Série “Preparando a Família”-Parte III-Família-Motivo de Juízo ou Salvação

Data de publicação: 27/07/2011
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Edição 68 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 68

Por Pedro Arruda

O livro de Gênesis, além de ser um relato histórico, é também um livro profético, pois contém uma maquete divina da história que ainda está por vir. Foi Jesus que ensinou esse princípio quando colocou a situação no tempo de Noé (descrita em Gênesis 6 a 9) como referência aos dias que antecederão seu retorno à Terra. Esse alerta de Jesus mostra-nos que vale a pena estudar sobre Noé, as circunstâncias em que viveu e como cooperou com o plano de Deus.

Numa sociedade que havia atingido o clímax de impiedade, havia apenas um homem, chamado Noé, em quem Deus encontrou correspondência e a quem pôde revelar seus planos. Diante disso, Noé precisou preparar-se para coisas absolutamente inéditas, pois a chuva até então era um fenômeno desconhecido, e ela seria torrencial. Noé foi fiel a Deus e iniciou a construção da arca, que seria o meio de salvação do dilúvio para ele, sua família e os animais que preservariam a vida sobre a Terra.

Evidentemente, não foi sem oposição que Noé desenvolveu seu trabalho, pois construir uma enorme embarcação num lugar seco na expectativa do acontecimento inédito de uma chuva alagadora dava motivos para que a população o considerasse louco, tornando-o alvo de zombaria e sinal de vergonha para amigos e familiares que teriam razões para abandoná-lo.

Com certeza, seus familiares (esposa, filhos e noras) foram abordados muitas vezes por pessoas que instavam para que deixassem aquele projeto, acusando-os de colaborar com a insanidade do pai.

É admirável a liderança de Noé sobre sua família, pois, não obstante toda a pressão social sobre os filhos, estes se mantiveram fiéis ao pai. Era o pai de um lado contra toda a sociedade do outro. Eles não só optaram pelo pai, mas também souberam conduzir suas esposas no mesmo caminho. Tendo em vista que a monogamia e a fidelidade familiar eram fatores destacados que diferenciavam a família de Noé da sociedade da época, o assunto principal das conversas entre eles certamente girava em torno dessas coisas.

Essa liderança familiar é a primeira lição que podemos tirar a respeito daqueles dias. Jesus destacou que eles casavam e davam-se em casamento, não para criticar a instituição do casamento, mas para indicar a banalização que a sociedade de então lhe atribuía. Naquela época, o casamento não se referia a uma cerimônia civil ou religiosa como conhecemos hoje, mas simplesmente se consumava com a primeira relação sexual do casal. Logo, a banalização do casamento significava também a banalização do ato sexual. Fidelidade monogâmica não tinha o menor valor naquela sociedade. Tal foi a devassidão que até os anjos decaídos sentiram-se atraídos a participar dela e, de alguma forma, coabitaram com as mulheres, gerando gigantes físicos da mais baixa degradação moral, uma verdadeira anomalia de raça, tornando a situação insustentável.

Podemos dizer que duas personagens emblemáticas podem ser consideradas ícones representativos daquela sociedade, o que se pode confirmar pelo significado de seus nomes de acordo com a “Torá Viva”. De um lado, estavam os nefilins ou decaídos, que aborreciam a Deus. Do outro, estava Noé (descanso, conforto, consolo), em quem Deus encontrava repouso, sem qualquer dissabor. Em meio a essa depravação total, o testemunho de Noé e de sua esposa, filhos e noras era o da preservação da família segundo o conceito original de Deus. Aos olhos daquela sociedade, em que tudo era relativo, e o padrão se nivelava pela baixeza dos decaídos nefilins, Noé e sua família é que eram anormais e errados.

