Preparando-se Para o Noivo

Data de publicação: 25/10/2011
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Edição 27 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 27

Por: Christopher Walker

Existe muita divergência de opinião quanto à definição do tema central de toda a Bíblia e do plano de Deus com o homem na terra. Alguns entendem que é o Reino, que seria o governo de Deus implantando a ordem e o sistema do céu aqui na terra. Outros o definem como Redenção, limitando o propósito de Deus ao seu encontro com o homem pecador e o resgate dele da perdição. E poderíamos acrescentar vários outros, como restaurar o homem à imagem de Deus (ou a busca da santidade), formar uma família de muitos filhos (multiplicação), vencer o inimigo (guerra espiritual) e assim por diante.

Todos estes temas têm suas sementes no livro de origens (Gênesis), desenvolvem-se ao longo da Bíblia e chegam a um clímax no livro das consumações (Apocalipse). E todos, na verdade, são aspectos ou facetas do propósito eterno de Deus, que desafia qualquer tentativa humana de limitá-lo através de figuras ou definições racionais.

Há uma figura, porém, que, na minha opinião, é um pouco mais abrangente, porque inclui vários dos temas citados acima. É a figura do casamento. Se você meditar nisto, verá que casamento pressupõe a paternidade de Deus, sua natureza de amor, seu plano de formar uma grande família, sua ordem e sistema de vida celestial, sua imagem, e a incrível participação do homem na unidade divina e nos planos de Deus de restaurar e governar toda a criação.

Nesta edição não estamos focando toda a grandeza do projeto de Deus de achar uma Noiva para seu Filho, mas especificamente a atitude da Noiva: Como ela deve se preparar para o Noivo e para o dia do casamento? Na verdade, que tipo de Noiva está sendo procurada?

Queremos buscar no pequeno livro de Rute, inserido na Bíblia entre Juízes e 1 Samuel, algumas chaves para responder a estas perguntas.

O Contexto: Fome, Afastamento de Deus e Derrota

Durante o tempo dos juízes, no meio de todos aqueles ciclos de apostasia, opressão, clamor a Deus e libertação, a família de Elimeleque e Noemi abandonou a cidade de Belém de Judá, por falta de sustento, por não ter o que comer. Como Tommy Tenney mostra no livro Os Caçadores de Deus, Belém significa “Casa do Pão”, e é uma situação lastimável quando não há pão justamente no lugar onde mais devia ter.

A situação de não ter pão, que é causada diretamente pela falta de chuvas, é um claro sintoma do afastamento de Deus em virtude do esfriamento e apostasia do seu povo (Lv 26.18-20; Dt 28.23,24). E aonde foram buscar alimento? Em Moabe, terra de um povo amaldiçoado, a quem Deus impôs regras mais severas do que à maioria dos outros gentios, no caso de quererem se aproximar dele (Dt 23.3-6).

Sabemos o que aconteceu ali. Noemi perde o marido. Depois, seus dois filhos casam-se com moabitas; e, finalmente, os dois filhos também morrem. É a derrota total. O povo de Deus em apostasia e sem pão; a cidade que Deus escolheu para trazer a solução final para seu povo está sem recursos para oferecer; uma família temente a Deus tenta sobreviver em condições adversas, mas perde toda possibilidade de continuidade, de manter viva a semente divina.

A Escolha da Noiva: Decisão Espontânea por Amor

Noemi, então, se levanta em amargura e tristeza para voltar sozinha e derrotada para sua terra. As noras, pela tradição da época, provavelmente fortalecida por laços sentimentais criados ao longo de vários anos, se dispuseram a acompanhá-la. Mas Noemi as libera de qualquer obrigação, sem uma sombra sequer de cobrança ou sutileza de condenação. Ela lhes agradece tanto pela fidelidade passada, como pela bondade presente, e proclama sobre as duas uma sincera bênção para o seu futuro (Rt 1.8,9). (Quantas vezes, quando servos de Deus precisam andar por caminhos separados, você já ouviu um abençoando o outro, e realmente desejando o seu crescimento e prosperidade?)

As noras ainda não estão convencidas; continuam chorando e afirmando que não abandonarão a sogra. Finalmente, Noemi encontra o argumento decisivo. “Minhas filhas”, ela lhes diz, “vocês irão comigo por quê? Acham que ainda tenho algum filho para dar à luz que possa ser seu marido?

