Série “Comunhão Nossa de Cada Dia”-Parte VIII-Reconhecendo Cristo no Outro

Data de publicação: 29/04/2011
Categorias da Biblioteca:
Edição 61 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 61

Por Pedro Arruda

A comunhão é o reconhecimento da presença viva de Jesus Cristo na Igreja que começa quando se aprende a identificar Cristo nos outros irmãos. A prática do evangelho baseia-se essencialmente em mutualidade, o que nos configura como corpo e, sobretudo, corpo de Cristo, pois estamos ligados a uma única cabeça que é ele. Jamais o mundo verá Cristo na Igreja enquanto os cristãos não forem capazes de reconhecê-lo uns nos outros. É a comunhão que dava, aos primeiros cristãos, a convicção de que a presença de Cristo entre eles não era menor do que fora antes de sua ascensão.

O valor que Deus dá ao homem

Tal como pais que preparam a casa para a chegada de um filho e providenciam todo o enxoval com grande expectativa, assim também fez Deus. Ele só criou o homem depois de ter finalizado todas as outras etapas da criação, o que nos leva a concluir que todo o universo, incluindo as criaturas angélicas, foi designado por Deus como o enxoval para a chegada do homem.

Como se isso ainda não bastasse, Deus enviou seu próprio Filho para morrer na cruz a fim de manter o homem em sua companhia. A obra de Jesus não teve uma finalidade em si mesma, mas serviu de meio para que Deus pudesse habitar no homem redimido. Se, do ponto de vista da criação, o homem vale mais do que todo o universo, do ponto de vista da redenção, o valor máximo é o sangue do Filho de Deus. É assim que o Senhor valoriza o homem, principal objeto de seu amor e lugar de altíssimo preço preferido para sua habitação.

Sendo o homem tão precioso, feito um pouco menor do que Deus[1], como ousamos desprezá-lo tanto? A maneira mais contundente de ofender Deus é desprezar o que lhe é precioso. Quando desprezamos o homem, também menosprezamos o precioso sangue de Jesus (1 Pe 1.18,19). Não se trata de ufania humana, mas de uma condição divina: enquanto não enxergarmos o homem sob a ótica de Deus, pouca serventia teremos à sua obra, pois ela é voltada para o homem.

Os judeus nacionalistas e religiosos consideravam os publicanos e as prostitutas como pessoas execráveis, ao passo que Jesus as enxergava nos primeiros lugares na fila para entrar no Reino de Deus (Mt 21.31). Que contradição! Enquanto aqueles se pautavam no conhecimento do bem e do mal, Jesus se norteava pela vida, que é dom de Deus!

Justiça superior à da lei

Jesus ensinou que a lei estava a serviço da vida, dando como exemplo os soldados de Davi que, embora não fossem sacerdotes, puderam comer os pães da proposição por causa da urgência e importância da ocasião. Segundo o mesmo princípio, não havia infração à lei quando ele curava no sábado ou quando seus discípulos colhiam espigas de trigo no sábado (Mt 12.1-13). Afinal, o sábado fora criado para o homem e não deveria contribuir para a extinção da vida, mas para sua preservação. Provavelmente, ainda conservemos muito do mesmo conceito religioso que nos impede de ver o homem como Jesus queria que o víssemos.

Dentre os ensinamentos mais enfáticos de Jesus, estão o perdão e a misericórdia. Deus estabeleceu seu insuperável padrão de perdão aos homens por meio de um expresso “assim como” na oração do Pai Nosso e da parábola do servo incompassivo que, mesmo perdoado de uma grande dívida, anulou seu próprio perdão ao não perdoar uma ninharia de seu conservo. Talvez, Pedro se julgasse generoso ao propor uma medida de perdoar sete vezes a seu irmão, mas Jesus demonstrou que estava muito aquém quando replicou que deveria multiplicar esse número por setenta (Mt 6.12; 18.21-35)!

Jesus também alertou que, se a nossa justiça não excedesse em muito à dos escribas e fariseus (que jejuavam duas vezes por semana e davam o dízimo até do coentro e da hortelã além de esmolas e orações), não poderíamos entrar no reino dos céus (Mt 5.20). Não conseguiremos superar esses campeões de justiça procurando ser mais justos do que eles. Aliás, a própria Bíblia nos ensina que não se deve “ser demasiadamente justo” para não destruir a si mesmo (Ec 7.16). Se atentarmos para outros ensinamentos como “misericórdia quero e não sacrifício” (Os 6.6; Mt 9.13; 12.7) e os confrontarmos com a “injustiça” feita aos trabalhadores da primeira hora na parábola da vinha (Mt 20.1-16) e ao irmão mais velho na parábola do filho pródigo (Lc 15.11-32), veremos que o excedente ou transbordar da justiça não é uma dose maior da mesma justiça legal dos fariseus, mas, sim, a misericórdia. Esta é a que foi aplicada aos trabalhadores da última hora e ao filho pródigo e praticada por aquele que é conhecido como o “bom samaritano” (Lc 10.30-37). Portanto, Deus se importa muito mais com o perdão do que com a ofensa e mais com a misericórdia do que com a justiça; é essa mesma atitude que espera de nossa parte.

