Sofismas da Auto-Ajuda

Data de publicação: 14/07/2011
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Edição 58 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 58

Por: João de Souza Filho

Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e, sim, poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2 Co 10.4-5).

O texto acima é um dos mais utilizados para falar sobre a luta do cristão – e com razão, pois apresenta a estratégia de guerra para o confronto espiritual. Embora andando na carne, diz Paulo, não militamos segundo a carne, mas batalhamos com armas espirituais. As “armas” dessa batalha são a palavra da verdade, que é a espada do Espírito, a Palavra de Deus.

Lutamos contra o quê? O texto cita três obstáculos comumente encontrados por quem proclama a palavra de salvação: fortalezas, sofismas e altivez.

Fortalezas são áreas nas quais o inimigo consolidou uma resistência ao avanço do evangelho, do reino de Deus numa pessoa, igreja, cidade ou região maior. Podem ser representadas por hábitos, pecados, vícios, crenças e atitudes. Precisam ser destruídas por métodos e armas espirituais como discernimento, intercessão, perseverança, expulsão de demônios e outras.

Altivez é uma barreira de orgulho e exaltação que lança sombra, escurece a razão e impede a penetração do conhecimento divino. É uma poderosa arma do inimigo para manter as pessoas nas trevas, intocadas pela luz do evangelho, ao mesmo tempo em que se sentem sábias e superiores.

Os sofismas são mais sutis. Um sofisma é uma “verdade” que não é verdade; pode ser mais bem-definida como uma mentira com aparência de verdade – e que continua sendo mentira. Os sofismas alteram a essência da mensagem do evangelho e “implantam”, no conhecimento humano, uma mentira que, de tanto ser repetida, é aceita como verdade. Enquanto as fortalezas precisam ser destruídas, o sofisma tem de ser anulado. E uma mentira só é anulada com a verdade. Exemplo disso é a teoria da evolução, uma mentira ensinada nas escolas como uma grande verdade, embora mentirosa.

Os sofismas geralmente são artimanhas lingüísticas, teorias, suposições e idéias que se opõem à mensagem do evangelho. Sempre existiram ao longo dos séculos, mas, nessas últimas décadas da Igreja cristã, os sofismas passaram a ser apresentados com atraentes rótulos coloridos. O evangelho pregado nos dias de hoje não é apresentado com a pura essência e substância, corrompido que está pela ação dos sofismas, ou seja, de mentiras aparentemente verdadeiras.

Sofismas Encontrados no Evangelho Atual

Mesmo num breve artigo como este, podemos mencionar alguns dos muitos sofismas que entraram na mensagem do evangelho.

Por exemplo, a fé tornou-se sinônimo de pensamento positivo de tal forma que uma pessoa é curada somente se tiver fé. Embora a fé, de fato, ajude a pessoa a pensar positivamente, a erguer-se e a vencer, essa fé que se ouve pregar hoje não é a fé mencionada nas Escrituras. No texto de Habacuque (o justo viverá pela sua fé – Hc 2.4), o sentido é de que a pessoa sobreviverá à invasão do mal – do ataque dos caldeus – se permanecer agarrada ou “colada” em Deus. Fé tem o sentido de viver-se agarrado, preso (a Deus). Não importa o que aconteça, o cristão permanece firme. Doente, mas firme. Sem dinheiro, mas forte.

O sofisma entra e inverte a ordem: se alguém está doente, não tem fé; se está sem dinheiro, há algo de errado. Dessa forma, a fé tornou-se algo a ser conquistado. Quem tem fé é curado; quem não tem continua doente. A corrupção da mensagem do evangelho produz manchetes do tipo: “Centenas de pessoas curadas pelo poder da fé”.

O sofisma ou a mentira é que a fé cura, quando, na realidade, a cura é realizada pela autoridade e ação do Nome de Jesus Cristo, às vezes independentemente da fé de uma pessoa, da fé do pregador ou da fé da audiência, como uma operação da expressa vontade de Deus[1].

Ligada aos sofismas sobre a fé, aparece a mensagem de auto-ajuda. E há de diferenciar aqui a auto-estima da auto-ajuda. Deus sempre “levanta” a estima de uma pessoa que pensa negativamente sobre si mesma. Ao medroso, ele diz: “Não temas, homem valente”; “Esforça-te, tem bom ânimo”; “Eu sou contigo” – porque a fonte da auto-estima é o próprio Deus e não a fé ou o pensamento positivo. A expressão de Paulo, “tudo posso naquele que me fortalece”, resume a capacitação humana que vem diretamente de Deus.

