Ser Profético

22/10/2011 Publicado por: Impacto

Este artigo pertence a:
Edição 29

Afinal, o que é "Profético"?

Por: Pedro Arruda

Sem a pretensão de trazer uma conclusão definitiva ao assunto, julgamos ser extremamente oportuno, nestes dias em que vivemos, tecer algumas considerações à luz da Bíblia sobre a natureza do profeta e da profecia.

Podemos definir o profeta, de maneira simplista, como um porta-voz da divindade. Profetas e profecias sempre estiveram presentes no curso da história, alternando-se abundância com escassez em diferentes épocas. Tais manifestações devem ser incentivadas, bem como o discernimento da autenticidade profética que é de vital importância (1 Co 14).

A primeira coisa a se observar numa profecia é saber a que ela se presta, ou a serviço de quê e de quem ela está. Para se conhecer o dinheiro falso, a pessoa é submetida a um intenso treinamento com o dinheiro verdadeiro para que se familiarize com ele o máximo, a ponto do falso lhe parecer algo totalmente estranho. Este mesmo princípio parece ser válido para o discernimento das profecias.

Vale a pena lembrar que Deus tem o objetivo de revelar-se aos homens e que seria desejável que todos pudessem profetizar. Deus pauta por revelar-se e, toda vez que um porta-voz é enviado, o principal objetivo é revelar sua própria pessoa. Mesmo que se fale em fatos ou ações de Deus, tais coisas são comunicadas com a intenção de que Deus se torne conhecido de seus ouvintes. Deus vai se comunicar exaustivamente até que todos o conheçam e a terra se encha de seu conhecimento (Hc 2.14; Hb 8.11).

Paul E. Billheimer em Seu Destino é o Trono, comentando The King of the Earth de Erich Sauer, expõe que “a natureza espiritual do homem se expressa principalmente em seu poder de falar. A fala é a auto-revelação direta do homem interior ou da personalidade. O pensamento é, por assim dizer, a fala interior do espírito, e a palavra falada ou escrita forma um corpo para o pensamento. A fala é o instrumento para a manifestação do espírito.” Se o pensamento é parte integrante da pessoa, então a fala também deve ser, porque é corpo do pensamento.

Portanto, a “Palavra de Deus deve ser verdadeiramente parte dele mesmo, e o próprio Deus, em realidade, vive em sua Palavra”. Neste aspecto e num sentido mais fundamental, Jesus Cristo é a Palavra, a essência da revelação de Deus, “e a exata expressão de seu Ser” (Hb 11.3). Em Jesus não havia a limitação natural presente nos profetas.

Desta forma, é conhecimento de Deus que devemos esperar encontrar numa profecia. Mesmo que a profecia trate de acontecimentos futuros, ela deve, em sua essência, revelar a pessoa de Deus. Acontecimentos ou fatos nela anunciados devem ser apenas a parte acessória. “Para que saibais que eu sou o Senhor” (Êx 10.2).

Esta era a razão pela qual Deus ordenava que se contasse as obras e os sinais feitos  por ele. Com certeza, a expressão “Eu sou” é uma das mais pronunciadas por Deus, denotando assim a sua vontade de que os homens o conheçam. Portanto, a questão central do que é ser profético é o quanto é revelado a respeito da pessoa de Deus, e não a exuberância dos fatos apresentados.

Portanto, é necessário que aquele que pretende ser profético conheça a Deus para não ser enganado. Como falar em nome de alguém que não se conhece? Esta presunção foi denunciada por Jesus, ao mostrar que no dia do juízo muitos lançarão mão do argumento de terem profetizado em nome do Senhor, sem, contudo, terem tido qualquer relacionamento que os fizesse conhecidos do Senhor (Mt 7.22-23). Estes falaram sem autorização, sem serem enviados. Usurparam e usaram o nome do Senhor indevidamente. O profeta deve ser íntimo do Senhor para se habilitar a conhecer seus segredos e freqüentar seu conselho (Am 3.7; Jr 23.18).

Deus, ao mesmo tempo, estimula o homem a conhecê-lo continuamente (Os 6.3, 6) e o proíbe de conhecer o futuro (Dt 29.29; Lv 20.27). Aqui encontramos uma excelente base para nosso discernimento quanto à autenticidade profética, distinguindo-a de ações premonitórias de espalhafatoso misticismo. Muitos consultam a Bíblia, especialmente os livros de Daniel e Apocalipse, com a mesma atitude com que consultam horóscopo ou verificam as profecias de Nostradamus. É evidente que o interesse de tal pessoa está ligado à especulação quanto ao futuro e não em conhecer a Deus e, por isso, mesmo lendo a Bíblia, está se enveredando em pecado.

A ação do profeta é um testemunho imediato de Deus. Por isso, sua expressão não se restringia apenas às palavras. Envolvia também seu comportamento e seu estilo de vida. Parece ser razoável imaginar que o verdadeiro motivo pelo qual Moisés não pôde entrar na terra prometida está relacionado com sua falta de testemunho profético de Deus, no episódio da água jorrada da rocha. Nessa ocasião, Deus havia orientado Moisés a falar com a rocha. Isto demonstraria um Deus amoroso e compassivo ao contrário da atitude do povo, e não formaria um padrão. No entanto, Moisés, ao bater na rocha, revelou um Deus irado e pronto a executar o juízo, como da vez anterior, prejudicando sua revelação a Israel (Êx 17.1-7; Nm 20.1-13). Isso sem considerar que a rocha é uma figura de Jesus que, após ter sido ferido na cruz injustamente por nossas transgressões, não precisa nem pode ser ferido segunda vez (Hb 6.6).

