Sucessão Geracional

Data de publicação: 23/05/2012
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Edição 71 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 71

Desde o início da humanidade (e até entrarmos na eternidade), as gerações sucedem umas às outras, inexoravelmente, como numa prova de revezamento em que um atleta corre durante um período e, depois, cede o lugar para outro que está descansado e cheio de energia. Para que o primeiro atleta passe o bastão ao segundo em condições favoráveis, é necessário que haja sincronismo entre o que está encerrando e o que está iniciando, e que corram juntos por determinado trecho para poderem fazer, em movimento, a transferência do bastão. Esse é um momento bastante tenso, pois poderá ser determinante para a equipe vitoriosa. Uma possível queda do bastão pode anular todo o esforço de quem o conduziu até ali.

Por exigir dos atletas visão do futuro, espírito de equipe e grande empenho individual em favor do próximo a assumir o bastão, esse esporte forma um quadro bem adequado da transição que deve ser feita entre uma geração e outra no plano espiritual. A maneira como se faz tal transição é determinante para que cada geração avance além da anterior, sendo indispensável a consciência de estar trabalhando sempre a favor daqueles que virão depois.

Três Exemplos de Sucessão Geracional

A pessoa se compromete muito mais quando conhece as razões pelas quais determinada coisa deve ser feita. Por isso, para que uma sucessão se realize de forma ideal, é necessário que os envolvidos – sucedidos e sucessores – tenham o maior conhecimento possível do projeto de que estão participando. Isso foi determinante, por exemplo, na conquista da Terra Prometida, na construção do Templo em Jerusalém e no surgimento da Igreja.

Quando chegou o momento de Josué assumir a liderança do povo hebreu, ele sabia com precisão o que deveria ser feito, pois acompanhara todos os passos de Moisés em seu ministério e na organização do povo durante o período no deserto. Estava, portanto, pronto para comandar a conquista da Terra Prometida, reconhecendo que havia chegado o momento de assumir a execução da parte que lhe cabia no projeto divino.

Foi assim, também, com Salomão, pois Davi, ao encarregá-lo da construção do Templo em Jerusalém, entregou-lhe um projeto completo, com várias iniciativas já tomadas, o que permitiu que Salomão tivesse total clareza de sua parte no plano.

E, finalmente, a Igreja veio à luz no dia de Pentecostes em Jerusalém, manifestando um projeto legado por Jesus àqueles que o acompanharam desde o início de seu ministério público e que se tornaram aptos para dar sequência à obra iniciada por ele.

Nesses três exemplos, notamos nitidamente os três elementos essenciais, sem os quais não se pode falar em sucessão geracional com êxito: sucedido, sucessor e projeto. É importante observar que o projeto não pode ser entendido simplesmente a partir da obra produzida pelo sucessor. Seria como construir um avião, usando como modelo apenas a fotografia do aparelho. Ainda que, em imagem, guardasse total semelhança, não teria funcionalidade alguma sem o projeto de engenharia com todas as informações técnicas. Dessa forma, o objeto construído seria semelhante apenas à fotografia e não ao fotografado. Considerar a obra sem o projeto é como observar o corpo sem alma.

Um Projeto Que Abrange Muitas Gerações

Como o projeto inteiro, idealizado por Deus, é muito grande para uma geração individual, é necessário também se localizar no tempo e no espaço, pois, do contrário, não saberemos que parte nos compete em sua realização. É como achar o “norte” (nortear-se) com a ajuda do sol. Se você se posicionar de tal forma que o sol nascente fique à sua direita, então o norte estará à sua frente. Da mesma forma, precisamos nos localizar espiritualmente em relação àquilo que já foi realizado na história da redenção do homem e àquilo que, profeticamente, ainda está por acontecer. Isso nos dará um senso de direção, mostrará em que rumo devemos caminhar para alcançar o objetivo de Deus.

Não estamos acostumados a considerar o futuro além de nossa existência a fim de determinar nossos passos ou a direção da nossa caminhada, porque julgamos que não temos responsabilidade alguma por aquilo que sucederá depois que partirmos. Mesmo os planos que ficam um pouco mais distantes do momento atual são chamados de sonhos, como se não quiséssemos comprometer-nos muito com a realização deles.

