Série “Preparando a Família” – Parte 11 – Familiolatria

Data de publicação: 07/09/2014
Categorias da Biblioteca:
Edição 78 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 78

Sob o pretexto de proteger nossas famílias, estamos poupando nossos filhos da missão que Deus lhes reservou e moldando uma geração egoísta e covarde  

por Pedro Arruda

“Se realmente queremos o bem de nossa família não só para o momento presente, mas de forma sustentável ao longo dos anos, devemos submeter nossa boa vontade ao Senhor, como aquele sábio que edifica sua casa sobre a rocha”

“Nesse ritmo, o cristianismo ficará cada vez mais restrito ao interior das igrejas e condenado à extinção. Já que “os covardes não herdarão o reino de Deus”, corre-se o risco de se estar contribuindo para povoar o inferno de bons cidadãos”

A família compreendida dentro do plano de Deus ocupa um lugar tão privilegiado em seu propósito, tão nobre, que é preciso muito cuidado para que não nos inebriemos dela – como naquele conto da esposa que, tão encantada com a jóia que recebera do marido, passou a dar mais atenção ao objeto do que ao cônjuge.

Na parábola dos talentos (Mt 15.25-28), há aquele que recebeu seu dinheiro e o enterrou. Esse servo não teve uma atitude desonesta. Pelo contrário, foi tão prudente que chegou às raias da covardia. Essa parábola pode perfeitamente ser aplicada aos chefes de família ao longo da história da salvação. Sempre houve aqueles que expuseram e expandiram sua família por amor ao reino de Deus e aqueles que a preservaram a todo custo, tornando-a inútil. Talvez, tenha sido com essa questão em mente que Paulo ensinou que o solteiro “preocupa-se com as coisas do Senhor”, enquanto o casado “preocupa-se com as coisas deste mundo, em como agradar à sua mulher, e está dividido” (1 Co 7.32,33).

Quando se fala em família a serviço de Deus, um dos exemplos mais recorrentes é o de Josué que, ao conclamar o povo a decidir sobre quem servir, antecipa-lhe a própria decisão: “eu e minha casa serviremos ao Senhor” (Js 24.15). Vale lembrar que a situação era de guerra naquele momento. Depois da chegada à Terra Prometida, tiveram de enfrentar muitas batalhas para conquistá-la e ainda se consolidar no novo território. Portanto, oferecer sua família para “servir ao Senhor” significava, na prática, participar da guerra, preparar os filhos e enviá-los para o combate. Essa foi a escolha da geração pioneira, forjada no deserto, que seguia Josué.

A geração posterior agiu de maneira diferente, sendo identificada como aquela em que “cada um fazia o que bem lhe parecia aos olhos” (Jz 21.25). Ou seja, era voltada para si mesma. Como emblema dessa situação, há o relato, em Juízes 17, da história de uma família que consagrou um valor em dinheiro ao Senhor, destinando-o à confecção de duas imagens e à contratação de um levita que servisse de sacerdote exclusivo à família – uma espécie de igreja doméstica, dentro do contexto de fazer “o que bem lhes parece aos olhos”. Logo a seguir, nos últimos três capítulos de Juízes, temos uma segunda história que mostra como decisões individuais visando ao próprio benefício desencadearam uma guerra interna, quase aniquilando a tribo de Benjamim – uma verdadeira sequência de um abismo chamando outro, tudo baseado na ideologia “de cada um fazer o bem que lhe parece aos olhos”.

Não podemos cair no mesmo erro sob a desculpa de proteger, guardar ou poupar nossa família. Jesus ensinou que perde a vida quem quer salvá-la, mas que quem perde a vida será salvo (Mc 8.35). Sobre a vida, também disse Henry Nouwen que ela “não é um bem a ser preservado, mas um dom a ser partilhado”. A relação entre a própria vida e a família é pertinente porque, de fato, ela é o que consideramos mais precioso.

Assim, se realmente queremos o bem de nossa família, não só para o momento presente, mas de forma sustentável ao longo dos anos, devemos submeter nossa boa vontade ao Senhor como aquele sábio que edifica sua casa sobre a rocha. Em vez de poupar nossos filhos e colocá-los numa redoma, devemos prepará-los para enfrentar a vida com fé, lutando a favor dos valores do reino de Deus ao qual pertencem. Essa preparação deve ser em tempo real, aprendendo a conviver com outras crianças e sendo, desde cedo, testemunhas àquelas que são criadas sob orientação divergente à tradição cristã. Nossos filhos precisam aprender a ser seguros e a exercer influência para não serem influenciados, uma vez que não há neutralidade no campo de convivência.

Independentemente da prática religiosa, todos desejam paz, segurança e justiça, e cristãos ou não cristãos querem o fim da pobreza e da miséria, a cura das doenças, o equilíbrio da natureza etc. Tudo isso são valores inerentes ao reino de Deus. Entretanto, são poucos os que desejam o Rei deste reino, pois cada um quer ser rei de si mesmo e “fazer o que lhe parece bem a seus olhos”.