Nem que eu me casasse hoje, e que eu pudesse gerar filhos (o que é impossível), vocês os esperariam?”

Não sabemos se era realmente este o motivo de a estarem seguindo. O fato é que uma das noras, Orfa, se convenceu e voltou atrás. Que futuro, realmente, a esperaria em Israel? Talvez não tivesse expectativa de se casar um dia com outro filho de Noemi, mas este discurso com certeza a fez ponderar sobre suas perspectivas futuras. Noemi não tinha recursos e não havia nenhuma possibilidade visível de sustento. Encontrar um marido lá — quase impossível, já que trazia sobre si o infame rótulo de moabita. Como deixar tudo que tinha em sua própria terra em troco disso?

No fundo, Orfa talvez estivesse acompanhando a sogra por um senso de lealdade e obrigação. Por mais que a lealdade seja uma qualidade louvável diante de Deus, não é suficiente para um casamento! Noemi agiu como Deus constantemente faz conosco — liberou suas noras totalmente de qualquer obrigação. Às vezes fico pensando: Quantos relacionamentos — familiares, na igreja, com o próprio Deus — permaneceriam se as pessoas entendessem que estavam totalmente liberadas e não tinham que temer qualquer conseqüência negativa!

“Podem voltar”, Noemi lhes disse. “Fico mais triste, na verdade, por sua causa, de estar assim desolada e falida. Mas terão mais chances de encontrar felicidade e realização longe de mim. Vão e sejam abençoadas!”

Orfa chorou e voltou para sua família e seu povo. Mas Rute se apegou a Noemi (Rt 1.14). Havia algo mais do que obrigação aqui. O senso de obrigação não a teria motivado diante de perspectivas tão desoladoras.

Aqui estamos diante de um grande exemplo da obra soberana de Deus no coração humano. Não podemos explicá-la, não podemos dizer como Deus fez, não sabemos qual foi a participação de Rute nisto — só sabemos que ela tinha o coração da Noiva. Era um coração apaixonado, um coração desprovido de interesses pessoais, um coração conquistado pelo Noivo.

As palavras que saíram do coração de Rute, neste momento decisivo da sua vida, atravessaram os milênios como uma das mais puras expressões de amor desinteressado, livre de egoísmo e considerações pessoais: “Não me instes para que te deixe, e me obrigue a não seguir-te; porque aonde quer que fores, irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu, e aí serei sepultada: faça-me o Senhor o que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti” (Rt 1.16,17).

Basta sondar um pouquinho o seu coração e verá que este tipo de amor não existe ali. Você pode por um tempo se enganar e achar que existe semelhante abandono no amor romântico ou no amor de mãe, mas não existe. O tempo provará que são sentimentos passageiros e enganosos. Só existe uma fonte para este amor, porém esta fonte é Deus, e é suficiente para todos nós. Todos fomos chamados para participar deste amor e corresponder a ele.

Não foi apenas um amor humano de Rute por Noemi, mas de Rute pelo Deus de Noemi, que a levou a sacrificar seu povo, sua cultura, sua terra e sua família para acompanhar a sogra.

Preparação da Noiva: Despir-se de Interesses Pessoais

Assim, Noemi voltou à sua terra e à sua cidade, acompanhada apenas pela nora moabita. Este rótulo moabita era tão forte que diversas vezes, no livro, foi usado no lugar de nome para Rute. Como já conhecemos o final da história e sabemos que Rute não ficou viúva o resto da vida, nem passou seus dias em fome, necessidade ou solidão, podemos perder um pouco o verdadeiro impacto dos acontecimentos e o drama da sua preparação para o casamento. É preciso parar um pouco no início do capítulo 2 e, realmente, imaginar o que ela passou ao chegar na terra de Noemi.

Recém-chegadas a Belém, as duas viúvas não tinham ninguém para buscar sustento por elas, nenhuma fonte de renda. Numa cultura estranha, sentindo-se rejeitada e alvo de fortes sentimentos racistas, Rute bem que poderia ter-se isolado e passado os dias chorando sua sorte, sentindo falta de família, parentes e terra natal.

