Série: Histórias que fizeram história

Data de publicação: 07/09/2014
Categorias da Biblioteca:
Edição 78 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 78

Adquirir uma visão mínima da história da Igreja é tão importante para o cristão sério quanto estudar a trajetória do povo de Deus relatada nas Escrituras. Sem tais fundamentos, é impossível saber de onde viemos, para onde vamos – e onde estamos!

O tema desta nova série da revista Impacto não é a História em seu sentido geral ou cronológico, mas alguns de seus personagens cujas histórias de vida, talvez desconhecidas, fizeram enorme diferença e marcaram gerações.

Antes de começar, uma boa pergunta para sua reflexão: se você tivesse a oportunidade de incluir mais um nome no rol dos heróis da fé de Hebreus 11, quem você escolheria?

Quem sabe possamos, em diversos relatos desta série, encontrar bons candidatos que, juntamente com os heróis bíblicos, nos fortaleçam e inspirem a completar a nossa jornada com fé e perseverança!


UM PACIFICADOR ENTRE OS CANIBAIS
James Chalmers – Missionário (1841 – 1901)

O perigoso chamado de um destemido escocês: falar do amor de Deus nos lugares mais selvagens de sua época

por Christopher Walker

Nascido numa cidade litorânea da Escócia, James se destacou desde cedo pela audácia, independência e pelo senso de aventura. Amigo de pescadores, ainda bem garoto quis se aventurar no mar sozinho num barco improvisado – e precisou ser resgatado! Mais de uma vez, colocou a vida em risco ao pular em águas profundas para salvar um colega.

A primeira vez em que sentiu um toque de Deus foi aos 15 anos de idade, quando nem era convertido. Ao ouvir, na Escola Dominical, a carta de um missionário relatando práticas horríveis de selvagens nas Ilhas Fiji, James sentiu o desejo de dar a vida para levar o Evangelho aos povos canibais.

Passados alguns anos, porém, James estava caminhando na direção oposta: era o líder de um grupo de arruaceiros que queria perturbar uma campanha evangelística em sua cidade. Mas foi justamente numa dessas reuniões, por muita insistência de um amigo, que ele foi alcançado pelo entusiasmo e pela alegria das pessoas. Ali também, ele foi marcado pelo texto que se tornaria o lema central de sua vida: “O Espírito e a noiva dizem: Vem! Aquele que ouve, diga: Vem! Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida” (Ap 22.17).

Depois da conversão, seu desejo inicial de dedicar a vida aos povos selvagens voltou com mais força. Fez vários cursos preparatórios, mas se destacou mais pelas peças que pregava nos colegas do que pelos estudos!

Sete anos depois da conversão, recém-casado, Chalmers embarcou com a esposa para Rarotonga, uma ilha no sul do Oceano Pacífico. Era 1866, e para chegar ao destino final, passando por naufrágio, viajando em navio pirata e pregando para o capitão e tripulantes, o casal levou mais de um ano!

Depois de dez anos na ilha de Rarotonga, evangelizando, treinando os nativos e traduzindo literatura para a língua do povo, o espírito aventureiro de Chalmers pedia muito mais. Ele queria ir aonde as pessoas nunca houvessem ouvido falar de Jesus, onde a civilização ainda não houvesse chegado – e onde houvesse mais perigo!

Deus havia plantado no coração deste moço, que não gostava de estudar e que se sentia mais à vontade no meio da aventura e do perigo do que num púlpito ou numa casa arrumada, as características perfeitas para a execução de uma missão muito arriscada.

Foi assim que, em 1877, Chalmers partiu com a esposa para Nova Guiné, a então terrível, desconhecida e selvagem ilha, envolta em práticas refinadas de degradação humana. Os homens, em geral, só se dedicavam à guerra e à fabricação de engenhosas armas. Eram canibais e caçadores de cabeças, muito supersticiosos, escravos de magias e espíritos das trevas. Usavam colares de ossos humanos, amontoavam caveiras perto das casas e dos templos e preparavam banquetes com carne humana.