Contudo, era Noé, embora solitário em sua maneira de pensar, que via as coisas do ponto de vista de Deus. Ele estava incumbido de uma missão de preservação que ia além da vida física das espécies, principalmente humana, incluindo, acima de tudo, os conceitos divinos. Embora vivesse numa sociedade pré-diluviana, Noé pensava como alguém da civilização pós-diluviana. Sua mentalidade o colocava à frente de seus contemporâneos. O que determinava a escolha de Deus não era o porte físico, pois os gigantes teriam mais potencial para sobreviver e reproduzir a espécie como se espera da chamada teoria da evolução; pelo contrário, a capacidade de pensar de acordo com a perspectiva de Deus é que habilitava Noé para empreender o reinício da civilização sobre a face da Terra.

Noé defendeu os valores familiares criados por Deus numa época em que todos já os haviam abandonado, substituindo-os por seus próprios conceitos a respeito de casamento, família e sexo. A incumbência de Noé não era apenas preservar a vida física, mas também ser guardião do pensamento de Deus e preparar-se para uma nova era na qual deveria vigorar uma cultura diferente daquela que dominara o mundo, levando-o incondicionalmente à morte. Sua resistência foi longa e paciente, pois a execução do projeto com as dimensões da arca levou muitos anos. Durante esse período, ele viu a sociedade degradar-se ainda mais, sem que qualquer juízo imediato viesse sobre as pessoas.

Este também é o desafio para os nossos dias que antecedem a volta de Jesus. Como pais, devemos ter a audácia de oferecer a vontade de Deus à nossa família, constantemente assediada pelo mundo. A grande arma de Noé foi absoluta obediência à vontade de Deus. Sua pregação e prática eram plenamente coerentes, ainda que estivesse ocupado numa atividade secular: a construção naval. Ele jamais teve de optar entre fazer a obra e salvar sua família, pois foi justamente fazendo a obra de Deus que ele levou salvação à sua casa.

Com Noé, aprendemos que a fé serve para recebermos a revelação da vontade de Deus que nos habilitará a ver as coisas do ponto de vista divino, capacitando-nos a agir de maneira a lhe agradar. Não há outra maneira de agradar a Deus a não ser fazendo a sua vontade (Hb 11.6). O oposto também é verdade, como aprendemos em Romanos 14.23: “tudo o que não provém de fé é pecado”.

Não é por acaso que estamos inseridos em determinada família, pois temos responsabilidades imediatas por nossos familiares diante de Deus. Pouco podemos fazer pela salvação do presidente dos EUA, e isso nem será cobrado de nós. Entretanto, quanto aos nossos familiares, a situação é bem diferente. Só podemos ajudá-los a partir do conhecimento daquilo que Deus propôs em seu plano.

As pessoas mais próximas a nós são integrantes da nossa missão. Evidentemente, a compreensão disso implica em pensarmos como Deus, isto é, ter os mesmo conceitos que ele a respeito da família e a obra a nós confiada. Isso tem relação direta com a época e o local em que vivemos. Assim como Noé tinha diante de si o maior evento da história até então, que foi o Dilúvio, está à nossa frente o maior evento de toda a história na Terra, que é a volta de Jesus. Se a família foi determinante para a ação de Deus naqueles dias, também o será agora. Portanto, saber como Deus pensa sobre ela é fundamental, lembrando que o mundo tem pensamentos opostos.

Apesar de não haver “nefilins” físicos nos dias de hoje, o mesmo espírito que atuava neles, opondo-se à família, tenta prevalecer outra vez. Dentre os gigantes espirituais, o mais importante é aquele que foi denunciado por Jesus como Mamon, mais conhecido como dinheiro. A cada geração, os filhos se identificam mais como gigantes no sentido físico e material, enquanto se tornam nanicos e anêmicos em seu desenvolvimento espiritual. Sutilmente, os pais de família, ao invés de resistirem aos espíritos que dominam esta era, como fez Noé, estão entregando-se ao espírito de Mamon e gerando “nefilins”.

A atitude diante da família foi determinante para a salvação nos dias de Noé, e também o será para a volta de Jesus. O juízo foi e é inexorável. Deus preza a família. Quem a desprezou sofreu o juízo, mas os que tiveram zelo por ela foram salvos em meio ao próprio juízo.

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