É isto que acontece quando se resolve seguir o Deus de Israel? Não foi isto que me prometeram!

Mas não! Rute se levanta e assume a missão que está diante de si: cuidar de sua sogra. Não é exatamente o que muitos sonham em fazer quando pensam em um chamado de Deus! Será que foi para isto que saí da minha terra?

“Deixe-me ir ao campo apanhar espigas atrás daquele a cujos olhos eu achar graça”, ela pede a Noemi.

Apanhar as espigas que caíam durante a sega era um dos direitos garantidos na lei de Deus para suprir as necessidades dos pobres na teocracia de Israel (Lv 19.9,10; Dt 24 17-22). Ainda bem que era período de colheita, e ainda bem que, assim, Rute acharia alguma coisa para comer. Porém, imagine a coragem de que precisava para enfrentar esta perspectiva humilhante. Para ir a um campo e catar espigas atrás dos segadores, ela teria de se identificar como uma pessoa pobre, dependendo de favores. E no contexto da história, embora Deus a tivesse protegido disto, não era incomum as moças serem incomodadas ou talvez molestadas pelos homens do campo (Rt 2.9). E além de tudo isto, ainda pesava sobre ela o fato de ser moabita.

Veja bem. Rute não sabia que “por acaso” (Rt 2.3) entraria no campo de um parente rico de Noemi. E muito menos que Deus tinha um maravilhoso propósito a esperando ali. A história de Rute mostra de maneira belíssima como a soberania de Deus funciona em favor de seus filhos. Mas mostra também em que tipo de situação Deus tem liberdade de agir. E esta é, para mim, uma das maiores lições deste livro.

Rute não estava buscando soluções para si mesma. Não estava ansiosamente à procura do “escolhido de Deus” para sua vida. Não estava pedindo oração semana após semana para ser liberta da sua “cruz” (cuidar da sogra)!

De fato, tinha toda razão para estar amargurada e derrotada. Afinal, perdera o marido, não pudera ter filhos, num momento de suprema dedicação e abertura para Deus havia deixado tudo para trás e agora estava aqui na terra prometida. E o que ganhara com tudo isto? A obrigação, provavelmente por anos vindouros, de correr atrás de sustento para si mesma e para a sogra, de uma das formas mais humilhantes imagináveis.
Porém, esta é a figura da noiva preparada, da Noiva que atrai a atenção do Noivo celestial: uma mulher que não só se dispôs a servir a sogra e fazer o que precisava ser feito, mas o fazia sem murmúrios, amarguras, ou por mera obrigação. Leia o capítulo 2 de Rute e você verá esta atitude permeando todo o relato, principalmente quando o servo de Boaz comenta sobre sua dedicação e intensidade no trabalho (v. 7). Ela não trabalhava suspirando e agüentando pelo amor de Deus — trabalhava com motivação e propósito por algo que, a princípio, não lhe traria nenhum retorno pessoal.

Deus é soberano e isto significa que pode agir sem prestar contas a nós, e sem explicar quando ou por que faz certas coisas. Mas esta história ilustra claramente o princípio de que Deus opera em favor daqueles que esperam por ele (Is 64.4), não em favor daqueles que estão fazendo tudo por si mesmos e que só querem que Deus aprove e abençoe suas próprias iniciativas.

Não sei quanto a você, mas não tenho ouvido muito sobre esta preparação para o Noivo ultimamente. Aliás, como reflexo da nossa cultura moderna de auto-afirmação e da compulsão de buscar felicidade e realização a qualquer preço, a igreja tem apregoado mais sua necessidade de ser reconhecida e respeitada na sociedade. Não foi esta atitude que chamou a atenção de Boaz e, certamente, não será a que atrairá nosso Noivo celestial a vir buscar sua Noiva.

Preparação da Noiva: A Humildade de Saber Quem É   

Quando Boaz viu Rute trabalhando arduamente em seus campos, ele ficou impressionado. Com certeza, tal atitude não era comum, tendo em vista que Rute viera de outra terra e poderia estar vivendo tranqüilamente na casa dos pais, com muito mais chances de encontrar um marido.
Por isto, fez questão de mostrar-lhe atenção e cuidado especial. “Não saia daqui para outros campos”, ele lhe disse. “Fique atenta, e sempre vá atrás dos meus servos, para o campo onde eles estiverem segando. Eles têm ordens de não a molestar em nada. E se você tiver sede, pode vir e beber da água deles” (Rt 2.8,9).

