrás de mim; não, adiante de mim, suavizando minha vereda e preparando meu caminho.

Esta bendita certeza aumentou tanto a minha coragem e acendeu de tal forma minha esperança, que me aventurei a bater na porta da próxima casa, e quando esta foi aberta, entrei e falei com os moradores a respeito de Jesus, da morte, do juízo e da eternidade. O homem, que parecia pertencer a uma categoria mais alta de mecânico, se mostrou muito interessado e impressionado com minhas palavras, e prometeu que participaria, com sua esposa, dos cultos de avivamento que estavam acontecendo na capela próxima à sua casa.

Com um coração cheio de gratidão e olhos cheios de lágrimas, estava pensando para onde iria a seguir, quando vi uma mulher de pé num degrau adjacente, com um frasco na sua mão. Meu Divino Mestre disse: “Fale com aquela mulher”. Satanás sugeriu: “Talvez ela esteja bêbada”; mas depois de uma pequenina hesitação, apresentei-me a ela dizendo: “As pessoas que moram neste andar não estão em casa?” observando que a parte de baixo da casa estava fechada. “Sim”, disse ela, “eles foram para a capela”; e pensei ter percebido uma tristeza cansada na sua voz e nos seus modos.

Então eu disse: “Oh, estou tão contente de ouvir isso: e o que aconteceu que você também não foi para algum lugar para louvar a Deus?”

“Eu!” disse ela, olhando para a sua própria aparência miserável. “Eu não posso ir para a capela; estou presa em casa com um marido bêbado. Tenho que ficar com ele para evitar que ele vá para o bar, e acabei de buscar uma bebida para ele”.

Expressei minha tristeza por sua situação, e perguntei-lhe se poderia entrar e ver seu marido. “Não”, disse ela. “Ele está bêbado; você não poderia fazer nada por ele agora.”

Repliquei: “Eu não me importo que ele esteja bêbado, se você me deixar entrar; não tenho medo; ele não vai fazer nada para mim.”

“Bem”, disse a mulher. “Você pode entrar, se quiser; mas ele só vai lhe ofender.”

Eu lhe disse: “Não se incomode com isso”, e a segui escada acima.

Estava me sentindo agora tão forte no Senhor e na força do seu poder, e tão segura quanto um bebê nos braços da sua mãe. Senti que estava no caminho da obediência e não temi nenhum mal. Oh, quanto o povo de Deus perde por desobedecer às orientações do Espírito Santo! Se ao menos fossem fiéis às suas palavras, ele habitaria no seu interior, e assim não temeriam nem homens nem demônios!

A mulher levou-me a um pequeno quarto no primeiro andar, onde encontrei um homem fino, inteligente, com os seus quarenta anos, sentado quase dobrado numa cadeira, com um frasco ao seu lado, de onde estava bebendo aquilo que o reduzira a um nível abaixo dos animais perecíveis.

Busquei força, sabedoria, poder e amor no meu Guia divino, e recebi dele tudo que eu precisava. Ele silenciou o demônio de Bebida Forte e despertou a percepção do homem para receber minhas palavras. Enquanto comecei a falar com ele, com meu coração cheio de compaixão, ele se ergueu pouco a pouco da cadeira e ouviu com um olhar surpreso e meio vazio. Falei-lhe a respeito da sua atual condição deplorável, da insensatez e da maldade do seu caminho, das necessidades da sua esposa e filhos, até que ele ficou completamente desperto e saiu do estupor em que eu o encontrara.

Durante esta conversa sua esposa chorava amargamente, e em pequenas prestações foi me contando um pouco da sua história passada. Descobri que ela já conhecera ao Senhor, mas que se deixou levar pelas dificuldades, perdeu sua confiança, e caiu no pecado. Ela me contou que o marido dela tinha um irmão no ministério wesleyano, que tinha feito tudo o que era possível um irmão fazer para salvá-lo; que eles tinham enterrado uma filha há dois anos antes, que morrera triunfantemente no Senhor, e que nos seus últimos alentos implorou ao pai que deixasse de beber e se preparasse para encontrá- la no céu; que ela tinha um filho, agora com dezoito anos, que, ela temia, estava começando a ter problema com tuberculose; que seu marido era um trabalhador competente que ganhava três ou quatro libras por semana como operário, mas que bebia quase tudo isso, de tal maneira que eles tinham que viver em dois cômodos, e muitas vezes passavam falta até da comida necessária.

