Sucessões de Sucesso

Data de publicação: 23/05/2012
Categorias da Biblioteca:
Edição 71 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 71

Por: Luiz Montanini

ENTREVISTA – Harry Scates e Humberto Dias, Comunidade Shalom de Uberlândia, MG 

“O Ministério Plural é o Que Funciona Melhor”

Há cerca de quatro anos, Harry Scates percebeu que era hora de passar definitivamente o governo da Comunidade Shalom, de Uberlândia, MG, para o presbitério de seis homens, praticamente formados por ele, ficar na retaguarda por algum tempo e concentrar-se no trabalho extra-local de pastor de pastores de igrejas do Brasil e do exterior. Do grupo dos seis, Humberto Dias foi designado como coordenador do presbitério. Nesta entrevista, Ary, como é conhecido, e Humberto, em nome do presbitério da Shalom de Uberlândia, falam sobre a transição.

Revista Impacto – Em que momento o senhor entendeu que a hora de preparar sucessores havia chegado?

Ary Scates – Comecei a pensar seriamente nisso cinco ou seis anos atrás, quando tinha entre 69 e 70 anos. Vi que a igreja estava crescendo com saúde e firmeza, e senti segurança em relação ao presbitério que estava muito unido. Aqueles homens tinham sido meus discípulos por mais de 30 anos. Havíamos passado por muitas lutas juntos.

Como se deu o processo de transição?

Ary Scates – Passei a falar sobre o assunto e, aos poucos, a me ausentar de reuniões do presbitério. Então, coloquei um dos pastores, Humberto Dias, mais à frente.

Como a igreja recebeu e assimilou a mudança?

Ary Scates – A igreja nem a percebeu por algum tempo. Então, há cerca de quatro anos, coloquei Humberto e sua esposa, Robin, diante da igreja e disse que ele era o líder do presbitério, e que o casal estaria à frente da igreja. A congregação recebeu isso muito bem porque viu neles os nossos sucessores.

Como o senhor reagiu e reage às mudanças que são feitas e que não seguem, necessariamente, à sua cartilha?

Ary Scates – Aprendi a ficar calado. Mas lembro que quase sempre concordo com as decisões do presbitério.
Humberto Dias
– O Pr. Ary tem reagido muito bem. Sua humildade o tem capacitado a nos dar a liberdade e confiança para levarmos adiante este projeto de Deus chamado igreja.

O que aprenderam e estão aprendendo nesse processo?

Ary Scates – Aprendemos que o ministério plural é o que funciona melhor. É mais seguro e dá base para crescimento saudável.

Humberto Dias – Que ser o coordenador de uma igreja e de um presbitério, apesar de trabalharmos em um modelo de pluralidade, não é uma tarefa fácil. Entretanto, trabalhar junto com homens de caráter e fé facilita muito. Também, valorizo ainda mais o tempo que passei sob a coordenação do Pr. Ary.

Qual a função hoje do Ary Scates? É o conselheiro de todas as horas? Já o chamaram para dar voto de minerva em alguma situação pendente? Ele participa quando quer das reuniões? É convocado em momentos importantes?

Humberto Dias – O Pr. Ary continua sendo parte do presbitério que ele formou e participa quando quer de nossas reuniões. Apesar de não estar atuando de forma prática, ele é sim nosso conselheiro. Procuramos “incomodá-lo” somente quando se faz realmente necessário. O coordenador do presbitério tem a palavra final se há uma situação que dela necessite, mas isso é muito raro em razão do tempo que trabalhamos juntos e da unidade e respeito que existem entre nós. Hoje, a atuação do Pr. Ary está mais focada na cobertura de igrejas filhas, mas ele e a Pra. Helena continuam acompanhando a mim e à minha esposa, Robin. Sou o coordenador do presbitério, não por ser mais capacitado que os outros, mas por ser o pastor que está há mais tempo no ministério.

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José Carlos Marion e Arnaldo Marion, Centro Comunitário Cristão, Jundiaí, SP

“Os jovens acham que podem ir além, e os pais, que não serão superados”

O pastor e professor universitário José Carlos Marion vive hoje um processo de transição do governo da igreja local, que dirigia em Jundiaí, SP, com outros irmãos. Seu filho, Arnaldo Marion, assumiu a coordenação do ministério.