Mais tarde no dia, Boaz chamou Rute para comer junto com seus servos, e lhe ofereceu grãos tostados, além da sua capacidade de comer. E ela, que tinha uma visão clara da sua missão divina, guardou a sobra para levar à sua sogra (v. 18).

O importante a notar aqui foi sua sincera atitude de humildade diante de tais gestos incomuns por parte do proprietário das terras.

“Por que achei eu graça aos teus olhos”, ela pergunta, “sendo eu estrangeira?” (Rt 2.10). Mais adiante (v.13), ela diz: “… não sendo eu nem mesmo como uma das tuas criadas”.

Isto não era falsa modéstia. Rute sabia quem era e não estava ali achando que merecia mais atenção, ou que alguém devia perceber os dons que tinha e lhe dar mais destaque e mais reconhecimento. Nem estava sonhando com algum príncipe que logo a tiraria daquele sofrimento injusto.

Infelizmente, este não é exatamente um retrato fiel das nossas atitudes como igreja, como o povo que deseja ser a Noiva do Cordeiro. Falamos muito sobre a graça e achamos que é isto que nos diferencia das religiões que pregam salvação por obras, mas, na verdade, entendemos muito pouco sobre a graça. A prova é que geralmente achamos que recebemos menos do que “merecemos” da parte de Deus ou dos outros. Achamos que fazemos tanto por Deus, que somos tão fiéis, que buscamos tanto, que temos tanta fé. Será por que ainda não fomos mais valorizados? Por que Deus está esperando tanto para responder nossas súplicas?

Quanto mais crescemos em números, poder e influência, mais perigo corremos de nos afastar da verdadeira revelação da graça. Achamos que as bênçãos de Deus são nosso direito e que só o diabo pode estar nos impedindo de receber mais prosperidade, conforto e distância de problemas. E quando o Noivo quer se aproximar e mostrar o favor da sua presença, é provável que não tenhamos esta atitude de surpresa, por não sermos dignos de tal atenção. Talvez pensemos que já era mais do que hora de Deus nos atender, afinal, somos tão dedicados, tão importantes para ele!

Rute não podia se esquecer por um instante de quem era. Por isto, foi escolhida como noiva no lugar de uma filha de Israel. Não era “nem mesmo como uma das criadas” de Boaz, muito menos alguém que pudesse ser pretendente a esposa.

Não estou dizendo que Deus não quer abençoar, curar, multiplicar, e até exaltar. Tudo isto ainda vai acontecer nesta história. Mas o caminho é através da graça, e graça não é uma doutrina ou confissão superficial. É entender para o resto da vida quem realmente somos e saber que não passamos de desprezíveis moabitas. Este entendimento de coração só acontece por operação sobrenatural do Espírito Santo e, muitas vezes, de forma progressiva. Como alguém observou, o próprio apóstolo Paulo começou se considerando em nada inferior aos mais excelentes apóstolos (2 Co 11.5), depois entendeu que era o menor dos santos (Ef 3.8) e, finalmente, se viu como o principal dos pecadores (1 Tm 1.15).

Preparação da Noiva: Servir a Noemi

Neste ponto, convém identificar melhor as personagens na história. Boaz, sem dúvida, representa Jesus, o Noivo do divino romance. Boaz era da tribo de Judá, progenitor de Davi, de onde viria a linhagem humana do Messias. Evidenciou, em figura, várias das qualidades do Noivo perfeito: tinha muitas propriedades e riquezas, que simbolizam a abundância de recursos da vida espiritual; apesar da posição, se relacionava no mesmo plano com seus empregados, sem arrogância ou superioridade; era sensível e compassivo; ao mesmo tempo, era justo e reto em todos os seus caminhos e jamais quebrava os princípios de Deus, mesmo que fosse por uma boa causa (no caso do remidor de Rute, capítulo 4). Só Jesus reúne em uma mesma pessoa as qualidades de amor e compaixão por um lado, e de justiça inalterável por outro. Todos os seres humanos falham por enfatizar em demasia um lado em detrimento do outro.

