Rocha de Gelatina

Data de publicação: 19/09/2011
Categorias da Biblioteca:
Edição 34 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 34

Por Joel A. Freeman

Gelatina. Um amigo meu a chama de “pudim nervoso”. No estado líquido, ela pode ser derramada numa forma. Quando se torna firme, está na hora de servir. Se tocarmos no prato ou se a mesa balançar, ela sacode e treme, mantendo porém sua forma original.

Somos todos como a gelatina. De um lado, somos seres frágeis – sempre a um fio de cabelo da insanidade. Enquanto do outro, somos um bando obstinado e rebelde.

Nós nos esforçamos a cada dia para entrar no molde do mundo. A confiança parece transpirar de cada um de nossos poros. Tentamos projetar uma imagem do tipo
estou-por-dentro-de-tudo.

Nosso mundo interior é outra história. Ele se caracteriza por suposições, insegurança, emoções instáveis. Somos meninos e meninas amedrontados numa sociedade “adulta” e impiedosa, tentando mover-nos pela vida sem receber um número excessivo de golpes psíquicos contra a nossa auto-estima.

Todos nós experimentamos esta dicotomia em vários graus de intensidade. Empenhamo-nos em manter o equilíbrio – e como ele é precário. Um ataque cardíaco, um revés nos negócios ou qualquer outra crise pode mudar nossas prioridades e toda nossa perspectiva de vida instantaneamente.

Somos como a gelatina – tremendo e sacolejando através da existência. Quando confiamos em nosso talento, habilidade, conhecimento ou experiência, estamos procurando encrenca. Qualquer circunstância que atinja 9,3 na escala Richter pode enviar-nos tremendo e sacudindo, para a próxima década, em estado de puros destroços emocionais, escondidos por trás de máscaras de força e segurança. Precisamos de um sistema de apoio que vá além daquilo que podemos tocar, saborear, ver, ouvir ou cheirar.

Nosso Sistema de Apoio

Existe uma chave para o andar bem-sucedido do cristão que freqüentemente é esquecida: O temor do Senhor. Sem ele, passamos pela vida tolerando a autopiedade, a falta de integridade, a tendência para racionalizar e uma consciência perversa. Com ele, tornamo-nos tesouros especiais para Deus, vivemos com satisfação e evitamos inúmeros problemas.

Antes de continuar, vamos esclarecer algo sobre temer ao Senhor. Não estou falando de um medo que produz tormento e servidão. Esse temor não tem efeito duradouro. Ele pode oferecer um ímpeto momentâneo necessário para que o indivíduo ande corretamente, fale corretamente, vista-se corretamente e cheire corretamente durante algum tempo, mas não consegue reprimir a depravação humana de forma duradoura.

O temor de que falo é algo bem diferente. Considere este exemplo: Tenho medo dos fios elétricos. Não fico acordado à noite, porém, com o pânico de Sexta-feira 13, parte VII, aterrorizado pelo pensamento do terrível potencial da eletricidade para mutilar, matar e destruir. Em lugar disso, sempre que acendo a luz, ligo o rádio ou tomo um banho quente, aproveito o fornecimento da eletricidade que foi transportada para a minha casa através das linhas de força. Tenho grande respeito por elas: não estou prestes a sair agora, colocar uma escada de alumínio contra as linhas, subir e golpeá-las repetidamente com um machado. Absolutamente não!

Você está entendendo? O temor do Senhor é um temor sem tormento; ao mesmo tempo, todavia, é reverente. Confiamos no Senhor e tiramos proveito de sua provisão momento a momento.

Falta, porém, a essa definição um ingrediente essencial. Ela não inclui o poder e a importância que estão por trás do temor do Senhor.

Esta é uma definição mais completa do temor do Senhor: a percepção constante de que estou na presença de um Deus santo, justo e todo-poderoso, e que todo pensamento, palavra e ato está sendo observado e julgado por ele.

Pense um pouco. Se você vivesse a realidade diária de que Deus observa tudo o que faz, pensa e diz, e que algum dia estará diante dele, de que forma isso afetaria o seu estilo de vida atual? Como isso atingiria o conteúdo das suas conversas? Que atitudes seriam corrigidas? E justamente aqui que a teoria será testada.

As Muitas Faces do Medo

Como seres finitos, vamos sacudir e tremer de qualquer modo; portanto, podemos também tremer na presença dele, reconhecendo nossa fragilidade, removendo nossas máscaras e recebendo sua força. Essa é a única maneira razoável de viver!

Existem algumas coisas que podemos fazer para aprender a temer ao Senhor. Uma delas é discernir o propósito das palavras usadas nos idiomas originais para descrever os vários aspectos do medo e descobrir como se aplicam ao temor do Senhor.

