Servindo a Dois Senhores – Sem Nenhum Problema

Data de publicação: 14/07/2011
Categorias da Biblioteca:
Edição 58 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 58

Por: Ezequiel Netto

O princípio

O primeiro pecado imprimiu no coração do homem um sentimento de vergonha e nudez. Adão e Eva, sentindo-se mal, esconderam-se e não quiseram ter comunhão com Deus como era seu costume todos os dias. Certamente, o Criador saberia como resolver essa embaraçosa situação de pecado, porém preferiram o afastamento. Tiveram a idéia de fazer roupas de folhas a fim de restaurar a honra e a dignidade perante Deus. Mesmo com tais roupas, entretanto, a sensação de nudez continuava (Gn 3.7,10).

Foi assim que começaram todas as religiões da Terra – o ser humano, afastado de Deus, precisa fazer alguma coisa para se “re-aproximar”, se “re-ligar”. Todas as “re-ligiões” tentam vencer esse abismo segundo o próprio entendimento, ética ou doutrina.

É nesse contexto que devemos analisar o livro best-seller de auto-ajuda The SecretO Segredo, de Rhonda Byrne. Como toda literatura dessa linha, a idéia central é que existe, no ser humano, um poder inerente para resolver seus problemas por conta própria, sem precisar de Deus ou de outra ajuda externa, bastando, para isso, seguir corretamente os passos apresentados no livro. Há muitos anos, li um livro em que as pessoas são orientadas a perdoarem a si mesmas, sem a necessidade humilhante de pedir perdão a outrem.

O “Segredo” Operando na Igreja

O interesse primordial do diabo é atingir o povo de Deus com suas artimanhas. Assim, os espíritos de competição, ganância e avareza, por exemplo, são introduzidos na igreja com uma roupagem de espiritualidade. Percebe-se, hoje, a semelhança inconfundível entre muitas idéias pregadas pela teologia da prosperidade e as afirmações do livro O Segredo e de seitas como Ciência Cristã e Nova Era. Apesar da camuflagem cristã, são conceitos que entram em conflito direto com os valores básicos do evangelho.

No princípio, essa teologia veio com a aparência de trazer renovação e reavivamento para a igreja, trazendo luz e clareza para muitas verdades que a igreja precisava compreender melhor. A igreja que viveu, durante longos anos, em estado de letargia tradicionalista agora aprendeu que tinha à disposição “toda sorte de bênçãos espirituais” e passou a adotar novas estratégias na adoração, no evangelismo, nas pregações. Nunca me esqueço do domingo em que passei na frente de uma grande igreja histórica e ouvi as vozes cantando “não vês que sou feliz, servindo ao Senhor…” (Só o poder de Deus) em ritmo de funeral. Hoje o povo é mais alegre, mais “extravagante” na adoração e tem uma atitude menos passiva e resignada diante do sofrimento.

Não podemos esquecer, entretanto, que toda heresia é uma verdade bíblica levada ao extremo na qual apenas um aspecto da Palavra de Deus é valorizado sem considerar os demais. Que Deus derrama bênçãos sobre todos (Mt 7.11; Tg 1.17) e cura os enfermos (Is 53.5) são verdades incontestáveis (até publicamos uma edição da Revista Impacto (nº 54) sobre isso). Mas, no afã de serem abençoados, muitos líderes e pregadores entendem que, se Deus falou algo em sua Palavra, automaticamente torna-se uma promessa que ele é obrigado a cumprir.

O segredo para sermos abençoados, segundo essa linha, é reivindicar, exigir, requerer que Deus nos abençoe segundo o que está escrito na Bíblia. Isso é feito, muitas vezes, mesmo quando o texto em questão não é uma promessa universal, para todos os crentes, mas algo específico, dito a determinada pessoa em um momento especial. Por exemplo, não posso exigir que Deus faça de mim uma grande nação, só porque semelhante promessa foi dada a Abraão (Gn 12.2).

Dessa forma, a verdade de bênção e cura divinas é levada ao extremo quando se afirma que o cristão não precisa passar por pobreza, enfermidades ou sofrimento. Essas coisas seriam causadas inteiramente por Satanás, pois Deus é amor. Contudo, como fazer para explicar quando uma pessoa não é curada? Simples segundo essa teologia: ou ela está em pecado ou não tem fé!

Como fica, então, a recomendação de Paulo a Timóteo para tomar água e vinho devido aos seus problemas estomacais (1 Tm 5.23)? E o fato de que ele deixou Trófimo doente em Mileto (2 Tm 4.20)? Será que Paulo não teve fé suficiente para exercer a cura?

E quando Pedro disse ao aleijado que não tinha ouro nem prata – estava sob uma maldição hereditária que o prendia à pobreza? Nesse caso, por que, mesmo assim, o aleijado foi curado? Hoje a igreja é próspera, rica, abençoada e já não pode dizer que não tem ouro nem prata. Por outro lado (como conseqüência disso), não tem poder para dizer ao enfermo: “levanta-te e anda“!

Mamom é uma Divindade ou Apenas Riquezas em Geral?

Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6:24).

A palavra traduzida neste texto como riquezas é Mamom. Se Mamom fosse o dinheiro em si, o crente não poderia servir a Deus e fazer uso do dinheiro. Como uma entidade demoníaca, porém, Mamom está numa posição oposta a Deus, e amar um implica em desprezar o outro. Essa potestade exige dedicação, e seus servos são compulsivos (não resistem ao desejo de comprar e compram até aquilo de que não precisam). Estão sempre insatisfeitos com o que possuem, são escravos do sistema de créditos e juros abusivos, são avarentos e, mesmo possuindo muitos bens, estão sempre preocupados e ansiosos.

Mamom oferece falsa segurança, levando a pessoa a sentir-se bem quando tem grande limite de créditos (para endividar-se cada vez mais). Traz também uma sensação de valor, dizendo que a auto-estima é proporcional ao dinheiro que se tem na carteira. Esse espírito é tão poderoso que, no Novo Testamento, para nos deixar em alerta, existem 215 versículos que falam a respeito de fé, 218 versículos que falam de salvação, e 2.084 versículos a respeito de finanças e dinheiro.

Mamom também exige “santidade” (dedicação) e “sacerdotes” eficientes, pois os executivos da área financeira precisam ser os mais capacitados e treinados da sociedade. Jesus, quando nomeou Judas como tesoureiro, foi profético – desprezou completamente Mamom, dando-lhe o que tinha de pior.

Grande parcela da igreja atual, com a busca frenética por mansões, carrões, riquezas e demais bens materiais, está cada vez mais distante da simplicidade apresentada por Jesus e mais cheia do espírito… de Mamom! O pior de tudo é que distorcem versículos bíblicos para justificar a devoção ao demônio das riquezas. Na parábola do semeador (Mt 13.7,22), Jesus explica que os espinhos que sufocam a boa semente da Palavra são os cuidados do mundo e a fascinação por riquezas. Deus é um Deus de milagres, mas tenho dificuldades em aceitar como bênção algo acompanhado de um carnê com 72 prestações a pagar!

Qual Evangelho?

Escrevo este artigo no meio de uma experiência financeira complicada. No último ano (de 2007 a 2008), vivi uma crise preocupante em meu negócio até descobrir que um funcionário de extrema confiança estava apropriando-se indevidamente de mercadorias e dinheiro de minha empresa. Tive de vender meu carro e outros bens para cobrir despesas na firma e depender de ajuda financeira de irmãos até para compras de mercado.

Com a saída dessa pessoa da empresa, porém, as coisas melhoraram rapidamente. Começei a pagar as contas antecipadamente e consegui comprar um carro novo (um Santana Exclusiv 2.0 completo, o mais bonito da cidade!). Fiquei com esse carro por um mês, até ser assaltado por bandidos, que levaram o carro e o depenaram, deixando apenas parte do motor e a carcaça. Nesse mesmo dia, minha filha perdeu o emprego no Hospital da PUC que tanto lhe trazia satisfação.

A que evangelho devo seguir? Ao que me acusa de estar em pecado, sem fé e debaixo de maldição familiar? Ao que manda usar minha fé (ou poder da mente) para trazer à existência o que me foi tirado? Comprar um novo carro, dizendo que o diabo levou um, mas que Deus me abençou e deixou um carnê mais grosso que a Bíblia para ser pago?

Prefiro crer de outra forma.

Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo” (2 Co 12.9).

…da fraqueza tiraram força” (Hb 11.34).

…também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza” (Rm 8.26).

Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados” (Mt 5.4).

Os que com lágrimas semeiam, com júbilo ceifarão” (Sl 126.5).

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Gondim, Ricardo: O Evangelho da Nova Era, Abba Press Editora, 1993.

Romeiro, Paulo: Super Crentes, Editora Mundo Cristão, 1993.

Para ler mais a respeito desse assunto, veja os seguintes sites: http://www.montesiao.pro.br/estudos/financas/vencendomamom.htm

http://www.sermao.com.br/sermao.asp?id=1338

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