Sem medo de entrar nos laboratórios

Data de publicação: 20/02/2018
Este artigo pertence a: Edição 79

O teólogo Guilherme de Carvalho fala sobre como jovens cristãos podem ser cientistas sem abandonar a fé

Por Carolina Sotero Bazzo

Guilherme de Carvalho sonhava um dia em ser cientista e quase fez mestrado em Física. Mas acabou escolhendo o caminho da fé e encontrando uma posição que unisse suas duas paixões: ciência e espiritualidade.  Ele é mestre em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo e em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Também é pastor da Igreja Esperança em Belo Horizonte, além de diretor do L’Abri Fellowship Brasil, um centro de estudos voltado para apologética e reflexão da cosmovisão cristã.

Mas, além de pastorear sua comunidade local, Guilherme tem-se dedicado aos estudos sobre política, arte, ciência e transformação social e pastoreado intelectualmente jovens de diversas partes do Brasil por meio de suas palestras, artigos, vídeos e seminários. Ele é coautor dos livros Cosmovisão Cristã e Transformação e Fé Cristã e Cultura Contemporânea, e foi o tradutor de O Teste da Fé, de Ruth Bancewicz – todos publicados pela Editora Ultimato.

Em 2013, quando a edição brasileira do livro foi lançada, Carvalho e Bancewicz empreenderam uma pequena turnê de divulgação, na qual aproveitaram para lançar o Teste da Fé Brasil, uma organização dedicada à discussão da relação ciência e fé. A rede chegou causando polêmica ao trazer à luz a existência de cristãos evolucionistas. Na entrevista a seguir, Guilherme Carvalho esclarece a controvérsia e aconselha jovens cristãos que desejam ingressar no campo científico.

IMPACTO – A ciência, no Brasil, ainda é uma área em que não vemos muitos cristãos atuando. Por quê?
Guilherme de Carvalho – Nós não temos nenhuma tradição no Brasil de associar a vocação cristã com a vocação profissional. Como o cristianismo pregado é somente o cristianismo da experiência religiosa, da “experiência com Deus”, os jovens não se preocupam em encontrar um ponto de contato entre a vocação científica e a fé. Consequentemente, também não se organizam em torno desse propósito. No Brasil, há cristãos na ciência, mas estão todos espalhados. Precisamos nos articular. O fato de não existir uma expressão pública dos cristãos na ciência tira do jovem vocacionado para essa área um estímulo importante. É como se nesse campo, o Brasil ainda estivesse na infância. E os jovens cientistas cristãos ainda estão desamparados. Outra coisa que acontece é que muitos são evangélicos, mas têm vergonha de associar sua atividade com a identidade evangélica, por ela estar enxovalhada.

Que conselhos práticos você daria a um jovem que deseja ingressar nesse meio?
Em primeiro lugar, ele não pode tentar fazer isso sozinho. Não deve tentar separar a vida comunitária de sua atividade científica. Algo do tipo: “eu vivo minha vida comunitária na igreja, mas como cientista sou uma pessoa sozinha”. Não se pode trabalhar sozinho; é preciso procurar ministérios estudantis, pequenos grupos cristãos no departamento da universidade, juntar-se a outros cristãos cientistas para orar, etc. Em segundo lugar, é necessário ler. Se a compreensão científica de uma pessoa cresce, mas sua compreensão da fé cristã e da ligação da fé cristã com a ciência permanece na infância, certamente uma hora surgirá uma crise – essa pessoa vai achar o cristianismo infantil. A seriedade que você tem na sua investigação científica, você precisa ter na sua compreensão do cristianismo (e da relação entre cristianismo e ciência). Você lê livros pesados sobre pesquisa médica? Então, precisa ler um bom livro de história da ciência por um historiador cristão, que tenha um nível similar, para o seu raciocínio ser equilibrado. Na verdade, isso serve para qualquer área de atuação. E mais um conselho valioso: fique atento ao que vem sendo publicado no mundo. Essa é uma discussão profunda demais para ficar restrita ao pouco que é produzido aqui no Brasil. O diálogo entre fé e ciência é algo global; portanto, é preciso ler em inglês.

Existe uma bibliografia que você indique nesta área?
Além do material disponível nos sites do Instituto Faraday e do Instituto Kuyper para Ciência e Religião – este de uma linha reformada que eu indico mais –, tem também o Biologos, que embora seja uma linha mais aberta, tem muita coisa boa. Eu recomendaria, para começar, esses sites. A partir daí, você vai poder procurar outros artigos e canais, no YouTube, por exemplo, com vídeos e vários recursos. Outra indicação seria de livros introdutórios que já temos em português, como por exemplo: Fundamentos para o Diálogo entre Ciência e Religião, de Alister McGrath (Editora Loyola), Quando a Ciência Encontra a Religião, de Ian G. Barbour (Editora Cultrix) e A Religião e o Desenvolvimento da Ciência Moderna de H. Hooykaas (Editora UNB).