Tremor

Um exemplo vívido de tremor no Antigo Testamento ocorreu quando o poderoso rei Belsazar viu uma enorme mão aparecer, acabando com a sua festa e escrevendo palavras ameaçadoras na parede. “Então se mudou o semblante do rei, e os seus pensamentos o turbaram; as juntas dos seus lombos se relaxaram, e os seus joelhos batiam um no outro… ” (Dn 5.6-9).

Outra boa ilustração de tremor é a descrição de como os guardas romanos reagiram ao anjo que afastou a grande pedra da entrada da sepultura de Jesus. “O seu aspecto era como um relâmpago, e a sua veste alva como a neve. E os guardas tremeram espavoridos, e ficaram como se estivessem mortos” (Mt 28.3,4).

Espanto

O hebraico Shâmêm significa “espantar, estupefazer, destruir, entorpecer até um estado de confusão mental”. Quando confrontado por um evento espantoso, o indivíduo estupefato fica incapaz de falar.

Paulo encontrou uma “pequena distração” ao viajar para Damasco, a fim de perseguir os cristãos. Uma luz do céu brilhou repentinamente ao seu redor e ele caiu por terra, ficando como morto. Paulo mal pôde pronunciar as palavras: “Quem és tu, Senhor?” Seus companheiros de viagem ficaram atônitos, enquanto observavam a cena.

O profeta Zacarias disse: “Que todos se calem na presença do Deus Eterno, pois ele vem do seu Santo lugar para morar com o seu povo” (Zc 2.13, BLH).

Pavor

O pavor (pâchad, no original hebraico) é experimentado quando a pessoa tem um sentimento de extrema inquietação enquanto espera que ocorra sofrimento, perda ou qualquer outro tipo de dano pessoal. O pavor mantém o nível de adrenalina alto por um período mais longo do que o susto.

O profeta Isaías foi advertido por Deus no início do seu ministério: “Não fiquem assustados nem tenham medo daquilo de que o povo tem medo. Pelo contrário, fiquem assustados por minha causa e tenham medo de mim, pois eu, o Eterno, o Todo-poderoso, sou santo” (Is 8.12,13, BLH).

Deus e sua demonstração de autoridade causaram tanto pavor em Isaías que ele jamais desejou experimentar o juízo de Deus, provocado pelo pecado pessoal. Todavia, se estamos andando em obediência, nossa perspectiva de vida é otimista e nunca temos de apavorar-nos com o que ele poderia nos fazer. Que liberdade!

Desalento

O termo hebraico châthath descreve a pessoa que fica “desnorteada (mentalmente) pela confusão e pelo medo”. A pessoa desalentada perde a confiança e a coragem a ponto de desmaiar.

Daniel jejuou por um longo período de tempo. Ele não comera comidas gostosas nem penteara o cabelo. No 21 ° dia, ele não passava de um profeta com aparência selvagem andando pelas margens do rio Tigre. De repente, levantou os olhos e viu alguém cujo rosto era tão brilhante quanto um relâmpago. Os homens em sua companhia não viram nada, mas ficaram aterrorizados com o poder que sentiram e fugiram para se esconder. Ao ficar sozinho, Daniel desmaiou. Ele caiu no chão – inconsciente. A seguir, sentiu uma mão forte levantá-lo, colocando-o sobre os joelhos e as mãos.

A epidemia de AIDS. A ameaça de guerra nuclear. O aumento de viciados em drogas e em bebida. O assassinato de milhares de crianças ainda por nascer com a aprovação do governo. Junte isso tudo com a condição aparentemente anêmica da igreja e a hipocrisia manifesta de pregadores conhecidos. Fica então fácil sentir-se envergonhado, abatido e desalentado.

Anime-se. Deus disse a Josué, ao ver suas angústias interiores e preocupações exteriores: “Sê forte e corajoso; não temas” (Js 1.9). Esta mesma promessa atravessa o tempo e o espaço para oferecer uma provisão sob medida para nós no século XXI.

Terror

O terror é a forma mais drástica de medo, anulando as capacidades físicas e mentais da pessoa.

Você pode imaginar como o apóstolo João se sentiu ao ver Jesus glorificado? Cabelos brancos. Olhos como chamas de fogo. Uma espada de dois gumes saindo da boca. Rosto brilhante como o sol. Vestes incandescentes, com a glória irradiando de todos os ângulos. A voz como a de uma cachoeira bramindo. A reação de João? Terror absoluto.

Deus deve usar algum tipo de transformador redutor em suas relações com os seres humanos. Como seres criados, só podemos manusear “alguns Volts” de Deus de cada vez.

Terror ou Temor?