Rute, sem dúvida também, é a Noiva, escolhida e resgatada do meio dos gentios, sem história ou tradição, puramente pela graça de Deus. Não fazia parte da comunidade de Israel, era estranha às alianças, sem esperança, e sem Deus no mundo (Ef 2.11,12).

Mas quem é Noemi, que aparece em toda esta história, do início ao fim? Se não é a Noiva, quem é?

Noemi representa o povo histórico, o povo escolhido de Deus. Era da tribo de Judá, da cidade de Belém. Era do povo da aliança, da adoção, das promessas, dos patriarcas (Rm 9.3,4). Mas sua história mostra que representa um povo falido, sem pão, sem a presença de Deus. Perdeu seu marido e seus filhos, simbolizando a falta de vida, de condições de gerar continuidade como povo de Deus.

Até aí, tudo bem. Sabemos que Deus tirou os ramos naturais, o povo de Israel, e escolheu os gentios para formar sua Noiva entre todas as nações.

Aqueles que começaram como publicanos e meretrizes entram no reino antes dos próprios filhos (Mt 21.31). É a graça de Deus operando mais poderosamente do que a tradição ou a linhagem histórica.

Mas há outros aspectos desta história que não temos entendido corretamente. Noemi não foi descartada, nem rejeitada. Ela é a chave de todos os acontecimentos neste romance. Sem dúvida alguma, Rute seguiu Noemi, da terra de Moabe, por causa do testemunho vivo que esta lhe demonstrou; foi através dela que Rute quis se apegar ao verdadeiro Deus, e se abrigar sob suas asas (Rt 2.12). Boaz era parente de Noemi e foi ela quem deu as instruções a Rute que abriram o caminho para o casamento. Ela sabia onde o Noivo estava. Foi por causa da dedicação de Rute a Noemi, que Boaz passou a admirá-la. O filho de Rute foi considerado filho (descendente) de Noemi (Rt 4.16,17).

Podemos levianamente nos identificar com Rute, como gentios, salvos pela graça de Deus, apesar do nosso passado pecaminoso e também apesar de não termos direito como povo histórico, como descendentes naturais ou espirituais de grandes servos de Deus do passado. Entretanto, para chamarmos a atenção do Noivo celestial, devemos ter o verdadeiro coração da Noiva, conforme ilustrado por Rute, que se privou de interesses próprios para servir a Noemi.

Noemi representa o povo natural de Israel, que será alcançado, de acordo com o apóstolo Paulo, ao ver os frutos dos gentios (Rm 10.19; 11.11) e ser incitado à emulação. Até agora os cristãos gentios têm feito muito mais para afastar os judeus do seu Messias do que para atraí-los.

Mas ela representa também a igreja histórica e tradicional, que tem passado, tem patriarcas, pioneiros ou pais como fundadores e, também, legado espiritual. Em todas as épocas da história até hoje, o povo de Deus sempre enfrentou a tensão entre os mais antigos, que tinham as tradições e riquezas do passado e os novos, que tinham o frescor e a vida vibrante de um relacionamento recente e apaixonado.

A história da igreja mostra uma repetição constante de rejeição mútua entre tradicionais e recém-alcançados. Aqueles que detêm a linha histórica das alianças com Deus ou das doutrinas e práticas bíblicas começam a perder o contato vivo com Deus e não têm mais pão para se sustentar, nem semente divina para dar continuidade. Então surge um novo mover, uma nova fonte de vida, um povo com graça, humildade e paixão. Mas o novo povo é rejeitado pelo antigo e, logo, percebendo que a presença de Deus está de fato entre eles e não nas instituições tradicionais, estes assumem uma posição arrogante e superior em relação aos antigos. E dentro de pouco tempo, tudo começa de novo.

Esta história mostra que não é Rute ou Noemi, mas a união das duas que é a chave para a preparação da Noiva. É exatamente em servir a Noemi que Rute encontra seu Noivo. E Noemi, que achava que havia perdido tudo, descobriu que Rute lhe era melhor do que sete filhos (Rt 4.15). A alegria e vitória do casamento são compartilhadas pelas duas e o filho que nasce restaura esperança e propósito para Noemi também.