Se levássemos em conta que, por um ato profético equivocado, Moisés deixou de entrar na terra prometida, anunciaríamos como profético somente aquilo que temos absoluta certeza de assim ser. Diante disso, é recomendável repensar se vale a pena correr tal risco ao fazer uso da expressão “profético” nos títulos de eventos, apenas para atrair mais pessoas.

No ambiente profético, pode ocorrer de um mensageiro autêntico se equivocar e entregar uma mensagem falsa e, ainda, um mensageiro falso portar uma mensagem autêntica. O mais comum, porém, é que haja uma interação entre o mensageiro e a mensagem quanto à autenticidade ou falsidade. Como nos casos dos magos de Faraó diante de Moisés, a intenção do falso é de se passar por verdadeiro ou de desqualificar a verdade, colocando-a no mesmo nível da mentira.

Trigo e joio estão plantados no mesmo campo, se parecem, mas são distintos quanto à origem e finalidade. Como foi comum a presença de falsos profetas para falsear a comunicação de Deus com o seu povo, com muito mais intensidade isso ocorrerá nos últimos dias, chegando ao limite de enganar até os próprios escolhidos, se possível fosse. O que, por certo, poderá livrar-nos dos falsos profetas e das suas profecias não são os fatos preanunciados nem os sinais e maravilhas realizados, mas, sim, o conhecimento de Deus.

Pedro Arruda reside em Barueri – SP e é um dos coordenadores de uma comunhão de grupos espalhados por várias cidades e estados no Brasil.

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Na Escola da Experiência
Maurice Smith

Um dia eu falava com uma congregação nos arredores de Bristol, na Inglaterra. Essas pessoas estavam usando as formas exteriores do cristianismo sem qualquer mover profundo da graça de Deus nas suas vidas. Podia-se sentir a frieza. Falei-lhes sobre a hipocrisia dos fariseus e comparei os corações do povo de Bristol aos religiosos vazios do tempo de Jesus. Sem dúvida, a minha percepção da situação fora bem acertada, mas como o Senhor me censurou mais tarde por causa da minha atitude cruel e desapiedada (um elemento de farisaísmo da minha parte)!
“Nunca mais fale ao meu povo desse jeito”, ele disse.

“Mas, Senhor”, protestei, “tu falaste palavras severas aos hipócritas nos teus dias.”

“Sim, filho, mas você ainda não captou as vibrações do meu coração em amor e ansiedade, e esta falta se reflete no seu tom de voz.”

Deste dia para cá, pedi ao Senhor que não só me mostrasse o que ele estava dizendo, mas também como o estava dizendo. Suponho, outra vez, que o povo do mundo não erra muito quando diz: “Não é o que você faz, mas como você faz!” O Senhor está preparando aqueles que podem falar, para que sejam um eco vivo da sua voz.

Foi numa tarde de verão, quando estávamos com um grupo sentados à margem refrescante de um lago, num parque de Ilford. Foi bom estar ao ar livre; queríamos nos deleitar juntos no Senhor e assim sentamos, conversamos e cantamos nossos cânticos. Não nos sentíamos muito preparados para evangelizar, mas estávamos com suficiente coragem para cantar ao Senhor, sem dirigir olhares aos que passavam por nós. Enquanto alguns dedilhavam suavemente os violões, uníamos as nossas vidas em adoração.

Foi então que observamos um bom número de estranhos parados para escutar. Alguns moços de aparência bem moderna vieram e sentaram-se entre nós, absorvendo o ambiente tranqüilo. Era realmente como se o Senhor estivesse entre nós aquela tarde; nada de sobrenatural ou poderoso, mas simplesmente a boa sensação de estar na sua presença.

De repente o ambiente foi abalado por um visitante que se levantou para pregar a sua idéia do evangelho. Aproveitando-se da plataforma espiritual que o Espírito Santo havia preparado, ele lançou uma mensagem difamadora, causando um grande contraste à paz que reinava entre nós.

“Vocês abandonaram o Senhor Jesus Cristo… Vocês fizeram isso e aquilo… “

Foi muito áspero e crítico. Umas duas pessoas do nosso grupo se adiantaram ligeira e silenciosamente, mas John Noble chegou primeiro e, colocando o seu braço em volta dos ombros desse homem grande, pediu que se calasse. Em seguida, virou-se e, dirigindo-se ao povo ali reunido, com os olhos cheios de lágrimas, pediu perdão com sinceridade.

“Não é verdade”, ele disse. “Vocês não o rejeitaram. Nós é que nunca o manifestamos a vocês. A culpa é nossa. Temos falado muito, porém demonstrado pouco.”

O céu se fez presente naquele instante. Um sujeito enorme que estava à minha frente, virou para falar com seu colega. Observei que ele tinha uma massa de cabelo que ficava toda de pé, e que usava óculos de lentes azuis, bem grandes. “Aquele cara é genuíno”, ouvi-o dizer com convicção.

Debaixo de todos aqueles acessórios, seu coração fora atingido. A pouca distancia, um jovem viciado em drogas estava chorando. Foi uma ilustração eloqüente para mim. Não é tanto o que você faz, mas a maneira como faz!

Oh, que saísse uma voz profética da igreja, que alcançasse os corações daqueles que se encontram confusos por causa de todo o fundamentalismo formal e o modernismo divagante dos nossos dias! Ela já está surgindo, esteja certo disto. Os homens de Deus estão na escola da experiência.

Extraído do livro O Ministério do Profeta, Worship Produções, atualmente esgotado.

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