Como o terror se relaciona ao temor do Senhor? Se pudéssemos ver o juízo de Deus sobre o pecado, provocaria terror em nossos corações pensar em nosso envolvimento pessoal com o pecado. Não há dúvidas de que Deus fala sério. Não se pode brincar com ele. E os que zombam dos seus princípios experimentarão o terror do seu julgamento. Isso deve
motivar-nos tanto à pureza moral quanto ao evangelismo.

O apóstolo Paulo foi sucinto em sua explicação do que acontecerá diante do trono do juízo de Cristo. Ele afirmou que ninguém vai escapar. A seguir disse: “E assim, conhecendo o temor do Senhor, persuadimos aos homens…” (2 Co 5.1 I).

Existe um inimigo do temor do Senhor. Ele é conhecido por diferentes nomes. Negligência. Apatia.

Como é necessário temor do Senhor em nossos corações! Nossos padrões de moral, retidão e sucesso mudam quando entramos na sua presença e começamos a vê-lo como ele realmente é. E então e só então que podemos ver a nós mesmos como realmente somos e nossa posição no esquema das coisas.

Se a nossa auto-imagem, a nossa consciência ou o nosso conceito de integridade baseiam-se em qualquer outra coisa além de quem Deus é, teremos problemas. Numa base individual, devemos continuar sendo abalados até o fundo do coração com a revelação de que Deus é santo. Não se zomba dele. Seus padrões não podem ser rebaixados. Antes de nos tornarmos espiritualmente amadurecidos, precisamos ser desnudados por ele para ver a nossa total depravação.

As Escrituras transmitem-nos más notícias: somos corruptos, perversos e enganadores. Não ficamos, porém, à mercê da depressão ou da desesperança, porque em seguida ficamos sabendo das boas novas, os “Mas Deus…” da Bíblia.

Se ficássemos apenas com as más notícias, todos teríamos de enfrentar várias opções:
1. Cometer suicídio; 2. Formar novas filosofias (isto é, Deus não existe; portanto, quem se importa? Comamos, bebamos e nos alegremos); 3. Tentar corajosamente viver de acordo com as leis de Deus sem a provisão e o poder divinos.

O fator “Mas Deus…” ataca novamente! Suas boas novas nos dão outra oportunidade: 4. Receber a sua misericórdia e viver para ele. Provações, tribulações e desilusão irão mesmo assim confrontar-nos a cada passo: “Mas, Deus…”

Poderíamos dar a isso o nome de “Efeito de chave de catraca”. A chave da catraca precisa ser torcida para trás antes de poder aplicar pressão suficiente para pressionar ou soltar o pino. O que parece ser um movimento na direção errada é, na verdade, um movimento para a frente ao considerar o processo como um todo.

O mesmo acontece com o tratamento que Deus nos dá. Devemos sofrer o impacto do temor de Deus que nos “desfaz” (um movimento aparentemente na direção errada) antes de podermos cumprir o propósito específico para o qual cada um de nós foi comissionado (um movimento definido na direção certa). Isto ocorre a cada novo nível de crescimento.

Extraído de “Como Viver com sua Consciência sem Enlouquecer”, por Joel A. Freeman (Editora Candeia, esgotado).

————————————————————————————————————————————————————————-

TIPOS DE MEDO 

1. O instinto de autopreservação.

Deus nos criou com um instinto natural de sobrevivência, uma atitude intrínseca para fugir do perigo e, a todo custo, evitar acidentes para autoproteção ou para proteger a quem amamos. Essa forma sábia de medo nos torna responsáveis em relação ao nosso bem-estar e ao daqueles que estão ao nosso redor, providencia motivação para ensinarmos nosso filho a olhar bem, antes de atravessar a rua, a dirigir com cautela a bicicleta ou ficar atento contra qualquer tipo de perigo que possamos enfrentar.

2. O temor do Senhor.

E um sentimento e uma atitude de reverência e deslumbramento perante o poder, majestade e grandeza do Deus criador, do Deus que se entregou por nós.

3. 0 medo que escraviza

Este é um tipo negativo de medo que anula expressões de amor, corta canais de comunicação, aprisiona vítimas de abuso, paralisa o portador de fobias. Controla, manipula e mina toda segurança e confiança de uma pessoa.

Diferença entre Medo e Ansiedade

Medo – é uma emoção que alerta para uma possibilidade de perigo ou ameaça. Seja esta possibilidade real ou imaginária, a sensação provocada pode nos aterrorizar.

Ansiedade – é um sentimento a longo prazo. E a percepção de uma ameaça que não desaparece e que mantém corpo e alma a um nível de alerta menor do que no caso do medo. Quando não é controlada, pode nos dominar, causando forte estresse, e até convergir para um colapso nervoso.