Obviamente, essa é uma postura muito acanhada e egoísta se comparada com o projeto divino, no qual fomos inseridos, que vai de eternidade a eternidade.

Veja como Paulo enxergava o projeto de Deus: “O mistério que esteve oculto desde todos os séculos e em todas as gerações e que, agora, foi manifesto aos seus santos” (Cl 1.26). Por causa dessa perspectiva ampla, seu ministério vem repercutindo permanentemente através das gerações. Temos de considerar que o projeto de Deus vem sendo executado antes do nosso nascimento, e que prosseguirá após a nossa morte.

Embora isso pareça muito óbvio, nosso envolvimento com ele geralmente leva em conta apenas os anos de nossa existência, e, por isso, não trabalhamos visando a garantir uma boa passagem de bastão para a próxima geração, de tal forma que ela não tenha de iniciar sua etapa recolhendo-o do chão.

Aprendendo a Promover a Próxima Geração

É curioso notar que, no plano natural, a nova geração costuma ser mais desenvolvida do que a anterior, preparada para ir mais longe. Fisicamente, os filhos são mais fortes, mais altos, têm maior expectativa de vida a cada geração. Intelectualmente, também, são mais capacitados, estudam mais, desfrutam mais recursos, são mais estimulados. Essa evolução é obtida graças ao empenho que cada geração dedica em favor da próxima. Ver os filhos bem-sucedidos é um orgulho para os pais, pois sentem ter alcançado o objetivo de todo o empenho, todo investimento de sua vida. É com muita satisfação que veem os filhos prosseguirem na corrida, empunhando o mesmo bastão que eles carregaram um dia. Quando, por algum infortúnio, isso não ocorre, é frustração na certa. Contudo, o mesmo não se repete, normalmente, no plano espiritual.

A maioria dos pais que detêm o patrimônio espiritual desconhece a necessidade de transferi-lo aos filhos e não sabe como fazê-lo. Procedem de maneira inexplicável como o atleta que, mesmo sentindo suas forças se esvaírem, não entrega o bastão ao seguinte, impondo um ritmo lento ao que está ao seu lado, cheio de energia, prejudicando assim toda a equipe. Por via de regra, os pais espirituais, quando liberam o que possuem, só o fazem tardiamente, obrigados pela velhice ou enfermidade. Em muitos casos, os sucessores só recebem a chance de assumir após a morte do sucedido. Isso exige uma enorme resignação da parte deles para conter sua disposição e acompanhar a lentidão do obsoleto antecessor, aguardando com paciência sua hora de agir. Caso não suporte esperar, sua opção é revoltar-se e, ao tomar iniciativas por conta própria, criar mais uma divisão.

Essa divisão entre gerações seria evitada se os pais tivessem o mesmo empenho para com seus filhos espirituais que têm a favor dos filhos naturais, a mesma alegria ao ver seu desempenho superior. Contudo, de maneira geral, os filhos espirituais são vistos como ameaças e potenciais concorrentes dos quais é preciso proteger-se.

Como a passagem do bastão não tem ocorrido de forma satisfatória, a geração da vez não sabe como entregá-lo de forma adequada, pois sua experiência para obtê-lo foi extremamente negativa. De maneira geral, a história da sucessão está entremeada com a história de divisões, parecendo ser esse o principal legado que se tem passado de uma geração à outra.

Para mudar esse paradigma, é preciso que haja uma geração com disposição de romper o ciclo vicioso e transformá-lo num ciclo virtuoso, trabalhando com afinco a favor da geração seguinte, com o coração voltado aos filhos para formá-los como pais e não eternas crianças. O mesmo acontecerá, então, com os filhos de seus filhos e, assim, sucessivamente.

É preciso que façamos uma releitura da história da Igreja que não seja tendenciosa, destacando as virtudes que nos convêm e atribuindo aos outros os erros, pois essa forma de ver a História já é baseada no espírito divisionista, com a função de justificar nossa saga pela divisão.

Precisamos fazer uma releitura unicionista da História, destacando os benefícios como contribuições e reconhecendo e refutando os erros, sejam de quem forem. Podemos chamar isso de inventário espiritual.

Nosso Inventário Espiritual

Um inventário consiste em relacionar todos os bens e dívidas que compõem a herança deixada aos sucessores. Esse é, de fato, nosso patrimônio espiritual, no qual os bens são experiências positivas, e as dívidas correspondem às experiências negativas que herdamos ao longo da História.

Se realmente pretendemos trabalhar a favor da próxima geração, devemos estancar a transferência das dívidas e só passar os bens que herdamos acrescidos daqueles que conquistamos.

Fazendo uma verificação generalizada, a maior dívida que há em nosso patrimônio é a divisão que vem-se acumulando ao longo da História. Do lado dos bens, há uma jornada estabelecida rumo à restauração da igreja, a uma prática compatível à igreja original, antes do surgimento da primeira divisão. Muitas contribuições foram acrescentadas no transcorrer desta jornada, dentre as quais podemos destacar o retorno à Bíblia pela reforma protestante do século 16 e a reintrodução do batismo no Espírito Santo e dos carismas, a partir do movimento pentecostal e demais desdobramentos, na virada do século 19 para o 20. Não obstante terem sido decisivos para o avanço da igreja, também serviram de pretexto para impulsionar ainda mais o divisionismo. Daí, a responsabilidade de se filtrar, para que apenas o que é positivo seja levado adiante à nova geração.

Além daquilo que recebemos como herança das gerações anteriores, incorporamos ao nosso patrimônio o que nós mesmos produzimos. Ao conjunto das dívidas, a presente geração agregou uma ênfase exagerada no que se refere à busca de felicidade imediata, especialmente relacionada à riqueza material; um esfriamento espiritual, em que, cada vez mais, o ardor pentecostal é deixado de lado; e uma decadência ética, pois, não obstante a massa de convertidos ser cada vez maior, em nada tem mudado as estatísticas quanto a separação de casais, inadimplências financeiras, corrupção política ou criminalidade de uma forma geral.

Quanto aos aspectos positivos, penso que nunca se pregou tanto o Evangelho. Os sintomas de fadiga do sistema religioso e frustração por se obter sempre o mesmo resultado (já que se repetem as mesmas ações!) são, na realidade, positivos por apontarem uma mudança iminente.

A Geração de Elias – Nossa Responsabilidade Atual

Se atentarmos com mais cuidado, verificaremos que há, no coração do Senhor, a expectativa de uma realidade preparatória antecedente à volta de Jesus, demonstrada quando ele comparou o ministério de Elias com o de João Batista. Ora, se o ministério de João Batista caracterizou-se por preparar a primeira vinda do Senhor, também haverá um ministério com características preparatórias antes de seu retorno. Essa preparação diz respeito à restauração de todas as coisas, cujo início se dará por intermédio da conversão do coração dos pais aos filhos e dos filhos aos pais.

Essa primeira ação restauradora desencadeará uma reação em cadeia até atingir sua plenitude – todas as coisas –, à qual Jesus se referiu.

Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor; ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais; para que eu não venha e fira a terra com maldição (Ml 4.5,6).

Mas os discípulos o interrogaram: Por que dizem, pois, os escribas ser necessário que Elias venha primeiro? Então Jesus respondeu: De fato Elias virá e restaurará todas as coisas. Eu, porém, vos declaro que Elias já veio, e não o reconheceram, antes fizeram com ele tudo quanto quiseram. […] Então os discípulos entenderam que lhes falara a respeito de João Batista (Mt 17.10-13).

… e que envie ele o Cristo, que já vos foi designado, Jesus, ao qual é necessário que o céu receba até aos tempos da restauração de todas as coisas, de que Deus falou por boca dos seus santos profetas desde a antiguidade (At 3.20,21).

Portanto, não chegará a última geração sem que antes venha a geração de Elias. Esta terá de ser a geração de reconciliação por excelência. Vemos, então, que essa é a nossa parte no projeto e, ao mesmo tempo, o nosso legado à próxima geração.

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