Conclusão

Se você leu tudo isto com coração aberto e desejo ardente para achar o Noivo celestial e preparar-se para ele, com certeza já identificou atitudes e aspectos práticos que devem mudar na sua vida. Por uma questão didática, porém, vamos enumerar as lições que aprendemos sobre isto.

1. Tudo começa com escolhas. Até a situação que requer uma escolha decisiva vem de Deus, mas a vida é direcionada e impulsionada por escolhas. Uma escolha pode mudar radicalmente o rumo de uma vida. Não dá para dissecar ou analisar racionalmente as escolhas inspiradas pelo amor de Deus, contudo sabemos que decidir por obrigação, lealdade, ou temor não nos levará a ser a Noiva que Jesus procura. Se soubermos a diferença entre o coração de Orfa e de Rute, não ficaremos contentes enquanto o nosso coração não for tocado e plenamente conquistado pelo Noivo. As escolhas, então, serão feitas espontaneamente e com base naquilo que nos levará para mais perto do Noivo, não naquilo que nos trará vantagens pessoais.

2. Depois da decisão feita, é hora de vivê-la na prática. No momento do toque divino no nosso coração, é maravilhoso sentir a atração do amor de Deus e corresponder a ele. Mas a prática geralmente não é tão glamourosa assim. É duro sair todo dia e catar espigas – para cuidar da sogra! Mas foi isto que cativou o Noivo. Se estamos fazendo as escolhas certas, correspondendo ao amor de Deus, certamente teremos algo diante de nós para fazer, algo que está à nossa mão. Geralmente envolve serviço, ajudar, cuidar, abençoar, prover, encorajar, sustentar. Não é algo que satisfaz nossos anseios por realização ou reconhecimento. Não representa uma oportunidade de crescer, desenvolver nossos dons ou trazer satisfação pessoal. Mas sabemos que ninguém mais o fará, é uma responsabilidade nossa. E podemos fazer de todo o coração, porque é para ele.  Pode não ser um “ministério”  espiritual, pode ser literalmente cuidar de uma sogra, um pai, uma mãe. Muitos não o aceitam, porque acham que não é seu “chamamento”. Se o aceitarmos, porém, como nossa missão, e nos dedicarmos de coração, será o nosso alimento, nossa verdadeira satisfação (veja Jo 4.31-34; 5.30). E quando isto acontecer de verdade, veremos a providência de Deus operando soberanamente, levando-nos para perto do Noivo.

3. Deus tem grandes planos para esta união entre seu Filho e a Noiva que está se formando. Nem podemos começar a conceber ou compreendê-los (1 Co 2.9). Sabemos que incluem reinar juntos com Jesus e renovar toda a criação de Deus (Rm 8.18-21; Ap 1.6). Tudo isto, porém, se baseia na graça e misericórdia dele para conosco. E só nos qualificamos para receber esta graça quando sabemos profunda e inesquecivelmente quem nós realmente somos. Por isto, Rute foi escolhida como moabita para representar esta verdade da forma mais dramática e clara possível. Infelizmente, estamos vivendo hoje mais as características da igreja de Laodicéia (rica, abastada, cheia de recursos – Ap 3.17) do que as de Esmirna (pobreza e tribulação – Ap 2.9). O Espírito de Deus, ao escrever para estas igrejas, não deixou dúvidas quanto ao que ele pensava de cada uma. É uma questão de atitude e espírito interior que só Deus pode produzir – mas novamente é importante que saibamos discernir a atitude errada e buscar o que agrada a ele.

4. Um povo com esta atitude e caráter, trabalhado pelo Espírito Santo, estará pronto para enfrentar o teste final para a Noiva, que é servir Noemi. Deus tem trabalhado durante toda a história com correntes separadas – a nação de Israel e depois todas as nações dos gentios, igrejas institucionais e grupos espontâneos e informais, movimentos tradicionais e carismáticos, e assim por diante. Mas a Noiva só vai encontrar o Noivo quando aprender a servir a Noemi, a valorizar as outras partes e a servir sem segundas intenções. Então, finalmente, todas as correntes se unirão para formar um grande rio de vida e graça. A interação e complementação entre todas estas partes opostas serão a chave para que a igreja encontre verdadeiramente seu Noivo. E isto será apenas o começo de toda uma outra história!

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