Na mensagem de auto-ajuda, o foco é sempre o homem e o que este pode fazer por si mesmo, por seu potencial; para tanto, basta repetir frases, ler os passos práticos para uma vida de vitória ou conhecer o “segredo”. Nesse sentido, a mensagem de auto-ajuda tornou-se um canal de prosperidade aos autores de livros e CDs, aos pregadores e conferencistas que despertam o potencial que existe em cada pessoa. O sofisma reside no fato de que o “potencial” passa a ser o próprio homem e não o fruto de sua dependência de Deus. Aliás, o sofisma da capacitação humana descarta toda ajuda divina. Elogia-se o humanismo porque o homem realiza feitos independentes da ação direta e da interferência divina.

Alteração Sutil do Evangelho

Percebe-se, assim, que a mensagem do evangelho que se ouve todos os dias está impregnada e corrompida com filosofias, humanismo e até símbolos, idéias e práticas de movimentos orientais que se assemelham aos métodos e filosofias da Nova Era.

Analisando-se o conteúdo de algumas mensagens televisivas e de livros recentemente publicados, é evidente que muitos pregadores, evangelistas, pastores e apóstolos já não abordam mais a essência do evangelho como faziam os primeiros apóstolos, pois pincelam o tema bíblico com cores e sofismas que atraem; sim, porque um sofisma bem-apresentado atrai indiscutivelmente mais seguidores do que a radicalidade do evangelho.

O sofisma alterou o chamamento de seguir-se a Cristo incondicionalmente – às vezes, perdendo-se tudo – para uma mensagem de prosperidade. As pessoas vêm a Cristo porque querem sentir-se bem, enriquecer e ter vida farta; exatamente o oposto do que pregavam nossos pais.

Os jovens são desafiados a serem prósperos, ricos, milionários, enquanto a verdadeira mensagem do evangelho consigna a que se abandone tudo pela causa do evangelho, mesmo que para seguir a Cristo a pessoa precise renunciar uma vida confortável, tranqüila ou próspera. O desapego aos bens materiais foi um dos fatores que permitiu que o evangelho fosse pregado por todo o mundo greco-romano. Os bens deixados pelos irmãos da igreja primitiva aos pés dos apóstolos eram distribuídos entre os pobres e necessitados de Jerusalém; o sofisma consegue arrecadar os bens para enriquecer os pregadores, apóstolos e instituições. A lei da semeadura é apresentada com cores atraentes de possibilidades de riquezas e de bem-estar social quando, na realidade, Paulo, ao tratar do tema, tinha em mente os recursos para evangelizar as nações e ajudar os pobres e necessitados.

É certo que existe uma prosperidade na vida cristã como resultado do evangelho, mas é algo intrínseco à mensagem, como um dos efeitos que faz parte do conjunto, não como o objetivo principal. Os que progrediram financeiramente na vida não aceitaram o evangelho por ambição de riquezas, mas pela obra de Cristo e seu senhorio.

Jesus já não é mais apresentado como o Salvador da humanidade, que morreu para perdoar aos homens os seus pecados, mas como exemplo de sucesso de quem se podem extrair passos significativos de sucesso empresarial. Dessa forma, o sofisma consegue encobrir o verdadeiro Jesus e sua missão redentora. Livros e mais livros vêm sendo escritos sobre Jesus como fórmula de sucesso, deixando uma névoa sobre sua verdadeira missão entre os homens.

Anulando os Sofismas

Combatem-se os sofismas com a palavra da verdade. Conforme Hebreus 4.12, a Palavra de Deus é a única arma capaz de fazer a separação entre o que é humano e o que é de Deus; ela separa a filosofia arguta e humana dos homens infiéis, permitindo que realce apenas a verdade de Deus.

Paulo soube combater os filósofos e humanistas da época, apresentando a verdade bíblica junto com as manifestações do poder de Deus. Ele provava aos seus ouvintes que palavra (Escritura) e poder (manifestações sobrenaturais) constituem uma grande verdade. Sempre que confrontou os sofismas com a verdade, Paulo deixou igrejas estabelecidas, porque sua mensagem não constava de palavras apenas, mas de demonstração de poder (1 Ts 1.5). Paulo aprendeu a combater os sofismas com a verdade e, por isso, orienta aos cristãos que anulem os sofismas com a Palavra de Deus!

Os sofismas são anulados quando se conhece o que diz a Palavra de Deus sobre cada coisa – tanto as que estão na esfera da vida humana quanto as que estão no contexto do sobrenatural. O verdadeiro “segredo” consiste em desvendar os mistérios da Palavra de Deus com a ajuda da própria Palavra.

[1] Não estamos ignorando a importância de se exercitar a fé, apenas afirmando que os milagres de cura e as intervenções sobrenaturais não podem ser explicados unicamente dessa maneira. A ênfase exagerada na responsabilidade humana produz a distorção de se acreditar que o homem pode produzir a cura sempre que quiser, quando, na realidade, ela resulta de uma interação misteriosa entre o homem e Deus, com ênfase na soberania de Deus.

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