Extraído do mais recente lançamento do autor Jaime Kemp, “A Força Que Vence o Medo”, da Editora Textus.

————————————————————————————————————————————————————————-

Por Que Devemos Temer a Quem nos Ama?
Por Jaime Kemp

Através de Jesus Cristo somos chamados filhos de Deus. Fomos criados para amá-lo e não para temê-lo. Não é verdade que o perfeito amor lança fora o medo (I Jo 4.18)? Então, como entender as numerosas ordens bíblicas de temer ao Senhor?

O conceito do temor a Deus pode parecer confuso, porque nossa tendência é pensar que o medo é sempre uma emoção negativa e, portanto, deve ser evitado. Contrariando esse pensamento, a Bíblia ensina que o temor ao Senhor é puro (SI 19.9); ele providencia fibra para a nossa dieta espiritual e nos fortalece contra as fobias que paralisam, tais como: medo de doenças, do desemprego, da pobreza, da solidão, do envelhecimento, de guerras, de relacionamentos rompidos, do fracasso, da morte e até mesmo medo do próprio medo. Apenas o temor ao Senhor pode nos libertar de todos esses temores.

As Escrituras utilizam a palavra “temor” em dois sentidos diferentes. Às vezes, significa “terror” (2 Co 5.11) – que é o medo de um pecado não perdoado, que rejeita completamente a Deus (Gn 3.10). Somente a graça pode nos libertar deste tipo de medo.

Vemos o outro sentido quando Pedro nos exorta a temer a Deus; aí, o significado é outro; ele nos encoraja a experimentar o que está escrito no Salmo 130.4: “Mos contigo está o perdão para que sejas temido”. Esse temor autêntico, que pode ser comparado a um profundo respeito, é substituído pelo terror por quem não conhece e não recebe o perdão (Êx 20.20).

O verdadeiro temor a Deus é realmente sinônimo de um coração cheio de adoração e respeito por tudo que ele é e tem feito por nós. O temor a Deus nos dá:

1. consciência de estarmos diante de uma presença majestosa e poderosa;
2. euforia pelo privilégio de pertencer ao Senhor;
3. admiração e respeito por ele;
4. senso de que a opinião do Senhor a meu respeito é o que realmente importa.

Para alguém que teme a Deus, sua aprovação significa tudo e a perda dessa aprovação desencadeia grande dor: Temer a Deus é ter um coração sensível à Sua bondade e graça. Portanto, amar a Deus e teme-Lo não são sentimentos incompatíveis. Pensar em incompatibilidade é não compreender o caráter do Deus que conhecemos. É ignorar os atributos divinos. As Escrituras retratam o amor e o temor ao Senhor como emoções que caminham juntas, que não podem ser dicotomizadas.

O primeiro princípio que pode nos ajudar a compreender a diferença entre terror e temor ao Senhor é lembrar que nosso Senhor Jesus Cristo, o próprio Filho de Deus, também temeu ao Senhor em sua vida terrena. O profeta Isaías escreveu sobre a vinda do Salvador com estas palavras: “O Espírito do Senhor repousará sobre ele… o Espírito que dá conhecimento e temor do Senhor” (Is 11.2).

O desejo supremo da vida de Jesus era saber que seu Pai o olhava e sorria com aprovação. Esta foi sempre sua maior alegria – e sua maior tristeza seria ver o rosto do Senhor entristecido e o seu coração decepcionado. Sua grande motivação, para cada um de seus atos e atitudes, era saber que agradava a Deus. O segredo do crescimento no temor ao Senhor é saber quem ele é e aprender a distinguir quem eu sou diante dele. Provavelmente, a maioria dos fracassos na vida cristã tem origem no esquecimento de quem é Deus e de quem somos nós.

Por que o temor a Deus não é mais considerado um princípio central e essencial para o equilíbrio da vida cristã? Porque nós reduzimos o Senhor a um ser pequeno e supervalorizamos o homem. O homem embriagou- se com a ilusão de ser o centro do Universo. Não é de se admirar que o deslumbramento diante do poder, majestade e sabedoria de Deus tenha desaparecido entre os cristãos.

Entender e aceitar o imenso amor de Deus por nós não é diminuir a sensação da sua grandeza, do seu poder ou da sua santidade. Pelo contrário, é justamente a incalculável capacidade divina de nos amar e perdoar no nosso estado de miséria, indiferença e impiedade que deve transbordar nosso coração de reverência, temor, adoração e devoção. Nas palavras do profeta Miquéias: “Quem, ó Deus, é semelhante a ti, que perdoas a iniqüidade, e te esqueces da transgressão do restante da tua herança?” (Mq 7.18).

Extraído do mais recente lançamento do autor Jaime Kemp, “A Força que Vence o Medo”, da Editora Textus.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *