Surpreendendo Satanás

Data de publicação: 29/09/2011
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Edição 33 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 33

Por João A. de Souza Filho

Que tipo de igreja deixará Satanás assustado nos últimos dias? Essa é a pergunta que venho tentando responder nos últimos anos! Ao longo de quatro décadas de serviço na obra do Senhor – e jamais celebro o aniversário de minha consagração a não ser com um dia de quebranta- mento e arrependimento – meu espírito anela por ver uma igreja autêntica, vivendo o padrão de Deus na terra. Essa igreja existe e tem dado mostras de sua existência em todo o mundo, ainda que de forma pontual, isto é, através de manifestações visíveis em lugares distintos da terra.

Quando olhamos, por exemplo, para a igreja brasileira, trememos diante do que lhe acontecerá nos próximos anos, porque, seguindo um princípio inviolável de Deus, a igreja terá que ser purificada e preparada para seu encontro com o Noivo. Deus se sentará como derretedor e purificador da prata, como afirma Malaquias, até que toda impureza seja eliminada.

Necessidade de Purificação

Comecemos pelo princípio divino de purificação do povo de Israel no Antigo Testamento. E Malaquias quem fala: “Assentar-se-á, como derretedor e purificador de prata; purificará os filhos de Levi e os refinará como ouro e como prata” (Ml 3.3). Quem são os filhos de Levi? Os da tribo sacerdotal! E quem é a tribo ou nação sacerdotal hoje? A igreja! Diga-se de passagem que a expressão “levitas”, que muitos grupos de louvor usam, não tem base na igreja do Novo Testamento. Se os grupos de louvor são os levitas, por implicação, os pastores das igrejas são sacerdotes. E o povo, o que é? No entanto, pelo ensino bíblico do Novo Testamento, todos fazemos parte da nação sacerdotal, todos somos levitase sacerdotes, indistintamente do ofício que temos na igreja!

Comparando o texto de Malaquias, da purificação dos filhos de Levi, com o paralelo traçado por Paulo entre Israel e a igreja, vemos que a igreja é o Israel de Deus nos tempos atuais. Paulo compara a experiência que tiveram com a nuvem e com o mar às experiências que a igreja tem com o Espírito Santo e com o batismo. O povo de Israel foi batizado na nuvem e no mar, participaram de um manjar espiritual e beberam da mesma fonte espiritual que os seguia. “E a pedra era Cristo”! Assim também a igreja! Esse texto de I Coríntios 10 é muito interessante, pois nos versículos 6 e 11 Paulo afirma que a experiência do povo de Israel foi registrada nas Escrituras para nos servir de exemplo!

Quero destacar três palavras utilizadas por Paulo nesse texto. Primeiro fala de “todos”. Todos passaram pela experiência da nuvem, da água e da ceia – manjar. Depois usa a palavra ‘maioria deles”, indicando que, dentre todos, a maioria ficou prostrada no deserto! Em terceiro usa a expressão “alguns deles”, para indicar que, dentre a maioria, alguns cometeram erros gravíssimos! E ainda acrescenta: aquele que pensa estar em pé, veja que não caia!

Se Deus tratou duramente com o Israel do Antigo Testamento por haver fugido à responsabilidade de representá-lo corretamente na terra, seguindo o mesmo padrão de justiça terá de tratar também com a igreja!

Verdadeira Reforma

Em segundo lugar, devemos analisar as transformações pelas quais passou a igreja e a conseqüente reforma dos dias de Lutero. Vou tomar uma única experiência da história para exemplificar meu pensamento. A reforma da igreja não ocorreu precisamente no dia 31 de outubro de 1517 com Lutero. Nessa data houve o rompimento oficial com a igreja de Roma. A igreja vinha sendo trabalhada pelo Espírito Santo que levantou reformadores desde o surgimento dos albigenses ou cátaros, ao redor do ano 1215, mesma época em que, na Itália, surgia Francisco de Assis. Cátaro quer dizer puro, e o movimento cresceu no sul da França entre os albigenses.

Esses irmãos passaram a rejeitar o clero, a riqueza e o luxo. Logo em seguida, Pedro Valdo liderou um movimento de reforma dentro da igreja. Anos depois,  na Inglaterra, John Wycliffe surgiu como um reformista, mas os ventos da reforma sopraram com mais ímpeto através de seu discípulo John Huss, em Praga. Professor da universidade, Huss liderou o movimento reformista na Europa e foi queimado vivo pela igreja de Roma.

