Devocional: Quando nos Inclinaremos Diante de Outros Feixes?

Data de publicação: 07/08/2011
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Edição 48 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 48

Por Luiz Montanini

Nunca a liderança cristã falou tanto em unidade como pré-requisito para o surgimento da igreja gloriosa que pavimentará o caminho do retorno triunfal de Jesus a Terra. Paradoxalmente, boa parte desses profetas da unidade, mal termina o discurso, sai, cada um para o seu campo. O líder fala entusiasticamente em unidade em determinado café de pastores e corre para o gabinete para dar continuidade ao seu grande projeto pessoal, ou da matriz que dirige, ou da filial a que pertence, ou da comunidade que pastoreia.

Algumas razões podem ser apontadas para esse estranho agir. Uma delas, a que pretendo abordar aqui, não é única, tampouco exaustiva. Relaciona-se à confusão que no reino de Deus ainda se faz sobre função e posição (ou status). O medo de perder uma posição ainda leva alguns a rejeitar a função de terceiros – ou até a se insurgir contra ela –, sobretudo quando esses terceiros não fazem parte do rol de membros de sua denominação. Ou – e isto é ainda pior – porque são ministérios latentes e embrionários (como o dos apóstolos e profetas), que um dia, de acordo com os oráculos sagrados, serão levantados sobre a Terra, com autoridade efetiva, seguida por sinais e prodígios que os autentiquem.

Espero que o exemplo bíblico do que houve com o jovem José, filho de Jacó, ilustre ou clareie o que disse acima a respeito do medo e da confusão entre função e posição existentes na igreja.

Inda adolescente, José demonstrou ter visão de unidade e de reino, ao contrário de seus irmãos, os futuros pais das tribos de Israel, e do próprio Jacó, patriarca de renome eterno.

Nos seus dois sonhos, relatados no capítulo 37 de Gênesis, seus irmãos e o próprio pai misturaram preferências pessoais (que dizem respeito à posição) com espirituais (relacionadas à função) e não entenderam o propósito de Deus. A falta de visão os levou a erro de interpretação.

No primeiro sonho, José e os irmãos atavam feixes no campo (Gn 37.7), e os feixes dos irmãos rodeavam o de José e se inclinavam diante do dele.
O segundo sonho foi semelhante no significado, com a inclusão do pai e da mãe dos doze. Nesse (verso 9), o sol, a lua e onze estrelas se inclinavam perante ele. Pai e irmãos ficaram indignados com o jovem rapaz. Jacó, de fato, guardou aquilo no coração (verso 11), mas talvez só o tenha entendido quando seguiu ao Egito, quase três décadas depois.

Os irmãos não entenderam que José atava feixes no campo, assim como eles; que o feixe do jovem era igual aos seus; e que José era estrela, igualzinho a eles. A Bíblia não diz em nenhum momento que o feixe de José era mais viçoso ou que sua estrela brilhava mais ou era maior que as dos outros. Ele era apenas mais um feixe e uma estrela, como os irmãos. Iria liderar, sim, mas apenas por uma questão de função, não de posição. Era o homem-chave para aquele momento.

A seus irmãos estava sendo oferecida a oportunidade de se inclinarem diante da soberania de Deus e se alegrarem porque um feixe dentre eles havia sido levantado e os outros feixes iriam ajudá-lo, em equipe, a chegar ao objetivo comum de ver Deus glorificado em Israel.

Seus irmãos, entretanto, confundiram as coisas, talvez por terem achado que José recebia da parte de Deus a mesma predileção que tinha da parte de Jacó, seu pai. O próprio Jacó parece ter tido a mesma confusão. Ao lhes contar o sonho, o jovem José – talvez como Moisés um dia – esperava que seus irmãos entendessem a diferença entre função e posição. Ele seria apenas mais um feixe, que seria colocado futuramente em posição de destaque, é verdade, mas não deixaria de ser feixe, jamais. Permaneceria um feixe de trigo, alimento para tantos outros.

Ah, se os irmãos de José e mesmo seu pai tivessem compreendido que José ali era apenas um instrumento, e que na verdade todos (e isso significava toda a nação de Israel) estavam destinados a cumprir o papel do Grande Israel de Deus – certamente teriam se envolvido com o filho mais novo, reconhecendo nele unção e capacitação para a obra, inclinando-se diante dele sem qualquer tipo de problema e aceitando seu ministério. Teriam percebido que a questão ali não era de status ou de posição, mas de função apenas. A família agiria dessa forma porque tinha em vista algo maior, revelado em Gênesis 45.7 – “para vos preservar a vida por um grande livramento”. Seriam co-participantes daquela obra e não espectadores envergonhados, como se verificou na cena que transcorreu ali no palácio.