Li para ele a parábola do filho pródigo, enquanto lágrimas rolavam pela face dele como chuva. Então orei com ele conforme o Espírito me inspirava, e saí, prometendo voltar no dia seguinte com um livro de compromisso de sobriedade que ele prometeu assinar.

Senti que meu trabalho para aquele momento estava encerrado. Exausta no físico, mas feliz na minha alma, dirigi-me para o santuário, chegando a tempo de ver a conclusão do culto, e de dar uma mão na reunião de oração.

No dia seguinte visitei novamente aquele homem. Ele assinou o compromisso e ouviu com atenção tudo que lhe falei. A partir daquela ocasião iniciei uma rotina sistemática de visitação de casa em casa, dedicando duas noites por semana para o trabalho. O Senhor abençoou tanto meus esforços que em poucas semanas dez alcoólatras abandonaram este hábito autodestruidor, e passaram a se reunir comigo uma vez por semana para leitura e exposição das Escrituras e oração. Tivemos três ou quatro reuniões abençoadas, e não tenho dúvida de que os nossos números teriam aumentado mais e mais, mas, nos inescrutáveis desígnios da Providência Divina, a minha saúde enfraqueceu, e com muita relutância fui obrigada a abandonar esta abençoada e promissora área de trabalho. Logo em seguida fui removida da cidade, e abriu-se uma nova e ainda mais frutífera área de trabalho para mim na vinha do Senhor.

Certamente não lhe causará nenhuma surpresa, querido leitor, depois de ler este pequeno relato, ouvir-me dizer que considero que este trabalho de visitação de casa em casa perde em importância somente para a própria pregação pública do evangelho. Quem pode avaliar a influência e a força que poderiam ser levadas aos desprovidos e ímpios habitantes das nossas grandes cidades — não, de toda a nossa nação — se cristãos verdadeiros fizessem só um pouquinho deste tipo de trabalho! As multidões olham para os cristãos como uma classe separada e isolada, com a qual nada têm a ver e com quem nada têm em comum. Observam os cristãos passarem por suas casas, indo para os seus locais de culto, com uma indiferença total ou um amargurado desdém; e, infelizmente não podemos afirmar que muita coisa na nossa conduta tem gerado esse tipo de sentimento, por causa do nosso orgulho farisaico e indiferença egoísta? Se o zelo pela casa do Senhor nos consumisse, se tivéssemos praticado mais comunhão com Cristo nos seus sofrimentos, se tivéssemos entendido o significado da sua ordem para “obrigá-los a entrar”, se tivéssemos sido batizados com o espírito de Paulo, quando ele quase desejou ser amaldiçoado por Cristo por amor dos seus irmãos, não teríamos saído e nos misturado com o povo como fez o nosso Mestre, caminhando junto com eles pela estrada e dentro das suas casas, e não teríamos falado para eles “palavras desta vida,” persuadindo, implorando e obrigando-os a entrar? Ai de nós, somos verdadeiramente culpados; e nem foi geralmente por falta de luz, ou por falta de direção do Espírito Santo; mas aconteceu por falta de OBEDIÊNCIA, e por causa do nosso orgulho, ou vergonha, ou medo.

Oh, que todos os que estão lendo este artigo decidam que o tempo passado bastou para andar nos caminhos da carne quanto a este assunto! Deus permita que desta hora em diante, querido leitor (se já é um filho de Deus), você se disponha a si mesmo para este trabalho; VOCÊ PODE FAZÊ-LO. Não importa se é fraco, tímido, ou “pesado de boca”. Deus diz: “Eu serei com a tua boca e te ensinarei o que hás de falar”; e “naquela hora, vos será concedido o que haveis de dizer.”

Tudo o que é necessário para você fazer é entregar-se completamente à direção do Espírito. Confie nele para tudo o que necessita. Ele o inspirará com o amor que constrange, a compaixão comovente, o zelo santo e a fé poderosa que são as únicas coisas necessárias para sua tarefa.

Este é o trabalho que mais precisa ser feito em toda a obra do Senhor. Há milhares que nunca entraram numa igreja, numa capela, numa missão, para os quais tudo que se relaciona com religião é como uma velha canção, um provérbio, uma vergonha. Eles precisam ser colocados em contato com o Cristo vivo na carne e sangue do seu povo. Eles querem ver e tratar com a Palavra da Vida de um modo vivo e real. O cristianismo precisa chegar até eles na forma de homens e mulheres, que não se envergonhem de “comer com publicanos e pecadores”; precisam enxergá-lo nos olhos dos cristãos, e ouvi-lo em tons amáveis através das suas palavras, compadecendo-se com as suas tristezas, carregando os seus fardos, reprovando seus pecados, instruindo-os na sua ignorância, inspirando sua esperança e ins- tando-lhes para irem à fonte que foi aberta para purificar do pecado e da impureza.