Isto acontece também entre os cristãos. Todos querem os benefícios da vida cristã à família; no entanto, não se demonstra a mesma disposição para se comprometer com a igreja. Uma boa parcela dos que seguem a Jesus procura viver o cristianismo guardando uma distância segura do pleno engajamento. Ao mesmo tempo em que considera a igreja como um ambiente saudável e adequado, onde há companhia segura para manter os filhos longe das drogas e do envolvimento com pessoas não recomendáveis, também tenta protegê-los de envolvimento excessivo, de se tornarem “fanáticos” ou de se dedicarem a uma vocação missionária, deixando de se interessar por uma promissora carreira profissional para a qual os pais fizeram grande empenho e altos investimentos.

Nossos filhos não vieram ao mundo por acaso, mas foram enviados por Deus com um plano. Não cabe a nós determinar esse propósito, mas ajudá-los a encontrá-lo. Para isso, é necessário que os pais sejam conscientes de que os filhos não são propriedade deles, mas que pertencem a Deus. Ao confiar-lhes os filhos, Deus tem a expectativa de contar com a sua colaboração para conduzi-los à vocação para a qual foram enviados.

Assim sendo, todos os cuidados que temos com nossos filhos devem ser canalizados para formá-los de acordo com o chamado de Deus, a fim de que o reconheçam com clareza e, a partir daí, cumpram a missão que Deus lhes confiou. Até mesmo os cuidados mais pueris, como a amamentação, que dão condições de sobrevivência ao bebê, ganham dimensões muito maiores, pois garantem que a sociedade venha a ser abençoada desfrutando o ministério que Deus lhe deu. Pensamentos como esses certamente estavam presentes em Isabel e em Maria quando prestavam cuidados maternais aos seus bebês.

Os pais são aconselhados a não proporcionar um mundo de facilidades aos filhos, pois isso lhes daria a falsa impressão de que tudo gira em torno deles, e não aprenderiam a lidar com as frustrações, sentimentos de perda e negativas que há no mundo real. Assim, nem todos os brinquedos desejados lhes são concedidos. Eles precisam que limites lhes sejam impostos para aprender a lidar responsavelmente com a liberdade.

Entretanto, quando se trata dos aspectos espirituais da vida, esse conselho não é seguido com o mesmo rigor. É comum encontrar pais migrando de escola para escola, de igreja para igreja, em busca da melhor situação para os filhos, com o intuito de submetê-los exclusivamente a boas influências e a amigos que não representem qualquer ameaça e que sirvam de boa e saudável companhia, visando a relacionamentos mais sérios no futuro. Esses agem como quem pode controlar o destino dos filhos. Há ainda aqueles que, para não expor os filhos aos “perigos” de um ambiente escolar, apostam no chamado homeschooling, que é a tentativa de proporcionar uma educação acadêmica dentro das quatro paredes de casa.

Esses cuidados não são negativos em si mesmos, mas a motivação dos pais para tais providências pode resultar numa família egoísta e acuada por ameaças potenciais deste mundo maligno. Isso pode ter um efeito contrário, uma vez que os filhos não estão sendo preparados para enfrentar o mundo, mas para fugir dele. Dessa forma, nunca aprenderão a influenciar outros por meio de uma fé convicta. Por ter seu contato mais efetivo com o mundo real retardado, quando o fizerem, ficarão numa atitude de permanente vigilância, em posição defensiva diante de um mundo caído. Não me parece uma atitude compatível com a dos pais de Samuel, João Batista ou Jesus, que sabiam para que finalidade seus filhos vieram ao mundo e não os pouparam da missão que lhes estava reservada.

A geração pioneira da conversão (aquela em que as pessoas tiveram encontro com Jesus ainda jovens, sem que os pais colaborassem para isso) normalmente provê companhia para si mesma. Jovens evangelizam seus amigos e, assim, suprem sua necessidade de companhia. Quantos são os casos de grupos de amigos que, quase em sua totalidade, entregaram-se a Jesus a partir da conversão de um deles? Entretanto, para a geração seguinte de cristãos, torna-se uma “obrigação” dos pais prover aos filhos companhia de outros jovens cristãos. Uma das consequências óbvias dessa superproteção espiritual é que esses filhos nunca aprendem a evangelizar.

Por excesso de zelo, estamos criando uma geração que não sabe lutar. É comum encontrar pais em busca de igrejas que forneçam o melhor serviço e ambiente aos filhos. Geralmente, os pais recusam ficar numa comunidade pequena sem um numeroso grupo de jovens que propicie amizades aos filhos. Em vez de tentar contribuir para o aumento de jovens por meio da evangelização, simplesmente migram para outra que já conte com uma juventude numerosa.

É um equívoco tentar ensinar nossos filhos que a família deve ser defendida a todo custo, pois agindo dessa forma reproduziremos pessoas voltadas para si mesmas. O máximo que se conseguirá com essa atitude é transformar pessoas egoístas em famílias egoístas, tentando proteger-se de tudo – até mesmo de Deus. Nesse ritmo, o cristianismo ficará cada vez mais restrito ao interior das igrejas e condenado à extinção. Tendo em conta que os covardes não herdarão o reino de Deus (Ap 21.8), corre-se o risco de se estar contribuindo para povoar o inferno de bons cidadãos.

Devemos ensinar a família a servir a Deus, a confiar nele e a crer na sua palavra. O triunfo não se dá pelo resultado das forças humanas, mas pela parceria do homem com Deus. Ele sim, e não nós, sabe e tem todas as condições de cuidar de nossa família.

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