O próximo e o irmão

Há dois padrões estabelecidos nas Escrituras para nossas atitudes. O primeiro tem a nossa vontade como referência nas relações com o próximo ou com o mundo de maneira geral, ou seja, fazer ao outro aquilo que gostaríamos que se fizesse a nós, decorrente de amar ao próximo como a nós mesmos.

O segundo tem a vontade de Deus como referência nas relações com os irmãos e situa-se, portanto, no degrau mais elevado da dimensão da comunhão. Nesse caso, o padrão deixa de ser o meu amor e passa a ser o amor de Jesus, que se entregou por mim. Amando uns aos outros como Cristo nos amou a ponto de dar a própria vida como prova maior de amor (Mc 12.33; Jo 13.34; 1 Jo 3.16), entramos na cadeia da vontade divina, pois Jesus fez o que viu e ouviu do Pai, e nós devemos praticar o que vimos e ouvimos de Jesus. Afinal, recebemos o Espírito Santo para nos transmitir tudo o que tiver ouvido para, assim, participarmos do conselho de Deus e sermos guiados em toda verdade sem o perigo de errar como aconteceu com os profetas contemporâneos de Jeremias (Jo 8.26, 38, 40; 15.15; Jo 16.13, Jr 23.22).

Enquanto não agirmos em comunhão, o mundo não verá Jesus Cristo na Igreja e não poderá crer nele (Jo 17.21). Assim, precisamos mudar nosso padrão e atentar para a ordem de sermos “perfeitos como perfeito é vosso Pai que está nos céus” (Mc 5.48), perdoar como Deus nos perdoou, amar como Cristo nos amou, etc. Precisamos redirecionar nossa fé e crer que Jesus Cristo quer ser encontrado no outro, assim como o encontramos em sua palavra ou na oração. Mas, para isso, necessitamos de revelação.

Reconhecer Cristo no outro é fruto da revelação de Deus

A falta de revelação impede muitos de encontrarem Cristo na leitura da Bíblia ou na oração. Pelo mesmo motivo, a grande maioria não consegue encontrar Cristo no outro. Trata-se da mesma revelação que fez a opinião de Pedro distinguir-se das outras, que eram baseadas no conhecimento humano das Escrituras, quando respondeu a Jesus: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!” (Mt 16.16). Foi essa revelação também que possibilitou a Simeão (“revelara-lhe o Espírito Santo que não passaria pela morte antes de ver o Cristo do Senhor” – Lc 2.26) olhar para o menino Jesus e ver o que os sacerdotes que o circuncidaram não viram. Crer que Cristo está no outro é o primeiro passo para abrir-se à revelação, pois é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe… (no irmão)!

Encontrar Cristo no outro não depende do irmão, mas da revelação de Deus em nós (Mt 16.17). Nem mesmo em relação a Jesus houve unanimidade de maneira que todos vissem Cristo nele (Mt 13.54-58; Jo 6.41-44, 60-66); portanto, muito menos nós devemos ter essa pretensão. A mesma fé que temos para buscar Deus na Palavra e na oração é necessária para buscá-lo no irmão, sabendo que quem procura, acha! “Buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração…” (Jr 29.13). Precisamos ter um coração adequado para encontrar Cristo no irmão, sabendo que isso não depende exatamente dele. Quando não vejo Cristo no irmão, devo ter o mesmo desespero para me livrar das travas nos olhos que tenho quando não encontro revelação na Palavra e na oração. Essa deficiência jamais poderá ser atribuída ao irmão assim como não a atribuímos à Palavra ou à oração.

Jesus foi absolutamente coerente com sua simplicidade ao escolher homens desprovidos de grandes potencias naturais para acompanhá-lo. Embora não tendo a expectativa da perfeição de seus discípulos e apóstolos, Jesus confiou-se a eles. Igualmente, não podemos ter expectativa da perfeição dos irmãos para nos confiarmos a eles. A superação da desconfiança somente é possível à medida que aprendemos a ver Cristo neles. Quando isso ocorre, o referencial deixa de ser o irmão e passa a ser Cristo (2 Co 3.17) que nele está, com o resultado de que Cristo passa a crescer em quem o vê no outro. Isso traz mudança de atitudes e, por meio dessa mutualidade, poderemos chegar à plenitude da estatura do Filho de forma que o corpo de Cristo produza seu próprio aumento (Ef 4.13-16).

[1] Salmo 8.5 (algumas traduções usam equivocadamente “anjos” para traduzir “Elohim”).

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