Oh Deus! Até quando insistiremos em cuidar de nosso próprio campo? Até quando insistiremos em condicionar a unidade à adesão de alguém ou de determinado grupo ao nosso modo de pensar, ao nosso projeto? Até quando ficaremos em nossos gabinetes ou salas de oração à espera de que nos procurem? Até quando seremos feixes de joio que não se dobram ao toque do Vento, como faz o trigo?

Ora, porque não sou mão, não sou do corpo? Porque não sou apóstolo, não sou do corpo? Porque não sou pastor, não sou do corpo?
Por que, afinal, essa resistência em inclinar meu feixe de trigo diante de outro feixe como o meu que, por decisão de Deus, ocupa hoje e eventualmente função maior que a minha? Por que não aceitar o apostolado, o serviço de outrem?

Quando começaremos a reconhecer o que Deus está fazendo alhures, e não exatamente da forma que pensamos ser a correta? Quando entraremos no trabalho do nosso irmão? Quando abriremos mão de querer outros feixes inclinados aos nossos pés? Quando nos disporemos a inclinar-nos diante do feixe alheio, do feixe de nosso irmão, que certamente não é maior, mais viçoso ou melhor que o nosso, mas que apenas foi levantado por Deus, em posição de autoridade, para um determinado momento e uma função específica? Quando nos inclinaremos diante de outras estrelas?

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Resposta Errada
Por Stephen Swihart

Há muito tempo, em minha primeira tentativa como escritor, produzi doze livretos sobre a fé cristã, que foram publicados seqüencialmente, um por mês.

Certa vez, levei uma pilha desses livretos a um médico cristão, na esperança de que se interessasse em comprar uma dúzia deles para deixá-los no balcão da recepção. Antes de falar com ele, tive que aguardar por algum tempo na sala de espera. Foi uma boa oportunidade para praticar minha apresentação comercial. Ensaiei minha fala até sentir que ele compraria alguns livros.

Finalmente, aquele médico apareceu e sentou-se à minha frente. “Estou pronto”, disse minha consciência confiante e iludida. O médico ouviu minha veemente apresentação.

“Tenho apenas uma pergunta para fazer-lhe”, disse ele. “Por que escreveu este material?”

Essa era fácil, pensei. Se essa fosse sua única preocupação, não haveria problema. Continuei contando-lhe a respeito do meu premente desejo de ver cristãos tornando-se maduros. Expliquei-lhe como meu material havia sido cuidadosamente planejado para ajudar os crentes a crescerem espiritualmente.

“Essa é a resposta errada”, disse ele sem rodeios ao final de minha defesa. “Não desejo nenhum de seus livretos!”

Fiquei chocado! Ao dizer que eu havia dado a resposta errada, senti como se uma corrente elétrica tivesse percorrido todo meu corpo. “Como poderia minha resposta não estar correta?”, pensei. Com ousada incredulidade, perguntei àquele médico o que ele queria dizer com aquilo e qual resposta deveria ter-lhe dado.

O que ele respondeu, cerca de trinta anos atrás, marcou-me como uma cicatriz adquirida em uma batalha.

“A única coisa que desejava ouvir de você era que Deus lhe estava conduzindo a escrever essa literatura”, disse o médico. “O que você deseja fazer, mesmo que para cristãos, não me interessa. Se, porém, você tivesse respondido que foi Deus quem plantou esse projeto em seu coração, eu teria comprado todos os seus livros.”

Imediatamente, comecei a explicar que essa era uma questão tão básica que sequer precisava ser mencionada. Já estava subentendida.

“Se Deus manda fazer alguma coisa”, continuou ele, interrompendo-me naquele ponto, “isso não deve ser deixado como subentendido, mas deve ser a primeira coisa a ser dita.”

Com essas palavras, aquele médico levantou-se e despediu-me. Voltei para casa como um cachorrinho com o rabo entre as pernas.

Aprendi uma profunda lição com esse médico cristão. Meu serviço a Deus não deve ser motivado pelas necessidades que percebo em outros, nem mesmo pelos desejos de meu próprio coração. Ao contrário, meu servir deve ser em resposta clara à direção do Espírito Santo. Serviço do nosso próprio jeito, ainda que para o Senhor, não é aceitável. Aquilo que faço para ele deve ser, antes de tudo, a resposta ao seu próprio mover em meu coração.

Deus não está à procura de voluntários que trabalhem para ele, ainda que isso lhes satisfaça o coração. Ao contrário, ele busca pessoas submissas para servir-lhe de maneira a satisfazer o seu coração!

Extraído de “Histórias que Abrem a Janela Mais Ampla de Deus”, DeVern Fromke, Edições Tesouro Aberto.

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