Série “Comunhão Nossa de Cada Dia”-Parte I-Origem e Morte da Comunhão

Data de publicação: 25/07/2011
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Edição 54 e Revista Impacto - 1998 a 2014.

Por: Pedro Arruda

Nota da Redação: Este artigo é o primeiro de uma série sobre o tema da comunhão. A partir de sua experiência de vários anos, procurando redescobrir a prática da comunhão em pequenos grupos nas casas, e de uma reflexão mais intensa sobre o assunto nos últimos meses, Pedro Arruda compartilhará suas ponderações e descobertas sobre esse que é o verdadeiro aspecto central da vida cristã.

Penso que nunca se falou tanto sobre comunhão como nestes dias. Parece até mesmo um clamor pelo preenchimento de um vazio, até então não atendido, nos corações de uma maneira geral. No meu íntimo, chego a considerar que a redescoberta deste assunto será de uma importância ainda maior do que foi a restauração iniciada pelo movimento Pentecostal na virada para o século XX.

Exatamente por se falar tanto em comunhão, considero necessário iniciar propondo um pequeno mas fundamental ajuste no conceito que temos desse termo. No início da década de 60, morávamos num sítio que distava uma hora de caminhada da cidade. Lá não havia eletricidade e, portanto, nenhum aparelho doméstico; quando papai adquiriu seu primeiro rádio portátil que funcionava a pilha, este se tornou o centro das atenções. Todas as noites, após o jantar, reuníamo-nos em torno da mesa para ouvir uma novela chamada “Juvêncio, o justiceiro do sertão”. Nossa imaginação não tinha limites diante das cenas heróicas ou de perigo que eram narradas.

Tudo estava ótimo, porém havia uma dificuldade: a sintonia das estações se fazia girando um botão, para o que se exigia muita sensibilidade, coisa difícil de encontrar nas mãos de um trabalhador rural. Conseqüentemente, era muito comum ouvirmos o rádio com um chiado, que podia ser eliminado com um milimétrico ajuste, não fosse o razoável receio de comprometer ainda mais a arisca sintonia. Penso que precisamos fazer, igualmente, um delicado ajuste em nosso conceito de comunhão para permitir que, eliminados os ruídos, possamos ouvir com nitidez a voz do Espírito em nossos corações.

Quando Deus começou a falar com Samuel, este ouviu e sabia que estava sendo chamado; entretanto, por ainda não conhecer a voz do Senhor, dirigiu-se a Eli, pois esse era seu costume. Semelhantemente, quando se fala na necessidade de comunhão, há muitos que pensam imediatamente no dia de lazer da igreja, partida de futebol ou churrasco, incluindo a participação de parentes e amigos não convertidos. Outros talvez considerem que seja uma conversa descompromissada e leve, acompanhada de um almoço, cafezinho ou coisa parecida.

Para que entendamos uma determinada coisa, o melhor que temos a fazer é investigar a sua natureza ou a sua origem. E é isso que vamos fazer com relação à Comunhão.

Natureza da Comunhão

Vamos entrar devagar. Teremos que pisar com cautela, pois precisamos tocar em áreas que estão além da nossa plena compreensão humana.

Para que Deus seja realmente Deus, é necessário que ele seja único. Caso existisse mais de um, isso geraria uma relação de subordinação entre eles, e o menor estaria despojado do atributo divino de ser absoluto e todo-poderoso. Se resolvessem decidir a questão através de uma luta, isso seria de uma violência tal que inviabilizaria a existência do universo. Por outro lado, se buscassem uma solução pacífica através de um acordo, isso implicaria que ambos estariam abrindo mão dos atributos divinos pessoais, pois, ao submeterem-se ao acordo proposto, estariam subordinando-se um ao outro, uma vez que tal acordo, supremo sobre ambos, conteria a vontade do outro também. Logo, a própria existência do universo testemunha não somente a existência de Deus, mas também a verdade de ele ser único.

Contudo o cristianismo, além da crença em um único Deus, acrescenta um aspecto extraordinário que desafia até mesmo a compreensão de outros monoteístas, que é o mistério da Trindade: três Pessoas iguais nos seus atributos, que não geram a problemática politeísta rapidamente mencionada anteriormente, pois são um só Deus. Esse mistério de não haver divergências entre as Pessoas da Trindade pode ser compreendido em partes, considerando que todas elas têm uma mesma vontade, caracterizando a unidade e a unicidade de Deus.