Marion conta que começou a entender que a hora de preparar o sucessor estava chegando quando, após os 50 anos de idade, percebeu que seu ministério relacionado a governo da igreja entrara numa curva descendente. “A Bíblia nos ensina que os levitas deveriam trabalhar no Tabernáculo dos 25 a 50 anos”, lembra, citando Números 8.24 e 4.39. “Portanto, era momento de pensar em outras alternativas.”

Marion recorda-se de que eram em quatro no presbitério, e apenas um não estava demonstrando sinais de cansaço. “Mas este era exatamente o que não tinha dom para governo ainda que fosse um excelente pastor. Então, pensamos: será que isso não é uma indicação de Deus para passarmos o bastão? Por outro lado, havia vigor espiritual e ousadia na nova geração, elementos já não tão visíveis entre nós quatro.”

No processo de transição, o presbitério da igreja local escolheu quatro jovens casais com os quais passaram a reunir-se quinzenalmente. No início, enfatizaram o lado profético: trataram da visão a respeito da ceia, do batismo e, sobretudo, da centralidade de Cristo. Um tempo depois, começaram a tratar de assuntos relativos à comunidade: pastoral, governo, resoluções de conflitos. Dentro da visão mais apostólica, por assim dizer, trataram de relacionamento com outras comunidades, aberturas de outras unidades e crescimento. Em seguida, passaram a dar oportunidades para a ministração da Palavra e total liberdade nos projetos de evangelização.

Na sinceridade que lhe é peculiar, José Carlos Marion lembra que, neste processo, aprenderam especialmente o respeito mútuo. “Acho que praticamos um pouco de Malaquias 4.6, que fala em conversão do coração dos pais aos filhos e do coração dos filhos aos seus pais.” Ele explica: “Creio que haja um pouco de presunção das duas partes: os jovens acham que podem ir além; os pais acham que nunca poderão ser superados, e que seus métodos são fruto de uma experiência insuperável. Em nossa experiência, entendemos que é necessário que haja quebrantamento de ambos os lados. Esta é obra do Espírito Santo, e realmente ele faz quando lhe abrimos espaço.”

Arnaldo Marion, filho de José Carlos, assumiu a coordenação do presbitério, o que não significa que seja o último a dar a palavra ali, mas sim que é um facilitador no conselho de presbíteros. Ele lembra que sentiu muito a saída do pai, quando este lhe passou o bastão de governo. Depois de alguns dias, procurou-o e lhe pediu que voltassem a andar juntos, porque sentia que o pai havia soltado o bastão muito abruptamente.

Disse-lhe que precisava do pai por perto para que o ajudasse na transição, porque isso lhe trazia segurança. Disse ainda ao pai que sentia que as duas gerações deviam andar juntas por algum tempo. O pai concordou, e até hoje continuam assim, num processo de afastamento contínuo, mas em câmera lenta, nem tão próximo que afete o novo governo e nem tão distante que o leve a sentir-se isolado.

Nesse período de transição, José Carlos Marion conta que viu a comunidade onde fora pastor sênior perder gradativamente sua identidade e ganhar uma nova, que era a desejada pelo Espírito Santo para esse novo momento da igreja. “Esse processo só existe com perdas e, muitas vezes, anulação de nós mesmos. Nessa área, ainda tenho muito que aprender”, admite Marion, mas demonstra que está firmemente decidido a abrir mão sem qualquer reserva.

Hoje, José Carlos Marion participa de decisões de governo da igreja apenas quando é solicitado. “Sou sempre solicitado a participar de todas as reuniões. Mas a virtude está exatamente em saber sair de cena no momento certo e aconselhar quando o Espírito Santo dirige. Como seria o reinado de Salomão se Davi não partisse logo em seguida após aconselhar seu filho?”, pergunta. “Minha diferença com Davi é que ele deu todos os conselhos de uma só vez e eu, paulatinamente, porque não tenho interesse em partir tão já”, finaliza, brincando.

Obs. Atualmente quatro igrejas diferentes, dentre as quais essa que era pastoreada por José Carlos Marion, estão se reunindo em um mesmo local, com uma liderança unida, dando sequência a um processo de fusão que começou há mais de quatro anos.

Luiz Montanini faz parte do Conselho Editorial da revista Impacto. Casado, tem três filhos, jornalista e um dos pastores numa comunidade em Valinhos, SP.

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