Testemunho de Impacto: Água, Laranja e Carinho

Data de publicação: 14/09/2011
Categorias da Biblioteca:
Edição 36 e Revista Impacto - 1998 a 2014.

Por André Ruas

O relato que se segue foi algo que aconteceu, recentemente, num culto que foi dirigido pelos jovens na nossa igreja. Queríamos estar sensíveis à voz do Espírito e decidimos, então, fazer algo para despertar a igreja (a nós mesmos) para o que diz respeito aos perdidos, àqueles que não têm esperanças.

A Cristiane, minha noiva, escolheu a música “Nos Braços do Pai” (Diante do Trono) e colocamos véus no corredor que dá entrada ao templo. Alguns jovens ficaram pelo “caminho”, fazendo o papel de prostituta, viciado, bêbado ou mendigo, de maneira que quem chegasse teria que passar por eles.

A minha parte era na ministração. Eu teria de fazer um “monólogo”, como se fosse um daqueles que foram à casa de Deus para o adorar e, no caminho, se deparam com as várias “faces” de Jesus. Porém, como o “levita”, eu seguia adiante, pois queria ir à igreja ver Jesus.

Só que não foi um monólogo e, sim, uma confissão. As pessoas começavam a chegar diante do altar quebrantadas; o choro se fazia ouvir num volume muito alto. O rapaz que fazia o “papel” do “Pai” não entendia o que estava acontecendo, e dizia: “Venha, filho amado, venha como está”.

A pastora orou, e o pastor convidado, também. Deus se fez presente!

Se eu vi Jesus? Pode apostar! Mas o melhor ainda estava por vir…

Saímos daquela reunião abençoados, alegres! A Cris comentou que as irmãs gostaram muito daquele monólogo: “Muito emocionante”, disseram.

Levei minha noiva para sua casa e comecei a voltar para a minha ainda sussurrando aquele “monólogo muito emocionante” que “eu” fizera.

A estrada estava deserta – só havia eu e meu violão. De repente, olhei para o lado, e vi um homem deitado num canto meio escuro.

Interrompi o “monólogo”. Agora estava numa situação real, não era nenhum jovem da minha igreja encenando. Porém, segui direitinho o que havia “ensaiado”: o levita passou direto.

Então, depois de caminhar uns 30 metros adiante, minha “consciência” me olhava decepcionada. Dei meia volta e, com passos vacilantes, voltei – e passei novamente por “ele” na direção contrária.

”O que vou dizer?”

“Ah, ele está dormindo, é melhor não incomodar!”

”Tá legal, vou passar de novo, se ele olhar para mim, eu falo… Não, não acredito, ele olhou!”

Parei, agachei-me e perguntei o seu nome. Davi!

E aí começou. Sem exageros, fiquei uns 50 minutos com aquele homem e fui muito abençoado!

Perguntei se ele tinha onde morar. Ele me disse que era um andarilho e era desviado do evangelho. Tinha hálito de bebida alcoólica, mas estava lúcido em suas palavras. Contou-me sua história, como havia sido sua conversão (um lindo testemunho!), como chegara a ser bacharel em teologia.

Apesar da sua situação, em nenhum momento maldisse a vida ou Deus. Pelo contrário, dizia: “Irmão, Deus é muito bom comigo! Às vezes, eu estou por aí deitado e, quando me viro, tem uma quentinha do meu lado ou uma laranja. Aí eu digo:”Ué, de onde veio isso? Deus é fiel, irmão!”

Perguntei se queria algo e se estava com fome.

“Ah não, irmão, não quero incomodar.”

Como ainda insisti, ele me pediu: “Água e uma laranja!”

Fui na casa da Cris, pois era mais próximo. Com sorriso nos lábios, berrei por ela no portão.

Expliquei a “missão” e lá fui eu voltando, quase que correndo para realizar o desejo de Davi.

Ele me perguntou: “Rapaz, quem é você? Olhe, eu estava aqui pensando: ‘Acho que ele não volta não’. Mas você veio! O que você está fazendo por mim é muito importante, irmão! Olhe que eu já vi passando um monte de gente aqui, irmãos da igreja, e nem sequer um deles parou pra falar comigo, para perguntar se eu estava com sede ou doente. Aqui mesmo, entrou um carro bonitão, eles me olharam, ficaram assustados e eu também me assustei. Mas o que você está fazendo é o que a maioria não faz.”

Perguntou-me depois o que eu fazia na igreja. Eu disse que tocava e cantava.

“Ah, mas você tinha que ser evangelista, irmão!”

Aí ele começou a cantarolar alguns hinos que ele gostava (como sou “ótimo” no violão, não consegui tocar nenhum!). Louvei o Senhor sem acompanhamento mesmo. Cantei, por exemplo, “Não há Deus maior” (essa eu sabia, mas o violão estava desafinado!).

Bom, deixei algum dinheiro  (e ele nem pediu!) para comprar mais algumas laranjinhas. Orei por ele, convidei-o para ir à igreja se estivesse por ali ainda. Ele me estendeu papel e caneta: “Anote o endereço aí, irmão!” Deixei meu telefone e fui feliz da vida para casa. Eu tinha visto Jesus! Acredite: “água e laranja” podem fazer muito mais que uma simples laranjada. Agora sei disso!