E desse movimento que surge uma igreja paralela à de Roma. Não era uma igreja estruturalmente organizada, mas um organismo vivo, conhecido apenas como Irmãos! Quando Lutero deu o grito da reforma, esses Irmãos existiam por toda Europa havia mais de cem anos, e foram eles, na Alemanha, que acompanharam o julgamento de Lutero, apoiando-o na Reforma. Só que Lutero os perseguiu implacavelmente na Alemanha, porque esses Irmãos não fizeram parte da nova igreja – eles sentiam-se igreja, e não precisavam de uma nova estrutura. Naqueles dias, foram apelidados na Alemanha de anabatistas – mas eram Irmãos. Depois que Menno Simons, ao redor de 1550, passou a liderar esses Irmãos por toda a Europa, ficaram conhecidos como menonitas. Assim, historicamente, os Irmãos, os anabatistas e os menonitas são um só em sua origem! E deles procedem a maioria das denominações evangélicas.

E dessa igreja que falamos. Não temos em mente a igreja organizada, mas a orgânica, pois é essa igreja – submissa ao Espírito Santo – que mete medo no diabo. E aqui, o exemplo da história deve assinalar o rumo da igreja. Não sei se as grandes denominações ou mega igrejas atemorizam o diabo. O exemplo da história sempre nos remete a uma igreja santa, pura, separada do mundo e longe da ingerência do Estado. Remete-nos a uma igreja que não partilha do sistema do mundo, já que “o mundo todo jaz no maligno” e, conseqüentemente, as estruturas que governam a sociedade – mesmo as de países originalmente cristãos – são iníquas e corrompidas pelo diabo! Exemplo disso é o Brasil, onde os portugueses que aqui chegaram, provenientes de um país estado-igreja, fincaram o símbolo do cristianismo, a cruz. Os Estados Unidos receberam os protestantes. Ambos têm estruturas iníquas que a igreja deve combater. Por isso, precisamos rever se nossa ótica da igreja está biblicamente correta!

O novo código civil que afetava diretamente as igrejas – depois corrigido em Brasília – serviu para mostrar à igreja que ela precisa ser mais orgânica e menos institucionalizada! Um bom segmento da igreja brasileira não estava sendo afetado pelo novo código porque as estruturas dessas igrejas são voltadas para o organismo e não para a organização. Independentemente do novo código ou não, percebe-se nos líderes da igreja evangélica brasileira o ardente anelo de vê-la casada com o Estado; levando-a a trilhar o caminho da política e a adoção do mesmo modelo econômico opressor que nada tem a ver com a fé de nossos pais! Em Portugal existe um certo orgulho de se ter “nossa igreja” reconhecida pelo Estado!

Enquanto a igreja viver essa sina de querer ocupar posição política, de ser governo através de sistemas iníquos, perderá força e vigor. Não será um presidente evangélico nem uma câmara federal totalmente cristianizada que mudará a nação. As estruturas da sociedade ainda permanecem nas mãos do diabo, e permanecerão até que o governo de Jesus – de poder e justiça – seja estabelecido na terra com seu retorno! Quando os líderes da igreja brasileira se convencerem de que a melhor maneira de mudar o país é mudando o povo, e que somente o poder de Deus transforma o indivíduo, deixarão de lado o sonho do poder passageiro e terreal e se ocuparão unicamente com a evangelização e com a vida de santidade da igreja!

Não Conformidade com Este Mundo

Terceiro, precisamos visualizar a igreja pela ótica de Deus, e não com o triunfalismo tão comum em nossos dias! Basta ler as cartas às sete igrejas da Ásia para se ter idéia da igreja que agrada o coração de Deus e que abala as estruturas do inferno. A mais perfeita igreja da Ásia, a de Éfeso, carecia de amor! A igreja de Esmirna, pobre e atribulada, na ótica de Deus era rica e vencedora, apesar de Deus avisá-la de que iria parar na prisão! Nosso conceito de que a igreja da mídia, dos grandes templos e a que aparece todos os dias com seus programas na TV representa o que de melhor Deus tem, precisa ser reavaliado. Pelo visto, a igreja atual não mete medo no diabo. Os números das estatísticas de evangélicos no Brasil não condizem com a realidade do que deve ser a verdadeira igreja!

A igreja que vence o diabo tem vigor profético, quer dizer, denuncia a iniqüidade e a injustiça; denuncia a estrutura iníqua existente por trás dos governos. Temos de entender que as estruturas de nossa política, da economia e da educação são iníquas e corrompidas, e a verdadeira igreja, em hipótese alguma, deve amoldar-se ao sistema que rege a sociedade. O que se vê hoje, no Brasil, é uma igreja que se amoldou ao sistema do mundo – na sua organização, nos seus empreendimentos e na sua ética – contrariamente ao que nos exortava Paulo: “Não vos conformeis com este século”.

O pensador Os Guinness, discípulo de Francis Schaeffer, afirmava que a igreja sofre de um problema estrutural: privatização, pluralização e secularização (entrevista em Pastoral Renewal, Vol. 7, número 7, de fevereiro de 1983). Este tema foi muito bem explorado por Rubem Amoresi (Icabode: Da Mente de Cristo a Consciência Moderna), mas eu acrescentaria um quarto mal: o anelo de casar-se com o Estado, esse antigo e iníquo sonho de alguns líderes evangélicos do Brasil!