Logo que se instalou na ilha, a casa de Chalmers foi cercada por uma multidão de homens armados e com o rosto pintado. Queriam machados, facões e armas e ameaçaram matar James, sua esposa e todo o grupo de missionários.

“Podem matar-nos”, o homem branco respondeu. “Não temos armas e estamos aqui como amigos.”

Resmungando, o grupo foi embora. Porém, um nativo amigo veio avisá-los de que os selvagens haviam tomado uma decisão de matar todos os estrangeiros assim que o dia amanhecesse.

O pequeno grupo de embaixadores de Cristo fez uma rápida conferência para tomar uma decisão. Os homens sugeriram que as mulheres fugissem, já que não havia espaço para todos no barco. A esposa de James não aceitou. “Viemos aqui para pregar o evangelho”, ela disse. “Permaneceremos todos aqui, seja para a vida, seja para a morte.” Em seguida, leram o salmo 46 e se ajoelharam para orar.

No dia seguinte, o líder dos selvagens veio e pediu desculpas pela atitude deles. Os missionários lhe entregaram um presente, o que deu abertura imediata ao contato e à amizade com toda a vila.

Pelos 20 anos seguintes, Chalmers (ou “Tamate” como os nativos o chamavam), percorreu centenas de vilas, viajando, às vezes sozinho, por semanas a fio. A morte sempre o rondava. Certa vez, ao chegar a uma vila, tentou ganhar a amizade do chefe, oferecendo-lhe alguns presentes. O chefe os recusou, e um grupo de selvagens, armados com paus e lanças, cercou o homem branco. Ele, então, virou-se tranquilamente para voltar ao barco. Um selvagem carregando um bastão com ponta de pedra caminhou logo atrás dele, fazendo gestos ameaçadores. Sentindo o perigo, Tamate pensou numa estratégia. Virando-se de repente, tirou um pedaço de ferro da bolsa e estendeu-o para o homem. Os olhos do selvagem brilharam como se estivesse contemplando uma barra de ouro. Aproveitando o momento, com rapidez e ousadia, Tamate agarrou o bastão e o arrancou de sua mão. Prosseguiu para o barco sem ser mais incomodado.

Mais de 200 daqueles que Chalmers havia evangelizado e treinado na ilha de Rarotonga e outras partes da Polinésia vieram para trabalhar com ele em Papua. Aproximadamente metade desses heróis foi morta, alguns por doença, outros por martírio. Numa vila, depois que um grupo de missionários nativos foi massacrado pelos selvagens, Chalmers pediu voluntários para tomar o lugar deles. Imediatamente, várias pessoas se ofereceram.

Embora de forma lenta e penosa, surgiram muitos frutos. Em alguns lugares, os costumes foram totalmente transformados; os fornos para carne humana foram abandonados, e a paz começou a reinar entre as vilas. Centenas de nativos foram batizadas e instruídas no caminho do Senhor.

Em 1900, James ficou viúvo pela segunda vez; em ambos os casos, eram companheiras corajosas, guerreiras, que enfrentavam, muitas vezes sozinhas, perigos, ameaças, insetos, cobras e inúmeros desafios incalculáveis. Mesmo assim, Chalmers decidiu permanecer, planejando alcançar uma região ainda desconhecida da ilha.

De fato, em abril de 1901, James Chalmers e um jovem colega, recém-chegado da Inglaterra, subiram o rio Fly e entraram numa vila. Foram convidados, junto com alguns cristãos nativos, para uma refeição. Ali foram golpeados por trás com porretes de pedra. A cabeça de ambos foi cortada e exibida como troféu, e os corpos, cozidos pelos canibais.

Chalmers morreu servindo ao Mestre, assim como havia vivido: intensamente e sem temer coisa alguma, pois já vencera o medo da morte. Sem dúvida alguma, foi um dos “homens dos quais o mundo não era digno” (Hb 11.38), e que contribuiu, como diziam os morávios do século 18, para “conquistar para o Cordeiro que foi morto a recompensa dos seus sofrimentos”.

Fontes de pesquisa:

http://www.christianity.com/church/church-history/timeline/1901-2000

http://www.wholesomewords.org/missions/bchalmer2.html

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