No livro O Teste da Fé, alguns cientistas relatam que ter conhecido outros cientistas e professores cristãos cooperou para a sua conversão e, algumas vezes, foi determinante para não perder a fé. Como você avalia isso?
É algo extremamente importante. Não sei se você percebeu, mas, na vida de vários cientistas [relatadas no livro], o pulo do gato, em termos de entender que poderiam ser cientistas, usar a razão e ainda ser cristãos, foi a leitura de C. S. Lewis. É muito curioso isso, porque C. S. Lewis já morreu, mas deixou um dom espiritual que afeta as pessoas até hoje. Temos de perceber o que Deus vem fazendo na história ou o que ele já começou a fazer em determinada associação ou com alguém que já tenha um depósito de riquezas, e nos conectar a essa fonte para sermos alimentados. A graça de Deus é multiforme, e é preciso estar atento para ver se não tem uma graça na vida de alguém que você só poderá receber por meio dele.

No documentário O Teste da Fé, o enfoque está na maneira de abordar o livro do Gênesis. Parece que o jeito de interpretar esse livro determina a possibilidade de pensar em fé e ciência como amigas ou inimigas. Mas até onde posso entender que Gênesis é apenas poético? Não é algo perigoso para se fazer em relação a qualquer parte das Escrituras?
Eu acho muito simplista dizer que o texto é “poético” e pronto. Para muitos cientistas, talvez isso resolva tudo, mas não para mim. Em Gênesis, nós temos uma narrativa que usa recursos poéticos. Os estilos ali se misturam. Podemos ter uma narrativa contada de forma imagética, mas, ainda assim, continua sendo uma narrativa. A narração poética está governando como o material é apresentado. Mas ainda assim está-se contando uma história real! Em minha opinião, houve Adão e Eva sim. Houve um paraíso, houve uma queda histórica; entretanto, a linguagem é poética. Eu entendo quando os cientistas falam de interpretar Gênesis 1 como poesia, e concordo. É perceptível que a narrativa de Gênesis 1 a 3 não é a mesma dos capítulos seguintes. Essa primeira parte é nitidamente poética e, há muito tempo, mesmo antes da ciência moderna, teólogos já se perguntavam: “isso aqui é poesia ou não?”. O fato de Gênesis poder ser interpretado como poesia nos dá abertura para a ciência. As pessoas ficam com medo de que, dali a pouco, alguém vá dizer que a ressurreição de Jesus também é poesia… Mas não, os textos dos evangelhos não pedem esse tipo de leitura. Eles não têm esses traços nem têm paralelos com a mitologia mesopotâmica para que você possa dizer que imagens míticas estão sendo usadas para falar da visão de mundo. Isso só acontece em Gênesis, do capítulo 1 a 3. Não vejo o porquê desse medo, de desmanchar toda a Bíblia por causa de uma interpretação poética do Gênesis. A própria Bíblia não vai deixar fazer isso, pois não é uniforme estilisticamente. Cada texto pede a sua leitura.

Dá para perceber que, embora sua posição seja a favor do evolucionismo, você não concorda totalmente com todos os cientistas cristãos evolucionistas.
Sim. John Polkinghorne, por exemplo, é um cientista evolucionista gigante. Ele é um cristão normal que acredita num Deus pessoal, que responde orações, que realiza milagres, que ressuscitou Jesus dos mortos e tudo mais. Mas não é um crente totalmente ortodoxo nos termos evangelicais que esperamos. Ele não vai sustentar, por exemplo, a infalibilidade bíblica que, para mim, é muito importante. Mas, francamente, eu acho que o perigo do ateísmo moderno, da secularização, é grande demais para sairmos brigando com todo cristão que não pensa exatamente como nós. Não é que vamos relativizar. Devemos continuar defendendo nossas posições. Mas a ameaça secular anda tão pesada que não dá para se dividir dos cientistas cristãos que são evolucionistas e pensam diferente de nós.

OS PRIMEIROS CIENTISTAS ERAM CRISTÃOS
Cinco exemplos de grandes precursores da ciência moderna que conciliaram fé e razão

Roger Bacon (1214-1294), responsável por grandes descobertas nas áreas de óptica e mecânica, era monge franciscano e considerava a teologia como “a maior das ciências”.

Johannes Kepler (1571-1630), precursor na astronomia (formulou as três leis fundamentais da mecânica celeste), era luterano e chegou a dizer que o espaço e os corpos celestiais de alguma forma representavam a trindade.

Blaise Pascal (1623-1662), além de físico, filósofo e matemático, também foi um grande teólogo. Suas obras chegaram a influenciar os irmãos Wesley, na Inglaterra.

Robert Boyle (1627-1691), considerado pai da química moderna, foi um grande defensor do cristianismo em sua época. Escreveu O Cristão Virtuoso, uma obra teológica na qual considera um chamado e dever celestial o estudo da natureza.

Stephen Hales (1677-1761) era inventor, químico e grande fisiologista. Foi pioneiro da fisiologia experimental e acreditava que Deus era o arquiteto divino de toda a grandiosidade da natureza que estudava.

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