Como não pode haver mais de uma vontade governando o universo, Deus, então, nos chama para nos incorporarmos à sua vontade. Isso é, ao mesmo tempo, lógico e quase inconcebível à nossa mente, quando comparamos a dignidade divina à humana. Não obstante todas as objeções que nossa mente possa produzir, Deus, em sua onipotência, resolveu fazer as coisas junto com o homem e através do homem. A esse convite de participação, damos o nome de comunhão (Jo 17.21-23).

Comunhão e Relacionamento

Antes de continuar, devemos fazer um pequeno ajuste em nossa sintonia fina, distinguindo Comunhão e Relacionamento. Embora sejam próximos, não devem ser confundidos. Relacionamento pode ser apenas um contato bilateral, é insuficiente para definir comunhão e não lhe serve de sinônimo.

Quando Deus criou o homem, deu-lhe como missão que dominasse e sujeitasse a Terra, a partir do Éden. Como era uma tarefa impossível de ser feita individualmente, ele precisava de mais recursos humanos, os quais seriam providos mediante a fecundidade para multiplicar e encher a Terra, implicando um empreendimento a ser levado adiante através da família.

Embora Adão tivesse tudo a seu dispor, inclusive relacionamento com Deus, havia um sentimento de frustração por não ser capaz de cumprir-lhe plenamente a vontade. Isso fica evidente pelo fato de, sem lograr êxito, realizar a tarefa de nomear todos os animais com uma esperança implícita de encontrar entre eles uma companhia para si. A satisfação que procurava somente é demonstrada quando Deus lhe apresenta Eva.

A expressão “afinal”, ou “agora”, traduz três conclusões. Primeira, que Adão tinha diante de si uma criatura de uma beleza que nunca antes vira, em conformidade com a perfeição de Deus para criar. Segunda, que Adão via em Eva a mesma glória de Deus que o revestia e que podia ser vista pelas outras criaturas, mas não por ele mesmo. Terceira, que Adão, sozinho até então, via agora o potencial para solucionar a sua frustração de não ser capaz de cumprir a vontade de Deus.

Antes de Eva, Adão desfrutava de um relacionamento perfeito, bilateral com Deus; depois dela, passou a desfrutar da comunhão, propósito para o qual Deus o criara. Isso porque um podia ver e desfrutar no outro a mesma glória de Deus que havia em si (embora oculta aos próprios olhos), através da manifestação da vontade de Deus de um para o outro. Somente a partir do casal, havia a possibilidade de se conhecer a imagem e semelhança de Deus que cada um possuía. De certa forma, é como se Adão tivesse agora um espelho.

Em outras palavras, Adão, assim como Eva, tinha relacionamento com Deus; ao se relacionarem entre si, somente abordavam aquilo que era estritamente a vontade de Deus. Portanto as palavras de um ao outro eram, antes de tudo, como se fossem as palavras do próprio Deus, expressão da mente de Deus. Estavam perfeitamente envolvidos pela vontade de Deus. Essa harmonia com a vontade divina pode ser confirmada pela maneira como Deus acatou a nomeação que Adão fizera aos animais sem realizar nenhum reparo sequer, ratificando que teria feito exatamente o mesmo se ele próprio se incumbisse da tarefa.

Assim como Deus não quer executar seu plano sozinho, ele também deseja que o homem o faça acompanhado. Esse período de comunhão vigorou até o surgimento do pecado do homem, quando ele morreu espiritualmente, e sua vida passou a ser dependente da alma.

Com o pecado, cessa a comunhão, mas Deus ainda mantém relacionamento com o homem, da mesma forma como aconteceu entre o primeiro casal, depois da queda, e entre eles e seus filhos, Abel e Caim. Devemos notar que o relacionamento nem sempre é positivo, uma vez que pelo lado do homem é regido pela sua alma, o que o faz optar muitas vezes por ignorar ou quebrar deliberadamente as bases para o convívio bilateral. Exemplos disso podem ser vistos no próprio Caim e, posteriormente, no profeta Jonas.

Portanto, sob esse ponto de vista, a partir do pecado não seria correto dizer que Deus mantém comunhão com o homem, mas sim relacionamento. A comunhão só será possível novamente a partir da vinda do Espírito Santo em Pentecostes, após a morte vicária de Cristo e sua ressurreição. Comunhão pressupõe homens sem pecado e com o espírito vivo. Essa possibilidade está presente em duas ocasiões: Adão e Eva antes de pecar e os nascidos de novo, nascidos do Espírito, cujos pecados foram remidos pelo sangue de Jesus Cristo.