Querido leitor, aqui está uma esfera de ação para você! Você sempre desejou fazer algo pelo seu “bendito, bendito Mestre”. Aqui há trabalho, infindável na sua extensão, e muito mais importante do que qualquer coisa que um anjo pudesse conceber. Para isto você não precisa de nenhuma ordenação humana, nenhuma longa e tediosa preparação, nenhuma linguagem elevada, nenhuma eloqüência superior; tudo o que você necessita é o batismo completo do Espírito no seu coração, a Bíblia na sua mão, e humildade e simplicidade nas suas maneiras. Assim equipado você será forte em Deus para derrubar fortalezas. Descobrirá uma porta aberta a muitos corações que há muito abandonaram a esperança e se entregaram ao desespero; e no grande dia de prestar contas você terá muitos feixes como resultado do seu trabalho e a recompensa da sua abnegação.

Parece-me que ouço uma voz tímida dizendo: “Ah! Eu gostaria de poder fazê-lo: o Senhor sabe o quanto desejo fazer algum trabalho de verdade para ele; mas sou tão fraco, e muito pouco adaptado a este tipo de trabalho, sinto que não seria bem-sucedido.”

Meu querido irmão, irmã, somos de pouca valia em qualquer parte da vinha do Senhor até que tenhamos compreendido a nossa própria fraqueza. Quanto mais fracos nos sentimos, melhor. Não se trata de uma questão da nossa FORÇA, mas da nossa FÉ.

“Por que fitais os olhos em nós (disse Pedro às pessoas que se maravilharam com o milagre da cura do coxo), como se pelo nosso próprio poder ou piedade o tivéssemos feito andar?…Pela fé em o nome de Jesus esse mesmo nome fortaleceu a este homem que agora vedes e reconheceis.”

Deus não nos chama a fazer qualquer obra baseados na nossa própria força; ele nos concita a ir e fazer na sua força. “Dai-lhes vós de comer”, disse ele aos seus discípulos, mas ele sabia quem teria de suprir o pão; por isso agora ele exige que repartamos o Pão da Vida com as multidões, confiando na sua provisão. Ele escolheu as coisas fracas do mundo para confundir as poderosas. Por que? Para que a excelência da força seja vista como vindo de Deus e não do homem.

Não importa que as palavras sejam simples e que a voz seja trêmula; se ele abençoa, então será abençoado. A pergunta: “Você ama a Deus” que vem de uma criança, acompanhada pela “demonstração do Espírito e do poder”, fará muito mais por Cristo e pelas almas do que o sermão mais eloqüente e talentoso sem a sua graça; pois “não pela força nem pelo poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos”.

Querido leitor, você está disposto a ser um dos escolhidos de Deus? Ou o provocará à ira, dizendo: “Envia aquele que hás de enviar, menos a mim”? Está disposto a pisar no seu ego, e lançando mão da força da onipotência do Senhor, a sair na força do seu poder, e fazer o que ele permitir? Se assim estiver, as palavras dele para você são: “Sê forte e corajoso, não temas, nem te espantes, porque o Senhor teu Deus é contigo por onde quer que andares”; e “Eis que estou convosco sempre, até a consumação do século”.

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” ENTRE ASPAS”

“Se eu encontrar em mim um desejo que não possa ser satisfeito por experiência alguma neste mundo, a explicação mais provável é que fui criado para outro mundo.”
C. S. Lewis

2 respostas para “Testemunho de Impacto: Catherine Booth”

  1. JOSÉ CARLOS DOS SANTOS disse:

    GOSTEI MUITO!!

  2. Suzana do Amaral Betzch disse:

    Esta história me faz refletir no quanto tenho falhado com Deus, no pouco tenho buscado me consagrar. Amo falar de Jesus, de convidar as pessoas, de ser usada por Deus, não importa as circunstâncias, mas tenho feito tão pouco. Tudo é tão corrido, quero escutar e obedecer o que o Espirito Santo tem falado em meu coração. Ler mais a sua palavra. Esta história me motivou a ser obediente. Me colocar mais a disposição de Deus.
    Na paz de Jesus!
    Suzana

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