Em síntese, Os Guinness aborda que a privatização é a segmentação da vida em pública e privada. A vida cristã, cada vez mais, afeta somente as áreas privatizadas ou particulares da nossa vida, enquanto que nossa vida no trabalho ou na escola é moldada pela cultura da sociedade moderna. O resultado disso é que os grandes números de cristãos em países como os Estados Unidos (ou agora no Brasil) têm impacto menor na sociedade do que em épocas anteriores, quando havia números proporcionalmente bem menores. Pluralização é a enorme quantidade de opções e escolhas que temos em todas as áreas da nossa vida, desde produtos de consumo no supermercado até igrejas, doutrinas, ideologias e estilos de vida. Para ver o que é melhor, devo sempre experimentar e tentar escolher o que melhor se adapta às minhas necessidades. É mais do que um novo conjunto de circunstâncias, é um estado de mente. Sua conseqüência é enfraquecer o compromisso e a continuidade. Fidelidade nos relacionamentos e firmes convicções sobre verdades objetivas da Palavra de Deus vão perdendo lugar. Finalmente, a secularização é o processo do mundo moderno em que idéias e instituições religiosas vem perdendo sua influência social e sua relevância. Diante desta tendência, muitos cristãos simplesmente se recuaram para o mundo privatizado. Mas alguns, ao tentar influenciar o mundo público, acabaram assumindo as metodologias e técnicas do próprio mundo.
Assim temos igrejas que se assemelham mais a corporações multinacionais do que ao Corpo de Cristo, ministérios que adotaram métodos de marketing e personalidades que são cópias fiéis do sistema mundano de celebridades. Sem querer, o instrumento domina e se torna senhor.

A igreja, com vigor profético, denuncia o sistema perverso e iníquo que está por trás de nossos regimes políticos, do sistema social, da corrupção, dos desvios de recursos públicos, da manutenção da pobreza e da ignorância como curral eleitoral. Jamais se amolda a eles e tenta viver em seu seio a verdadeira justiça social!

Mas o vigor profético não é apenas o da denúncia – aliás, tema raro entre nós. A igreja precisa viver o verdadeiro evangelho de Cristo. E a esse tipo de denúncia que me refiro. No momento em que ela se tornar uma sociedade diferente, começará a ser perseguida. O diabo não tem medo do evangelho que pregamos; não tem medo de nossa mensagem. Ele tem medo do novo estilo de vida da igreja. Jamais devemos esquecer que a igreja primitiva não foi perseguida pelos romanos por ser uma nova religião; afinal, no panteão dos deuses romanos havia lugar para todas elas. A perseguição contra a igreja foi porque ela passou a viver a vida de Cristo, e isso ofendia ao sistema, como ofende nos dias de hoje!

A igreja que não se amolda ao sistema mete medo no diabo! Especialmente porque depende exclusivamente de Deus para a realização da obra e não de conceitos humanos. Sempre me pergunto por que Paulo não conseguiu estabelecer em Atenas o mesmo tipo de igreja que começou em Efeso. Os filósofos e os habitantes de Atenas estavam mais interessados em ouvir as últimas novidades da filosofia – e Paulo caiu na deles! Entrou pela filosofia, quando deveria ter manifestado o Reino com milagres e prodígios! Quando o evangelho fica impregnado de filosofias – e quanta filosofia em nossa teologia! – perde seu vigor! As manifestações de Deus, os milagres e prodígios são meios que Deus usa para atrair as pessoas e convencê-las de que existe um poder maior. O diabo sabe disto e tenta contrapor com suas façanhas!

O Caminho da Morte

Por último, creio que a igreja vencedora é aquela que vence o diabo pelo quebrantamento e pela morte, e que ressuscita em glória todos os dias. Isso contraria o conceito de igreja triunfalista, mas não o de igreja triunfante. O triunfalismo ignora a tribulação; a igreja triunfante sabe que para triunfar é necessário confrontar o mal! Esse princípio é visto no ministério de Jesus. Ele é o Rei, mas começa seu ministério nascendo entre os pobres, abaixo da linha da pobreza! E o Leão de Judá, mas não é como Leão que se torna vencedor, e sim como Cordeiro de Deus! Eis aí o contraste de figuras: o leão, aguerrido e temível e o cordeiro, manso e indefeso. A grande estratégia contra Satanás foi a da humilhação, a morte na cruz! O grande trunfo de Deus sobre o diabo, a ressurreição! Seguindo esse mesmo princípio, a igreja vencedora precisa morrer e ressuscitar no poder de Deus!

Jamais esqueçamos que no plano de Deus o cordeiro se torna leão, e que a morte resulta em vida! Uma igreja que morre para o mundo, ressuscitará em poder e glória!

João A. de Souza Filho é pastor da Igreja Boas Novas em Porto Alegre, RS, e autor de vários livros. Para maiores informações, acesse:
www.pastorjoao.com.br

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